Lula em Genebra

José Horta Manzano

O distinto leitor há de se lembrar que, pouco antes das eleições de 2018, Lula da Silva solicitou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU que desse parecer sobre a possibilidade de ele – então preso em Curitiba – se candidatar. Numa liminar, o Comitê recomendou ao governo brasileiro que deixasse o Lula ser candidato. Nosso governo repeliu a recomendação, numa decisão, a meu ver, acertada. Aceitar a injunção teria ofendido a soberania do Brasil e de seu Judiciário.

Aproveitando seu atual giro turístico em terras europeias, o ex-presidente desembarcou em Genebra faz dois dias. Veio pressionar pessoalmente o Comitê. Seu objetivo deixou de ser a candidatura às últimas eleições; essas são águas passadas. Quer agora que a entidade lhe conceda uma espécie de salvo-conduto, de absolvição ampla e irrestrita – uma carta branca que apague e anule os erros do passado, as condenações, as penas e suas consequências.

Genebra (Suíça), seu lago e seu jato d’água

A empreitada não é simples. Sem querer prejulgar o processo, é difícil imaginar o egrégio Comitê de Direitos Humanos da ONU afrontando a Justiça brasileira em decisão colegiada e final. Lula já foi condenado em três instâncias. Não dá mais pra falar em perseguição contra sua inflada pessoa unicamente por obra de doutor Moro.

Quanto ao resultado da solicitação, quem viver verá. Pelo momento, fico imaginando que o Lula deve ter economizado um bocado pra poder se oferecer o luxo desta viagem. Paris e Genebra são conhecidas pelo elevadíssimo custo de vida. Como é que ele faz pra pagar viagem, hotel, refeições e tutti quanti? O homem deve estar com dinheiro saindo pelo ladrão. (Sem alusões.) Sua bênção, padrinho!

Boîte à bébé

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos em que vivemos sob o império do politicamente correto, o nome das coisas tem-se transformado. No entanto, de pouco adianta usar luva de pelica: a coisa continua sempre sendo a coisa, ainda que o nome tenha mudado. Mais abaixo, explico.

Desde os tempos bíblicos, existiu a dolorosa situação do recém-nascido rejeitado. Diversas razões podiam levar à rejeição:

    • O pai desconfiava que o filho não fosse seu;
    • O bebê apresentava um defeito físico;
    • A família não tinha recursos para sustentar mais uma boca;
    • A criança, fruto de amor clandestino, tinha sido dada à luz por mãe solteira.

Nos tempos de antigamente, o infanticídio era tolerado. Antes de atingir a idade em que podia servir como força de trabalho, a criança era considerada um não-ser, um objeto. Encaixava-se em estatuto análogo ao do animal.

Boite a bebe 2

Na Europa, o advento do cristianismo introduziu conceitos novos. A caridade e a compaixão foram enaltecidas. Pouco a pouco, o infanticídio passou a ser visto como ato criminoso. Vez por outra, no entanto, crianças continuavam a ser rejeitadas. Como fazer para conciliar crime e virtude?

Boite a bebe 3Pelo fim do século XII, na Itália e na França, uma solução surgiu. Conventos e hospitais (ou hospícios, como eram chamados na época) instalaram um dispositivo engenhoso. Tratava-se de um tambor, geralmente de madeira, embutido num canto discreto da parede. A peça, que girava em torno de um eixo vertical, era oca e tinha uma abertura. Quem estivesse do lado externo podia girar o tambor para inserir, no oco, um recém-nascido. Em seguida, bastava dar meia-volta ao dispositivo para o neonato se encontrar do lado de dentro.

Antes de desaparecer nas sombras da noite, a mãe puxava uma cordinha para avisar que um pequenino acabava de chegar. Assim, em toda discrição, abandonava-se um bebê sem ter de recorrer ao homicídio.

Boite a bebe 4

Na Itália, o sistema chamou-se Ruota degli esposti(1) ‒ roda dos expostos. Na França, deram-lhe o nome de Tour d’abandon ‒ torno de abandono. Aliás, também no Portugal medieval, o dispositivo era conhecido como torno. Esses tambores multiplicaram-se e espalharam-se por toda a Europa até o fim do século XIX quando começaram a rarear.

Boite a bebe 1

A partir dos anos 1950, ressurgiram. Os nomes antigos, hoje, chocam. Foram substituídos por perífrases mais suaves: Le berceau de la vie ‒ o berço da vida; Culla per la vita ‒ berço para a vida; Baby box ‒ caixa de bebês.

Boite a bebe 5Na Alemanha, existem atualmente cerca de 200 desses tambores, chamados Babyklappe ‒ caixa de bebês ou Babyfenster ‒ janela de bebês. A prática tem-se espalhado. A primeira boîte à bébés(2) da Suíça Francesa foi inaugurada estes dias. Hoje em dia, já não precisa tocar o sininho. Um detector de presença indica que a cegonha acaba de trazer um pequenino.

Boite a bebe 6

Não sei se no Brasil existem dispositivos assim. Se não existem, está mais que na hora de pensar nisso. É sempre menos desumano que abandonar recém-nascido em caçamba de lixo.

Interligne 18h

(1) Uma curiosidade
O sobrenome italiano Esposito indica que, setecentos anos atrás, o patriarca da estirpe foi abandonado, quando recém-nascido, na Ruota degli esposti ‒ roda dos expostos. O sobrenome tem variantes (Esposto, Esposti, Espositi) e é particularmente presente na região de Nápoles.

(2) Outra curiosidade
A palavra francesa boîte, que se pronuncia boate, significa caixa. A casa noturna que conhecíamos no Brasil como boate diz-se, em francês, boîte de nuit ‒ caixa de noite. Etimologicamente, a palavra descende da mesma raíz que deu box em inglês e buxo em português (um arbusto comum na Europa, mas raro no Brasil). Interessante, não?

Publicado originalmente em 3 fev° 2016.

Lula em Paris

José Horta Manzano

Já contei aqui que Lula da Silva esteve em Paris, segunda-feira passada, convidado pela prefeita Anne Hidalgo para receber o título de cidadão honorário da cidade. Considerando que o antigo sindicalista já coleciona duas dezenas de diplomas de doutor ‘honoris causa’, concedidos por universidades ao redor do planeta, um título a mais ou a menos não deveria fazer diferença. Acontece que a notícia causou rebuliço na França e, por motivos diferentes, também no Brasil.

A prefeita de Paris é filiada ao Partido Socialista. Parlamentares do campo político oposto ao dela acusaram madame de promover confusão entre o público e o privado. Censuram Madame Hidalgo – que é candidata à reeleição – por gastar dinheiro dos parisienses para promoção pessoal e fins eleitorais. Ela nega.

clique para ampliar

No Brasil, o vice-líder do governo na Câmara, deputado Marco Feliciano, foi outro que não apreciou nadinha a passagem do Lula por Paris. Fiel ao estilo escrachado de doutor Bolsonaro, trepou-se nas tamancas e mandou a equipe preparar ofício dirigido ao presidente da Casa. Em linguagem barroca, com palavras pescadas em dicionário arcaico, a carta sugere que um certo Monsieur Cassandri seja homenageado pela Câmara, em protesto contra a distinção concedida ao Lula.

A lembrança me deixou surpreso. O deputado Feliciano tem excelentes assessores. Monsieur Jacques Cassandri foi o autor intelectual do ‘casse du siècle’ – assalto milionário e espetacular perpetrado em 1976 contra um banco de Nice. Já contei a história num artigo de 2018. Foi cinematográfico. Para recordar, clique aqui.

Por seu lado, achei que o deputado Feliciano está desperdiçando dinheiro nosso. Entre bolar, pesquisar, preparar, escrever, enviar ao destinatário e publicar o ofício nas redes, horas de trabalho foram gastas nessa brincadeira. Os assessores deixaram de fazer coisa mais útil. Não devem ter grande coisa que fazer.

Para encerrar, quero relatar o trecho de entrevista que o Lula concedeu ontem, 4 de março, à rádio pública francesa. Por aqui, ninguém está muito interessado em saber se ele roubou ou corrompeu. O que preocupa os europeus é o descaso com que o Brasil cuida da Amazônia.

Na hora de enfrentar jornalistas, o Lula tem mais jogo de cintura que doutor Bolsonaro. Fez um rápido discurso em favor de maior empenho no desenvolvimento sustentável da Amazônia. E foi nesse ponto que cometeu um ato falho(*).

Declarou que a conservação da Amazônia era importante «para o bem da imunidade». Corrigiu-se em seguida, mas, para mim, já era tarde. Por sorte, a tradução simultânea passou por cima da escorregadela; assim, pouca gente se deu conta.

Fiquei com impressão de que o desejo mais ardente do Lula é conseguir imunidade parlamentar ou presidencial. Ele ainda teme ser levado de novo ao cárcere. Como se sabe, a imunidade o livraria do enrosco.

Ato falho
Segundo o Houaiss, é o «aparecimento, na linguagem falada ou escrita, de termos inapropriados que supostamente remetem para conteúdos ou desejos recalcados referentes ao objeto, à pessoa ou ao fato em questão».

Lula no palanque

José Horta Manzano

Você sabia?

Daqui a dez dias, como fazem a cada 6 anos, os eleitores franceses vão às urnas eleger vereadores e prefeitos. Apesar do protagonismo do coronavírus estes dias, a campanha corre solta, com beliscões, mordidas, acusações, revelações, golpes baixos.

Naturalmente, a disputa pela prefeitura de Paris atrai o interesse da nação inteira. Há já seis anos, a capital é governada pela franco-espanhola Anne Hidalgo, nascida Ana Maria Hidalgo Aleu. Ela nasceu na Espanha mas foi, ainda pequena, para a França, para onde a família emigrou. Perfeitamente bilíngue espanhol-francês, cresceu no país de adoção e naturalizou-se. Sempre militou no PS – Partido Socialista.

Madame Hidalgo concorre à reeleição. Sua mais recente jogada, que deixou boquiabertos e indignados os adversários, foi chamar Lula da Silva para dar uma forcinha em sua campanha. Ontem de manhã, valendo-se dos poderes que lhe confere o cargo de prefeita, Madame Hidalgo convidou-o para uma cerimônia oficial em que lhe concedeu o título de cidadão honorário de Paris. Horas mais tarde, nosso ex-presidente aparecia ao lado da prefeita num comício eleitoral. E não foi à festa sozinho: levou Dilma e Haddad.

Lula, Dilma e Haddad com a prefeita de Paris
2 março 2020

Os adversários de Madame Hidalgo chiaram. Disseram que não é normal ela gastar dinheiro público convidando gente e organizando cerimônias com a única finalidade de alavancar a própria candidatura.

No fundo, eles têm razão. Mas o que ela fez não é proibido; só pega mal. Quanto a nós, o importante é que nossos dois ex-presidentes, assim como doutor Haddad, não venham se servir na arca da Receita Federal para financiar viagens particulares. Acredito que não seja mais o caso. Além do que, o polpudo salário que se paga aos ex-presidentes dá pra essas ninharias.

Curiosidade
Nestas eleições francesas, uma centena de municípios não têm candidatos nem a prefeito, nem a vereador. Visto do Brasil, parece estranho. Como é que é?

O fato é que, num município pequeno, o salário é baixo e o trabalho, puxado. O prefeito funciona como padre no confessionário: tem de ouvir os problemas de cada um, resolver todos os conflitos, estar de prontidão o tempo todo. E, no final, o salário é baixo, não compensa.

Na França, salário de prefeito não é decidido em cada município. É fixado por lei nacional e varia de acordo com a população. Alguns exemplos:

Vilarejos de menos de 500 habitantes: 661,20 euros

Vilarejos entre 500 e 999 habitantes: 1.205,71 euros

Cidadezinhas entre 1000 e 3499 habitantes: 1.672,44 euros

E assim por diante, aumentando pouco a pouco, até chegar ao mais bem pago, o prefeito de Paris, que recebe 9.207 euros por mês.

Note-se que o salário mínimo em 2019 estava em 1.521 euros. É fácil entender que somente prefeito de cidade grande pode dar-se ao luxo de não ter outra atividade. A imensa maioria dos eleitos, depois de empossados, continuam a exercer sua profissão.

Quem quiser saber mais sobre o salário dos prefeitos franceses deve clicar aqui.

O chinês e os mapas

José Horta Manzano

Você sabia?

O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século XX, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.

China painting

O Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.

A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.

Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda de Pequim. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O príncipe tinha duas missões: por um lado, buscava firmar acordos comerciais; por outro, tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.

O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.

Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.

Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.

Mapa chinês alegórico Princípios do séc. XX

Mapa chinês alegórico
Princípios do séc. XX

As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, a Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.

Naqueles tempos, a totalidade da península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. É por isso que, no mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque o francês é apelidado de frog (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.

Mapa-múndi chinês

Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então os dois que reproduzo acima. A China está localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.

Cada um vê o mundo com seus óculos.

Nota
Embora representem variedades do mesmo animal, os termos sapo, rã e perereca são intercambiáveis no falar brasileiro.

Artigo publicado originalmente em 15 jan° 2014

De nascença

José Horta Manzano

Quase três anos atrás, escrevi um artigo sobre a menção, em documentos oficiais, do lugar de nascimento. É que nova lei acabava de ser publicada no Diário Oficial pra, digamos assim, ‘flexibilizar’ a naturalidade do registrando.

Até aquela data, o município de nascimento que figurava no registro de cartório tinha de corresponder ao município onde a criança realmente tinha nascido – o que não deixa de ser lógico. A nova lei veio afrouxar o rigor tradicional. A regulamentação passou a permitir a escolha entre o município onde o nascimento tinha realmente ocorrido e o município de residência da mãe. Condenar um neonato a começar a vida com informação falsa logo no primeiro documento oficial não me pareceu ser boa ideia.

Ultimamente, eis que a França também anda falando em afrouxar as regras de registro de nascimento. As razões são diferentes das do Brasil. Muitos hospitais pequenos estão fechando as portas no país. Financiamento minguado e falta de pessoal médico e paramédico são os motivos. Como consequência, chegado o momento de dar à luz, parturientes têm de viajar dezenas de quilômetros. A criança acaba nascendo num município com o qual a mãe não tem laços afetivos. Daí a ideia de fazer figurar, no registro de nascimento, o lugar de residência da mãe.

A meus olhos, a falsidade continua. Se o registro de nascimento mencionar o município de residência da mãe, isso terá de ser anotado. Desaparece o lugar onde a criança realmente nasceu e o campo passa a intitular-se «Município de residência habitual da mãe». Além de afagar o ego materno, não vejo bem a utilidade dessa menção. Pode até atrapalhar a futura confecção do horóscopo de nascimento do cidadão – coordenadas geográficas errôneas vão falsear o resultado.

O lugar de nascimento é um acidente. Portanto, que seja este ou aquele, pouca diferença faz. Já houve quem tenha nascido num navio, num avião, num bonde, num táxi, numa ambulância. Nada disso afeta a dignidade da pessoa. Assim sendo, mais vale mencionar o município onde o nascimento realmente ocorreu. Ressalvada a particularidade dos (raros) que nascerem dentro de avião ou a bordo de navio, naturalmente.

Coronavírus e pânico

José Horta Manzano

Coronavírus
Uma amiga me pergunta, preocupada, o que penso do coronavírus chinês, e se os europeus estão entrando em pânico por causa da propagação da doença. Respondi que sim, como por toda parte, o coronavírus anda mexendo com os nervos.

Há muita gente entrando em pânico, mas acho que ainda é cedo pra exagerar. É verdade que o bichinho tem potencial de se alastrar rápido, embarcado no enorme volume atual de viagens internacionais.

Assim mesmo, autoridades do Sistema de Saúde da França afirmam que esse novo vírus não é mais letal do que o da gripe comum. Cálculos atuais indicam uma taxa de letalidade em torno de 2% a 3%. Quem corre mais risco são os que estão nos extremos da vida: recém-nascidos e velhos.

Todo ano, milhares morrem de gripe e não sai nos jornais. Quanto a nós, temos de nos orgulhar de nossos vírus nacionais endêmicos; a dengue, o sarampo e a ignorância matam muuuito mais do que qualquer vírus importado.

Representação do deus grego Pan

Pânico
Embora seja atualmente usado quase somente como substantivo, pânico entrou na língua como adjetivo. Como tantas outras palavras, nasceu no grego e viajou até nós através do francês.

Pânico refere-se ao deus Pan, protetor dos rebanhos e dos pastores, frequentemente representado como criatura fantástica, meio homem, meio bode. Diz a lenda que assustava e desorientava os que se aproximassem com os ruídos estranhos e fortes que emitia. Quem o ouvisse se sentia perdido, desorientado, assustado. Entrava em medo pânico (=medo de Pan).

Na língua francesa, ainda se diz peur panique (=medo pânico). Há também o verbo paniquer (=panicar), que nossos dicionários ainda não abonam. Qualquer dia destes, chega.

Lista dos corruptos

José Horta Manzano

É desagradável constatar, mas é a pura verdade: vivemos imersos na corrupção. Ela não está unicamente nas altas esferas da República. Está no quotidiano de todos, nas pequenas transgressões que fazemos sem prestar muita atenção. Somados, esses pequenos deslizes vão pesando na conta geral da percepção da corrupção.

A respeitada Transparency International acaba de publicar o índice global da corrupção, país por país, versão 2019. É assustador. São 180 países, alinhados como em lista de chamada escolar, não mais por ordem de prenome, mas por ordem de corrupção nacional.

Como na escola primária do meu tempo, a pontuação vai de zero (corrupção total e absoluta) a 100 (ausência absoluta de corrupção). Nenhum país consegue a façanha de levar zero nem 100. Viver num país de nota mínima significaria que, pra ganhar um beijo da namorada ou pra entrar de visita no prédio onde mora a avó, precisasse pagar – à namorada ou ao porteiro, conforme o caso. Em nenhum lugar se chega a esse ponto. Na outra ponta, nenhum país chega a levar um 100 pra casa.

Faz anos que o pior lugar da lista é ocupado pela Somália, imersa em guerra de clãs, lugar onde o poder do governo central não vai além dos portões do palácio. Lá fora, na vida real, mandam os chefes de guerra, todos levando uma Kalachnikof a tiracolo. Pra tudo, paga-se. A Somália ganhou nota 9, próxima do zero absoluto.

Os melhores se alternam nos dez ou doze primeiros lugares. Sobem um pouquinho, descem um pouquinho, mas estão sempre ali. Tomaram assinatura. São os países escandinavos, a Suíça, a Alemanha, a Holanda. Assim mesmo, nem a Dinamarca e a Nova Zelândia, que empataram em primeiro lugar, levaram 100. Ficaram no 87. É sinal de que, mesmo nesses países bem-comportados, muito discretamente, ainda se consegue dar um ou outro jeitinho. Coisa leve, hein!

Nas Américas, o Canadá é o primeirão, no 12° lugar mundial. Em seguida, surpreendentemente, vem o Uruguai, em 21°, mais bem colocado que França e EUA. Segue-se o Chile em 26°. Costa Rica, o próximo, só aparece bem mais abaixo, em 44° lugar. Daí pra frente, começa o elenco da vergonha. Quem estiver vendo a lista na tela do computador, tem de rolar um bocado até encontrar o Brasil.

Estamos em 106° lugar, um susto! Uma baciada de países esquisitos nos precedem, com índice de corrupção menos pesado que nós. Por exemplo: Albânia, Kosovo, Etiópia, Equador, Turquia, Indonésia, Marrocos, Benin, Ghana, Bulgária, Romênia, Senegal. Até nossos hermanos da Argentina nos deixam pra trás: estão em 66° lugar.

O mal é muito profundo. Mas alguém tem de ser o primeiro a dar o exemplo. Em vez de brigar por escola com partido ou escola sem partido, por que não inculcar na meninada os princípios da honestidade? Custa pouco e sempre pode dar algum resultado.

A fama já chegou lá

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro chega à Índia como convidado especial para assistir aos festejos do R-Day, festa nacional que comemora a República.

Por essa ocasião, o jornal anglófono Times of India botou na capa um resumo da biografia do convidado. E fecha com a informação principal: “Conhecido como Donald Trump brasileiro”.

O Trump brasileiro
Times of India

Eu me sentiria incomodado com a comparação. Quanto a nosso doutor, acredito que se sinta elogiado. Cada qual com seu cada qual.

Davos e seu cantão

José Horta Manzano

Davos é uma cidadezinha do cantão dos Grisões, Suíça. Li hoje, nalgum lugar, que Davos ficava no «estado» de Graubünden. Não é bem assim. No Brasil, estamos de tal maneira habituados a um país formado por estados, que imaginamos ser isso regra universal. Temos dificuldade em entender que nem todo país é formado da mesma maneira. Não precisa ir muito longe; basta olhar nossos vizinhos e hermanos: Argentina e Peru têm províncias; Paraguai e Uruguai têm departamentos.

Grisões: estrada de ferro turística

A Suíça, que não tem províncias, nem departamentos, nem estados, é formada por 26 cantões. Não convém dizer que ela se divide em, mas realmente que é formada por cantões. O país não resulta de um território originário que, em seguida, foi dividido. Bem ao contrário, é fruto do agrupamento de pequenos territórios indepedentes que, ao longo dos séculos, foram aderindo à confederação. Foi nesse ‘unidos, venceremos’ que encontraram o modo de se proteger contra pretensões de potências maiores. Pequenos territórios foram se agregando até formar a Suíça atual. As fronteiras externas do país estão consolidadas desde o Congresso de Viena, 1815.

O nome do cantão dos Grisões varia conforme a língua. Em alemão, é Graubünden; em italiano, Grigioni; em francês: Grisons; em romanche (a língua local), é Grischun. Em todas as variantes, nota-se um resquício da cor cinza (grau, gris, grigio). É longínqua referência à cor dominante da roupa dos primitivos habitantes, lá pelos anos 1400, 1500.

Uma curiosidade
A língua caseira dos suíços de língua alemã é um dialeto germânico – uma coleção de dialetos, melhor dizendo. No falar deles, o nome dos Grisões é Graubünda. Isso mesmo.

A fome e o meio ambiente

José Horta Manzano

Diante da recusa do chefe, que refugou na hora de embarcar para o Fórum Econômico Mundial, doutor Paulo Guedes se armou de coragem e foi enfrentar o frio de Davos. (Na passada madrugada, o termômetro marcou 12 graus abaixo de zero.)

Para não ir, doutor Bolsonaro alegou razões de segurança. Pegou mal porque ninguém acreditou. Por coincidência, está hoje discursando em Davos o amigo dele, Donald Trump, seguramente o homem mais protegido do mundo.

Quando o avião do presidente dos EUA pousa no pequenino aeroporto de Davos, pode-se observar um balé de dez helicópteros girando em torno da pista, em baixa altitude. A partir daí, entra em cena a comitiva de carrões pretos, blindados, com vidros fumês, cheios de homens troncudos, mal-encarados e bem armados. Essa turma acompanha Trump onde quer que ele vá. Onde estiver Trump, a segurança é pra lá de garantida. Estes dias, pode haver atentado até nos EUA – em Davos, é certeza que não haverá.

A razão do não comparecimento de nosso presidente há de ser outra. No ano passado, quando discursou, ele parecia calouro prestes a cantar um samba em programa de rádio. Provavelmente não sabedor de que há aquecimento nos países avançados, subiu ao palco de casaco. Ficou esquisito. Em seguida, leu umas frases banais, numa curta alocução em que não disse nem deixou de dizer. Vai ver que deixou de comparecer este ano com receio de ser criticado de novo por decepcionar a audiência.

Doutor Guedes disse hoje que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Pontificou que «destroem porque estão com fome». Esse é o senhor –graduado em escolas americanas – que governa nossos dinheiros. Para ele, a degradação do meio ambiente se resume ao deflorestamento da Amazônia. Nada mais.

Nossos dirigentes continuam mal assessorados. A destruição da floresta é apenas um entre muitos fatores que afetam o clima. E não é o mais importante. Se é tão falado atualmente, é porque nosso presidente agitou ao mundo uma bandeirinha vermelha ao mostrar-se favorável ao desmatamento. Aí, caíram matando. Não fosse essa imprudência, ninguém estaria falando em Amazônia.

Entre os dez maiores emissores de CO2 por habitante, não há nenhum país «pobre», pra citar doutor Guedes. São eles, na ordem: Arábia Saudita, Austrália, Canadá, EUA, Coreia do Sul, Taiwan, Rússia, Japão, Alemanha e Polônia. São grandes poluidores porque produzem eletricidade a partir de petróleo ou, pior, a partir de carvão. Se considerarmos somente a emissão total de CO2, sem levar em conta a população do país, a China, os EUA, a Índia, a Rússia, o Japão e a Alemanha aparecem à frente dos outros. Por um lado, têm vasta população; por outro, volta o fator carvão. São eles os grandes vilães do aquecimento do clima.

A zona equatorial africana é muito mais populosa do que a Amazônia. A população é eminentemente pobre. Se pobreza destruísse floresta, a África já teria perdido a cobertura vegetal, o que está longe de ser o caso. O caminho não é esse, doutor Guedes.

Cruz de Lorena

José Horta Manzano

No Brasil, será difícil encontrar alguém que não tenha assistido ao vídeo em que o recém-demitido Secretário Especial da Cultura fez um discurso empolado. Não quero aqui analisar as palavras pronunciadas. Acabo de ler pelo menos uma dúzia de artigos, todos pertinentes. O que me chamou a atenção foi um detalhe cujo significado parece ter escapado a muita gente.

Falo da estranha cruz que aparecia no canto direito da tela, feita com duas barras horizontais em vez da barra única à qual estamos acostumados. Esse objeto não estava ali por acaso.

É a Cruz de Lorena, ostentada desde a Idade Média. Em heráldica, leva nomes pomposos: Cruz Arquiepiscopal ou ainda Cruz Patriarcal. Já apareceu no brasão de armas de bispos, arcebispos e duques.

Nos anos 1400, um tempo em que a fronteira entre França e Alemanha se modificava ao final de cada guerra, a cruz com barra dupla começou a aparecer também na bandeira da Alsácia-Lorena, região fronteiriça que muitas vezes mudou de ‘dono’. Navegou entre França e Alemanha até ser atribuída definitivamente à França em 1945.

No final da última guerra, a Cruz de Lorena foi adotada como símbolo pelas FFI – Forças Francesas do Interior, nome dado ao conjunto daqueles que, armados ou não, se recusaram a aceitar bovinamente a ocupação do país pelas tropas nazistas. Atiraram, explodiram, sabotaram – enfim, infernizaram a vida dos ocupantes.

Mas esses são fatos históricos que o bolsonarismo, doutrina sem raíz, desconhece. O motivo da presença da estranha cruz no vídeo do personagem é outro. Nas últimas décadas, a Cruz de Lorena foi acaparrada pelas agrupações francesas de extrema-direita. O Rassemblement National (antigo Front National), partido da família Le Pen, usa e abusa dessa cruz.

O resultado final é que a nobreza do símbolo acabou desvirtuada. Hoje em dia, qualquer um que brandir a Cruz de Lorena, será imediatamente etiquetado como simpatizante da extrema-direita.

Foi dessa fonte que bebeu o discursante recém-despedido. Teve o desplante de expor, em pé de igualdade, nossa bandeira verde-amarela e o emblema da direita extrema. É simbolismo que dá arrepio.

O homem foi despedido, mas as ideias do bolsonarismo ficam. Continuam intactas para mostrar o caminho radioso da cultura nacional nos próximos anos. Preparem-se.

O Irã e o míssil

José Horta Manzano

Nos tempos atuais, o Irã é um dos países mais vigiados do planeta. Qualquer bombinha de São João que estoure será ouvida, analisada, registrada, perscrutada, estudada. E a informação ainda será arquivada para uso futuro.

Milhares de satélites circulam em volta do planeta. Muitos deles são dedicados à espionagem. Quantos? Impossível saber; normalmente os Estados não costumam deixar filtrar informação sobre os próprios espiões. Seguramente algumas dúzias desses aparelhinhos estão continuamente espionando países como a antiga Pérsia – que, desde 1935, convém chamar Irã.

Como é possível que o alto comando dos aiatolás tenha imaginado sustentar por muito tempo a versão de que o avião ucraniano tinha se espatifado por problemas mecânicos? Antes que o míssil iraniano(*) atingisse o aparelho, já devia estar nos radares de satélites bisbilhoteiros. É evidente. A tentativa de botar nos outros a culpa pelo erro imperdoável era manquitola, esfarrapada. Não enganou ninguém.

A teocracia explicada:
“Vocês votam, Deus decide.”
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

É assustador constatar que, naquele país, míssil capaz de derrubar avião pode ser lançado com tal leviandade. Quer dizer que basta apertar um botão pra mandar pro paraíso duas centenas de nossos semelhantes? Não há filtros de contenção de doidos nessa fieira de comando militar?

Quando se veem absurdos desse calibre, compreende-se a apreensão com que o mundo civilizado cuida de impedir o Irã de fabricar bomba atômica. Imagine por um momento que, no lugar do míssil convencional, estivesse um artefato nuclear. Sente a catástrofe?

Numa região constantemente em ebulição, quando se tem pela frente uma corrente de decisões tão frouxa e pouco confiável, ter bomba atômica é tremenda ameaça. Proibir aquele país de fabricar artefatos nucleares não é birra; está em jogo a segurança do planeta.

(*) Circula a notícia de que o aparelho não foi atingido por um, mas por dois mísseis. Nada muda; a conclusão é a mesma: deixar bomba na mão dessa gente é temerário.

Com casca e tudo

José Horta Manzano

Você sabia?

O sítio onde hoje se ergue a cidade do Porto – maior metrópole portuguesa depois de Lisboa – está entre as zonas de povoamento mais antigo da Península Ibérica.

Livraria Lello & Irmão, PortoBem antes da chegada das primeiras legiões romanas, um povoado já lá estava, implantado bem à beira do Rio Douro. Durante séculos foi conhecido como Cale, mais tarde como Portus Cale. É geralmente aceito que o nome da aldeia se tenha transmitido ao país inteiro.

De fato, a evolução de Portus Cale a Portugal é difícil de contestar. Já quanto ao significado primitivo de Cale, não há consenso. Alguns vêem um descendente do latim calidus (=quente). Dado que não há registros escritos da época, não será fácil dar resposta definitiva.

Porto 1A língua portuguesa é avessa à letra L. Em inúmeros casos em que línguas irmãs apresentam um L simples, o português puramente o suprimiu. Exemplos? Aqui vão:

Italiano     Espanhol     Francês     Português
colare       colar        couler      coar
filo         hilo         fil         fio
tela         tela         toile       teia
volare       volar        voler       voar

Livraria Lello & Irmão, Porto

Livraria Lello & Irmão, Porto

Os artigos definidos seguiram o mesmo caminho. O L que aparece nas línguas hermanas desapareceu na nossa. Le, el, il transformaram-se em o. É um charme, não há dúvida, mas essa queda do L nos causou problemas. Um dia falarei sobre isso. Por hoje, vamos continuar nossa visita a Portugal.

A cidade do Porto é uma das raras que, em nossa língua, são sempre precedidas do artigo. As outras são: o Rio de Janeiro, o Recife, o Crato, o Cairo, o Guarujá. Se houver mais, são poucas. Vai daí, mapas antigos costumavam anotar O Porto, como se escrevessem O Rio de Janeiro ou O Recife.

Vuelo de Ginebra a Oporto

Vuelo de Ginebra a Oporto

Ignorando que aquele «o» não fazia parte do nome da cidade, espanhóis e ingleses engoliram o produto sem desembalar. Consumiram a mercadoria do jeito que veio.

Pelas bandas de Londres e de Madri, o nome da segunda cidade de Portugal é Oporto, sim, senhor. Aliás, o código internacional do aeroporto da cidade é OPO.

Curiosamente, os ingleses, maiores consumidores do vinho do Porto, não aglutinaram o artigo ao nome da bebida. Acertadamente, dizem Port Wine. É de crer que o consumo do néctar produzido nas encostas ensolaradas do Douro esclarece as ideias.(*)

(*) A consumir com moderação.

Publicado originalmente em 6 março 2015.

Visto negado

José Horta Manzano

Não sei se a ideia terá saido direto da cabeça de Mr. Trump ou da de algum acólito. Tanto faz. Combina com o estilo de caubói truculento que, para azar dos americanos e do resto da humanidade, está aboletado na Casa Branca. O fato é que os EUA negaram, esta semana, visto de entrada no país ao ministro de Relações Exteriores do Irã. O estrangeiro não tencionava fazer turismo nos Estados Unidos, mas participar de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. Como todos sabem, a sede principal da organização está situada exatamente em Nova York.

Que fique claro: não estou aqui louvando o regime dos aiatolás e tampouco recebi procuração para defendê-los; o problema não é esse. O nó está em outro lugar.

Em 1945, a Organização das Nações Unidas estava em formação sobre os escombros da Segunda Guerra. A primeira assembleia teve lugar em 1946, em Londres. Naquela ocasião, os países-membros decidiram aceitar a proposta do Congresso americano de instalar a sede principal nos EUA. Depois de longa hesitação na escolha da cidade que acolheria a organização, ficou acertado que seria em Manhattan, Nova York.

O imenso edifício levou 5 anos pra ser construído. Foi inaugurado em 1951. Um tratado foi então assinado entre a ONU e os EUA. Entre outras especificidades, a sede nova-iorquina goza de estatuto de extraterritorialidade, exatamente como qualquer embaixada. O governo dos EUA comprometeu-se a conceder visto de entrada a toda autoridade estrangeira que o solicitasse. Isso demonstra que, tendo em vista que a sede da ONU goza de estatuto extraterritorial, a entrada do estrangeiro nos Estados Unidos nada mais é que passagem. Ele faz o percurso do aeroporto até Manhattan como qualquer passageiro em trânsito.

Portanto, se a notícia da não concessão de visto ao ministro iraniano for verdadeira, temos aí escândalo de proporções planetárias. Pode-se discutir se o assassinato do general iraniano, ordenado por Donald Trump em pessoa, foi ato de guerra ou não. Pode-se também discutir se a retaliação iraniana foi atentado terrorista ou não. Toda opinião é respeitável e cada um tem a sua. Já quanto ao visto negado, no entanto, nenhuma discussão é permitida: trata-se de atentado contra o bom senso. É não cumprimento de palavra dada. Os EUA estão renegando o compromisso que assumiram ao acolher a ONU. O presidente do país não tem o direito de atropelar o que foi combinado.

Quando doutor Bolsonaro, com seu linguajar tosco, ofende a honra e a dignidade de jornalistas que o vêm entrevistar, ninguém diz nada. Todos enfiam o rabo no meio das pernas e engolem qualquer patacoada como se natural fosse. Espero que a banda pensante dos dirigentes do planeta não se acovarde. Não se pode conceder a Donald Trump o poder de tomar esse tipo de decisão por conta própria. Da próxima vez, pra contornar esse estropício, a ONU devia usar sua sede europeia, situada em Genebra (Suíça). O civilizado governo suíço jamais negará visto a ministro nenhum.

O mundo vai mal?

José Horta Manzano

Nós, os habitantes deste planeta, temos a vaga impressão de que o mundo vai mal. Muitas guerras, muita violência, conflitos, atentados, miséria, imigração clandestina, greves, poluição, consumo de drogas, destruição do meio ambiente. Em resumo: vai tudo de mal a pior.

No entanto, a realidade dos fatos é menos assustadora. A impressão de descalabro vem, muito certamente, da velocidade com que a informação circula. Algumas décadas atrás, vários dias podiam decorrer entre o acontecimento e sua aparição nos jornais. Hoje a propagação é instantânea. A proliferação de notícias falsas (em bom português, fake news) ajuda a piorar o cenário. Mas examinemos alguns pontos altamente positivos escondidos por detrás do fluxo de notícias ruins.

As estatísticas oficiais do Banco Mundial medem a pobreza no planeta. Elas mostram que, em 1990, um terço da humanidade vivia com menos de US$ 1.90 por dia, limite da extrema pobreza. Era uma em cada três pessoas. Atualmente, apenas um em cada doze humanos continua abaixo desse limite. É avanço fenomenal conseguido em menos de 30 anos.

clique para ampliar

Outra melhora significativa verificou-se na taxa de mortalidade infantil. Em 1990, de cada mil crianças, 93 não chegavam à idade de 5 anos. Em 2017, esse número baixou para 39 por mil. Isso mostra que há progresso nas áreas de alimentação, vacinação e medicação.

A poliomielite, que flagelava os pequeninos antigamente, está involuindo. Em 1988 foram registrados 350.000 casos. Em 2018, a enfermidade não atingiu mais do que 33 pessoas, uma queda impressionante. Em breve, essa doença estará erradicada.

Pelas estatísticas da Unesco, 67% dos maiores de 15 anos eram alfabetizados em 1980. Em 2017, essa taxa já atingia 86%. Ainda falta um bom pedaço, mas a carroça tem andado na boa direção.

Como se vê, apesar de governantes sombrios e biliosos como Trump, Bolsonaro, Putin, Erdogan, o bando lulopetista e tantos outros espalhados aos quatro ventos, o mundo caminha. Se esses poderosos, que não pensam em outra coisa senão em dinheiro e poder, ajudassem a empurrar o caminhão, a humanidade sairia mais rápido do atoleiro. Mas mesmo sem a ajuda que eles nos sonegam, nós, do andar de baixo, vamos nos virando.

Por ordem de chegada

José Horta Manzano

Você sabia?

Os primeiros automóveis não tinham placa. Um veículo esquisito, que se movia sem tração animal, era novidade absoluta. Havia poucos, razão pela qual não carecia identificá-los. Aliás, mais ou menos na mesma época, ocorreu o mesmo com os telefones residenciais. Quando ainda eram poucos, não tinham número. Girava-se a manivela pra chamar a telefonista; quando ela atendia, bastava pedir: «Quero falar com senhor Fulano (ou doutor Sicrano)». E pronto. Tinha mais charme.

As primeiras placas de automóvel surgiram nos Estados Unidos, mais precisamente na cidade de Nova York. Foi em 1901. Como ainda não havia sido instituído nenhum padrão, a lei obrigava cada automobilista a fabricar a própria placa. Material e cores ficavam a cargo do freguês, mas era obrigatório inscrever as iniciais do nome do proprietário. Com a multiplicação de carros nas ruas, o sistema caducou em poucos anos. Logo veio a normatização.

Na Europa, a superfície dos países é geralmente menor do que nas Américas. Com os novos veículos e estradas mais bem calçadas, viagens internacionais foram se tornando pouco a pouco comuns. Surgiu a necessidade de identificar todo veículo com um novo dado: o país onde estava registrado.

Já em 1910, uma dezena de países europeus – não necessariamente os mais adiantados – se reuniram pra estabelecer um sistema internacional de identificação de veículos. Decidiram que cada país seria designado por uma letra (ou uma combinação de letras). Essa(s) letra(s) deveria(m) aparecer numa placa suplementar, geralmente de formato oval, fixada na trazeira.

O critério para determinar o código de cada país foi… a ordem de chegada. Os primeiros saíram correndo na frente antes que viessem mais pretendentes. Como tinham o alfabeto inteiro à disposição, escolheram ser identificados por uma única letra. A Alemanha (Deutschland, em alemão) ficou com o D; a Áustria e a França reservaram o A e o F respectivamente; Portugal e Espanha garantiram o P e o E. A Hungria quis o H e a Bélgica se apoderou do B. Novos países foram se adicionando ao grupo e, lá pelos anos 1920, quase todos os códigos de uma letra só tinham sido atribuídos. Não havia mais remédio senão aceitar código de duas ou três letras.

Placas padronizadas Mercosul

O interessante da história é que, enquanto outros códigos internacionais foram repensados e reorganizados para refletir a nova realidade (o DDD particularmente), o sistema de identificação internacional de veículos continua igualzinho ao que era mais de um século atrás. Assim, países pequeninos como Luxemburgo e Malta têm código de uma letra só (L e M respectivamente). Enquanto isso, a imensa Índia ficou com uma sequência de três letras (IND), assim como a Rússia (RUS).

No Brasil, em virtude da imensidão do território, não é todos os dias que se cruza uma fronteira. Daí a parca difusão de nosso código. Desde que foi escolhido, em 1930, é BR (porque a Bélgica já tinha ficado com o B). As novas placas padronizadas Mercosul, já aplicadas a todo veículo novo, vão preencher essa lacuna. Pra ninguém botar defeito, trazem o nome do país por extenso.

Nosso vizinho do norte, antes identificado por duas solitárias letrinhas (YV) decidiu ostentar “República Bolivariana de Venezuela”. Pra fazer o nome caber na placa, estão condenados a usar sempre letra miudinha.

Ho, ho, ho!

José Horta Manzano

Antes de se tornar frenesi comercial como conhecemos hoje, Natal já foi festa religiosa. Talvez os mais jovens não consigam dar-se conta disso.

Famílias reunidas – e com fome – iam à Missa do Galo, rito solene e demorado, que começava à meia-noite do 24 para o 25. Digo que iam com fome porque precisava estar em jejum pra receber a comunhão. O número de horas sem comer, que chegou a ser de 12 horas, foi-se afrouxando com o tempo. Depois da missa, ceia simples e levinha esperava em casa. A reunião familiar, de verdade, era para o almoço do dia 25.

É interessante saber também que, antes de ser comemoração religiosa, o fim de dezembro, período de solstício de inverno no hemisfério norte, era pontilhado por festas pagãs. O povo manifestava júbilo e alívio porque as longas noites iam começar a encurtar. A partir da época do Natal, os dias se alongam a olhos vistos. Dependendo da latitude, o período diurno vai mordiscando a noite e vai ganhando um, dois, quatro, cinco minutos por dia sobre o período de escuridão. O Natal anuncia a primavera e o renascimento.

A origem da figura do Papai Noel moderno é conhecida, mas não custa repetir. Até o começo do século XX, algumas regiões da Europa cultivavam a lenda do velhinho que vinha, na época do Natal, presentear as crianças bem-comportadas e castigar as que tivessem sido desobedientes.

Diferentemente do que ocorre hoje, presente de Natal não vinha automaticamente, não era uma evidência. Não bastava ser criança para merecer prêmio. Precisava ter-se comportado bem. Pequerruchos rebeldes arriscavam-se a levar umas chicotadas do velhinho. Era ensinamento útil. Inculcava, nos pequeninos, a noção de que não existe almoço grátis – para atingir um objetivo, há que se esforçar.

A imagem que hoje temos de Papai Noel nada mais é que fruto da imaginação de desenhistas americanos. Em 1921, por ocasião de uma campanha de propaganda encomendada pelos fabricantes de Coca-Cola, bolaram aquele velhinho gordo e sorridente, de bochechas rosadas, viajando num trenó puxado por renas. E dizendo “ho, ho, ho!”.

Na Holanda, identificavam o velhinho do Natal com São Nicolau e o chamavam Sinterklaas. Por influência de imigrantes holandeses, os americanos adotaram o nome depois de o terem anglicizado para Santa Claus. Nos EUA, esse é o nome de Papai Noel. Vai, aqui abaixo, uma pequena lista dos diferentes nomes que diferentes povos dão ao bom velhinho do “ho, ho, ho”.

Noël 8EUA:         Santa Claus      (São Nicolau)
França:      Père Noël        (Pai Natal)
Brasil:      Papai Noel       [francês traduzido pela metade]
Portugal:    Pai Natal
Rússia:      Санта Клаус      (Santa Claus)
Reino Unido: Father Christmas (Pai Natal)
Alemanha:    Weihnachtsmann   (Homem da noite de Natal)
Catalunha:   Pare Noel        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Dinamarca:   Julemanden       (Homem do Natal)
Lituânia:    Kalėdų senelis   (Vovô Natal)
Holanda:     Kerstman         (Homem do Natal)
Suécia:      Jultomten        (Gnomo de Natal ou Duende de Natal)
Bulgária:    Дядо Коледа      (Vovô Natal)
Noruega:     Julenissen       (Gnomozinho de Natal)
Romênia:     Moș Crăciun      (Antepassado do Natal)
Turquia:     Noel Baba        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Polônia:     Święty Mikołaj   (São Nicolau)

Publicado originalmente em 25 dez° 2014

De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação nem sempre pode ser feita. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, é village, que se pode traduzir por vilarejo ou cidadezinha. (Em Portugal, dizem aldeia.)

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade. No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, em 2012. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, como no Brasil atual, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. Fica a cargo do bom senso. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de 50 mil viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França – ah! o país das regulamentações rigorosas – a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE francês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando a população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau(*) (= povoado, arraial).

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente. Volta e meia vem algum grupo de políticos pregar desmembramento de municípios. Em vez de um só, acham mais vantajoso que haja dois ou três. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, toda vez que se aproximam eleições, esse tipo de «bondade» volta ao noticiário. Às vezes, pega.

Na Europa, assiste-se a um movimento inverso. Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos, mais instruídos, fazem as contas e, deixando pra lá rivalidades locais, chegam à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensam amplamente a perda de autonomia.

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos mandachuvas brasileiros continua igualzinha à do Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas. Ou é?

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham e Tottenham (Reino Unido), Arnhem (Holanda), Mannheim (Alemanha), Trondheim (Noruega) são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

Publicado originalmente em 17 jun° 2013.

Palacio Quemado

José Horta Manzano

Não é qualquer país que tem o governo funcionando num palacete chamado “Palacio Quemado”. Pois é o caso de La Paz, Bolivia – cidade que não tem feito jus ao nome, nestes dias de tumulto. Paz não há. Desconheço a origem do nome do palácio. À primeira vista, trata-se de edifício que já foi vítima, no passado, de incêndio. Pelo histórico do país hermano, não espantaria que a queima do edifício não tenha sido acidental, mas provocada.

Os incêndios continuam. Residências de dignitários de alto coturno vêm sendo queimadas. Francamente, a destruição pelo fogo parece fixação nacional. Pressionados pelos eventos, pelas manifestações e, principalmente, pela deserção do exército e da polícia, o governo acabou caindo. Acuados, os dirigentes tinham subido ao telhado quando, espertamente, as forças armadas e a população descontente retiraram a escada. Não houve jeito. Tiveram de pedir arrego e arreglo.

Chegou o capítulo final da longa novela que ali se desenrola há quase 14 anos, desde a eleição de Morales, ainda nos tempos de nosso jurássico mensalão. Imagine o distinto leitor que, quando señor Evo Morales foi eleito pela primeira vez, Chávez ainda encantava Lula da Silva com a lorota dos dólares do petróleo. Foi quando um Morales recém-eleito nacionalizou uma usina da brasileira Petrobrás, cujo maior acionista é o governo brasileiro. Um aparvalhado Lula deixou por isso mesmo.

Evo Morales
by Darío Castillejos, desenhista mexicano

O presidente da Bolívia é um recordista de longevidade. Nos 26 anos que correm de 1980 a 2006, ano de sua primeira eleição, nada menos que 19 presidentes governaram o país, boa parte deles ditadores militares. Isso dá média de um ano e quatro meses para cada mandato. Desde os tempos de Simón Bolívar (que, além de dar nome ao país, presidiu-o por 139 dias), nunca se havia visto presidência tão longa.

Señor Evo Morales um dia teve apoio e ajuda de Cuba, Venezuela, Equador, Nicarágua, Argentina e, mais que todos, do imenso Brasil do PT. Sem o Brasil, a Bolívia é país economicamente inviável. Quem compraria o gaz, de que o país é flatuloso?

Como é fácil de imaginar, Cuba, Venezuela, Argentina e Rússia – cada um por motivo próprio – protestaram contra a renúncia de Morales, que classificam como golpe de Estado. Pode até ser. Mas não há que passar em branco as manobras pouco republicanas que o resiliente presidente boliviano empreendeu para agarrar-se ao Palacio Quemado. Se há golpe hoje contra ele, golpes já houve de autoria do próprio. A coisa vai, um dia a coisa volta.

Mais pragmático, o governo mexicano oferece asilo tanto a Evo quanto aos que lhe são chegados. Boas-vindas ao novo governo do país hermano, que é o vizinho com o qual o Brasil tem, de longe, sua mais longa fronteira: quase 3500km. Vamos torcer para que, desta vez, consiga presidir civilizadamente o país. Ah, e que nenhuma propriedade brasileira seja encampada!