Que se danem!

José Horta Manzano

Toda seita é composta de adeptos aglutinados em torno de um guru. Quanto mais carismático e manipulador for o mentor, mais o grupo tenderá a se fanatizar.

Este blogueiro se lembra de um fato que estarreceu o mundo. Aconteceu 40 anos atrás, razão pela qual o distinto leitor ‒ que talvez nem fosse nascido ‒ pode não ter assistido. Foi o drama que exterminou uma seita nascida nos EUA e denominada People’s Temple (Templo do Povo).

Jim Jones, o paranoico guia supremo da seita, temia que os EUA fossem atacados por armas nucleares. Em 1977, para fugir ao perigo, trouxe cerca de mil adeptos para fundar um vilarejo na Guiana, nosso vizinho do norte. Ególatra, o pastor deu à aldeia o próprio nome: Jonestown.

Acontece que congressistas americanos andavam meio desconfiados de que algo estava errado com a seita. Uma comitiva, que incluía jornalistas, se dirigiu a Jonestown para investigar. Foi um desastre. Foram recebidos à bala.

Ao se dar conta de que o fim da brincadeira estava próximo, o guru resolveu suicidar-se. Mas foi mais longe: decidiu arrastar consigo todos os adeptos. Fez distribuir para todos um copinho de plástico com cianureto de potássio misturado com limonada. A quase totalidade dos fiéis aceitou de bom grado. Os poucos renitentes foram obrigados a tomar.

Uns poucos gatos pingados, que tinham conseguido refugiar-se na mata, sobreviveram e acionaram a polícia. Ao chegar, os agentes descobriram mais de 900 cadáveres e um mar de copos de plástico.

A descida aos infernos do Lula me lembrou esse episódio. Ao se dar conta de que chegou ao fim da linha, nosso guru tropical decidiu arrastar o partido consigo. Durante quarenta anos, ele foi fiel à estratégia de podar o topete de todo militante que se mostrasse capaz de assumir, um dia, a liderança da seita. Nunca designou braço direito e muito menos sucessor.

Chegada a hora em que a porca torce o rabo, o guia tinha uma derradeira ocasião para se redimir. Bastava apontar explicitamente o adepto que deveria continuar a luta. Mostrando o imenso desprezo que tem pelos afiliados ao partido, não o fez. Disse que Manuela d’Avila e Guilherme Boulos(*) são «bons candidatos» para a eleição presidencial.

Ora, todos sabem que esses dois não são afiliados ao partido e não têm a menor chance de chegar ao segundo turno. Todos sabem que Jacques Wagner e Fernando Haddad, membros da seita, teriam perspectiva melhor de sucesso.

Até na queda, o Lula mostra a aura escura que lhe envolve a personalidade. A conclusão é inevitável. Na cabeça do guru, o veredicto é taxativo: «se não vai de eu, vai de eu mesmo». Traduzindo para linguagem mais inteligível: se não for eu o chefe, que se dane a seita.

(*) Boulos é a forma árabe do nome Paulo.

De guayabera

José Horta Manzano

Continuo intrigado com o fato de alguns analistas de projeção nacional ainda parecerem receosos de que o Lula se candidate em 2018 e ‒ pior ainda ‒ que volte à presidência da República. É insensato. Senão, vejamos.

O discreto Instituto Paraná Pesquisas, que não é conhecido por estar particularmente chegado a nenhum partido ou movimento político, publicou, duas semanas atrás, sondagem que constatava que 62% dos entrevistados achavam que o Lula devia ir preso. Isso foi antes da sentença condenatória do Tribunal Federal de Curitiba.

Em pesquisa mais recente, saída do forno este fim de semana, o mesmo instituto informa que 65,5% dos eleitores consideram que o ex-presidente recebeu sentença justa. Não ficou claro se os demais teriam sido mais clementes ou, quem sabe, até mais impiedosos. Resumo da ópera: dois em cada três brasileiros descartam o antigo operário. Recusam-se a votar nele.

De guayabera

O homem é, visivelmente, carta fora do baralho eleitoral. Se um diminuto grupo de fiéis ainda o acompanha, não será por cegueira ideológica, mas por cálculo político. No desespero, náufragos costumam abraçar-se a qualquer tronco que ainda dê a aparência de flutuar.

Prova disso é a «Emenda Lula», proposta por um deputado federal, visando a impedir a prisão de candidatos a postos eletivos a partir de oito meses(!) antes da eleição. A proposta silencia sobre o que acontecerá caso os candidatos ameaçados de encarceramento não se consigam eleger. De fato, não se pode garantir blindagem a derrotados. Passado o dia da votação, a vulnerabilidade de cada um deles volta. É da vida.

Em artigo publicado no Estadão deste domingo, a excelente analista Vera Magalhães compara os últimos seguidores do guia a adeptos de seita radical subjugados pela devoção incondicional ao guru, pessoas que se recusam a aceitar que o cenário mudou.

Quando um acusado se encontra na situaçao em que está o guia caído, mais inteligente seria eclipsar-se e recolher-se à humildade. Ameaçar, atacar, vituperar não é boa estratégia. Vociferar contra a mídia, o Ministério Público, a magistratura é péssima escolha: só serve para acirrar ânimos e reforçar antipatias.

Guayabera para todos

Que ninguém se engane. Se a situação do ex-presidente já é complicada, tende a tornar-se insuportável à medida que novas condenações forem aparecendo. Com ou sem a extravagante emenda, ele não será mais eleito para a presidência. Se quiser efetivamente escapar à prisão, há caminho mais promissor.

Um pedido de asilo apresentado ao governo cubano tem todas as chances de ser aceito. Mr. Trump, que já se mostrou contrário a toda aproximação com a ilha caribenha, foi eleito por quatro anos. Não será surpreendente que, em seguida, seja reeleito. Nosso guia, que completa 72 primaveras este ano, terá assim oito anos de tranquilidade nas cercanias de Havana. Basta comprar um par de guayaberas (ou de abrigos Adidas, conforme o gosto), e pronto.

De seu exílio dourado, ele poderá continuar esbravejando contra tudo e contra todos. Passados os anos de autoexílio, terá direito ao indulto humanitário que nossa benevolente justiça costuma conceder a anciãos, por mais graves que tenham sido seus crimes. E voltará, tranquilo, para viver um ocaso dourado num sítio cedido por algum dos últimos fiéis.

Viva a República?

José Horta Manzano

Qual é a diferença entre religião e seita? Religião é uma seita que deu certo. Parece cínico, mas assim é. Tome o cristianismo, por exemplo. Dois mil anos atrás, não passava de seita ‒ uma dissensão do judaísmo ‒ cujos fiéis eram obrigados a praticar às escondidas. O tempo passou, o número de fiéis cresceu e o reconhecimento público acabou por chegar. A consagração da seita veio quando o imperador romano Constantino a impôs como religião oficial de Estado. Pronto: o estatuto de religião estava adquirido.

D. Pedro II óleo de Delfim da Câmara (1834-1916)

D. Pedro II
óleo de Delfim da Câmara (1834-1916)

No calendário oficial brasileiro, comemora-se hoje o que se convencionou chamar de Proclamação da República, ou seja, a substituição do regime monárquico pelo republicano. Na escola, nos ensinam que, assim como quem não quer nada, um chefe militar chamado Manuel Deodoro da Fonseca, num dia em que se tinha levantado adoentado e de mau humor, dirigiu-se ao Paço Imperial e intimou ao imperador que descesse do trono porque a monarquia estava extinta.

Não passava de quartelada, descarado imbróglio oportunista apimentado com ignorância, desavenças pessoais, vinganças políticas e mal-entendidos. Dado que o imperador, homem pacífico e de bom senso, se recusou a acionar a tropa para defender o trono, o golpe militar deu certo. Nem os mentores imaginavam que a transição pudesse ser tão tranquila.

Embora tenha sido tramado em segredo por um punhado de conspiradores sem nenhuma participação popular, o estratagema foi bem-sucedido. Tanto o chefe de Estado quanto o governo inteiro foram derrubados à força, sem processo, sem impeachment, sem plebiscito. Como deu certo, comemora-se.

Primeiro (e único) número do Boletim da Republica Brasileira celebrando o 1° anno da luz (?)

Primeiro (e único) número do Boletim da Republica Brasileira
celebrando o 1° anno da luz (?)

No entanto, que se saiba, o novo regime não resolveu nenhum problema do país. Pelo contrário, o desaparecimento de um chefe de Estado permanente, garantido e de pouca influência no dia a dia da nação só fez aumentar a instabilidade. Eliminada a âncora, o barco balouça, aderna e ameaça soçobrar.

É certo que um descendente de Dom Pedro II ‒ engessado por uma Constituição e dotado de poder meramente representativo ‒ na chefia do Estado teria sido melhor que um Lula ou uma Dilma. Aliás, esses dois trágicos personagens da história recente deixam patente que nossa República, apesar da insistência dos livros de História, francamente não deu certo. É golpe que se prolonga há 127 anos. É religião que não chegou lá: continua no estágio de seita. Desde 1889, tentam nos vender a imagem de que nosso regime republicano é melhor que o monárquico. Continuo desconfiando que não é bem assim.

De eufemismos e distorções

José Horta Manzano

Petrobras 3Crise
Por que se fala em «crise na Petrobras» quando o que houve foi pilhagem da Petrobrás? Covenhamos, a crise não é na petroleira, atinge todo o andar de cima da ultraestratificada sociedade brasileira. Aliás, além de dona Dilma, quem garante que a pilhagem terminou?

Interligne 28aDiferenciado
Por que será que «diferenciado» substituiu diferente? Há de ser para marcar uma diferença ainda maior.
Os delinquentes que assaltaram ontem o cardeal-arcebispo do Rio pediram desculpas ao prelado. Mas cometeram o crime assim mesmo. Terão dado a Sua Eminência um tratamento… «diferenciado»? Será isso mesmo?

Interligne 28aViolência
Por que razão todos nós nos limitamos a apontar a atual «onda de violência» quando, na verdade, se trata de onda de crime?

Interligne 28aManif 9Ativismo
Por que chamamos «ativistas» os energúmenos que provocam baderna em praça pública? Arruaceiros é o que são.

Interligne 28aPerformance
Por que, diabos, usamos a expressão «performance» ― bizarro híbrido anglofrancês ― quando nosso velho desempenho dá o mesmo recado?

Interligne 28aRanking
Por que usar «ranking» em substituição à tradicional classificação? Ranking é filhote da mesma raiz ‘reg’ que desembocou em rei, regulamento, régua e regra. Ranking traz embutida a ideia de fila indiana, de ordenamento militar. Classificação tem mais classe.

Interligne 28aFacção
Os agrupamentos de facínoras que povoam prisões e ruas não merecem o sofisticado título de «facção». É nobre demais. Que se os chame por nome mais adequado: bando, quadrilha, gangue.

Interligne 28aCom certeza
Em português, assim como em numerosas outras línguas, usa-se a locução «com certeza» justamente em situações em que não se tem muita certeza. O uso tradicional costumava ser:
«Onde estará Joãozinho? Já é tarde, e ainda não chegou.»
«Ah, com certeza ficou trabalhando até mais tarde.»

O sentido da expressão tem-se invertido estes últimos tempos. Passou a designar exatamente aquilo que é certo, seguro, garantido. Por exemplo:
«Então, você vai ao comício do palhaço Itaparica?»
«Com certeza! Não perco uma fala daquele candidato.»

Interligne 28aComunidadeComunidade
Comunidade sempre foi um conceito vago, abrangente, pau para toda obra. O que se costuma definir como palavra-ônibus. Costumava ser usada como termo complementar. Uma vez que já se sabia do que se estava falando, comunidade podia substituir o substantivo principal para quebrar a monotonia. De uns tempos pra cá, comunidade assumiu valor absoluto. É usada sem maiores detalhes, tornando a comunicação imprecisa.

Se alguém lhe disser: «Lá, na minha comunidade, somos todos gente fina.», você vai entender que todos são gente boa, mas ficará sem saber que espécie de comunidade é. Melhor será refrear-se de ceder ao modismo. Vamos guardar o nome específico de cada comunidade. Favela, associação, cortiço, bairro, povoado, cadeia, seita, clube, vila, quilombo, grêmio são comunidades. Mas cada um desses nomes encerra realidade diferente. Vamos dar nome aos bois?

Bandeirolas

José Horta Manzano

Pouco tempo atrás, eu já disse aqui que a ong Greenpeace, de paz, só tem o nome. É considerada organização terrorista. Diversos governos a põem na mesma categoria dos camicases do Oriente Médio.

Eu enxergo essa organização como uma espécie de seita, uma teia de aranha em que indivíduos bem-intencionados, mas incautos, se arrolam. Em seguida, enroscam-se na engrenagem e não conseguem mais se safar. Sem se dar conta, acabam fazendo tudo o que seu mestre mandar.

Ativistas de Greenpeace na Rússia by Alex

Ativistas de Greenpeace na Rússia
by Alex

A mais recente façanha do grupo ― um verdadeiro coup d’éclat ― foi a tentativa de abordagem de uma plataforma petrolífera russa, em protesto contra a exploração de óleo em águas árticas. Um gesto inócuo, sem utilidade prática. Pode até servir para glorificar a própria ong e para angariar fundos, mas tem efeito nulo sobre a persistência e a determinação das autoridades russas.

Espertos, os dirigentes da ong sortiram a equipe de ativistas com 30 jovens originários de uma vintena de países diferentes. Pensaram, assim, diluir a fúria das autoridades locais. Caso surgissem problemas, quanto maior o número de governos protestando junto às autoridades de Moscou, maior seria a repercussão. Quanto mais alarido, melhor.

Deu mais ou menos certo. Os intrusos foram, naturalmente, pilhados e apanhados pelos guardiães da plataforma. A vintena de governos cujos cidadãos tinham sido detidos protestaram com moderação e acentuada cautela. Afinal, não interessa a governo nenhum meter-se mal com Moscou por causa de meia dúzia de quixotes instrumentalizados por interesses absconsos.

Como resultado, já vai para dois meses que os jovens ― bem-intencionados, mas desmiolados ― conhecem a delícia de estar hospedado em cárceres russos. O inverno está aí. Todos sabem que mais vale passar uma semana de férias em Fernando de Noronha que um ano encerrado numa prisão siberiana. Num inverno de 10 meses por ano.

Na manhã desta quarta-feira 6 de novembro, meia dúzia de jovens encapotados subiram a bordo de um pequeno barco pneumático e deram um rápido passeio no rio Moscova, o curso d’água que corta a capital da Rússia. Convocaram algumas testemunhas para a cena e se deixaram fotografar quando desfraldavam bandeirolas pedindo liberdade para os 30 prisioneiros.

Greenpeace navegando no Rio Moscova Crédito: Vasily Maximov, AFP

Greenpeace navegando no Rio Moscova
Crédito: Vasily Maximov, AFP

É por aí que deviam ter começado, por operações pacíficas. Desde que o mundo é mundo, ações terroristas e demonstrações escandalizadas nunca ganharam guerras. Mais vale um bom acerto de bastidores do que uma gritaria. A algazarra será esquecida amanhã, ao passo que o discreto acordo periga ser cumprido.

Antes de invadir propriedade alheia, é bom estar certo de dispor de força suficiente para garantir a conquista. Quem não contar com um exército capaz de enfrentar os dignos sucessores do temido Exército Vermelho não deve se meter com os russos.

O resultado está aí: crédulos ativistas vão ver o sol siberiano nascer quadrado durante um bom tempo. Enquanto preparam seu novo golpe, os bondosos dirigentes da organização mandam um grupo subir num barquinho e agitar bandeirolas.