Plebisul

José Horta Manzano

Nestes tempos de eleições, um plebiscito informal ‒ sem validade legal ‒ está passando em brancas nuvens. De fato, um coletivo de cidadãos formou-se para promover consulta popular no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul com vista a desmembrar os três Estados sulinos do resto do Brasil. Os eleitores foram convocados para este sábado 1° de outubro.

Embora a iniciativa pareça desfocada, merece algumas considerações. Movimentos separatistas sempre existiram no mundo e tudo indica que assim continuará. Para que um divórcio seja viável, é imperativo que exista um problema permanente e insolúvel. Não vislumbro nenhum motivo válido nem irremediável a sustentar o pleito do comitê separatista.

plebisul-2O Brasil, como um todo, vai mal. Disso sabemos todos. Mas sabemos também que há soluções para repor nosso país no bom caminho. Os acontecimentos políticos e sociais dos últimos dois anos, com Lava a Jato & companhia, estão mostrando a via. Embora ainda haja resistência e esperneio de setores interessados em que nada mude, o tempo é senhor do destino: sabemos que as mudanças que estão começando a tomar forma são passos no bom sentido. Portanto, a situação de débâcle que atravessamos não deve nem pode ser considerada definitiva. É grande a esperança de que o amanhã seja melhor.

O planeta está repleto de separações ‒ já consumadas ou apenas desejadas ‒ por razões de absoluta incompatibilidade de coexistência. Motivos religiosos são fonte de fortes atritos: Irlanda, Iraque, Síria, Sudão são exemplos conhecidos. São regiões em que divergências de fé podem levar a enfrentamentos sangrentos. Não é o caso do Sul do Brasil.

Há casos de disparidade linguística. Metade da Ucrânia fala ucraniano, enquanto outra metade fala russo. Uns e outros não se entendem e não fazem questão de conviver sob o mesmo teto. Catalães falam língua própria, diferente do castelhano ‒ língua dominante na Espanha. Em casos assim, muitos advogam a separação como solução. Não é o que acontece no Sul do Brasil. Por lá, todos assistem às mesmas novelas e identificam os diálogos como língua materna, exatamente como ocorre nos demais Estados da União.

plebisul-1Há casos mais cabeludos. A nação curda, unida pela língua, pela religião e pelas tradições, encontra-se espalhada por quatro países. Vicissitudes históricas privaram a nação curda de um Estado. A situação, difícil de resolver, é ponto importante de discórdia entre turcos, sírios, russos e americanos na atual guerra travada naquela região. O «fator curdo» torna a leitura das razões do conflito incompreensível para nós. Nada disso ocorre no Brasil.

Os Estados do extremo sul tanto têm pontos comuns entre si quanto têm parecença com o resto do país. Nem mais, nem menos. Naquelas bandas, faz mais de século que não se ouve falar em províncias oprimidas por um poder central tirânico. Nem mesmo durante a última ditadura isso aconteceu ‒ não foram mais nem menos oprimidos que os demais brasileiros. Aliás, diga-se de passagem que, dos cinco presidentes militares, três eram gaúchos.

Não sei qual é exatamente a intenção do comitê que incentiva esse extravagante movimento separatista. Seja ela qual for, um anseio tão radical não se justifica. Fica a impressão de ser obra de um pequeno grupo que, em vez de baralhar as cartas, melhor faria se contribuísse para o bem comum. Todos temos outras prioridades neste momento. Generosidade é bom.

5 pensamentos sobre “Plebisul

  1. Cara moro no Paraná, viajei pelo Brasil e te digo de São Paulo para cima é outro país.Adoro meu Paraná e sempre tiro minhas férias em Santa Catarina, aliás possuo parentes residindo em SC e no RS. A separação é a melhor oportunidade para nós, não gostamos de samba e nem das belas mulatas ou do bumba meu boi, também não gostamos de frevo e nem de Graciliano Ramos. Somos fãns dos Monarcas, dos Serranos das tradições dos CTGs e afins.

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  2. Pela primeiríssima vez ouso discordar de você, meu caro Manzano… e devo dizer que, a despeito de sempre me admirar da profundidade e inteligência de seus textos, gostaria que você fizesse um segundo capítulo em relação a esse assunto. Sabe por quê? Pesquise quanto cada estado brasileiro manda de impostos para Brasília e quanto cada um deles recebe de RETORNO. Se fizer isso, ficarei eternamente grato a você. Grande abraço!!!

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    • Caro João,

      Tanto quanto o distinto leitor cujo comentário aparece um pouco acima, você seguiu caminho de mão única, que me faz pensar nos britânicos que, inadvertidamente, apoiaram o Brexit e hoje mordem os dedos. Explico.

      Se você desossar carne, é evidente que só vai sobrar o filé. Todo carnívoro prefere mastigar filé a roer osso. Só que tem uma coisa: sem osso, o boi não para em pé e o filé não se forma.

      O comitê que promove o plebiscito mostra o lado ensolarado mas omite o lado sombrio. Para mim, não está claro se se trata de desonestidade intelectual ou de pura ignorância. Dizem lá que, sem ter de arrastar o peso de estar federados ao Brasil, o PIB será mais elevado. Prometem o paraíso na terra. Dizem até que o Sul do Brasil atingirá o nível de renda per capita da… Polônia! Francamente…

      Esse aí é o lado «bonito», se é que me posso exprimir assim. O que omitem são as consequências de uma hipotética secessão. Digo hipotética porque é virtualmente impossível. De fato, a Constituição da República é explícita e clara logo no Artigo 1°, ao determinar que o país é formado «pela união indissolúvel» dos Estados (…).

      Mas vamos formular a hipótese de um naco do território nacional pedir divórcio. O pedido teria de ser referendado pela maioria da população nacional, o que me parece mais que duvidoso. Assim mesmo, vamos em frente. Se desse tudo certo, que aconteceria?

      Represálias seriam inevitáveis. Os que se fossem teriam de conviver com a antipatia dos que ficassem.

      Firmas e companhias que seguram a economia sulina abandonariam rapidinho o território desgarrado e transfeririam a sede para o Brasil real. Negócios não estão nem aí para nacionalismos ou regionalismos.

      É palpável o risco de que o que restasse de Brasil passasse a importar do Uruguai ou da Argentina bens que hoje são produzidos nos estados sulinos. Quem importaria, nesse caso, a produção dos que se foram?

      O PIB de que se gabam os promotores desse desvario periga desmilinguir. Economias fechadas não se autossustentam. As trocas são essenciais. Separada de seu principal mercado, que é o Brasil, a República Juliana enfrentaria o risco real de ver fugirem investidores. Sua economia correria o risco de estagnar.

      Ironicamente, é bem provável que o PIB do que restasse de Brasil ultrapassasse, uma década depois, o da jovem (e arrogante) república.

      PS:
      Acaba de me ocorrer mais um problema. Que critério seguir para atribuir a nacionalidade da nova República Juliana? Seria julianenses os que residissem no território no momento da independência? Como ficam os que lá nasceram mas que residem fora do território? E os descendentes de pai e mãe julianenses que, por desgraça, tiverem vindo ao mundo fora do novo país — serão considerados estrangeiros?

      Ai, ai, ai… Quanto problema.

      Forte abraço.

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      • Obrigado pela resposta, meu caro.Quanto ao gentílico, isso é de somenos importância. Quanto ao resto, você acha então que as empresas abandonariam o “sul” para se mudarem para… São Paulo? Mato Grosso? Ceará? Paraíba? Por quê? Pra ter mercado consumidor? Países exportam e importam. Bem, é só uma breve resposta minha… se não quiser, não precisa responder novamente… Sei que o assunto rende textos para qualquer um dos dois lados — a favor e contra a secessão. Agradeço pela consideração. Abraço!

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  3. João,

    Nada é inteiramente branco nem totalmente preto. Tudo tem seu lado bom e seu lado problemático. No presente caso, acredito que, pondo na balança os prós de um lado e os contras do outro, o prato negativo periga resultar bem pesado.

    Quanto ao plebiscito, o resultado era previsível. Quarenta e oito horas após o fechamento das urnas, ainda estão contando os boletins. Computando o que já foi conferido, o site do comitê informa que 95% dos votantes mostraram-se simpáticos à secessão.

    Um plebiscito convocado pelo governo de extrema-direita da Hungria teve lugar ontem, domingo. Visava a consultar o povo sobre barreiras a impor a imigrantes pobres. O resultado foi ainda mais impactante: 98.5% dos votantes disseram sim.

    Esses índices stalinianos parecem indicar que os que votaram se esqueceram de que tudo tem seu lado bom e seu lado problemático. Preferiram enxergar as rosas sem notar que têm espinhos. E que espinhos costumam picar feio.

    O colégio eleitoral dos três Estados do Sul soma 19 milhões de eleitores. O site do comitê separatista indica que cerca de 700 mil pessoas votaram no plebiscito. As continhas são fáceis de fazer: menos de 4% do eleitorado se mexeu para dar opinião. É lícito inferir que os 96% restantes «não estejam nem aí», como diz o outro. Talvez considerem que o Brasil tem problemas maiores a resolver.

    Forte abraço.

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