Ressignificando

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Aula de ciências naturais e biológicas em um abrigo 5 estrelas para cães

Professora
Bom, meus queridos alunos, hoje eu queria falar um pouco sobre a teoria da evolução das espécies. Embora ela não tenha sido formulada por um de nós, nossos cientistas corroboraram suas descobertas. Acho importante que vocês a conheçam porque ela nos ajuda a entender melhor como se deu nosso processo de domesticação… Como vocês já devem saber, nossa espécie evoluiu a partir dos lobos…

Aluno 1
Péra aí, fessora. Eu não descendo de lobo, não. Nunca ataquei nem mordi ninguém e sempre respeitei tanto meus coleguinhas de grupo quanto meus tutores. Essa teoria aí que a senhora tá falando, acho que só vale pros cachorros pretos e de rua.

Professora
Que absurdo, garoto! Quem foi que te disse uma asneira dessas?

Aluno 1
Foi meu pastor, que, por sinal, não é alemão, mas suíço porque é todo branco. Ele disse – e meu pai confirmou – que foi o Deus de Quatro Patas quem criou a raça dos golden retriever. Pode ver, entre nós só tem criaturas com essa carinha de anjo que conquista tantos humanos. Isso sem falar de nosso lindo pelo dourado…

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Professora
Não, meu amor, você deve ter entendido mal. Está certo que, segundo a religião dominante entre nós, Deus criou todos os seres vivos. Mas uma coisa não anula a outra, a ciência já comprovou que uma espécie foi evoluindo e se transformando em outra, a partir de um ancestral comum. No nosso caso, o ancestral comum é o lobo. E, através de sucessivos cruzamentos, eles deram origem a filhotes mais mansos e com pelagens de todas as cores, umas mais claras e outras mais escuras. Também é verdade que, ao longo do tempo, os humanos passaram a dar preferência aos de pelagem clara, acreditando que eles eram mais confiáveis e menos traiçoeiros porque estavam mais distantes da aparência selvagem de seus antepassados. Mas isso é lamentável, só demonstra a ignorância dessa gente que se orgulha de andar em duas patas. Muitos de nossos irmãos de pelagem escura acabaram sendo abandonados na rua por causa disso…

Aluno 2
Então, tia, minha mãe disse que esses escurinhos foram jogados nas ruas porque nunca aprenderam a viver em sociedade. Só sabiam comer e dormir e, de tão gordos, não serviam mais nem como reprodutores. Daí, como não tinham pai nem mãe por perto para cuidar deles, foram perdendo todos os limites. Não se envergonhavam de cruzar o tempo todo com qualquer cachorrinha que passasse por eles, até mesmo com as mais feias, que não mereciam o esforço. Alguns até subiam em outros machos, um horror, uma aberração. Não respeitavam mais nem nossas leis sagradas e chegaram ao ponto de adorar o diabo…

Professora
Não, querido, nada disso é verdade. Primeiro, nossa espécie ainda obedece aos instintos animais mais primitivos, não só o da violência, mas inclusive os de ordem sexual, e isso independe de raça. Segundo, quando um macho sobe em outro macho, ele está só querendo demonstrar dominância, não tem nada a ver com cópula. Finalmente, onde é que sua mãe estava com a cabeça para inventar uma barbaridade religiosa assim?

Aluno 2
É que lá perto da minha casa tem um centro de encontro dos cães pretos. Precisa ver como eles latem, uivam, pulam feito loucos, correm de um lado para outro, mordem e se esfregam uns nos outros, uma bagunça só…

Professora
Não é porque eles têm um ritual diferente do nosso que eles são adoradores do diabo. Acho que alguns teólogos caninos de classe média confundem aquele som de latido de hiena com o de uma gargalhada para propor uma estupidez dessas. Não se deixe impressionar por crenças tão disparatadas e respeite mais os princípios de outras religiões.

Aluno 3
É, pode ser que a senhora tenha razão. Mas já ouvi dizer que esse pessoal escurinho é do mal, dá azar para quem chega perto. Além disso, quando chega a hora da gente casar, nossos tutores não deixam a gente cruzar com as cadelas que frequentam esses centros. Cá pra nós, a gente também prefere aquelas fêmeas jeitosinhas, limpinhas e bem comportadas. Pra casar, tem de ser bela, recatada e do lar, pode conferir.

Aluno 4
Tem mais, professora. Não tem nada a ver essa estória de que nós temos de estender a pata para ajudar nossos irmãos desfavorecidos. Isso já era. Nosso líder de matilha anterior é que deu moleza a eles, só para continuar dando as cartas. Esse pessoal é folgado, não trabalha, vive pedindo comida e um cantinho para dormir. Se a gente engole o mimimi deles e abre o coração, eles ficam mamando nas nossas tetas o resto da vida, só sabem fazer baderna…

Aluno 5
Outro dia eu estava na minha aula de adestramento e um desses caras entrou com tudo na sala e pulou nas pernas da minha tutora. Coitada, ela ficou desesperada, foi um vexame só o carinha se esfregando nela, com a língua para fora. Não é justo. A gente que é do bem tem que suportar horas sem fim para aprender a obedecer a tantos comandos. Tem que tomar banho toda semana, passar perfume, sair na rua só com coleira e guia, usar gravatinha ou lacinho na cabeça, tem de respeitar as fêmeas do bairro e ainda não pode peitar os machos mais atrevidos. E aí vem um sujeito sem berço desses, quebra todas as regras de disciplina e ninguém faz nada. Esse tipo de cachorro tinha que ser mandado para um reformatório já na segunda vez que aprontar alguma e ainda levar um pau daqueles no lombo pra aprender de vez. Que nosso Deus me perdoe, mas às vezes acho melhor não perder tempo tentando domesticar esses sem noção. O que devia ser feito era, isso sim, colocar chumbinho na comida deles. Aí resolvia o problema para sempre.

Professora
Chega de tanta asneira, por hoje é só. Na semana que vem vamos conversar sobre como os animais gregários, como nós, aprenderam a desenvolver tolerância para sobreviver às calamidades naturais que impliquem falta de comida, de água, de território ou de parceiros sexuais. Procurem no Google outros detalhes sobre a evolução da nossa espécie. Se sobrar um tempinho, leiam também com atenção as informações sobre o conceito do choque entre a cultura e as pulsões caninas.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Golpe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sete e meia da manhã, toca o telefone. Atendo já um pouco apreensiva, pensando em quem poderia estar chamando àquela hora. Do outro lado, uma voz chorosa implora: “Mãe, me ajuda, mãe!”

Senti pela primeira vez o impulso de estender a mão àquela desconhecida, mas não disse nada. A voz desesperada da filha que eu nunca tive exigia de mim uma escuta terapêutica. Pareceu-me mais sábio apenas esperar pelo restante do discurso de praxe: “Mãe, fui sequestrada. Eles estão querendo me matar se você não der o que eles querem. Por favor, mãe, não desligue nem avise a polícia…”

Não aconteceu. Aparentemente ‒ refleti ‒ meu silêncio desarticulou a cabeça da moça. Sem saber ao certo como prosseguir, depois de uns segundos de hesitação, ela repetiu o pedido de ajuda, só colocando um pouco mais de ênfase na sua pretensa postura de fragilização: “Mãe, mãe…por favor, me ajuda, mãe!!!”

Senti uma onda de ternura tomar conta de mim. Afinal, aquela moça estava mesmo claramente necessitada de orientação materna. Era evidente que ela nunca tivera alguém que a aconselhasse, que lhe desse colo e a levasse a sério pelo menos uma vez na vida. Seria eu esse alguém?

Na dúvida, permaneci em silêncio. Mesmo assim, nas entrelinhas do mais absoluto mutismo, eu lhe disse tantas coisas… Falei da dor da impotência de toda mãe de não ser capaz de moldar o caráter dos filhos de acordo com seus valores mais caros. Repeti a cantilena religiosa de que, depois do pecado original, estamos todos condenados a ganhar a vida com o suor de nossos corpos. Perguntei por quais circunstâncias do destino ela escolhera recorrer a tramoias para sobreviver. Sem julgá-la, afirmei convicta que, em última instância, ela precisava ajudar a si mesma a encontrar o caminho do bem.

Não adiantou, ela não escutou minha maternagem silenciosa. Fez pouco do meu aconselhamento, não reconheceu o desabrochar tardio do meu instinto materno. Pena, eu já estava até gostando de estar em posição de orientar uma mulher adulta, sem ter tido o trabalho de amamentar, trocar fraldas, consolar nos tombos, encorajar as aventuras, educar, compartilhar segredos femininos.

A moça, infelizmente, não agarrou a oportunidade tão inusitada que eu lhe dava de personalizar o golpe, de demonstrar criatividade para, quem sabe, inaugurar uma nova franquia de crime. Continuou repetindo mecanicamente seu pedido de ajuda, como um disco quebrado. Comecei a me irritar. Parece que os jovens de hoje em dia, disse para meus botões, continuam a acreditar que envelhecimento é sinônimo de emburrecimento, lentidão de raciocínio, perda de iniciativa e de noção de lógica.

Aos poucos, fui esmorecendo na decisão de oferecer-lhe suporte. Começava a ficar claro que a hora da doutrinação tinha passado. O caráter da moça estava irremediavelmente formado, para o bem e para o mal. ‘Respeito não se exige, conquista-se’, repeti para mim mesma.

Desliguei.

Dentro de mim, no entanto, o diálogo mudo prosseguiu. Uma sensação amarga de tristeza subiu-me pela garganta. É que, inadvertidamente, ao tentar ajudar uma filha hipotética, eu acabei me dando conta de que meu tempo de gestação de rebentos à minha imagem e semelhança terminara.

Não dê muita importância a isso, a maternidade nunca foi mesmo para você ‒ consolei-me.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pressão do grupo e adestramento de humanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um dos experimentos mais interessantes, curiosos e instigantes de que tive notícia sobre a gênese de crenças irracionais foi feito com macacos.

Em linhas gerais, o estudo se propunha a identificar como nasce uma superstição. Para testar a hipótese de que o comportamento de um único indivíduo pode ser associado à ocorrência de um evento ameaçador para todo seu grupo de referência e, a partir daí, disseminar-se como crença, contaminando o comportamento dos demais, foram criadas as seguintes condições experimentais:

Macaco 2Um grupo de macacos era colocado dentro de uma jaula fechada por vidros, que possuía uma plataforma em seu centro. A plataforma era içada para o alto e, sobre ela, depositava-se um cacho de bananas. Todos os macacos eram ingênuos (isto é, nunca haviam estado dentro da jaula em questão) e estavam com fome. Naturalmente, um dos indivíduos, ao sentir o cheiro das bananas, tentava escalar a plataforma para ter acesso a elas. O que nenhum dos macacos sabia era que havia um sistema hidráulico embutido na plataforma que era acionado pelo peso. Tão logo o macaco pioneiro chegava ao topo e se sentava sobre a plataforma para comer as bananas, seu peso acionava uma bomba que inundava toda a gaiola, ameaçando a vida dos que estavam embaixo. Estes, desesperados com a possibilidade de afogamento, gritavam e se agitavam, na tentativa de escapar da jaula. Eventualmente, o macaco que estava em cima da plataforma deixava-se contaminar pelo clima de pânico geral e descia dela. A água parava então de jorrar e passava a ser drenada, pondo fim ao estresse do grupo.

Quando, mais tarde, um segundo macaco faminto escalava a plataforma, o mecanismo era novamente acionado e nova tensão recaía sobre o restante do grupo.  A situação se repetia até que os macacos passassem a associar a escalada com ameaça de morte para todos que não a fizessem. A partir desse momento, qualquer nova tentativa de subir na plataforma era impedida pelos demais, que agarravam o indivíduo afoito e o puxavam para baixo, antes que ele pudesse se sentar sobre ela.

Caixa vidroAssim que esse padrão de conduta tivesse se firmado, um dos macacos era retirado da gaiola e substituído por outro, ingênuo. Se este tentasse escalar a plataforma, era repelido pelos demais, sem que dispusesse de qualquer pista dos motivos que levavam o grupo a fazer isso. Os macacos eram então sucessivamente retirados um a um e trocados por novos indivíduos, até que todo o grupo fosse novamente constituído apenas por ingênuos. O que o experimento constatou foi que, independentemente do fato de desconhecerem os motivos da proibição da escalada e de estarem famintos, todos acabavam repetindo o comportamento “supersticioso”.

Não preciso nem dizer que, desde o dia em que soube desse estudo, fiquei imaginando como o fenômeno da superstição seria desencadeado na espécie humana. Sou filha de um homem extremamente supersticioso que, quando não sabia explicar o porquê de certas proibições, alegava brincando que “seu filho pode nascer sem dentes e sem cabelo”.

Há alguns dias, passeando por uma rede social, vi um vídeo que respondia em cheio às minhas indagações. Segundo as informações constantes da matéria, o estudo foi realizado por pesquisadores de uma universidade inglesa e consistia no seguinte: um grupo de pessoas aguardava sentado por uma consulta na antessala de uma clínica médica. Uma discreta campainha soava a intervalos regulares. Sem que nenhuma instrução fosse dada nesse sentido e sem qualquer comentário das pessoas presentes, a cada toque todos se levantavam por instantes e voltavam a se sentar. Uma jovem, ingênua, chega à clínica e estranha aquele comportamento. Sem saber como se comportar, ela permanece sentada por dois toques consecutivos, mas sucumbe à tentação de imitar o comportamento dos demais no terceiro. Os pacientes vão sendo chamados um a um e, em pouco tempo, só resta a jovem na sala de espera. Nesse momento, chega um rapaz ingênuo e senta-se ao lado da garota. Quando um novo toque de campainha soa, a jovem, mesmo sem a companhia dos que faziam isso anteriormente, levanta-se e volta a sentar-se. O rapaz interrompe a leitura de uma revista e questiona, perplexo, por que ela havia feito aquilo. A garota responde, sem graça, que não sabia exatamente, mas que, por outras pessoas terem agido daquela maneira quando ela chegara, “sentiu que deveria” agir da mesma forma. E acrescenta: “Quando passei a fazer isso, me senti muito melhor”.

Sala de espera 1O rapaz passa, então, a imitar o comportamento da jovem. Outros pacientes ingênuos chegam e, com maior ou menor grau de resistência, terminam todos por repetir o comportamento irracional. Segue-se uma rápida explicação dos pesquisadores a respeito de como nosso cérebro reage à pressão de grupo e como eventuais punições e recompensas vão, aos poucos, constituindo aquilo a que chamam de nossa “educação social”. Nada de muito novo nem espetacular, mas certamente uma descoberta que condensa de forma criativa e simples o desejo humano de inclusão no grupo – como já explicitava desde tempos imemoriais o ditado popular “Em Roma, age como os romanos”.

Não pude deixar de pensar na similitude entre esses dois experimentos e as demandas sociais a que estamos submetidos que corroboram minha tese de adestramento de humanos. Quem nunca hesitou antes de tomar um copo de leite com manga? Quem nunca acreditou que, para ser amado, é preciso ser belo? Quem nunca equiparou sucesso a dinheiro, casamento a felicidade ou solidão a morar só, admiração social a posse dos itens de moda? Quem nunca teve medo de que os céus se abrissem e um raio o fulminasse caso ousasse desrespeitar um credo religioso?

Galileu 1O preço a pagar pela decisão de seguir percurso próprio, mesmo que isso represente andar na contramão da história, pode ser tão alto quanto o de se deixar levar pela vontade de imitar a grande massa sem ouvir a voz do próprio coração. Duvida? Seria aconselhável, neste caso, estudar a biografia de Galileu Galilei, Albert Einstein ou Sigmund Freud. Depois, entrevistar profissionais que fizeram carreiras de sucesso meteórico até serem abatidos em pleno voo por um ataque cardíaco ou uma crise existencial. Ou conversar com uma diva do cinema ou televisão, eleita a mulher mais desejada do planeta, que se interna em uma clínica psiquiátrica na tentativa de aprender a lidar melhor com sua infelicidade no plano sexual e afetivo. Ou, ainda, mais contemporaneamente, aderir por puro cansaço à tese de que há base legal para o impeachment da presidente ou à de que tudo não passa de um “golpe”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A vida da manada é difícil

Pedro Valls Feu Rosa (*)

Animal 01Dia desses assisti a um daqueles documentários sobre a África, recheados de cenas de caça. O foco era exatamente este: os cuidados que a maioria dos bichos deve ter por conviver com espécies ferozes em um mesmo ambiente.

Achei muito interessante o ritual da hora de beber água, no final do dia. O primeiro a ir até o rio é o chefe da manada. Ele chega cauteloso, quase furtivo. Verifica com cuidado o ambiente, certificando-se de que lá não está nenhuma besta feroz à espreita.

Se a barra estiver limpa, ele retorna e chama o restante da manada. Vão todos às pressas, em uma correria desesperada causada não pela sede, mas pelo medo. É assim que chegam à beira do rio e começam a beber nervosamente, sempre olhando para os lados e controlando o ambiente. Ao redor, sempre vigilante, lá está o chefe da manada, pronto a dar o alarme caso alguma fera apareça.

Animal 02Neste caso, cada animal sabe o que fazer: sair numa correria desesperada. O último é sempre o chefe – que, para salvar o restante da manada, acaba virando comida de alguma besta feroz.

Confesso que a cada vez que assisto a um documentário desses choca-me principalmente a falta de dignidade imposta aos animais mais pacíficos, sempre obrigados a viver às escondidas ou correndo de um lado para o outro. As atividades mais banais, tais como pastar ou beber água, se transformam em momentos de risco, nos quais a dignidade vai cedendo espaço ao instinto de sobrevivência.

Pois é. Assim é a vida lá nas selvas da África. Mas, mudando de assunto, há alguns dias saí para jantar fora com um casal amigo. Eles resolveram levar os dois filhos, ainda crianças. Vivemos momentos agradáveis. Por volta das oito da noite, fomos embora.

Animal 03Impressionou-me, então, o treinamento da família. O primeiro a sair do restaurante foi o meu amigo. Olhou para um lado e para o outro, foi até o carro, contornou-o, certificando-se de que não havia ninguém perto e, de lá, fez um sinal de positivo para a esposa e os dois filhos.

Estes, então, disciplinadamente, saíram quase correndo rumo ao carro. Cada um já sabia o que fazer, abrindo sua porta e entrando apressadamente. Enquanto isso o motor estava sendo ligado e o veículo preparado para sair. Confesso que não cheguei a cronometrar quanto tempo durou esta operação, mas posso dizer que consumiu menos de 30 segundos.

Animal 04Conversando depois com meu amigo, fui informado de que toda a família passou realmente por um treinamento. E acrescentou que, em caso de emergência, todos já estão preparados. Assim, ele deverá ficar e encarar a situação do jeito que for possível – e se não for possível, que se sacrifique pelos demais. Quanto à esposa e filhos, estes deverão sair correndo desenfreadamente, cada um para um lado, abanando os braços e gritando por socorro.

Mas, perdoem-me, ainda sobre a África aprendi algo interessante naquele documentário. Disseram que uma das maneiras de diferenciar um animal pacífico de um violento é através dos olhos.

Animal 05Eis aí algo curioso, que eu ainda não havia observado: os olhos dos animais mansos ficam na lateral da cabeça – posição que torna mais fácil controlar o ambiente ao redor. Em resumo, dá para vigiar melhor se alguma fera está se aproximando. Já quanto a estas, os olhos invariavelmente ficam na frente do crânio, possibilitando um maior foco nas vítimas e uma caçada mais eficiente.

E é assim, inspirado pela vida nas selvas, que fico a pensar se não deveríamos ter os olhos ao lado das orelhas…

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(*) Pedro Valls Feu Rosa é desembargador. Foi presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Fonte do texto.