O vírus e o pão

José Horta Manzano

O surto de coronavírus assusta. Dizem que pegou o mundo de surpresa. Pudera! Alguém estaria suficientemente escolado pra encarar um pesadelo desses sem surpresa? O susto vira pânico quando se descobre que não há remédio contra a infecção.

Estamos acostumados a ter medicamento pra tudo. Tuberculose, sífilis, lepra, poliomielite, sarampo e outros males que flagelaram a humanidade por séculos hoje têm cura e, em certos casos, até vacina imunizante.

De repente, surge um bichinho desconhecido, sorrateiro, oportunista; e todos passam a desconfiar de todos. Se passa alguém de máscara, logo imaginamos que esteja doente. Se alguém tosse ou dá um espirro, logo se afastam todos à sua volta – e ainda olham feio.

Aqui onde vivo, nos supermercados, os pães estão às moscas (força de expressão). Pão sobra mas, em compensação, não se encontra mais fermento. Há duas razões para isso. Por um lado, o confinamento deixa o povo sem ter que fazer; ir para a cozinha amassar pão é excelente remédio contra o tédio. Por outro, muitos preferem agora fazer pão em casa por receio de contaminação; nunca se sabe: alguém pode ter tossido em cima do pão na gôndola.

Não sei se ainda se acha fermento no Brasil neste momento. Se houver, sugiro ao distinto leitor tentar a experiência de amassar e assar o próprio pão. É simples, basta respeitar as regras. Receitas há, aos montes: basta passear pelo youtube. Bom apetite.

O mundo vai mal?

José Horta Manzano

Nós, os habitantes deste planeta, temos a vaga impressão de que o mundo vai mal. Muitas guerras, muita violência, conflitos, atentados, miséria, imigração clandestina, greves, poluição, consumo de drogas, destruição do meio ambiente. Em resumo: vai tudo de mal a pior.

No entanto, a realidade dos fatos é menos assustadora. A impressão de descalabro vem, muito certamente, da velocidade com que a informação circula. Algumas décadas atrás, vários dias podiam decorrer entre o acontecimento e sua aparição nos jornais. Hoje a propagação é instantânea. A proliferação de notícias falsas (em bom português, fake news) ajuda a piorar o cenário. Mas examinemos alguns pontos altamente positivos escondidos por detrás do fluxo de notícias ruins.

As estatísticas oficiais do Banco Mundial medem a pobreza no planeta. Elas mostram que, em 1990, um terço da humanidade vivia com menos de US$ 1.90 por dia, limite da extrema pobreza. Era uma em cada três pessoas. Atualmente, apenas um em cada doze humanos continua abaixo desse limite. É avanço fenomenal conseguido em menos de 30 anos.

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Outra melhora significativa verificou-se na taxa de mortalidade infantil. Em 1990, de cada mil crianças, 93 não chegavam à idade de 5 anos. Em 2017, esse número baixou para 39 por mil. Isso mostra que há progresso nas áreas de alimentação, vacinação e medicação.

A poliomielite, que flagelava os pequeninos antigamente, está involuindo. Em 1988 foram registrados 350.000 casos. Em 2018, a enfermidade não atingiu mais do que 33 pessoas, uma queda impressionante. Em breve, essa doença estará erradicada.

Pelas estatísticas da Unesco, 67% dos maiores de 15 anos eram alfabetizados em 1980. Em 2017, essa taxa já atingia 86%. Ainda falta um bom pedaço, mas a carroça tem andado na boa direção.

Como se vê, apesar de governantes sombrios e biliosos como Trump, Bolsonaro, Putin, Erdogan, o bando lulopetista e tantos outros espalhados aos quatro ventos, o mundo caminha. Se esses poderosos, que não pensam em outra coisa senão em dinheiro e poder, ajudassem a empurrar o caminhão, a humanidade sairia mais rápido do atoleiro. Mas mesmo sem a ajuda que eles nos sonegam, nós, do andar de baixo, vamos nos virando.