Pas d’amis

José Horta Manzano

«Les États n’ont pas d’amis. Ils n’ont que des intérêts.»

«Estados não têm amigos. Têm apenas interesses.»

Colera 3A frase contundente é de Charles de Gaulle. O velho general tinha queda pronunciada por frases de efeito. Credencial para assistir a qualquer uma de suas coletivas de imprensa era disputada a tapa. Cada uma delas era acontecimento que ninguém queria perder, verdadeiro espetáculo teatral de alto nível.

Seja como for, a sentença corresponde rigorosamente à verdade. Perde tempo e esforço quem acreditar na benevolência ou no altruísmo de algum Estado ‒ ou de governo que o represente. Se o próprio do Estado é ter interesses, a função do governo é defendê-los.

Em desespero crescente, ao dar-se conta de que poder e benesses se lhes escapam inexoravelmente, cortesãos da presidente afastada passaram a abusar da jus sperneandi. Em juridiquês, chama-se ‘chororô de perdedor’.

Colera 2Em recente coletiva concedida pelo porta-voz do Departamento de Estado americano ‒ entrevista que nada tinha que ver com assuntos brasileiros ‒, um jornalista fez estranha pergunta. Presumivelmente teleguiado pela intelligentsia petista, formulou longa indagação na qual mencionou Romero Jucá, Dilma Rousseff, Michel Temer. Na intenção de levar o porta-voz a admitir que o afastamento da presidente brasileira fosse resultado de um «golpe» inconstitucional, o rapaz procurou confundir ideias, distorcer a verdade e baralhar conceitos.

Não conseguiu o intento, naturalmente. O Departamento de Estado dos EUA não costuma pôr qualquer um na linha de frente. Até chegar lá, o funcionário passa por intenso treinamento. Tem de estar preparado para esse tipo de armadilha. É um profissional.

Ardilosos mas ingênuos, os componentes da tropa de choque do Partido dos Trabalhadores estão longe de ter traquejo internacional. Certas coisas não se improvisam, e eles não foram preparados para isso. Os mentores passaram os últimos 13 anos tranquilos, refestelados em berço esplêndido, na certeza de que tudo estava dominado. Não estava. O berço desmoronou.

Dilma e TemerEntre Estados civilizados, não há particular interesse em desvendar se houve ou não golpe na destituição de dona Dilma. O que mais anima são os sinais de que nossa economia tem boas chances de se recuperar. Será muito lento, mas são sensíveis as perspectivas de melhora.

A ninguém interessa um Brasil atrasado, pobre, endividado, apartado do concerto econômico planetário. Para Estados estrangeiros, pouco importa que nosso país seja povoado por gente simpática e cordial. Não é isso que conta. Veem-nos como parceiros comerciais, fornecedores e compradores.

«Les États n’ont pas d’amis. Ils n’ont que des intérêts.»

Sem complexo

José Horta Manzano

Os ucranianos votaram para escolher novo parlamento. Por coincidência, a eleição caiu no mesmo dia de nosso segundo turno, 26 out°. Por lá, o regime é parlamentar, sustentado por uma coalizão de cinco partidos pró-União Europeia.

Diferentemente das agremiações tupiniquins, que se dividem entre os partidos meio corruptos e os partidos totalmente corruptos, a linha demarcatória da política ucraniana é o grau de simpatia (ou repulsa) pelo grande irmão russo. Os pró-russos se contrapõem aos pró-ocidentais.

O resultado da eleição deu, como esperado, vitória esmagadora aos que sonham com o hipotético dia em que o país será aceito como membro da União Europeia.

A novidade veio agora, com o anúncio do novo ministério. O parlamento decidiu que o primeiro-ministro permaneça no cargo. O mesmo ocorreu com boa parte dos demais ministros. Só alguns foram substituídos. Entre os novatos, no entanto, uma surpresa: três deles são estrangeiros, fato inédito no país e raríssimo em qualquer lugar do mundo.

Ucrania 2O primeiro forasteiro é lituano e foi nomeado ministro da Economia(!). Até o presente, o homem era dirigente da filial ucraniana de importante fundo de investimento internacional.

O segundo escolhido vem da Geórgia, país onde já foi ministro da Saúde e do Trabalho. Na Ucrânia, vai assumir a pasta da Saúde, um posto importante.

A última estrangeira é uma americana de origem ucraniana. A moça nasceu e cresceu nos Estados Unidos, onde fez parte de sua carreira no Departamento de Estado – o Itamaraty de lá. Na Ucrânia, fica com o Ministério das Finanças.

O decreto de naturalização dos três está tramitando a toque de caixa.

Pouco habitual, essa escolha escandalizaria muita gente. Não a mim. O essencial, na minha visão, não é a cor do passaporte, mas a capacidade do indivíduo e sua adequação à função. A história guarda lembrança de estrangeiros que acederam a posição de destaque.

Napoleão era um quase estrangeiro. Nasceu e cresceu na Córsega, ilha que tinha sido comprada pela França poucos anos antes de seu nascimento. A vida toda, falou francês com carregado sotaque.

Henry Kissinger, figurão da politica americana da segunda metade do século XX, nasceu alemão e foi para os EUA como imigrante. Arnold Schwarzenegger nasceu austríaco. Até Hitler era alemão naturalizado – tinha nascido austríaco.

Por enquanto, no Brasil, parece algo inimaginável. Mas, pouco a pouco, mentalidades evoluem. Quem sabe, um dia?