A salsicha e a pizza

José Horta Manzano

Nosso país é engraçado. Desde sempre, a gente se acostumou a ir dormir sem certeza de que leis e regras serão as mesmas no dia seguinte. Estes últimos meses, as «otoridades» que nos dirigem ‒ grande parte delas eleitas por nós ‒ não deixam passar um dia sem confirmar o chavão.

Razão tinha o estadista prussiano Otto von Bismarck (1815-1898) quando disse que «se a humanidade soubesse como são feitas as salsichas e as leis, teria pesadelos à noite». Para abrasileirar a máxima, basta substituir as salsichas por pizzas. Pronto, cai como luva!

Otto von Bismarck (1815-1898)

Otto von Bismarck (1815-1898)

O distinto leitor há de ter reparado que, nestes tempos estranhos, tudo termina diante de um juiz. Desde briga de vizinhos até diferendo entre Poderes da República, os problemas deixaram de ser resolvidos pelas partes envolvidas. Tornou-se automática a intervenção de terceiros. Por um sim, por um não, contendores entregam a outrem o encargo de encontrar solução.

E olhe que não será por falta de lei. Temos uma longuíssima Constituição que, em quase 250 artigos, está aí pra dar a linha mestra. Além dela, dispomos de invejável arsenal legislativo cuja extensão é de deixar babando de inveja o mais burocrático dos países. No entanto, interesses pessoais e corporativos costumam falar mais alto. Na hora do vamos ver, ninguém arreda pé. A intervenção de terceiros é indispensável.

Só que tem uma coisa: engana-se quem acredita na absoluta neutralidade de quem quer que seja. Terceiros, sejam eles quem forem, nunca serão neutros. Somos todos feitos da mesma matéria, tanto o trabalhador mais humilde quanto o ministro da Suprema Corte. Na hora de dar razão a este ou àquele, a decisão passará antes pelo filtro pessoal de quem julga.

TribunalPor isso, essa história de «julgamento isento» não existe. Quando chega, a decisão do juiz já atravessou um túnel pessoal, uma teia de interesses. Dinheiro, religião, raça, corporação, família política, ideologia, vingança, ‘toma lá dá cá’ entram em linha de conta. Até mera simpatia pesa na balança. E olhe que não estou mencionando suspeita de conchavos e acordões que ‒ Deus nos livre! ‒ não existem em nosso país.

Bom senso está-se tornando mercadoria escassa. A esmagadora maioria dos processos judiciais não tem razão de ser. Naturalmente, não estou falando de crime. Corrupção é crime e os autores têm de ser denunciados, processados, julgados e castigados. O mesmo caminho deve ser reservado a todo ato criminal.

Quando o problema é político, um pouco de bom senso evita muito dissabor e muito ressentimento. Tivesse o presidente do Senado renunciado ao cargo ‒ digo bem ao cargo, não ao mandato ‒ teria escapado dos holofotes e deixado impressão de atitude lógica e racional.

Supremo Tribunal Federal, Brasília

Supremo Tribunal Federal, Brasília

Preferiu ser marrudinho. Resultado: semeou cizânia no STF, mostrou-se antipático e arrogante. Assim mesmo, acabou perdendo prerrogativas da função, o que o tornou um esdrúxulo «meio senador». Para completar, acrescentou nomes à sua já longa lista de inimigos e desafetos.

O agora «semissenador» ‒ aquele que não serve para presidente do Executivo mas pode exercer a chefia do Legislativo ‒ se esquece de que vingança é prato que se come frio. Teria sido tão simples se, de sua própria iniciativa, tivesse renunciado à presidência da Casa. Não o fez. Desta vez, ganhou a parada mas, daqui para a frente, vai ser difícil que, para ele, tudo continue terminando em pizza. Ou em salsicha.

Diplomacia cucaracha

José Horta Manzano

Em casa:
‒ Menino, vá até a padaria comprar meia dúzia de pãezinhos.

‒ Ah, mãe, agora tô jogando bola.

‒ Se você for agora, dou dinheiro pra você comprar sorvete.

Interligne 28a

No treinamento de atletas:
‒ Quem ganhar uma medalha leva um prêmio de dez mil reais.

Interligne 28aNa gerência de vendas:
‒ Quem ultrapassar a meta este mês ganha um fim de semana num spa.

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Na reunião entre o governo turco e a União Europeia:
‒ Hordas de imigrantes ilegais têm chegado à Europa atravessando o território turco. Vocês precisam fazer alguma coisa pra barrar essa invasão!

‒ Podemos estudar o assunto. Mas queremos alguma vantagem em troca. O que é que a UE nos oferece?

‒ Podemos dar-lhes uma ajuda de 3 bilhões de euros e estudar eliminar o visto de entrada na União para cidadãos turcos.

Interligne 28a

É assim que vai a vida desde que o mundo é mundo. O finado governo brasileiro não foi o inventor do «toma lá, dá cá». Toda negociação ‒ seja ela entre mãe e filho, entre parceiros, entre adversários ou entre governos ‒ implica troca de gentilezas. Cede-se isto pra colher aquilo. Abre-se mão de algo pra conseguir o que se quer. A diplomacia nada mais é que a arte da negociação elevada ao nível governamental.

Como sabemos todos, a Venezuela entrou no Mercosul pela porta dos fundos, na esteira de um golpe malandro. Foi quando o governo do Brasil, da Argentina e do Uruguai se acumpliciaram para suspender o Paraguai e deixar entrar, na calada, a república bolivariana.

Diplomacia 1Caído o estranho projeto de poder que nos dominava, o Estado brasileiro começou a voltar aos eixos. A caminhada será longa. Semana passada, nosso chanceler teve encontro com seu homólogo uruguaio para deliberar sobre a entrega da presidência do Mercosul ao folclórico señor Maduro. Embora reuniões dessa natureza não devessem, em princípio, ser objeto de divulgação na mídia, todos ficaram sabendo. Deu no que deu. Gente que não entende do assunto meteu o bedelho.

Não se sabe se por má-fé ou por incompetência ‒ tendo a apostar na segunda possibilidade ‒ o chanceler uruguaio andou declarando que o Brasil «tentou comprar» a adesão de Montevidéu à tese brasileira de que Caracas não está em condições de presidir o bloco. À vista da reação indignada do Itamaraty, o ministro uruguaio desdisse o que havia afirmado. Ficou combinado que tudo não passou de um «mal-entendido».

Mercosul 4Resta a impressão de que o Brasil não é o único a confiar assuntos sérios a gente pouco qualificada. Nós já nos livramos dos inefáveis figurões que desgraçaram a diplomacia brasileira durante os últimos 13 anos. Falta o Uruguai fazer a lição de casa.

Vale lembrar o que dizem os italianos: «certe cose non si dicono, si fanno» ‒ certas coisas não se dizem, se fazem. O segredo continua sendo a alma do negócio, mormente em tratativas entre Estados.

Interligne 18h

Pra arrematar:
Dona Dilma, cujo ponto forte não é exatamente a sutileza diplomática, houve por bem manifestar-se sobre o episódio. Disse que o Brasil não é imperialista e não pode comprar nenhum país. Como de costume, a presidente emérita não entendeu o que aconteceu. Negociação, sem dúvida, não faz parte do ideário da doutora.

Dr. Jekyll & Mr. Hyde

José Horta Manzano

Biografia

A maioria de nós escolhe levar uma existência discreta, corriqueira, comum. Há os que ― por motivos profissionais ou não ― tornam-se conhecidos além do estreito círculo familiar e profissional. Tornam-se personagens públicos. Podem ser artistas, políticos, esportistas, milionários, grandes empresários. Bandidos de grande fama também entram nessa categoria. Quem puser um pé nessa seara fica marcado pelo resto da vida.

Greta Garbo (1905-1990), de origem sueca, era uma linda e famosa atriz de cinema nos anos 20 e 30. Deve ter partido muitos corações naquele tempos. No cinema, no entanto, teve carreira curta. Aos 36 anos, abandonou a vida artística, retirou-se e passou a viver reclusa. Não queria mais ser vista por ninguém. Mas não houve jeito: foi perseguida por fotógrafos e repórteres até seu último dia. Alguns anos após seu falecimento, no ano em que comemoraria 100 anos de nascimento, o governo sueco autorizou até que suas cartas pessoais fossem publicadas.

Tenho lido estes dias que alguns artistas brasileiros se opõem a que se publiquem suas biografias sem o consentimento expresso do biografrado. Parece-me incongruente. Acho que as coisas são ou não são. Todos temos um pouco de Dr. Jekyll e uma dose de Mr. Hyde. Nos mortais comuns ― a maioria da humanidade ― isso passa despercebido. Ninguém está realmente interessado em conhecer os desvãos da personalidade alheia.

Biografia

Já o mesmo não acontece com relação a figuras públicas. É natural que detalhes da história de um artista ou de um político de renome interessem mais do que as peripécias de um zé qualquer. Alguns dizem que esse é o preço da fama.

Por coerência, artistas não podem se opor a que se lhes investigue a vida. A remuneração deles vem de um público pagante e entusiasta que lhes cultua a personalidade. É normal que retribuam, que satisfaçam a curiosidade de seus fãs.

Ocupantes de cargos públicos têm (ou teriam) de declarar seu patrimônio ao chegar e ao sair. Isso me parece normal. Não é invasão de privacidade. Eles têm de declarar todo o patrimônio, não somente a parte que lhes interessa, escondendo o resto.

Por que seria diferente com os que atuam no mundo do espetáculo? Não me parece que possam selecionar as informações publicáveis, escondendo as outras.

Na vida, tem o toma lá. Mas tem também o dá cá. Nada sai de graça.