Pari sono

José Horta Manzano

Li o artigo que doutor Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores designado, escreveu para o jornal curitibano Gazeta do Povo. Sabe aqueles escritos que deixam uma sensação de desconforto no final? Pois esse é um deles. Uma tijolada.

O doutor atira para todos os lados. Derruba o PT. Mostra desprezo pela ONU ‒ (ele é diplomata!). Cospe em cima dos grandes jornais do mundo. E culmina com nota trágica: desdenha do povo brasileiro ao apresentar-se como uma espécie de Grande Conselheiro, detentor privilegiado da Verdade.

De fato, doutor Araújo bate na tecla surrada que põe no PT a etiqueta de partido marxista. Tenta provar que o marxismo que faleceu um século atrás continua vivo sob forma de captor do intelecto dos viventes. Teria deixado de se interessar pelos meios de produção para apoderar-se da mente dos desavisados.

A mim, não convenceu. Continuo a enxergar no PT tendências bem mais próximas do fascismo que do marxismo. Longe de se preocupar com a confiscação do capital privado, o lulopetismo busca aliar-se aos grandes capitalistas para melhor usufruir as delícias que esse compadrio oferece. A ideologia do Partido dos Trabalhadores centraliza o poder em um só homem. Na base, ficam as corporações dependentes do Estado, do qual recebem as benesses e ao qual se dobram em reverente e incondicional obediência. Essas corporações ‒ ou sindicatos, ou comunidades de base, como queiram ‒ são a ramificação do Estado tentacular e oniatuante. O objetivo é recolher a seiva secretada pela cúpula e com ela irrigar, por capilaridade, todos os segmentos da sociedade. Com isso, garante-se o domínio das massas e impõe-se o pensamento único.

Palácio do Itamaraty, Brasília

A fixação do doutor em combater o marxismo está com prazo de validade vencido. A doutrina comunista se esboroou com a queda da União Soviética. Regimes autoritários, que ele toma equivocadamente por marxistas, pertencem a uma cepa inextinguível. Desde que o homem se organizou em sociedades, já no tempo das cavernas, sempre houve quem tentasse tomar a si o poder absoluto. Ao longo da história, muitos conseguiram.

O discurso de doutor Araújo exala, isso sim, forte arrogância. Desinibidamente, o leitor é acusado de ser ignorante por não se dar conta de que o marxismo sobrevive sob disfarce. O maltratado leitor é ainda tratado de ingênuo por acreditar nos «marxistas culturais» de hoje ‒ seja lá o que queira dizer essa expressão.

Para fechar o artigo, o doutor faz inquietante alusão ao «alarmismo climático». Promete desenvolver o pensamento em outra oportunidade, mas a simples expressão escolhida já deixa entender que vem aí discurso negacionista, de quem não vê urgência em cuidar de assuntos ligados à ecologia.

Ao fim e ao cabo, o artigo de doutor Araújo prenuncia que nossa diplomacia será tocada ao ritmo de rolo compressor. Embora os objetivos sejam diferentes, o método é igual ao seguido pelos petistas. Pari sono ‒ são iguais.

Cantar de galo?

José Horta Manzano

Orgulho, em si, não é sentimento totalmente negativo. Ter orgulho dos filhos, da pátria ou de ter tirado nota dez é sentimento natural, humano, legítimo e compreensível. O problema começa quando o orgulho gera arrogância ‒ o que acontece com frequência. Aí começa a encrenca.

Quando o PT subiu ao topo da glória e se tornou o maior partido do Brasil, afiliados e eleitos se orgulharam. Era natural, afinal de contas. No entanto, a ingenuidade imprudente de quem nunca tinha comido melado fez que o orgulho descambasse para a arrogância, o comportamento daqueles que imaginam ser definitivamente melhores que os demais e estarem parafusados ao pedestal da glória. Erro tremendo.

Como já disse o poeta, as coisas só são eternas enquanto duram. Nada como um dia atrás do outro, que o passar do tempo é implacável. Aos anos abençoados, seguiram-se anos adversos. Podres apareceram, processos se multiplicaram, dirigentes foram enjaulados, a glória minguou.

Aquele que foi, um dia, o partido mais importante do Brasil deu ensejo ao aparecimento de um partido maior que ele: o antipetismo ‒ maior partido brasileiro da atualidade. Só tem um detalhe: esse antipetismo não é partido organizado, registrado em cartório, com sede oficial e placa na porta. Congrega uma enormidade de gente em busca de um líder.

Nenhum político carismático teve o tino necessário pra agarrar a oportunidade de encarnar esse sentimento. Mesmo iniciada a campanha oficial para estas eleições, nenhum dos candidatos se deu conta do momentum. Num curioso movimento espontâneo, o povo, aos poucos, designou o paladino do antipetismo na pessoa de doutor Bolsonaro. Nem o interessado tinha percebido que sua chance maior estava lá. Acabou assumindo o papel, assim, meio empurrado.

Nada é garantido, é verdade, mas convenhamos: com esse cacife, seria espantoso que o doutor não fosse eleito. Mas, agora, tem outra coisa. Se eu pudesse dar a ele um conselho, diria que tome extremo cuidado pra não deixar que o orgulho de ter vencido descambe para o pecado de arrogância. O doutor tem de guardar em mente que os votos com que terá sido eleito, no duro, não são seus. Foram-lhe emprestados pra afastar o perigo petista. Se o doutor quiser afugentar o espectro de um impeachment, melhor fará se mantiver a crista baixinha. Que trabalhe sem arrotar importância.

Os dois galos

Jean de La Fontaine (*)

Dois galos se meteram em peleja
A fim de saber qual deles seja
O capataz de um bando de galinhas:
Unhadas e bicadas tão daninhas
Levou um, que se deu por convencido,
E andava envergonhado e escondido.

O vencedor se encheu de tanta glória,
Que, para fazer pública a vitória,
Pôs-se de alto, voou sobre umas casas;
Ali cantava, ali batia as asas.

Andando nessas danças e cantares,
Veio uma águia, levou-o pelos ares;
E saindo o que estava envergonhado,
Gozou do seu ofício descansado.

by Félix Lorioux (1872-1964), artista francês

by Félix Lorioux (1872-1964), artista francês

Quem contemplasse bem quão pouco dura
Neste mundo qualquer prosperidade,
Livre estava de inchar por vaidade
Com um leve sucesso de ventura.

O que tem a alegria por segura
E doente, e o seu mal fatuidade;
Que ela passa com muita brevidade,
E vem logo a tristeza, e muito atura.

De mudanças o mundo está tão cheio,
Que hoje rio, amanhã estou sentindo
Uma grande desgraça que me veio:

Delira quem dos tristes anda rindo;
Que é absurdo gostar do mal alheio,
Quando o próprio a instantes está vindo.

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(*) Jean de La Fontaine (1621-1695), poeta francês que escolheu o caminho das fábulas para externar sua visão de mundo. A tradução da fábula «Les deux coqs», transcrita acima, é de Couro Guerreiro.

O poema adverte contra o perigo da arrogância e da jactância ‒ o orgulhoso sempre acaba dando-se mal.  Na versão portuguesa, identifica-se sabor luso ‒ ligeiramente arcaico, mas delicioso.

Recolando os cacos

Cláudio Humberto (*)

O fim da baixaria
Diplomatas brasileiros comemoram, mundo afora, o fim da baixaria que marcou as viagens internacionais dos governos do PT.

As comitivas oficiais, de Lula ou de Dilma, tratavam os diplomatas como criados. E ainda deixavam para trás problemas para as embaixadas resolverem, como quando uma nora do ex-presidente Lula achou de meter na mala ricas toalhas e lençóis do hotel. Pagos, depois, pelo contribuinte, claro.

No exterior, a ex-presidente Dilma costumava humilhar diplomatas, referindo-se a eles com ironia até diante de próceres estrangeiros. Dilma abusava de diplomatas, como ocorreu em Londres e Oslo, ordenando até que lhe fritassem ovos caipiras, que sempre levava na bagagem.

Em hotéis de luxo, era frequente membros das comitivas presidenciais implicarem até com a mobília, exigindo sua troca. Sempre aos gritos.

rei-1As desculpas
Por orientação do presidente Michel Temer, o ministro Blairo Maggi (Agricultura) sepultou um impasse diplomático com o governo do Vietnã, que se arrastava desde 2013, provocado por uma grosseria da ex-presidente Dilma: ela cancelou de última hora uma audiência para receber Nguyen Phu Trong, herói do Vietnã e líder máximo do Partido Comunista, que veio ao Brasil sob a garantia de que seria recebido.

O episódio em Brasília representou grande humilhação para Nguyen Phu Trong e o Vietnã, que o tem como uma espécie de “semideus”. O Itamaraty divulgou a lorota de que o ex-chanceler Antonio Patriota foi a Hanoi pedir desculpas. Mas, se ele fez isso mesmo, de nada adiantou. Em visita real a Hanói, Blairo Maggi pediu desculpas e acabou homenageado por Nong Manh, sucessor de Nguyen Phu Trong.

Aliás, a situação do PT é tão ruim que faz lembrar a frase profética do saudoso jornalista Joelmir Beting, que há anos avisou: «O PT começou com presos políticos e vai terminar com políticos presos».

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

Frase do dia — 255

«Incompetence, arrogance and corruption have shattered Brazil’s magic spell.»

«Incompetência, arrogância e corrupção estilhaçaram o encanto do Brasil.»

Lúcido diagnóstico da respeitada publicação britânica Financial Times, em editorial de 22 jul° 2015.

Quem com ferro fere…

José Horta Manzano

Todos teremos de ir embora um dia – essa é a lei. Já que a partida é inelutável, gostaríamos todos de deixar imagem positiva, pranteada, admirada, respeitada. Nem todos conseguem.

Janio 1Entre políticos e outros medalhões, uma vez cumprida a ambição de chegar lá, resta o consolo de cuidar da própria biografia. «Um dia não estarei mais aqui, mas, pelo menos, deixarei boa lembrança» – costuma ser o mote.

O falecido Jânio Quadros, por exemplo, batalhou para deixar imagem de estadista, de salvador da pátria. O que ficou foi a lembrança de um amalucado sem rumo.

Mandatários poderosos e longevos como Hitler, Stalin, Franco & companhia tiveram todos, um dia, a ilusão de que seriam lembrados como fundadores de nova pátria, de nova estirpe, de nova orientação. São hoje repudiados como arautos da desgraça que, por causa deles, se abateu sobre seu povo.

Aerolula 1O grupo político conhecido como PT pode espernear quanto quiser, que não vai adiantar. Sua imagem guardará a indelével marca da corrupção, da sujeira, do oportunismo e da malandragem. Daqui a alguns anos, quando os atuais figurões estiverem fora de cena, o partido (ou o que restar dele) certamente mudará de nome. Será maneira simbólica de apagar o passado. Há antecedentes no País.

O naufrágio de um agrupamento não significa necessariamente o afogamento coletivo de todos os seus membros. Assim como o senador Suplicy, até seu derradeiro dia de mandato, não terá sido atingido por nenhum respingo de escândalo, outros podem (ou poderiam) livrar a cara – para falar vulgarmente.

A perspectiva de ser lembrada como personalidade execrável não parece comover dona Dilma. Apesar de ter prometido mudança de atitude em seu discurso de reeleita, as últimas notícias não indicam redirecionamento no bom sentido. Aqui está um trecho do artigo publicado pelo jornalista Cláudio Humberto em seu Diário do Poder deste 14 dez° 2014:

Dilma AerolulaInterligne vertical 11a«Militares ganham pouco, ralam muito, são maltratados, sobretudo quem serve no Grupo de Transportes Especiais (GTE), responsável pelos aviões utilizados pela Presidência da República. Mas conseguem se divertir. Mostrando que esculacho não garante respeito, militares da FAB ridicularizam grosserias rotineiras de que são alvo chamando o jatão Airbus, que transporta Dilma Rousseff, de “Vassourão”.

Dilma está longe de ser uma Miss Simpatia a bordo dos aviões da FAB. A vingança veio a jato: passaram a se referir a ela como “Bruxa”

Taí. Ainda não é tarde demais. Dona Dilma ainda tem quatro anos pela frente para enfeitar a biografia. Se se obstinar nessa arrogância de menina mimada, periga ser um dia lembrada como aquela que já foi tarde.

Anão? Ah, não!

José Horta Manzano

Anao 1Sem paz
No conflito entre israelenses e palestinos, a paz é o que menos parece interessar. A nenhuma das partes calharia bem. Ambos os lados dependem crucialmente da ajuda internacional, que vem dos EUA para Israel e da União Europeia para a Palestina. Se a conflagração sumir do radar, a atenção internacional se voltará para outros pontos e as doações perigam minguar. Convém alimentar o conflito.

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Resoluções ONU
Dezenas de resoluções já foram votadas na ONU, tanto na Comissão de Direitos Humanos quanto em plenário. Têm sido falatório estéril, de efeito nulo. O Brasil, membro fundador da organização, deveria saber disso. Quando dois insistem em brigar, não há força que se possa interpor.

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O voto de 23 de julho
Nesta enésima votação, os 47 países que compõem a Comissão de Direitos Humanos da ONU votaram da seguinte maneira:

A favor (29):
África do Sul, Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Brasil, Casaquistão, Chile, China, Congo, Costa Rica, Costa do Marfim, Cuba, Emirados Árabes, Etiópia, Filipinas, Índia, Indonésia, Kuwait, Maldivas, Marrocos, México, Namíbia, Paquistão, Peru, Quênia, Rússia, Serra Leoa, Venezuela e Vietnam.

Contra (1):
EUA.

Abstenções (17):
Alemanha, Áustria, Benin, Botsuana, Burkina Faso, Coreia do Sul, Estônia, França, Gabão, Irlanda, Itália, Japão, Macedônia, Montenegro, Reino Unido, República Tcheca, Romênia.

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A escolha brasileira
O mais prudente teria sido abster-se de votar ― foi o que fizeram países mais lúcidos. Sabem que, de qualquer maneira, não vai servir para nada. Diplomacia é arte sutil que não se exerce à luz do sol em mesas com 47 participantes, luzes, câmera e ação. O Brasil decidiu acompanhar a maioria. Até aí, nada de extraordinário. De qualquer maneira, o resultado prático da gesticulação será igual a zero.

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Anao 1O exibicionismo equatoriano
O Equador, que nem parte da Comissão é, chamou seu embaixador em Israel para consultas. Isso, em linguagem diplomática, é demonstração de forte desagrado, degrau que precede o rompimento de relações.

Como vinha do Equador, o gesto não rendeu nem noticia de rodapé em site de segunda classe.

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A imprudência brasileira
O Planalto resolveu seguir o exemplo do pequeno Equador. Chamou de volta seu embaixador em Israel. Foi mais longe: convocou o embaixador israelense em Brasília para expressar-lhe, de viva voz, o profundo descontentamento do Planalto.

É interessante notar o ensurdecedor silêncio brasileiro diante de outras barbaridades tais como prisioneiros políticos em Cuba, lapidação de mulheres iranianas, abate de avião de linha na fronteira russo-ucraniana.

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O descontrole israelense
Tivesse o Brasil se contentado em votar a favor da resolução, o assunto estaria encerrado. No entanto, o fato de ter seguido o exemplo do pequenino Equador, teve o poder de irritar o governo de Israel.

Num espantoso descontrole, o porta-voz do governo de Jerusalém cometeu a arrogância de atribuir ao Brasil o epíteto de «political dwarf» ― anão político. Cá entre nós, e que ninguém nos ouça: o que o homem disse não é mentira. Sabemos todos que a grande diplomacia brasileira começou e terminou com o Barão do Rio Branco.

O problema é que o porta-voz israelense feriu um princípio universal: eu posso falar mal da minha família, mas você, não. Em outras palavras: certas verdades, embora conhecidas por todos, não devem ser ditas em voz alta. Uma fala tem de ser politicamente correta.

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Anao 1As consequências
Com suas palavras, o governo israelense despertou a ira do povo brasileiro inteiro. Nada como um inimigo comum para federar as forças de uma nação.

A empáfia das autoridades israelenses periga surtir efeito contrário ao que eles imaginavam. Pode até reforçar o apoio do povo brasileiro à posição do Itamaraty e do Planalto. Estamos a menos de três meses de eleições gerais. Um povo, quando se sente agredido, tende a renovar sua confiança naqueles que mostram disposição para defendê-lo.

Em resumo: o diferendo com Israel é uma bênção para a campanha de dona Dilma. Bem explorado, o sucedido pode render-lhe a simpatia e a adesão de muitos indecisos.