Os crimes da mala e o cadáver do Brasil

Ruy Castro (*)

Em 1928, em São Paulo, um imigrante italiano, Giuseppe Pistone, estrangulou sua mulher Maria Mercedes, que o denunciara como trambiqueiro. O que fazer com o cadáver? Pistone serrou-o pelas pernas, espremeu-o numa mala e despachou-o para um destinatário inexistente em Bordeaux, França. Ao ser içada a bordo do navio Massilia, em Santos, a mala abriu acidentalmente e revelou o seu conteúdo. Pistone foi preso e condenado a 31 anos. Cumpriu 13, saiu e até se casou de novo.

O caso passou à história como “o crime da mala”, embora não fosse o primeiro nem o último com esse nome. Há cinco anos, também em São Paulo, uma mulher matou a tiros o marido, executivo de uma grande empresa fabricante de pipoca. Experiente em enfermagem, ela o esquartejou e o distribuiu por três malas com rodinha, que enfiou no carro e levou até Cotia para se desfazer. Foi apanhada e presa. E este também não será o último caso do gênero.

Um novo tipo de crime da mala está em curso no Brasil. Consiste em esquartejar os escrúpulos e rechear malas, não com o que restou deles, mas com dinheiro ilícito. O caso mais flagrante é o do ex-deputado Rodrigo Loures, destacado pelo presidente Temer como seu “homem de confiança” para se entender com os amigos da JBS — e, dali a dias, filmado ao receber uma mala numa pizzaria e, assustado, tomar um táxi com ela no colo. A mala continha R$ 500 mil em espécie e soube-se depois que ele a escondeu na casa da mãe.

Na sequência, Fred Pacheco de Medeiros, operador e primo do senador Aécio Neves, também foi filmado acomodando em malas R$ 500 mil da mesma generosa JBS. E, antes deles, o notório ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto era tão useiro em rechear mochilas com dinheiro que seu apelido era “Mocha”.

Em todas essas malas e mochilas, vai, aos pedaços, o cadáver do Brasil.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Frase do dia — 334

«Se quiser garantir o futuro do seu filho, mande-o para a advocacia. Com as denúncias expondo um corrupto por minuto, nunca no Brasil os serviços dos advogados foram tão disputados.

Claro, nem todos terão o desafio de defender os indefensáveis ‒ Temer, Lula, Dilma, Aécio, Cunha, Cabral (alguns deles contratam até 20 defensores) ‒, mas sempre lhes sobrará um Renan, uma Gleisi, um Palocci, também suculentos.»

Ruy Castro (1948-), escritor, biógrafo, jornalista e colunista.

Se fôssemos espertos

Ruy Castro (*)

Comecei a suspeitar de algo errado com a educação no Brasil quando uma de minhas filhas, matriculada num colégio “experimental” do Rio em fins dos anos 70, chegou aos oito anos sem ser alfabetizada. Em troca, subia e descia de árvores com uma destreza de Jane do Tarzan. Seu colégio dava grande importância a essa disciplina e, não por acaso, o pátio parecia uma miniatura da Mata Atlântica.

Desde então, nosso sistema de ensino vem procurando novas fórmulas com as quais preparar os garotos. Uma delas propôs – e conseguiu – extinguir do currículo o Latim, talvez por ele não figurar entre as línguas oficiais da Disney World. Outra postulou o desaparecimento da Geografia, sob a alegação de que era inútil saber, digamos, os afluentes do rio Amazonas – para que decorar a resposta a uma pergunta que jamais lhes seria feita?

Mas isso foi então. Nos últimos 15 anos, voltamos aos conteúdos, só que para tentar inverter o polo da história – diminuindo a presença do opressor europeu e enfatizando a dos nossos indígenas e africanos. Com isso, menos Estácio de Sá e D. Pedro I, por exemplo, e mais Zumbi dos Palmares e o cacique Arariboia. Muito justo – mas o que faremos com o Aleijadinho, Chiquinha Gonzaga, Machado de Assis, Lima Barreto, Di Cavalcanti, Mario de Andrade, Elizeth Cardoso, Ademir da Guia, Taís Araújo e a torcida do Flamengo, todos com algum branco descascado na composição?

Enquanto no Brasil discutimos ideologia, Portugal há anos começou a privilegiar o ensino de Português e Matemática em suas escolas. Sem ler ou escrever direito, ninguém chegará à História e à Filosofia. E sem uma forte base Matemática, ninguém dará para a saída no mundo cibernético. Os portugueses começam a colher os frutos dessa política.

Se fôssemos espertos, já os estaríamos copiando.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Cantando de olhos fechados

Ruy Castro (*)

Ella Fitzgerald (1917-1996), que teria completado 100 anos na segunda-feira 24 de abril, deixou em aberto uma pergunta que talvez não comporte resposta: era uma cantora de jazz ou uma cantora popular?

(…)

Fisicamente, Ella lembrava um contrabaixo. Mas, ao cantar, soava como um violino. Cantava de olhos fechados, como se quisesse que a plateia enxergasse apenas a sua voz.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto aqui reproduzido é citação de artigo publicado originalmente pela Folha de São Paulo.

Exclusividade racial

Ruy Castro (*)

Correu o país a história da jovem Thauane, branca, 19 anos, hostilizada num ônibus em Curitiba por mulheres negras por estar, segundo estas, se apropriando da cultura afro ao usar um turbante. Thauane alegou que sofria de leucemia, e o turbante escondia sua perda de cabelo causada pela quimioterapia. Espero que, depois de recuperada, Thauane continue a usar turbante – não como um estandarte de guerra, mas por achá-lo um bonito acessório.

Bem, se até turbantes já foram convertidos em símbolos de identidade racial, vamos ter de rever tudo. No futebol, por exemplo, fica proibido aos jogadores brancos fazer gol de bicicleta, como Leonidas da Silva, cobrar falta com folha seca, como Didi, e comemorar um gol com o soco no ar, como Pelé – são exclusividades da cultura negra. Na culinária, os restaurantes não poderão mais servir feijoada, moqueca, farofa, angu, quiabo, jiló, cocada, quindim e rapadura a clientes brancos.

by Catherine Valette, artista francesa

Lindas palavras de origem africana e há séculos incorporadas à língua brasileira, como cafuné, bunda, camundongo, xodó, zoeira, macumba, moleque, banguela, babaca, catimba, fuzuê e gandaia terão de ser abolidas do vocabulário branco. Quanto aos músicos brancos, mantenham distância do berimbau, da cuíca e do ganzá.

Aliás, a música popular será um problema. Ritmos de origem negra como o samba, o jazz, o blues, a salsa, o rap, o funk e dezenas de outros não poderão mais ser tocados em shows frequentados por brancos. E o rock, como ficará? Inventado lá atrás por negros pioneiros como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Chuck Berry, Bo Diddley e Little Richard, quem se apropriou e enriqueceu com ele foram Elvis Presley, John Lennon, Mick Jagger, David Bowie, Eric Clapton e milhares mais.

 Acho que os negros americanos deveriam pedir o rock de volta.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto aqui reproduzido foi publicado originalmente pela Folha de São Paulo.

A boa e velha corrupção

Ruy Castro (*)

É verdade que, de tempos em tempos, o país acorda para o esculacho e se deixa seduzir por um moralista, que promete varrer a sujeira, caçar os marajás ou acabar com os 300 picaretas do Congresso.

janio-4Daí Jânio Quadros (1960), Fernando Collor (1989) e Lula (2002). Eleitos esses elementos, o que acontece? A vassoura toma um porre, o caçador de marajás revela-se o marajá-açu e o outro resolve governar justamente com os 300 picaretas, ampliados para 400.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este é trecho de artigo publicado em 4 jan° 2017.

Com Trump presidente, um de seus eleitores não teria nascido

Ruy Castro (*)

Um amigo meu, filho de brasileiros, mas nascido nos EUA em 1948, cidadão americano e residente a vida inteira na Califórnia, vai votar em Donald Trump. Tento convencê-lo de que, se Trump fosse presidente em 1948, seus pais não teriam se conhecido na casa de Carmen Miranda em Los Angeles, muito menos teriam se casado, e ele não existiria. Por uma razão: com as restrições que Trump acha que se deve impor à imigração, os dois, mulatos, brasileiros e pobres, dificilmente teriam entrado nos EUA.

Houvesse um Trump na Casa Branca em algum momento do século 20, muita gente que contribuiu para o poderio americano, inclusive na área de espetáculos, não teria chegado sequer a Ellis Island, porta de entrada dos EUA para milhões de refugiados da fome e da perseguição religiosa na Europa. Eis alguns.

by Silvano Gonçalves Rosa Mello (1974-), desenhista mineiro

by Silvano Gonçalves Rosa Mello (1974-), desenhista mineiro

Os meninos Asa Yoelsen e Israel Baline, foragidos dos pogroms da Rússia nos anos 1890, não teriam se estabelecido na América, adotado os nomes de, respectivamente, Al Jolson e Irving Berlin, e inventado a música americana. Aliás, deve-se a Berlin dois hinos caros aos EUA e que Trump vive cantando em cerimônias: o de Natal, White Christmas, e o triunfal God Bless America.

Instituições como Fred Astaire, os Irmãos Marx, Frank Sinatra, Johnny “Tarzan” Weissmüller, Rita Hayworth, Kirk Douglas, Jerry Lewis, Dean Martin, Tony Bennett, Stanley Kubrick, Natalie Wood, Raquel Welch são ou eram, todos, americanos de primeira geração. Bastava um parágrafo na lei para que seus pais não tivessem saltado do navio e eles nunca aportassem em Hollywood.

Aliás, nem haveria Hollywood – porque foram judeus europeus como Adolph Zukor, Carl Lemmle, William Fox, Samuel Goldwyn, Louis B. Mayer e os irmãos Warner que a inventaram.

Se Trump ganhar e mandar construir um muro em volta do meu amigo, será bem feito.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Um elenco de golpistas

Ruy Castro (*)

Já vivi vários golpes de Estado e todos me pegaram de surpresa. Nada demais nisto, nunca participei de qualquer governo, nem podia saber que havia um golpe em curso. O incrível é que esses golpes pegaram de surpresa também os governos que derrubaram. Claro ‒ ou não seriam golpes.

O golpe que vem sendo denunciado pelo governo Dilma é diferente. Dá-se à luz do dia, tramado por 73% da população, que desaprova o dito governo, sob as barbas do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, de membros do STF, da Procuradoria Geral, do Ministério Público, da Polícia Federal, da OAB e de outras instituições da República, que nada fazem para impedi-lo, e obedece a um complexo ritual de trâmites, todos com data marcada com meses de antecedência.

E, contrariando a natureza dos golpes, em que os golpistas atuam embuçados e na sombra, neste eles vêm à boca de cena e se identificam publicamente.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Na terça última (29), inúmeras categorias profissionais ocuparam as páginas dos jornais dizendo que gostariam de ver a presidente pelas costas. E se assinaram: fabricantes de sorvete, chocolate, biscoitos, balas, doces e derivados; plantadores de milho, cana e amendoim e produtores de óleos e azeites, leite, soja e macarrão.

Sindicatos das indústrias de tintas e vernizes, cerâmicas e olarias, parafusos, porcas, rebites e similares, de artefatos de metais ferrosos e não ferrosos, de curtimento de couros e peles e de extração de mármores, calcários e pedreiras.

Industriais da cerâmica de louça e porcelana, da recauchutagem de pneus e retífica de motores e do beneficiamento de fibras vegetais e descaroçamento de algodão. Alfaiates, gráficos, farmacêuticos, misturadores de adubos, criadores de suínos e controladores de pragas urbanas. Etc. etc. etc.

Nunca se viu um elenco tão variado de golpistas.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Problematizando a questão

Ruy Castro (*)

Livro 6Cenas de um provável futuro. A mãe repreende a filha de 11 anos por ela nunca lavar um copo depois de usá-lo, e ouve como resposta: “Mamãe, precisamos problematizar uma questão de gênero”. A garota quer dizer que não veio ao mundo para lavar copos. Enquanto isso, seu irmãozinho de oito anos pode ser reprovado na escola por ter fracassado na arguição sobre sublevações intestinas na África subsaariana. E o pai já pensa em contratar um professor particular de gê e tupi para o menino tirar o atraso na escola.

Esses são alguns dos itens dos currículos a ser aplicados pelo MEC com a iminente aprovação da “Base Nacional Comum Curricular”, uma reforma do ensino destinada a fazer do brasileiro um povo politicamente correto. No país dos novos comissários do pensamento, só interessam a herança ameríndia e africana, a luta das mulheres, os direitos das minorias e outros quesitos cuja importância ninguém discute, mas que os donos do poder julgam ser de sua exclusiva propriedade.

Livro 5Acusam-se os historiadores brasileiros, por exemplo, de nunca terem dado atenção suficiente à questão indígena e negra. Mas isso não é verdade. Há bibliotecas abarrotadas de livros sobre a África, o tráfico, a vida em cativeiro e como, contra todas as probabilidades, a cultura negra sobreviveu e se impôs junto à cultura “oficial” no Brasil. Os indígenas também têm vasta bibliografia, com destaque para os livros sobre as tribos da Guanabara –como o recente e monumental “O Rio Antes do Rio”, de Rafael Freitas da Silva, cuja dedicatória é reveladora: “Aos nossos gregos, os tupinambás”.

Mas não importa. O MEC decidiu que é preciso rever tudo, o que fará com que milhões de livros didáticos se vejam superados e multidões de professores tenham de se reciclar ou ser substituídos. O jeito é problematizar a questão.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Campeões das reformas

Ruy Castro (*)

Lula e Dirceu 2Os políticos de esquerda costumam lutar por reformas – agrária, política, bancária, fiscal, urbana, universitária, administrativa – e pagar caro por isso. O statu quo, por definição, não gosta de reformas e combate os políticos que tentam promovê-las.

O ex-presidente Lula também é partidário de reformas. Mas, cioso de seus amigos das elites, limita-se a reformas mais modestas. Uma delas, a do triplex que ele diz não ter comprado no edifício Solaris, na praia das Astúrias, Guarujá (SP). Por que alguém faria reformas num apartamento que não lhe pertence é um mistério. E por que sua mulher, dona Marisa, vivia visitando o apê se nunca iriam morar lá só ela e Lula – por enquanto – sabem.

Pode haver coisa pior do que uma reforma? Começa-se trocando uma escada comum por outra em caracol e, de repente, já se quer instalar um elevador privativo, só para os bacanas. Um rodapé de madeira torna-se de porcelana e, num instante, o porcelanato toma também as paredes das salas de estar, jantar e TV. Dona Marisa fez tudo isso no triplex que não é de Lula. Por sorte, os 777 mil reais que a obra custou lhe saíram de graça, cortesia de uma gentil construtora.

Lula e Dirceu 3Outra reforma pela qual Lula lutou foi a de um sítio de 173 mil metros quadrados em Atibaia, que também não lhe pertence, mas a sócios de seu filho. A obra envolveu construir ou ampliar um pavilhão, churrasqueira, piscina, campo de futebol e converter um lago em tanque de peixes – quase uma reforma agrária. E, que bom, ela também lhe foi oferecida pela construtora.

Igualmente campeão das reformas é o ex-ministro José Dirceu – no caso, a de seu próprio sítio em Vinhedo (SP), no valor de 1,8 milhão de reais, pago por um lobista. Dirceu nem precisou lançar mão da vaquinha que, um dia, seus correligionários fizeram para socorrê-lo. Lembra-se?

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

O dilmês em seu apogeu

Ruy Castro (*)

Presidente 9 Getulio VargasGetulio Vargas começava seus discursos com um longo, lento e sofrido “Trabalhadooooores do Brasil…” – ele pronunciava zil, não zíu – e não precisava dizer mais nada. Jânio Quadros falava português do século 17 com sotaque de PRK-30(*). Renunciou à presidência da República e se explicou: “Fi-lo porque qui-lo.”

E Lula habituou-se a mentir, desmentir-se, dizer e desdizer-se com tal ênfase que ainda o levam a sério. Mas, à sua maneira, todos davam o recado. Já Dilma Rousseff, diante do menor improviso, acerta caneladas em palavras, períodos e significados.

No fim de semana, Dilma declarou que esperava “integral confiança” de seu vice Michel Temer. O que significava? Que Temer tinha “integral confiança” nela. Na verdade, Dilma, com seu estilo patafísico de falar e governar, queria dizer que ela, sim, é que tinha “integral confiança” nele. Michel Temer entendeu e, para não perder tempo, respondeu que, ao contrário, Dilma “nunca confiou” nele. Pronto, deu-se a crise.

Presidente 10 Janio QuadrosAposto que, nos anos 60, quando deveria estar lendo “A Moreninha”, “A Mão e a Luva” ou “O Guarani”, clássicos românticos da literatura e então modelos de como falar e escrever, a menina Dilma estava mergulhada nos manuais de Althusser, Plekhanov e Lukàcs, ásperos vade-mécuns do marxismo, traduzidos do espanhol.

Isso pode ter forjado o seu jeitão de caminhar, abrindo caminho com os ombros, e principalmente sua crespidão mental.

Muita gente pensa bem, mas se exprime mal. Dilma congrega o pior dos dois mundos. O histórico disso está no recente “Dilmês – O Idioma da Mulher Sapiens”, de Celso Arnaldo Araujo, um apanhado crítico e altamente documentado das batatadas de Dilma, de seus tempos de superministra de Lula até agora.

Hoje, este é um livro sério e preocupante. No futuro, será um clássico do humor brasileiro.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista.

(*) PRK-30 era programa humorístico transmitido pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro nos idos de 1940-1950. Lauro Borges e Castro Barbosa comandavam.
(Nota deste blogueiro)

A bolha assassina

Ruy Castro (*)

Dilma gordaA presidente Dilma emagreceu 13 quilos em menos de dois meses. Puxados pelos índices econômicos, seu governo, sua força no Congresso e sua popularidade também emagreceram em escala equivalente. Essas quedas bruscas podem ser enganadoras, mas os observadores mais independentes consideram que Dilma já não tem muita gordura para queimar e garantem que seus índices continuarão caindo. Ainda mais agora, por ter contra si um partido capaz de tudo quando se encontra na oposição: o PT.

E é isto que torna a coisa intrigante. Dilma foi criação exclusiva de Lula – fundador, perpétuo inspirador e sinônimo do PT. Feita de barro e posta a andar com um sopro, ocupou cargos-chave nas duas administrações do criador e, por sua identificação com os princípios, programas e posturas do PT, foi duas vezes escolhida candidata à presidência pelo partido. Em ambas as campanhas, e nos dois turnos de cada, foi solidamente instrumentalizada pelos ideólogos e marquetólogos petistas – nenhuma frase, palavra ou ideia lhe saiu pela boca sem aprovação oficial.

Dilma magraInstrumentalização esta que atravessou seu primeiro governo e se materializou na chuva de benesses populistas, redução de taxas, estímulo ao consumo, vivas ao desperdício e bolsas a cair do céu para tantas categorias. Tudo proposto e aprovado triunfalmente pelo PT, e executado por milhares de militantes ocupando cada espaço da administração e reafirmando ser aquilo apenas uma fiel continuação do governo Lula.

Se, de repente, descobre-se que tal triunfalismo não passava de uma bolha, que a bolha estourou e é preciso conter o pus, por que espremer somente Dilma se, em quatro anos, ela só fez o que os companheiros achavam justo e certo?

Só falta agora que, abandonada por Lula, desprezada pelos companheiros e odiada pelo povo, Dilma engorde tudo de volta.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

Urubu voa de costas

Ruy Castro (*)

Urubu 2Não admira que a economia esteja “prostrada”. O Natal será magro para os dirigentes de empreiteiras apanhados na Operação Lava Jato. Com suas contas e aplicações bloqueadas pela Justiça, e sem fundos para as benesses com que se mimoseiam nesta época, sua inadimplência atingirá os setores em que eles investem seus salários, gratificações, propinas, gorjetas e simples desvios. Afinal, são bilhões de reais subitamente fora de circulação.

Um diretor de construtora, por exemplo, teve bloqueio da primeira parcela do 13º salário: R$ 95 mil. Quando uma parcela do 13º de um funcionário chega a esse valor, imagine o dinheiro que não circula por seus relatórios, pareceres e bolsos. Parece muito? Pois é um grão de alpiste diante dos valores creditados aos parlamentares abençoados pelos poços sem fundo da Petrobrás.

Com isso, certas famosas grifes do exterior estão apreensivas. Sem os políticos brasileiros neste fim de ano, o que fazer com os estoques de Romanée-Conti (o vinho de Lula), de uísque Ballantine’s 30 anos e de champagne Cristal? O que será das estações de esqui em Aspen, das clínicas estéticas em Phoenix e dos cassinos de Las Vegas, que, mal saídos de seus grotões, eles se habituaram a frequentar?

Urubu 1A drenagem de dinheiro é de tal ordem que, mesmo descontados os gastos lá fora e os depósitos nos paraísos fiscais, o que sobra por aqui é decisivo para movimentar a economia. A compra, digamos, de um triplex no Guarujá espalha-se pela pirâmide financeira e seus resíduos podem se refletir na qualidade de vida de centenas de humildes famílias brasileiras, permitindo-lhes comprar TVs HD com tela de LCD e smartphones de última geração.

Na visão oficial, esta deve ser uma nova forma de distribuição de renda – só que digna do planeta Bizarro, onde urubu voa de costas e o certo é o errado.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo e jornalista. Em sua coluna na Folha de São Paulo de 24 dez° 2014.

Frase do dia — 200

«Lula é mestre em, pelo menos, duas línguas: a de uso corrente e a que lhe convém. O difícil é saber qual delas ele está falando.»

Ruy Castro (1948-), escritor, biógrafo e jornalista. Em sua coluna da Folha de São Paulo de 29 out° 2014.

A chave da cadeia

Ruy Castro (*)

Desvendaram ― de novo ― o mistério de Jack, o Estripador. Não é a primeira, nem a segunda vez. De trinta em trinta anos, alguém se apresenta como tendo descoberto a identidade do assassino. Jack, como se sabe, foi o homem que, na Londres de 1888, matou cinco prostitutas, mutilou seus corpos, retirou-lhes ovários, útero e outros órgãos. E a Scotland Yard nunca o apanhou.

O suspeito da vez é Aaron Kosminski, imigrante polonês, então com 23 anos, e seu acusador, Russell Edwards, escritor e detetive diletante. Ele diz ter examinado o DNA das manchas de sangue e esperma contidas num xale encontrado junto a Catherine Endowes, a quarta vítima de Jack, e tê-lo confrontado com o patrimônio genético de descendentes diretos de Catherine e de Kosminski. O resultado está no livro Naming Jack the Ripper (Identificando Jack, o Estripador, que não demora a sair por aqui). Já é um best-seller ― como todos sobre Jack nestes 126 anos.

London oldPessoalmente, meu suspeito favorito ainda é o príncipe Albert Victor, neto da rainha Vitória. Pelo menos, Albert tinha um motivo: matar a prostituta que dizia estar grávida dele e eviscerá-la para arrancar o feto. Como o príncipe não sabia direito quem era, o jeito era ir matando até encontrar. Quando aconteceu, ele parou de matar. Um médico da rainha acompanharia Albert em cada crime. Mas, como nos outros casos, nada ficou provado.

Na Inglaterra, há mais de cem livros em catálogo sobre Jack: Jack de A a Z, enciclopédia de Jack, as cartas de Jack, o diário de Jack, guia turístico de Jack, Jack para crianças. Só falta um livro de receitas. E não será o de Edwards que esgotará o assunto.

No Brasil é diferente. Nos casos de corrupção, por exemplo, sabe-se quem foi o ladrão, seu DNA, o nome dos cúmplices, o caminho do dinheiro e quem se beneficiou. Só não se sabe onde fica a chave da cadeia.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

O a em perigo

Ruy Castro (*)

Enluminure A 1Há meses, ao ouvir dizer que a Polícia Federal deflagrara a Operação Lava Jato, pensei que se referisse a um esquema ilegal de lavagem de aviões. Com esse nome, fazia sentido ― imagine a quantidade de jatos no país, todos precisando ser lavados depois de horas de voo acumulando gosma na fuselagem. Se você costuma lavar o seu carro aos sábados, imagine lavar um avião. Alguma empresa especializada devia estar superfaturando o kaol, a flanela ou o sabão.

Quando me disseram que se tratava de investigação para desmontar um baita esquema de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, participação no mercado clandestino de câmbio, desvio de recursos públicos, destruição de provas, corrupção de agentes federais e recebimento de propinas e comisões de até 50%, envolvendo um doleiro com extensas relações no meio político e um importante diretor da Petrobras, tudo isso movimentando mais de 10 bilhões de reais ― caí das nuvens. Que, por sinal, é de onde os jatos costumam cair.

Enluminure B 1Se fosse menos distraído, eu teria ligado a expressão “lava jato” às oficinas assim chamadas, dedicadas a lavar, não jatos, mas carros ― e que, se fossem administradas por pessoas mais ciosas da língua portuguesa, deveriam chamar-se “lava a jato”. Ou seja, rapidinho. Há até uma peremptória regra de gramática a respeito ― que, pelo visto, nós, da imprensa, decidimos ignorar. Daí essa investida dos diversos órgãos saneadores ter-se tornado a Operação Lava Jato. Sem o a.

Temo que isso faça parte de uma conspiração nacional contra o emprego do a. Não se diz mais daqui a três meses, “mas daqui três meses”. Nem comecei a fazer, mas “comecei fazer”. Nem voltamos a apresentar, mas “voltamos apresentar”. Já reparou? Cuidado. Primeiro, eles apagam o a. Se deixarmos, apagarão o b.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

À prova de vazamento

Ruy Castro (*)

Na semana passada, Merkel expulsou o chefe da CIA na embaixada americana em Berlim, por aliciar funcionários da inteligência alemã para se tornarem agentes duplos e venderem informações aos EUA. Depois de sofrer com as polícias secretas nazistas e comunistas por quase 60 anos, é natural que os alemães não gostem de ser espionados. E, afinal, não somos aliados dos EUA? ― pergunta Merkel. Por que espionar aliados?

Porque não há aliados no mundo digital. O homem de capa, chapéu e luvas, adentrando de madrugada um gabinete, vasculhando arquivos com a lanterna, subtraindo pastas de documentos datilografados ficou obsoleto. Hoje, sem sair de seu quarto, um escolar munido de um smartphone consegue furar bloqueio de qualquer instituição e surrupiar seus documentos em 0,1 segundo.

Talvez por isso, o chefe do Parlamento alemão ― o democrata-cristão Patrick Sensburg ― tenha anunciado em televisão que ele e seus colegas estão considerando voltar a usar máquina de escrever para redigir documentos mais sigilosos. O apresentador perguntou-lhe se ele estava brincando. E Sensburg, na lata: «Não, não estou. Os russos já estão fazendo isso desde o ano passado».

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor e jornalista. O texto acima transcrito é excerto de artigo publicado pela Folha de São Paulo em 21 jul° 2014.

Escolha infeliz

José Horta Manzano

O escritor Ruy Castro, colunista da Folha de São Paulo, acertou no milhar com seu artigo Solene esnobada, publicado em 23 de junho. Irretocável.

Nestes tempos de “Copa das copas”, todos nós temos tido nossos ouvidos e olhos bombardeados com gritos de goool, patriotadas, análises, janelas embandeiradas, carreatas, trombetas, buzinaços. E continhas de chegar.

Nós outros, expatriados, vivemos imersos em ufanismos múltiplos. As carreatas e os buzinaços não correspondem necessariamente às conquistas daquela que antigamente chamávamos Seleção canarinho. Dependendo do país onde se esteja, as continhas de chegar podem até ir em sentido contrário ao que nos interessaria. É natural. Vivemos na casa dos outros.

Já se disse e redisse, já se pisou e repisou o assunto: a dinheirama que o povo brasileiro ― através de seus representantes, evidentemente ― despejou na organização da Copa e na construção de estádios ma-ra-vi-lho-sos teria sido mais bem utilizada em projetos de educação e saúde.

Assim não foi feito, que é que se há de fazer? O que está feito está feito. Resta fazer das tripas coração. Os bilhões de reais arrancados do povo brasileiro estão, pelo menos, servindo de maxipromoção do País em nível planetário. Será?

Fifa vinhetaComo salientou Ruy Castro, nenhuma das atrações do País tem sido mostrada à plateia brasileira. Querem saber mais? Tampouco os espectadores estrangeiros têm tido direito a conhecer, nem que fosse por alguns segundos, alguma coisa além das “arenas” de padrão Fifa.

A vinheta ― acho linda essa palavra(*) ― tem sua beleza plástica, não há que negar. Falo daquele desenhozinho animado de alguns segundos que nos repetem umas dez vezes por dia. Aquele que sobrevoa uma praia, atravessa uma floresta, mostra uma selva de prédios e termina com um menino com cara de pobrezinho, encarapitado em sua favela, com o olhar maravilhado ao vislumbrar ― bem longe ― um estádio iluminado. Estádio padrão Fifa que ele, pobrezinho, visivelmente não tem condições de frequentar.

Gastar tantos bilhões suados dos brasileiros para reiterar ao mundo a imagem de um país marcado pela desigualdade social? Que escolha infeliz.

Interligne 28a

(*) Vinheta, do francês vignette. No século XII, quando entrou na língua francesa, a palavra fazia alusão à decoração de folhas de vinha com que se ornava o bordo de utensílios de louça.

Frase do dia — 118

«Há um mês, em Bagdá, no Iraque, um instrutor de homens-bomba detonou sem querer um explosivo e matou 22 de seus alunos. Pena. Mas, como eram terroristas-suicidas, apenas foram para o céu mais cedo».

Ruy Castro, escritor e jornalisa, in Folha de São Paulo 10 março 2014.

Frase do dia — 105

«Não somos cordiais, somos cruéis, e é bom que o mundo se cuide a nosso respeito.»

Ruy Castro, escritor e jornalista, em sua coluna da Folha de São Paulo.
O articulista refere-se às arruaças que desocupados, instrumentalizados por interesses vários, vêm promovendo de uns tempos pra cá.