Um fundo de verdade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Refletindo sobre o julgamento de um ex-presidente em Porto Alegre, sobre a onda de moralismo que se espraia por todas as áreas do país e sobre o devido respeito às leis, cheguei à triste conclusão de que há, sim, um fundinho de verdade nas lamúrias da esquerda brasileira.

Antes de mais nada, #nuncaantesnahistóriadessepaís um chefe do Executivo viu-se forçado a depor coercitivamente, ser julgado formalmente por corrupção e lavagem de dinheiro e enfrentar a humilhação de ter seu passaporte apreendido após condenação unânime em segunda instância.

Sabemos todos, mesmo que não queiramos admitir, que praticamente todos os antecessores do infeliz personagem tiveram lá seus deslizes éticos, administrativos, financeiros e políticos, sem jamais terem sido levados às barras de um tribunal. Por que, então, só ele e agora que estamos a poucos meses de uma nova eleição presidencial? A condenação da #almamaispuradoplaneta terá sido reles consequência de ele ter se compadecido do infortúnio secular do lado menos favorecido da sociedade brasileira e ter-lhe propiciado mais educação, mais renda, mais empregos, mais direitos e menos desigualdade? Ou os tempos deveras são outros? Evoluímos como cidadãos combativos ou regredimos como massa de manobra de líderes populistas?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Depois, inútil negar, a tese mil vezes repetida dentro e fora de nossas fronteiras do #égolpe provou estar ao menos parcialmente correta. Desde a carta aberta do atual mandatário, queixando-se de sua irrelevância política no cargo de vice-presidente e prometendo ser um articulador mais competente para recolocar o Brasil nos trilhos, até os dias de hoje, a consciência crítica dos cidadãos tem sido abalada quase diariamente por sucessivas infrações à ética e à moralidade pública perpetradas por ministros, secretários de Estado, integrantes do partido governante, membros da base aliada e pelo próprio presidente. Por maiores que sejam as evidências, os indícios e as provas, nenhum deles foi afastado do cargo por decisão judicial ou teve de se defender em juízo. Inquietante, não é mesmo?

Se tudo o que fizemos em infinitas manifestações de rua foi trocar seis por meia dúzia, como desacreditar da existência de interesses inconfessos nas batalhas pelo impedimento da então presidente? Pense rápido: o que conta mais para a concretização de um futuro esplendoroso para o país, a competência ou o caráter? O olhar social ou o equilíbrio da economia? Envie sua resposta em vídeo para a principal emissora do país, tomando o cuidado de manter o celular na posição horizontal, deitado.

Ainda, quando vamos finalmente enfrentar a dolorosa realidade de que o sistema judiciário brasileiro é enviesado, inconsistente, lento e ideologicamente comprometido? Quem ignora que a expressiva maioria de suas decisões é tomada com base não no RG, mas no CIC? Quem não se apercebe do fato de que nem os magistrados da mais alta corte do país obedecem estritamente ao que reza o texto constitucional e atropelam muitas vezes a separação de poderes? Como deixar de lado as evidências de que são capazes de incluir em seus arrazoados argumentações que configuram, sem sombra de dúvida, #perseguiçãopolítica?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Aí estão para provar casos emblemáticos como o impedimento da posse do ex-presidente no cargo de secretário de governo por suspeita de desvio de finalidade e a passividade de vários juízes federais frente à escolha de uma deputada condenada por infrações trabalhistas graves para o cargo de ministra do Trabalho, ou a nomeação de um indivíduo com mais de 120 pontos em sua carteira de habilitação para o cargo de diretor do Detran de Minas Gerais.

Não, senhores, definitivamente não há como tapar o sol com uma peneira. O fato cabal, irrefutável, é que #semLulanãohádemocracia. Chega de mimimi de quem não tem coragem de analisar os fatos políticos com espírito de isenção.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Blá-blá-blá ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 1° dez° 2016

Chamada do Estadão, 1° dez° 2016

Tem gente que melhor faria se nada dissesse. Doutora dilma, lembram-se dela?, é mestre em dizer besteira. Ainda bem que hoje, destituída, sua voz soa como pesadelo distante, inútil e sem efeito.

Mais uma vez, a doutora dá prova de que desconhece a Constituição. Talvez nem saiba que existe. Toda ação política que a contrariar pessoalmente continuará sendo tratada como “golpe”.

Sei não, cada um se comporta como quer. Se eu tivesse passado pelo vexame pelo qual ela passou ao ser despedida do cargo por ineficiência, desapareceria de circulação. Usaria os bilhões que seus companheiros roubaram (e que, necessariamente, estão escondidos em algum lugar) e me mudaria para uma ilha do outro lado do planeta. De mala e cuia.

Viva a República?

José Horta Manzano

Qual é a diferença entre religião e seita? Religião é uma seita que deu certo. Parece cínico, mas assim é. Tome o cristianismo, por exemplo. Dois mil anos atrás, não passava de seita ‒ uma dissensão do judaísmo ‒ cujos fiéis eram obrigados a praticar às escondidas. O tempo passou, o número de fiéis cresceu e o reconhecimento público acabou por chegar. A consagração da seita veio quando o imperador romano Constantino a impôs como religião oficial de Estado. Pronto: o estatuto de religião estava adquirido.

D. Pedro II óleo de Delfim da Câmara (1834-1916)

D. Pedro II
óleo de Delfim da Câmara (1834-1916)

No calendário oficial brasileiro, comemora-se hoje o que se convencionou chamar de Proclamação da República, ou seja, a substituição do regime monárquico pelo republicano. Na escola, nos ensinam que, assim como quem não quer nada, um chefe militar chamado Manuel Deodoro da Fonseca, num dia em que se tinha levantado adoentado e de mau humor, dirigiu-se ao Paço Imperial e intimou ao imperador que descesse do trono porque a monarquia estava extinta.

Não passava de quartelada, descarado imbróglio oportunista apimentado com ignorância, desavenças pessoais, vinganças políticas e mal-entendidos. Dado que o imperador, homem pacífico e de bom senso, se recusou a acionar a tropa para defender o trono, o golpe militar deu certo. Nem os mentores imaginavam que a transição pudesse ser tão tranquila.

Embora tenha sido tramado em segredo por um punhado de conspiradores sem nenhuma participação popular, o estratagema foi bem-sucedido. Tanto o chefe de Estado quanto o governo inteiro foram derrubados à força, sem processo, sem impeachment, sem plebiscito. Como deu certo, comemora-se.

Primeiro (e único) número do Boletim da Republica Brasileira celebrando o 1° anno da luz (?)

Primeiro (e único) número do Boletim da Republica Brasileira
celebrando o 1° anno da luz (?)

No entanto, que se saiba, o novo regime não resolveu nenhum problema do país. Pelo contrário, o desaparecimento de um chefe de Estado permanente, garantido e de pouca influência no dia a dia da nação só fez aumentar a instabilidade. Eliminada a âncora, o barco balouça, aderna e ameaça soçobrar.

É certo que um descendente de Dom Pedro II ‒ engessado por uma Constituição e dotado de poder meramente representativo ‒ na chefia do Estado teria sido melhor que um Lula ou uma Dilma. Aliás, esses dois trágicos personagens da história recente deixam patente que nossa República, apesar da insistência dos livros de História, francamente não deu certo. É golpe que se prolonga há 127 anos. É religião que não chegou lá: continua no estágio de seita. Desde 1889, tentam nos vender a imagem de que nosso regime republicano é melhor que o monárquico. Continuo desconfiando que não é bem assim.

Carta aberta ao chanceler

Excelentíssimo Senhor José Serra,

Antes de mais nada, permita-me congratular-me com Vossa Excelência pela direção auspiciosa que a diplomacia brasileira assumiu sob seu comando. Foi guinada importante, verdadeira recondução do comboio a trilhos que nunca deveriam ter sido abandonados.

Pela mídia, fiquei sabendo das mais recentes notícias sobre o posicionamento firme do Brasil em face do sinistro espetáculo que se vem desenrolando na vizinha Venezuela. Regozijo-me pelo discurso incisivo pronunciado dia 1° de novembro por nossa embaixadora junto à ONU.

escrita-5Em certos momentos, o veludo dos códigos diplomáticos tem de ser posto de molho. Há horas em que é preciso arregaçar as mangas, mostrar os músculos e deixar clara a posição do país. Foi o que fez nossa embaixadora, por certo sob orientação de Vossa Excelência. O discurso da representante brasileira não podia ser mais explícito ao pedir às autoridades venezuelanas que garantam o total exercício dos direitos constitucionais e que tomem medidas para realizar o referendo revogatório sem demora, de forma clara, transparente e imparcial. Foi pronunciamento límpido e cristalino.

Em resposta, a chanceler da Venezuela ‒ homóloga de Vossa Excelência ‒ declarou que «não reconhece o governo de Michel Temer». Mas não parou por aí. Afirmou que «houve um golpe de Estado no Brasil» e concluiu o ultraje asseverando que «esse governo golpista é formado por um grupo de corruptos.»

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

Nos tempos em que ofensa se lavava com sangue, tal invectiva constituiria um casus belli, razão suficiente para retrucar com armas. Felizmente, os costumes se suavizaram, mas certos insultos não podem passar em branco. Os brasileiros esperam de Vossa Excelência uma reação à altura do orgulho ferido. É insuportável ter de ouvir desaforos da representante oficial de um Estado. De um vizinho ainda por cima. Dizer que não reconhece nosso governo golpista ultrapassa todo limite.

Se a República Bolivariana não reconhece nosso governo, não temos outro caminho senão deixar de reconhecer o deles. A partir daí, a consequência inevitável é uma só: o rompimento de relações diplomáticas. Temos a obrigação de ensinar a nossos vizinhos ignorantes com quantos paus se faz uma canoa em Pindorama. Sinto pena pelo infeliz povo do outro lado da fronteira, mas, infelizmente, os medalhões bolivarianos não entendem outra linguagem que não seja a da força bruta.

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

A hora é agora. A querela não pode ficar no nível de bate-boca entre comadres. Torcemos para que Vossa Excelência não esmoreça e tome a atitude drástica que a situação está a exigir. Amanhã, passada a tempestade, o próprio povo venezuelano lhe agradecerá.

Respeitosamente,

José Horta Manzano

Engolindo sapo

José Horta Manzano

Tem horas em que a gente tem de engolir cobras, lagartos, lagartixas, sapos e o que mais houver no prato. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Tem outras horas em que dá pra escapar do vexame. Quando é assim, só engole sapo quem for bobo.

Quando a doutora foi destituída do trono presidencial e despachada de volta pra casa, houve gente ‒ pouca gente ‒ que tentou classificar o impeachment na categoria de golpe. A cômoda categorização servia de desculpa a maus perdedores. Mas deu no que deu, não veio a reviravolta, a destituição foi-se tornando definitiva, e os descontentes tiveram de engolir os sapos. Não só os sapos, como o brejo inteiro.

Sapo 2Acontece que algumas das republiquetas vizinhas, as mais pobres por sinal, compraram a tese do «golpe» e embarcaram nessa canoa furada. Quem sabe imaginavam que o «exército do Stedile» ou outra milícia qualquer fosse soltar brucutus nas estradas e conseguir reverter a decisão do Congresso.

Um dos inconformados foi señor Evo Morales, medalhão-mor do paupérrimo Estado Plurinacional de Bolivia, alinhado com os bolivarianos puro-sangue. Inconformado, atropelou sutis códigos diplomáticos e chamou para consultas seu embaixador em Brasilia. Señor Morales não há de se ter dado conta de que, no aveludado terreno das relações exteriores, a medida é pra lá de grave. Precede e anuncia iminente ruptura de relações diplomáticas. Por reciprocidade, o governo brasileiro teve de chamar de volta nosso embaixador em La Paz.

Passou-se mais de um mês e a situação política brasileira não se alterou. Nenhum exército paralelo soltou os cachorros. A doutora não voltou. O mandachuva boliviano começou a sentir que tinha entrado num poncho justo. Conferiu as estatísticas de comércio e deu-se conta de que o Brasil é, com folga, o maior cliente de seu país. Nada menos de 35% das vendas externas bolivianas são absorvidas por nós.

temer-5O figurão pode ser exótico, folclórico, autoritário, mas… louco não é. Ninguém, em consciência normal, se indispõe com seu melhor cliente ao bater pé firme num tema que, francamente, é página virada. Evo Morales fez, esta semana, um pronunciamento. Disse que estava devolvendo seu embaixador a Brasília apesar (sic) da situação política em nosso país. E não parou por aí.

Sublinhou que o Congresso brasileiro havia, sim, dado um golpe. Acrescentou que, embora legal, o golpe não tem legitimidade. Em suma: tinha dito besteira, tentou consertar, não conseguiu, piorou a situação e ainda se recusou a engolir lagartos.

E como reagiu nosso glorioso Itamaraty? Ostentou sua melhor cara de paisagem, engoliu o sapo inteirinho e fez de conta que nada tinha acontecido. Passando por cima da afronta, vai devolver o embaixador brasileiro a La Paz nesta segunda-feira. Ficou tudo por isso mesmo. O Barão do Rio Branco, onde quer que esteja, há de ter sentido engulho.

Foi golpe?

José Horta Manzano

Ainda ontem comentei a deselegante, ostensiva e tendenciosa reação de alguns países ditos «bolivarianos» quando do pronunciamento que doutor Temer fez na tribuna da ONU em Nova York.

A grita dos bolivarianos não tem a ver com desinformação sobre o que se passa no Brasil. Sabem eles muito bem o que aconteceu, descobrem que perderam a boquinha e esperneiam. Dá pra entender.

midia-1O que nos deixa pasmos é ver que parlamentares de países civilizados, ainda hoje, continuem considerando que a destituição de Dilma Rousseff foi resultado de golpe urdido por elites enfurecidas. Fica-se a matutar como é possível que, com a profusão e a rapidez da mídia atual, ainda haja gente que não entendeu o processo constitucional e democrático que derrubou o governo.

Muitas vezes, mais vale varrer diante da porta de casa antes de ralhar contra a sujeira do vizinho. Antes de considerar que jornalistas internacionais não passam de esquerdistas ignorantes, vamos dar uma olhada na nossa própria sujeira. De onde é que esses estrangeiros tiram essas ideias? Será que se deixam impressionar por artistas brasileiros que repetem «Fora, Temer»? Devo dizer, en passant, que já vi dúzias de «Fora, Temer!», mas nenhum «Volta, Dilma!»

Houve até um grupo de atores brasileiros, escorado pelas benesses da Lei Rouanet, que ousou instrumentalizar a escadaria do Festival de Cannes para propaganda política, coisa que a mítica festa do cinema nunca tinha visto em 70 anos de existência.

midia-3Jornalistas estrangeiros podem não ter o conhecimento aguçado que o distinto leitor tem da tortuosa política brasileira, mas fique frio!… Os atores que brandiam cartazes em Cannes estavam apenas cumprindo tabela. Não são eles que hão de reforçar a convicção de que o impeachment tenha sido manobra golpista. A encenação ficou por conta da falta de recato dos que protestaram.

Há bem pior. Na noite de segunda-feira passada, a Câmara fez tentativa explícita de enfiar goela abaixo da nação uma anistia a parlamentares que se tivessem valido de caixa dois. Em outras palavras: anistia ampla, geral e irrestrita a todo o Congresso. De fato, podem-se contar nos dedos de uma mão os eleitos que respeitaram rigorosamente os preceitos do financiamento eleitoral legal.

midia-2Descoberta e denunciada a tempo, a tenebrosa transação não vingou. Mas a mídia nacional e internacional se encarregou de propagar. Se faltava uma demonstração de que o parlamento brasileiro é um ninho de corruptos, a manobra de segunda-feira se encarregou de varrer toda ambiguidade. Sim, nosso Congresso agiu como se bolivariano fosse.

Que ninguém reclame se, à vista de patuscadas desse quilate, o Brasil continue a ser visto como republiqueta de bananas. Para quem vê de fora, a estranha manobra reforçou a ideia de que o impeachment não passou de golpe palaciano, aplicado por parlamento corrupto contra uma presidente impoluta.

Erro de cálculo

José Horta Manzano

Faz um mês, o Partido dos Trabalhadores publicou longo arrazoado em defesa de nosso guia. A manobra tem explicação. Em 36 anos de existência, o partido ‒ que começou representando industriários e terminou no banco dos réus ‒ só conseguiu fabricar um líder. Unzinho só. Em união visceral, Lula da Silva é o PT e o PT é Lula da Silva. É composição com dois elementos. Na falta de um, o outro fenece.

Lula cartilha 4Dotado de ego gigantesco, o Lula cuidou que nenhum personagem lhe fizesse sombra. Botou pra correr os que representassem perigo e barrou a ascensão dos que sobraram. O ápice do culto à própria personalidade foi a designação do «poste» que lhe sucedeu na presidência do país. Acostumado a conviver com vaquinhas de presépio, o Lula foi incapaz de pressentir o desastre que estava por vir. Jamais imaginou que a criatura ousasse se desgarrar do criador. Não se lembrou de que todo passarinho acaba, um dia, abandonando o ninho para voar com as próprias asas.

Semana passada, no intuito de difundir ao redor do planeta a fábula do golpe que está por apeá-lo do poder, o partido houve por bem mandar traduzir o arrazoado em três línguas estrangeiras: inglês, francês e o infalível espanhol. Deu ao libelo o apelido de cartilha. São perto de três mil palavras para tentar convencer que o Brasil vive momento de arbítrio, como uma Venezuela qualquer.

Lula cartilha 2No estrangeiro, o texto não suscitou efeito visível além de convencer os que convencidos já estavam. Nenhum veículo, a meu conhecimento, mencionou o documento. Não se sabe se por coincidência ou para contrabalançar a «cartilha», a Justiça brasileira acaba de indiciar o casal da Silva por corrupção e outros crimes dos quais já estamos cansados de ouvir falar.

Não acredito em mera coincidência. Já fazia meses que se falava do apartamento sem dono e do sítio sem proprietário. Por que abrir o processo justamente agora? No meu entender, é a resposta do Brasil decente ao desespero lulopetista que, ao enviar seu libelo à mídia internacional, emporcalhou a imagem do país.

Lula cartilha 3A consequência veio a cavalo. Enquanto a «cartilha» tinha passado totalmente em branco na mídia europeia, a inculpação da famiglia Lula da Silva recebeu destaque na manhã deste sábado. Os europeus não tinham dado grande atenção ao fato de o Brasil, no entender do PT, ser republiqueta de bananas. Em compensação, milhões sabem agora que o demiurgo escorregou do pedestal e vai se haver com a Justiça. Bem haja!

Diplomacia cucaracha

José Horta Manzano

Em casa:
‒ Menino, vá até a padaria comprar meia dúzia de pãezinhos.

‒ Ah, mãe, agora tô jogando bola.

‒ Se você for agora, dou dinheiro pra você comprar sorvete.

Interligne 28a

No treinamento de atletas:
‒ Quem ganhar uma medalha leva um prêmio de dez mil reais.

Interligne 28aNa gerência de vendas:
‒ Quem ultrapassar a meta este mês ganha um fim de semana num spa.

Interligne 28a

Na reunião entre o governo turco e a União Europeia:
‒ Hordas de imigrantes ilegais têm chegado à Europa atravessando o território turco. Vocês precisam fazer alguma coisa pra barrar essa invasão!

‒ Podemos estudar o assunto. Mas queremos alguma vantagem em troca. O que é que a UE nos oferece?

‒ Podemos dar-lhes uma ajuda de 3 bilhões de euros e estudar eliminar o visto de entrada na União para cidadãos turcos.

Interligne 28a

É assim que vai a vida desde que o mundo é mundo. O finado governo brasileiro não foi o inventor do «toma lá, dá cá». Toda negociação ‒ seja ela entre mãe e filho, entre parceiros, entre adversários ou entre governos ‒ implica troca de gentilezas. Cede-se isto pra colher aquilo. Abre-se mão de algo pra conseguir o que se quer. A diplomacia nada mais é que a arte da negociação elevada ao nível governamental.

Como sabemos todos, a Venezuela entrou no Mercosul pela porta dos fundos, na esteira de um golpe malandro. Foi quando o governo do Brasil, da Argentina e do Uruguai se acumpliciaram para suspender o Paraguai e deixar entrar, na calada, a república bolivariana.

Diplomacia 1Caído o estranho projeto de poder que nos dominava, o Estado brasileiro começou a voltar aos eixos. A caminhada será longa. Semana passada, nosso chanceler teve encontro com seu homólogo uruguaio para deliberar sobre a entrega da presidência do Mercosul ao folclórico señor Maduro. Embora reuniões dessa natureza não devessem, em princípio, ser objeto de divulgação na mídia, todos ficaram sabendo. Deu no que deu. Gente que não entende do assunto meteu o bedelho.

Não se sabe se por má-fé ou por incompetência ‒ tendo a apostar na segunda possibilidade ‒ o chanceler uruguaio andou declarando que o Brasil «tentou comprar» a adesão de Montevidéu à tese brasileira de que Caracas não está em condições de presidir o bloco. À vista da reação indignada do Itamaraty, o ministro uruguaio desdisse o que havia afirmado. Ficou combinado que tudo não passou de um «mal-entendido».

Mercosul 4Resta a impressão de que o Brasil não é o único a confiar assuntos sérios a gente pouco qualificada. Nós já nos livramos dos inefáveis figurões que desgraçaram a diplomacia brasileira durante os últimos 13 anos. Falta o Uruguai fazer a lição de casa.

Vale lembrar o que dizem os italianos: «certe cose non si dicono, si fanno» ‒ certas coisas não se dizem, se fazem. O segredo continua sendo a alma do negócio, mormente em tratativas entre Estados.

Interligne 18h

Pra arrematar:
Dona Dilma, cujo ponto forte não é exatamente a sutileza diplomática, houve por bem manifestar-se sobre o episódio. Disse que o Brasil não é imperialista e não pode comprar nenhum país. Como de costume, a presidente emérita não entendeu o que aconteceu. Negociação, sem dúvida, não faz parte do ideário da doutora.

Organização dos Estados Americanos

José Horta Manzano

Desde que os primeiros europeus aportaram no continente americano, começaram a surgir estabelecimentos estáveis e permanentes. Ingleses, franceses, portugueses, espanhóis, holandeses se fixaram ao longo da costa.

Com o passar do tempo, colônias inglesas, portuguesas e espanholas se mostraram mais vigorosas que as demais. À custa de muito enfrentamento e muita briga ‒ tudo temperado com boa pitada de vaidades pessoais ‒ as colônias primitivas foram-se sentindo cada dia mais fortes para pleitear independência da metrópole. Após pouco mais de três séculos de colonização, a maior parte do território tinha alcançado independência. Uma vintena de novos Estados havia surgido.

OEA 1A linha histórica comum a todos incentivou-os a criar um foro de encontro e discussão. A ideia, que já vinha das primeiras décadas do século 19, foi tomando corpo com os anos. A forma atual foi sacramentada com a adoção da Carta de 1948, quando todos os países americanos independentes aderiram à Organização dos Estados Americanos.

Por seu peso econômico e militar, os EUA sempre representaram papel importante no bloco. No entanto, tirando um ou outro esporádico atrito aqui e ali, essa situação não incomodou a maioria. Isso durou até o fim do século 20.

Os anos 2000 trouxeram mudanças significativas que viriam balançar o coreto. Governantes populistas e pseudonacionalistas pipocaram em diversos países do continente. Venezuela, Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Honduras, Nicarágua sofreram as agruras que esse tipo de medalhões costuma gerar. Pouco a pouco, os regimes vão caindo de podres. Mas as consequências da corrupção e da incompetência se farão sentir por muitos anos.

OEA 2No auge do movimento populista, dirigentes se mancomunaram na defesa de seus interesses. Como outros governantes autoritários registrados pela História, julgavam-se inamovíveis e definitivamente instalados. Nosso guia juntou-se aos pranteados Chávez e Kirchner para fundar uma nova organização. No fundo, funcionaria exatamente como a OEA, com uma grande diferença: os EUA não seriam admitidos no clube.

E assim foi feito. Criou-se a Unasur, que as más línguas apelidam de União dos Cucarachas. Lula, Chávez, Kirchner & companhia exultaram por ter mandado a OEA para escanteio. Enfim, livres dos imperialistas!

Interligne 18h

Estes dias, em desespero de causa, os advogados de dona Dilma estão queimando os gravetos de que ainda dispõem para alimentar fogareiro moribundo. Algum assessor, brilhante como os demais, teve a genial ideia de denunciar, pela milésima vez, o «golpe» desferido contra a (ainda) presidente.

Diabo 3Para obter maior eco internacional, foi escolhida naturalmente a Unasur, certo? Errado, distinto leitor. Engolindo cobras, lagartos e jacarés, apelaram para… a Organização dos Estados Americanos. Ai, ai, ai… Pedir socorro aos odiados «loiros de olhos azuis», que vergonha! Só faltava isso.

Nossa idolatrada líder declarou, um dia, que, nas eleições, «se faz o diabo». Agora fica claro que não é só nas eleições

Ranço colonizador

José Horta Manzano

Sob o título de «Ranço colonizador», o Estadão de hoje dá notícia, em editorial, de um manifesto lançado alguns dias atrás por 28 senadores franceses em defesa da presidente afastada, Dilma Rousseff. Em tom indignado, o quotidiano brasileiro se insurge contra a posição dos parlamentares estrangeiros, que abraçam a fantasia de pretenso golpe parlamentar urdido para derrubar a mandatária.

Editorial Estadão, 17 jul° 2016

Editorial Estadão, 17 jul° 2016

O título do panfleto francês já diz tudo: «Dilma Rousseff vítima de baixa manobra parlamentar». Acreditando que os signatários do libelo estejam mal-informados e desconheçam os fundamentos jurídicos que sustentam o processo de destituição da presidente, o Estadão dá verdadeira aula de Direito Constitucional brasileiro.

Nosso jornal gasta muita saliva com pouca comida. Basta arranhar com a unha para descobrir que, por debaixo do revestimento dourado , o metal é de qualidade duvidosa. Procurei saber um pouco mais sobre os comos e os porquês. O tal ‘manifesto’ passou absolutamente despercebido na França, só tendo sido publicado pelo parisiense Le Monde. Nem folhas de esquerda como Libération ou L’Humanité (órgão do Partido Comunista) deram eco ao abaixo-assinado. Nenhum outro quotidiano francês deu a menor importância.

Chamada de Le Monde, 13 jul° 2016

Chamada de Le Monde, 13 jul° 2016

Como achei estranho esse descaso, quis verificar quem eram os signatários. Afinal, o Senado francês, composto de 348 membros, é braço do Poder Legislativo. Fazendo as contas, notei que os 28 autores do texto representam apenas 8% do total de senadores. Desses 28, vinte são comunistas: formam o CRC ‒ Grupo Comunista Republicano e Cidadão. Os restantes são afiliados a grupos ecologistas. Um só dentre eles é conhecido por ter sido, anos atrás, apresentador de tevê. Os demais são estranhos ao grande público.

Cada jornal toma o caminho que lhe parece mais indicado. Não estou aqui para dar lições ao Estadão. Assim mesmo, cogito ergo sum ‒ não posso me impedir de pensar. Que René Descartes não me leve a mal.

Senado francês

Senado francês

Depois de cogitar um instante, cheguei à conclusão de que um quotidiano do porte do Estadão não deveria perder tempo com elucubrações de adeptos do pensamento único. Com tanta coisa mais importante em pauta, não vale a pena gastar esforço tentando dar aulas de democracia a gente que passou por lavagem cerebral. É muita vela pra defunto pouco.

Pas d’amis

José Horta Manzano

«Les États n’ont pas d’amis. Ils n’ont que des intérêts.»

«Estados não têm amigos. Têm apenas interesses.»

Colera 3A frase contundente é de Charles de Gaulle. O velho general tinha queda pronunciada por frases de efeito. Credencial para assistir a qualquer uma de suas coletivas de imprensa era disputada a tapa. Cada uma delas era acontecimento que ninguém queria perder, verdadeiro espetáculo teatral de alto nível.

Seja como for, a sentença corresponde rigorosamente à verdade. Perde tempo e esforço quem acreditar na benevolência ou no altruísmo de algum Estado ‒ ou de governo que o represente. Se o próprio do Estado é ter interesses, a função do governo é defendê-los.

Em desespero crescente, ao dar-se conta de que poder e benesses se lhes escapam inexoravelmente, cortesãos da presidente afastada passaram a abusar da jus sperneandi. Em juridiquês, chama-se ‘chororô de perdedor’.

Colera 2Em recente coletiva concedida pelo porta-voz do Departamento de Estado americano ‒ entrevista que nada tinha que ver com assuntos brasileiros ‒, um jornalista fez estranha pergunta. Presumivelmente teleguiado pela intelligentsia petista, formulou longa indagação na qual mencionou Romero Jucá, Dilma Rousseff, Michel Temer. Na intenção de levar o porta-voz a admitir que o afastamento da presidente brasileira fosse resultado de um «golpe» inconstitucional, o rapaz procurou confundir ideias, distorcer a verdade e baralhar conceitos.

Não conseguiu o intento, naturalmente. O Departamento de Estado dos EUA não costuma pôr qualquer um na linha de frente. Até chegar lá, o funcionário passa por intenso treinamento. Tem de estar preparado para esse tipo de armadilha. É um profissional.

Ardilosos mas ingênuos, os componentes da tropa de choque do Partido dos Trabalhadores estão longe de ter traquejo internacional. Certas coisas não se improvisam, e eles não foram preparados para isso. Os mentores passaram os últimos 13 anos tranquilos, refestelados em berço esplêndido, na certeza de que tudo estava dominado. Não estava. O berço desmoronou.

Dilma e TemerEntre Estados civilizados, não há particular interesse em desvendar se houve ou não golpe na destituição de dona Dilma. O que mais anima são os sinais de que nossa economia tem boas chances de se recuperar. Será muito lento, mas são sensíveis as perspectivas de melhora.

A ninguém interessa um Brasil atrasado, pobre, endividado, apartado do concerto econômico planetário. Para Estados estrangeiros, pouco importa que nosso país seja povoado por gente simpática e cordial. Não é isso que conta. Veem-nos como parceiros comerciais, fornecedores e compradores.

«Les États n’ont pas d’amis. Ils n’ont que des intérêts.»

Pensamentos soltos ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma senadora petista tem repetido compulsivamente uma analogia para convencer seus colegas e a população de que o impeachment é golpe: “É como condenar à morte uma pessoa por ela ter cometido uma infração de trânsito”.

Golpe 1Data venia, Excelência, o que está acontecendo na minha visão é que a tal pessoa foi pega dirigindo embriagada e se recusa a aceitar perder a carteira, como prevê a lei, argumentando que só tomou cerveja – e que cerveja é sabidamente uma bebida não alcoólica!

Dilma está repetindo, sem querer e sem ter consciência disso, uma frase do famoso escritor português Luís Vaz de Camões: “Amei tanto minha pátria que não me contentei em morrer nela, mas com ela”.

Bebida 4Só que com uma diferença importante: enquanto o lusitano se desesperava com os rumos que maus governos haviam dado à sua pátria, a brasileira vem contribuindo com extremo empenho e eficácia para promover o fim trágico da nossa.

Sei não. Para mim, José Eduardo Cardozo quase conseguiu provar que uma decisão monocrática do presidente da Câmara dos Deputados pode ser danosa para todo o país e que constitui, sem dúvida, um golpe contra o Estado democrático de Direito.

Golpe 2Falhou no seu intento por apenas 72% do total da meta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pressão do grupo e adestramento de humanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos experimentos mais interessantes, curiosos e instigantes de que tive notícia sobre a gênese de crenças irracionais foi feito com macacos.

Em linhas gerais, o estudo se propunha a identificar como nasce uma superstição. Para testar a hipótese de que o comportamento de um único indivíduo pode ser associado à ocorrência de um evento ameaçador para todo seu grupo de referência e, a partir daí, disseminar-se como crença, contaminando o comportamento dos demais, foram criadas as seguintes condições experimentais:

Macaco 2Um grupo de macacos era colocado dentro de uma jaula fechada por vidros, que possuía uma plataforma em seu centro. A plataforma era içada para o alto e, sobre ela, depositava-se um cacho de bananas. Todos os macacos eram ingênuos (isto é, nunca haviam estado dentro da jaula em questão) e estavam com fome. Naturalmente, um dos indivíduos, ao sentir o cheiro das bananas, tentava escalar a plataforma para ter acesso a elas. O que nenhum dos macacos sabia era que havia um sistema hidráulico embutido na plataforma que era acionado pelo peso. Tão logo o macaco pioneiro chegava ao topo e se sentava sobre a plataforma para comer as bananas, seu peso acionava uma bomba que inundava toda a gaiola, ameaçando a vida dos que estavam embaixo. Estes, desesperados com a possibilidade de afogamento, gritavam e se agitavam, na tentativa de escapar da jaula. Eventualmente, o macaco que estava em cima da plataforma deixava-se contaminar pelo clima de pânico geral e descia dela. A água parava então de jorrar e passava a ser drenada, pondo fim ao estresse do grupo.

Quando, mais tarde, um segundo macaco faminto escalava a plataforma, o mecanismo era novamente acionado e nova tensão recaía sobre o restante do grupo.  A situação se repetia até que os macacos passassem a associar a escalada com ameaça de morte para todos que não a fizessem. A partir desse momento, qualquer nova tentativa de subir na plataforma era impedida pelos demais, que agarravam o indivíduo afoito e o puxavam para baixo, antes que ele pudesse se sentar sobre ela.

Caixa vidroAssim que esse padrão de conduta tivesse se firmado, um dos macacos era retirado da gaiola e substituído por outro, ingênuo. Se este tentasse escalar a plataforma, era repelido pelos demais, sem que dispusesse de qualquer pista dos motivos que levavam o grupo a fazer isso. Os macacos eram então sucessivamente retirados um a um e trocados por novos indivíduos, até que todo o grupo fosse novamente constituído apenas por ingênuos. O que o experimento constatou foi que, independentemente do fato de desconhecerem os motivos da proibição da escalada e de estarem famintos, todos acabavam repetindo o comportamento “supersticioso”.

Não preciso nem dizer que, desde o dia em que soube desse estudo, fiquei imaginando como o fenômeno da superstição seria desencadeado na espécie humana. Sou filha de um homem extremamente supersticioso que, quando não sabia explicar o porquê de certas proibições, alegava brincando que “seu filho pode nascer sem dentes e sem cabelo”.

Há alguns dias, passeando por uma rede social, vi um vídeo que respondia em cheio às minhas indagações. Segundo as informações constantes da matéria, o estudo foi realizado por pesquisadores de uma universidade inglesa e consistia no seguinte: um grupo de pessoas aguardava sentado por uma consulta na antessala de uma clínica médica. Uma discreta campainha soava a intervalos regulares. Sem que nenhuma instrução fosse dada nesse sentido e sem qualquer comentário das pessoas presentes, a cada toque todos se levantavam por instantes e voltavam a se sentar. Uma jovem, ingênua, chega à clínica e estranha aquele comportamento. Sem saber como se comportar, ela permanece sentada por dois toques consecutivos, mas sucumbe à tentação de imitar o comportamento dos demais no terceiro. Os pacientes vão sendo chamados um a um e, em pouco tempo, só resta a jovem na sala de espera. Nesse momento, chega um rapaz ingênuo e senta-se ao lado da garota. Quando um novo toque de campainha soa, a jovem, mesmo sem a companhia dos que faziam isso anteriormente, levanta-se e volta a sentar-se. O rapaz interrompe a leitura de uma revista e questiona, perplexo, por que ela havia feito aquilo. A garota responde, sem graça, que não sabia exatamente, mas que, por outras pessoas terem agido daquela maneira quando ela chegara, “sentiu que deveria” agir da mesma forma. E acrescenta: “Quando passei a fazer isso, me senti muito melhor”.

Sala de espera 1O rapaz passa, então, a imitar o comportamento da jovem. Outros pacientes ingênuos chegam e, com maior ou menor grau de resistência, terminam todos por repetir o comportamento irracional. Segue-se uma rápida explicação dos pesquisadores a respeito de como nosso cérebro reage à pressão de grupo e como eventuais punições e recompensas vão, aos poucos, constituindo aquilo a que chamam de nossa “educação social”. Nada de muito novo nem espetacular, mas certamente uma descoberta que condensa de forma criativa e simples o desejo humano de inclusão no grupo – como já explicitava desde tempos imemoriais o ditado popular “Em Roma, age como os romanos”.

Não pude deixar de pensar na similitude entre esses dois experimentos e as demandas sociais a que estamos submetidos que corroboram minha tese de adestramento de humanos. Quem nunca hesitou antes de tomar um copo de leite com manga? Quem nunca acreditou que, para ser amado, é preciso ser belo? Quem nunca equiparou sucesso a dinheiro, casamento a felicidade ou solidão a morar só, admiração social a posse dos itens de moda? Quem nunca teve medo de que os céus se abrissem e um raio o fulminasse caso ousasse desrespeitar um credo religioso?

Galileu 1O preço a pagar pela decisão de seguir percurso próprio, mesmo que isso represente andar na contramão da história, pode ser tão alto quanto o de se deixar levar pela vontade de imitar a grande massa sem ouvir a voz do próprio coração. Duvida? Seria aconselhável, neste caso, estudar a biografia de Galileu Galilei, Albert Einstein ou Sigmund Freud. Depois, entrevistar profissionais que fizeram carreiras de sucesso meteórico até serem abatidos em pleno voo por um ataque cardíaco ou uma crise existencial. Ou conversar com uma diva do cinema ou televisão, eleita a mulher mais desejada do planeta, que se interna em uma clínica psiquiátrica na tentativa de aprender a lidar melhor com sua infelicidade no plano sexual e afetivo. Ou, ainda, mais contemporaneamente, aderir por puro cansaço à tese de que há base legal para o impeachment da presidente ou à de que tudo não passa de um “golpe”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

No topo da Terra ‒2

José Horta Manzano

Mensalão, Lava a Jato, Petrolão, impeachment, é golpe, não é golpe, é traição, não é, é salvação da pátria, voto por minha mãezinha, voto por meu neto que está por nascer, voto pelo bom povo de minha querida cidade, prefiro uma suíte de hotel de luxo, prefiro um sítio em Atibaia, prefiro um pedalinho de lata… Ufa!

Se o distinto leitor está ‒ como eu ‒ exausto de ler, todos os dias, notícias que nada mais são que variações sobre o mesmo tema, tenho uma solução. Dá um pouco de trabalho, mas resolve.

2016-0424-02 IslandPrimeiro, dedique-se, corpo e alma, ao estudo da língua islandesa. Não é fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças como chinês ou vietnamita. Uma vez adquirido razoável controle da língua, abandone a mídia brasileira. Essa é a parte mais agradável: é como jogar mágoas na cachoeira.

A partir daí, deleite-se com a mídia islandesa. Crônica policial? Dois acidentes de circulação ocorreram ano passado, causados por motoristas distraídos em conversar ao celular. Fora isso, tudo em ordem, tudo na santa, nada escabroso, nada raivoso, nada nojento.

Aí vem o melhor de tudo: fora uma ou outra (rara) menção ao futebol, nenhuma notícia sobre o Brasil. A mais recente que encontrei foi dada mais de três meses atrás. Conta a história de um casal islandês preso em Fortaleza por se estar preparando para voltar à terra natal carregando oito quilos de cocaína na bagagem.

Islândia 7O artigo não deixa claro como é possível que os dois tenham sido apanhados ainda no hotel, antes de se apresentarem no aeroporto. A polícia, naturalmente, confiscou a droga, os celulares e os 50 reais que encontrou. Nenhum artigo islandês posterior informa se os estrangeiros continuam presos.

Dado que, no Brasil, esse tipo de notícia já não impressiona ninguém, vai ser difícil conhecer o fim da história. Fica como sinfonia inacabada. Cada um que use a imaginação pra dar o fim que lhe parecer mais conveniente.

Enquanto isso, temos de consolar-nos com mensalão, Lava a Jato, petrolão, impeachment, golpe e voto pelo neto que está por nascer.

Carta à ONU e aos americanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Senhoras e senhores,

Antes de voltarem suas atenções para as considerações que nossa atual presidente deseja lhes apresentar para reflexão no dia de hoje, parece-me fundamental introduzi-los um pouco mais em detalhe à realidade brasileira. Para que lhes seja possível contextualizar com facilidade os fatos preocupantes que nossa mandatária pretende divulgar aqui, permitam-me guiá-los numa viagem conceitual pelo nosso país.

O Brasil não é um país para amadores. Turistas ocasionais podem se entreter e se deliciar com nossas belas paisagens, nosso clima tropical, nossa gastronomia diversificada, nosso multifacetado folclore e, principalmente, com nossa cultura de inclusão, conciliação, alegria e crença no futuro. Quaisquer que sejam seus interesses pessoais e visões de mundo, temos sempre a lhes oferecer um cardápio prolífico, generoso mesmo, de opções.

Já entender como nosso povo lida historicamente com sua realidade mais imediata – isto é, com seus desafios econômicos, sociais e políticos cotidianos ‒ é algo que requer uma robusta capacidade profissional de análise, capaz de contemplar com serenidade seus múltiplos aspectos conflitantes.

Dilma ONUCulturalmente nossos concidadãos se especializaram em extrair comédia de toda forma de tragédia. Como o próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, já sugeria desde os primórdios do século 20, o senso de humor e os chistes podem ser considerados formas efetivas de se lidar com o mal-estar, já que “numa brincadeira, pode-se até dizer a verdade”.

Talvez o nonsense de nossa realidade não seja evidente de imediato para um estrangeiro que nos brinde com a honra de por aqui morar, mas certamente se revelará mais tarde diante dos contornos surrealistas de nossas leis “que pegam” ou não, de nossa forma de fazer justiça “pelo CPF e não pelo RG”, de nossos conceitos arraigados de que “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro” e que todo pai dos pobres acaba funcionando também como mãe dos ricos. Nossa tradição de fazer piada com tudo aquilo que, em tese, poderia deflagrar convulsão social em outros países é tão forte que já nos rendeu o epíteto de “país não sério”. Os acontecimentos políticos dos últimos meses ameaçam agora nos transformar no “país da piada pronta”.

Dilma Obama 2O traço mais marcante da cultura social brasileira é, sem dúvida, aquilo a que chamamos de “jeitinho”. Talvez em decorrência de nossa flexibilidade corporal, mental e psíquica, herança de nossos antepassados africanos, aprendemos a driblar toda e qualquer restrição legal, a contornar normas e jurisprudências, a acreditar que o atalho é a rota mais curta para chegar aonde queremos e livrar-nos de toda forma de punição. Ou, quem sabe, seja ele herdeiro direto da crença de que tudo em nosso país “acaba em pizza” – ou, melhor dizendo, da constatação de que, em última instância, a balança da justiça pende sempre para o lado mais empoderado da sociedade.

Por outro lado, nossa forma de lidar com a autoridade talvez seja a característica mais paradoxal de nossa cultura aos olhos de um estrangeiro. Podemos nos submeter a ela sem contestação e perdoar-lhe todos os desvios desde que ela seja hábil em nos fazer crer que tudo o que faz é para o nosso bem. Ao mesmo tempo, quanto mais irascível, arrogante e distanciada do nosso jeito simples de falar, mais ela será desqualificada através de nosso modo zombeteiro de enxergar as coisas sérias da vida. Expor o ridículo das pequenezas mentais de nossos governantes é nosso jeito peculiar de expô-los ao ridículo.

Assim sendo, senhoras e senhores, afianço-lhes que todos os aqui presentes disporão de farto material linguístico e comportamental ao longo do discurso de nossa mandatária-mor para aferir por conta própria e com total isenção de espírito a consistência racional de seus proclames. Devo alertá-los, no entanto, que é provável que a grandiloquência dos argumentos usados por assessores na composição da fala presidencial contraste e seja impactada negativamente pelos atropelos à lógica nas entrevistas que se seguirão ao pronunciamento oficial. Rogo-lhes que desconsiderem eventuais contradições em nome da manutenção dos laços de fraternidade que unem nossos povos.

¿ Por qué no te callas ?

Acredito sinceramente que sua experiência recente com as polêmicas geradas pelo candidato republicano às próximas eleições presidenciais americanas pode lhes servir de base segura para um julgamento sereno das implicações de aderir a este ou àquele lado de nossos atuais confrontos políticos. Se de todo lhes for humanamente impossível isentar-se da força do mantra “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, peço-lhes que experimentem se colocar emocionalmente na pele de comandados. Se e quando uma onda de indignação começar a se agitar em seus peitos, relembrem a reação do rei de Espanha às colocações agressivas do então líder máximo venezuelano e, em coro, refaçam sua indagação: “Por qué no te callas?”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O retrato

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 abril 2016

Faz ano e meio. Assim que Dilma Rousseff conquistou, pela segunda vez, vitória nas urnas, utilizei este espaço para dar-lhe meus parabéns. Aproveitei para pedir-lhe que não perseverasse na tática de alargar brechas entre classes de cidadãos, estranho método inaugurado por seu predecessor. Sugeri que não exacerbasse antagonismos e que pusesse fim à retórica do «nós» contra «eles».

A bem da verdade, é de constatar que o recurso ao antagonismo entre categorias de brasileiros se atenuou no discurso presidencial. O mérito é menos da presidente e mais do deslocamento da imaginária linha de fratura. O encorpamento do campo adverso acendeu luz vermelha no Planalto e deixou claro que era melhor botar a metáfora de molho.

Manif 3Dá tristeza, contudo, perceber que, antes mesmo que Dilma Rousseff assumisse o cargo maior, o mal já estava feito e a ferida, aberta. Nem nos tempos em que nosso povo se debateu sob feroz ditadura ‒ varguista ou militar ‒ hostilidades e ressentimentos entre cidadãos foram tão palpáveis. Se o objetivo tático dos que ora nos governam era segmentar e categorizar o povo, podem gabar-se de ter atingido o intento. Para seu desalento, no entanto, a parcela que os apoia vem-se apoucando a cada dia. O chavão do tiro que saiu pela culatra se aplica.

Ao ritmo em que avança a carroça, o caminho se estreita e o horizonte se fecha. Prever o futuro, como diz o outro, não é tarefa fácil. Tudo indica, no entanto, que os humores do Congresso se preparam a abreviar o mandato de Dilma. Se assim for, a ordem constitucional dispõe que Michel Temer ocupe o trono vacante. Missão espinhosa.

Numa primeira análise, tirando a honra de ganhar retrato na galeria de presidentes, o encargo será áspero. As finanças vão mal, a economia vai pior, a inflação come solta, o desemprego cresce, o PIB encolhe, a confiança na classe política esfarelou-se. O regime político de países vizinhos, antes considerados parceiros preferenciais, dá sinais de esgotamento. Na comparação internacional, o Brasil desaponta. Com tantas goteiras no teto, como impedir a inundação da casa?

Dilma e TemerChavão por chavão, aqui cabe outro: há que fazer das tripas coração. Paradoxalmente, é menos complicado erguer sobre escombros do que consertar um buraco aqui, uma avaria acolá. Com o país do jeito que está, não sobra alternativa, há que refundá-lo. Michel Temer, senhor de vasta experiência em coisas da política, tem o estofo necessário para a tarefa e dispensa palpites. Assim mesmo, deixo aqui algumas reflexões.

O atual vice-presidente, caso assuma a chefia do Executivo, terá chegado lá sem ter recebido um voto sequer. Longe de sombrear sua gestão, essa particularidade lhe confere amplitude de ação. Dado que não fez promessas, não poderá ser acusado de trair eleitores ‒ uma vantagem e tanto! A situação do Brasil desceu a um estado tal de degradação que qualquer ação que não se assemelhe a manobra para escapar da Justiça só poderá ser benfazeja. O alívio que a maioria do povo sentirá ao se dar conta de que o pesadelo terminou há de traduzir-se em simpatia ‒ e até em certa condescendência ‒ para com o novo mandatário.

Será um mandato curto, pouco mais de dois anos. Se senhor Temer quiser deixar marca positiva e relevante na história do país, terá de agir rápido. Para começar, tem de alinhavar um ministério com titulares capazes e de ficha limpa. Dividir por dois o número de ministros será medida apreciada.

Surfando na onda que clama por um Brasil decente, o chefe do Executivo deveria engajar pleno esforço na implantação do parlamentarismo. A hora é agora, que não dá mais pra esperar. Nosso regime presidencialista simplesmente se exauriu, mostrou seus limites, está gasto até a lona. Não tem remédio.

Galeria de presidentes da República

Galeria de presidentes da República

Outra reforma importante, sem a qual o parlamentarismo não funcionará, é a instauração do voto distrital puro, majoritário, com deputados eleitos em dois turnos. É a única maneira de aproximar representantes de representados. Cada eleitor conhecerá o deputado que o representa. Um benefício extra virá no bojo do voto distrital: a diminuição radical do número de partidos e a extinção das legendas de aluguel. Não é coisa pouca.

Essas são as grandes medidas, complicadas para governante eleito, mas ao alcance de um presidente sem voto, que nada prometeu. Claro está que senhor Temer pode optar pela facilidade e deixar tudo como está. Nesse caso, sua biografia desertará os livros de história e sua memória se resumirá a um retrato na galeria.

Um elenco de golpistas

Ruy Castro (*)

Já vivi vários golpes de Estado e todos me pegaram de surpresa. Nada demais nisto, nunca participei de qualquer governo, nem podia saber que havia um golpe em curso. O incrível é que esses golpes pegaram de surpresa também os governos que derrubaram. Claro ‒ ou não seriam golpes.

O golpe que vem sendo denunciado pelo governo Dilma é diferente. Dá-se à luz do dia, tramado por 73% da população, que desaprova o dito governo, sob as barbas do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, de membros do STF, da Procuradoria Geral, do Ministério Público, da Polícia Federal, da OAB e de outras instituições da República, que nada fazem para impedi-lo, e obedece a um complexo ritual de trâmites, todos com data marcada com meses de antecedência.

E, contrariando a natureza dos golpes, em que os golpistas atuam embuçados e na sombra, neste eles vêm à boca de cena e se identificam publicamente.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Na terça última (29), inúmeras categorias profissionais ocuparam as páginas dos jornais dizendo que gostariam de ver a presidente pelas costas. E se assinaram: fabricantes de sorvete, chocolate, biscoitos, balas, doces e derivados; plantadores de milho, cana e amendoim e produtores de óleos e azeites, leite, soja e macarrão.

Sindicatos das indústrias de tintas e vernizes, cerâmicas e olarias, parafusos, porcas, rebites e similares, de artefatos de metais ferrosos e não ferrosos, de curtimento de couros e peles e de extração de mármores, calcários e pedreiras.

Industriais da cerâmica de louça e porcelana, da recauchutagem de pneus e retífica de motores e do beneficiamento de fibras vegetais e descaroçamento de algodão. Alfaiates, gráficos, farmacêuticos, misturadores de adubos, criadores de suínos e controladores de pragas urbanas. Etc. etc. etc.

Nunca se viu um elenco tão variado de golpistas.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

O pote de mágoa

José Horta Manzano

Temer 2Fez furor hoje a carta que senhor Temer enviou a dona Dilma. O fato dá que pensar. Antes de prosseguir, quero deixar claro que não jogo no time de nenhum dos dois. Para mim, ambos – como dizia minha avó – são do tipo que não fede nem cheira.

Senhor Temer afirma que a carta é pessoal. O fato de ter permitido seu vazamento à imprensa desmente toda intenção de discrição. Fica claro que, longe de ser pessoal, a missiva visa o grande público.

Senhor Temer assevera que o desabafo já devia ter sido feito há tempos. Então, por que esperou? E por que, diabos, se decidiu justamente agora?

Carta 1Senhor Temer fala em lealdade, qualidade que não combina com a política. Os atores do andar de cima são movidos a manobras, golpes, traições, conchavos, propinas, troca de favores, conciliábulos, conspirações, conluios, acordos. Lealdade, francamente, é conceito desconhecido.

Senhor Temer menciona, entre outros protestos, o fato de apaniguados seus terem sido maltratados por dona Dilma. Num ato falho, o vice desvela o fundo do pensamento: queixa-se de a presidente ter-se recusado a ratificar seu nepotismo explícito.

Em pelo menos dois trechos da carta aberta, senhor Temer deixa claro que dona Dilma e ele são as «duas maiores autoridades do país». Ao mesmo tempo, queixa-se de que «o governo» tenciona provocar cisão no PMDB. Ninguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. O missivista precisa, de uma vez por todas, assumir seu posto. Ou faz parte do «governo» ou não.

Dilma Lula TemerAo final, fica uma pergunta intrigante. O vice-presidente confessa ter-se sentido figura decorativa durante os quatro anos do primeiro mandato. A pergunta é: por que, raios, aceitou candidatar-se de novo?

Uma derradeira consideração. Descontente e frustrado que está, carregar o fardo imposto pelo cargo deve ser-lhe insuportável. Em vez de continuar guardando mágoa em pote, o caminho mais adequado para senhor Temer seria a renúncia. Por que não se decide? Será por abnegado espírito público?

O fim do amém

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jul 2015

Revolution 1O dicionário ensina que revolução, no contexto político, é rebelião contra o poder vigente, com vista a implantar mudanças profundas. Diz ainda que pode ocorrer de maneira progressiva ou repentina. Quanto maior for a rudeza, mais caracterizada estará a reviravolta.

A transição do regime militar para a democracia plena, que os manuais situam em 1985, não pode ser catalogada como revolução. Na verdade, a eleição presidencial daquele ano marcou o desfecho de um processo paulatino, gradual e sobretudo consentido. A mudança pode não ter agradado aos mandatários da época, contudo não ocorreu à revelia deles. Tendo sido autorizada, revolução não era.

Já a ruptura havida em 1964, dado o grau de brusquidão, encaixa-se melhor, stricto sensu, no conceito de revolução. Aliás, foi assim qualificada nos primeiros anos, embora seja hoje mais usual designá-la como golpe.

Dilma e Lula 4Nossos pais e nossos avós – esses, sim – conheceram tempos bem mais turbulentos. Na primeira metade do século XX, revoluções e golpes (bem sucedidos ou não) sobrevinham a cada par de anos. Por um sim, por um não, entrincheiravam-se cidadãos, desembainhavam-se espadas, granadas explodiam, casernas eram sitiadas. Visto com óculos atuais, esse rebuliço nos parece longínquo, intangível, empoeirado, perdido nos livros de história.

Os brasileiros que assistiram, já em idade de entender, ao golpe de 1964 já estão todos, há anos, agasalhados sob o manto do Estatuto do Idoso. Mais velhos ainda estão os que viveram uma revolução de verdade, daquelas boas, com canhão e tropa nas ruas. São hoje anciãos.

Os tempos mudaram. Não se pega mais em armas pra impor ideias, que isso está completamente démodé. Armas, hoje, são muito mais numerosas que antigamente, circulam bem mais rápido, estão em mãos de muito mais gente, mas servem pra outros fins.

Revolution 2No que diz respeito à política, os jovens adultos brasileiros, aqueles que entram agora na casa dos vinte e poucos anos, andam desencantados. Levantamento recente do TSE informa que, no espaço de sete anos, nossos cinco maiores partidos perderam dois terços dos afiliados menores de 25 anos. O desinteresse da banda jovem é flagrante e inquietante: são precisamente eles que, daqui a vinte anos, conduzirão o País.

Quais serão as razões desse desamor? Poderíamos culpar internet, redes sociais, materialismo, facilidades do mundo moderno. Será? Se assim fosse, o desinteresse dos jovens pelas coisas da política seria planetário, o que está longe de ser verdade. As causas são domésticas.

Pra começo de conversa, os que chegam hoje aos vinte aninhos só conheceram, no topo do Executivo, a dupla Lula & Dilma. Não nos esqueçamos que o presidente anterior, ao impor a sucessora, fez questão de apregoar que ela era ele e que ele era ela. Ou seja, ficou claro que eram angu da mesma tigela.

Dilma e Lula 5Tem mais. Desde que se conhecem por gente, os jovens de hoje vêm sendo diariamente bombardeados com escândalos, roubalheiras, prisão de medalhões. E mais roubos, e mais escândalos, e falcatruas, e mentiras, e caraduras. Convenhamos: é muita água pra pouco pote. Compreende-se que se sintam enfastiados e que menosprezem política e políticos.

O que anda fazendo falta é o debate de ideias, a troca de argumentos, o empenho pelo bem comum, a demarcação rigorosa entre o público e o privado. O Executivo onipresente destes últimos dez anos tem relegado o Legislativo a papel de figurante de opereta.

A crise de governança gerada pela ação desastrada da presidência da República está mostrando corolário positivo: o fortalecimento do parlamento. Deputados e senadores, desacostumados que estavam de fazer aquilo para que foram eleitos, andam meio aturdidos. O momento parece confuso, mas o tempo se encarregará de pôr ordem na casa.

Senado federal 1Suas excelências já dão mostras de que a era do amém chegou ao fim. Não é revolução de tanque e canhão, mas é como se fosse: as consequências serão notáveis.

No Brasil, a prática costuma contradizer a teoria. Nosso presidencialismo está-se transmutando em parlamentarismo de facto. Após tantos anos de um Executivo onipotente acolitado por congresso submisso, a virada é notícia animadora.

Aperfeiçoamentos terão de vir, ressalte-se. Para viabilizar o novo modelo, é imperioso implantar voto distrital e cláusula de barreira. Mas há um tempo pra tudo. Por ora, festejemos a revolução que se desenrola diante de nossos olhos e façamos votos para que o reequilíbrio entre poderes seja duradouro. Será bom para todos nós. Que os anjos digam amém.

Paredón

José Horta Manzano

Cuba 1Muita gente se entusiasmou quando, naquele final dos anos 50, o ditador cubano Fulgencio Batista foi posto pra correr pela revolución liderada por um bando de jovens. Indivíduos vinculados ao regime deposto foram sumariamente executados diante do paredón, mas isso foi posto na conta dos inevitáveis excessos engendrados por toda mudança política brusca.

Desde que o colonizador espanhol se retirara, no alvorecer do século XX, a ilha se tinha tornado colônia informal dos EUA. O clima tropical, os costumes permissivos, a proximidade das costas americanas faziam que endinheirados escolhessem Havana para um fim de semana descontraído, de jogo, diversão e bebedeira. Alguns chegavam a apelidar Cuba de “bordel dos Estados Unidos”.

Fato é que o regime ditatorial se assentava na corrupção. Mal comparando, assemelhava-se a um Brasil atual com menor liberdade de expressão. Aos amigos do rei, tudo era permitido. Para os outros, sobrava a lei.

A revolución que derrubou o sistema deixou muita gente animada. Finalmente, a distribuição das futuras riquezas prometia ser justa e equilibrada. Havia de trazer bem-estar a todos.

Cuba 2Acontece que o ansiado futuro não veio tão radioso como se esperava. A gangue, que tinha chegado ao poder carregada nos braços do povo, tomou gosto pelas benesses. É próprio da natureza humana. O resultado foi a cristalização do país, que estagnou e parou no tempo. Até hoje, passados quase 60 anos, o povo ainda vive em estado de insegurança alimentar. Não têm dinheiro, nem autorização, nem esperança de viajar para o exterior.

Mas as coisas mudam. A reaproximação que ora se inicia entre EUA e Cuba, inconcebível até poucos anos atrás, prenuncia um desgelo acelerado. Não vai demorar muito para que o atual regime dos bondosos irmãos Castro seja varrido pela história e morra de morte morrida.

Lula e Fidel 2

Muita gente acredita que Cuba se transformará num Estado de tipo chinês, comunista de direito mas capitalista de facto. Eu não tenho essa ilusão. A ilha é pequena. A proximidade geográfica do grande irmão do norte é fator importante. A diáspora cubana, baseada na vizinha Florida, tem poder financeiro suficiente para influenciar a política da pátria mãe. Não vão permitir que a nomenklatura cozinhe o galo em água fria por décadas.

Fico aqui a perguntar-me: como será conhecido, no futuro, este meio século em que direitos básicos dos cidadãos da ilha ficaram entre parênteses? Hoje, o nome oficial do movimento é Revolución Cubana. Como se referirão a ela os cidadãos do século 22?

Não me espantaria que a denominação oficial tivesse o mesmo fim de nosso movimento militar de 1964. É mais que provável que, de revolución, seja degradada a mero golpe.