O aprendizado é longo

José Horta Manzano

Viagem de chefe de Estado ao estrangeiro não é algo banal. Por razões de segurança, importante preparação logística precede a visita. Tudo é estudado, pensado, inspecionado ‒ desde o alojamento onde o visitante vai-se hospedar até a comida que lhe será servida.

Um dos momentos mais observados, que fará certamente manchete na mídia, é a descida da escadaria do avião. Todo um ritual envolve a recepção. Não se deve descer escadaria de avião presidencial como quem descesse a escada de casa, indo do quarto para a sala.

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Essa tropa que se vê na foto, descendo todos ao mesmo tempo como um bando de turistas, pega mal pra caramba. Mostra que nossos especialistas em cerimonial ainda não apreenderam certas sutilezas. Ou, pior, deixa claro que o andar de cima ainda não absorveu a lição.

Comportamentos que se podiam relevar num Lula ou numa Dilma são inadmissíveis numa equipe civilizada.

Observe o distinto leitor como fazem outros chefes de Estado. Além da esposa ‒ e, eventualmente, de membros da família ‒, ninguém mais desce a escada ao mesmo tempo. Primeiro, espera-se que o número um seja recebido. Só então, sai o resto da turma. Preste atenção.

Ainda não chegamos lá.

Diplomacia cucaracha

José Horta Manzano

Em casa:
‒ Menino, vá até a padaria comprar meia dúzia de pãezinhos.

‒ Ah, mãe, agora tô jogando bola.

‒ Se você for agora, dou dinheiro pra você comprar sorvete.

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No treinamento de atletas:
‒ Quem ganhar uma medalha leva um prêmio de dez mil reais.

Interligne 28aNa gerência de vendas:
‒ Quem ultrapassar a meta este mês ganha um fim de semana num spa.

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Na reunião entre o governo turco e a União Europeia:
‒ Hordas de imigrantes ilegais têm chegado à Europa atravessando o território turco. Vocês precisam fazer alguma coisa pra barrar essa invasão!

‒ Podemos estudar o assunto. Mas queremos alguma vantagem em troca. O que é que a UE nos oferece?

‒ Podemos dar-lhes uma ajuda de 3 bilhões de euros e estudar eliminar o visto de entrada na União para cidadãos turcos.

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É assim que vai a vida desde que o mundo é mundo. O finado governo brasileiro não foi o inventor do «toma lá, dá cá». Toda negociação ‒ seja ela entre mãe e filho, entre parceiros, entre adversários ou entre governos ‒ implica troca de gentilezas. Cede-se isto pra colher aquilo. Abre-se mão de algo pra conseguir o que se quer. A diplomacia nada mais é que a arte da negociação elevada ao nível governamental.

Como sabemos todos, a Venezuela entrou no Mercosul pela porta dos fundos, na esteira de um golpe malandro. Foi quando o governo do Brasil, da Argentina e do Uruguai se acumpliciaram para suspender o Paraguai e deixar entrar, na calada, a república bolivariana.

Diplomacia 1Caído o estranho projeto de poder que nos dominava, o Estado brasileiro começou a voltar aos eixos. A caminhada será longa. Semana passada, nosso chanceler teve encontro com seu homólogo uruguaio para deliberar sobre a entrega da presidência do Mercosul ao folclórico señor Maduro. Embora reuniões dessa natureza não devessem, em princípio, ser objeto de divulgação na mídia, todos ficaram sabendo. Deu no que deu. Gente que não entende do assunto meteu o bedelho.

Não se sabe se por má-fé ou por incompetência ‒ tendo a apostar na segunda possibilidade ‒ o chanceler uruguaio andou declarando que o Brasil «tentou comprar» a adesão de Montevidéu à tese brasileira de que Caracas não está em condições de presidir o bloco. À vista da reação indignada do Itamaraty, o ministro uruguaio desdisse o que havia afirmado. Ficou combinado que tudo não passou de um «mal-entendido».

Mercosul 4Resta a impressão de que o Brasil não é o único a confiar assuntos sérios a gente pouco qualificada. Nós já nos livramos dos inefáveis figurões que desgraçaram a diplomacia brasileira durante os últimos 13 anos. Falta o Uruguai fazer a lição de casa.

Vale lembrar o que dizem os italianos: «certe cose non si dicono, si fanno» ‒ certas coisas não se dizem, se fazem. O segredo continua sendo a alma do negócio, mormente em tratativas entre Estados.

Interligne 18h

Pra arrematar:
Dona Dilma, cujo ponto forte não é exatamente a sutileza diplomática, houve por bem manifestar-se sobre o episódio. Disse que o Brasil não é imperialista e não pode comprar nenhum país. Como de costume, a presidente emérita não entendeu o que aconteceu. Negociação, sem dúvida, não faz parte do ideário da doutora.