SP-2

José Horta Manzano

Os anos 1970 eram tempos de Brasil Grande, militares no poder e pesada intervenção estatal na economia. A importação de bens de consumo era proibida. Com um bocado de restrições, controles e chicanas, até que se conseguia importar algum insumo. Já alimentícios, roupa, automóvel, nem em sonho se podia mandar trazer de fora.

Quando algum conhecido viajava para o exterior – viagens eram raras! – levava uma lista de chateações. Eram as encomendas de amigos e conhecidos, com artigos impossíveis de encontrar no mercado nacional. Um chocolate de tal marca, um livro de certo autor, um disco do artista tal, um accessório qualquer. Não tinha como escapar: era trazer ou perder a amizade.

Dado que a importação de carros estava proibida, compradores eram forçados a escolher entre os modelos nacionais, que eram poucos. Faltava um esportivo com ares do inaccessível Porsche. A Volkswagen do Brasil, que operava então com certa autonomia com relação à matriz, decidiu explorar esse nicho. Lançou a linha SP.

Os mais antigos talvez se recordem do SP1, do SP2 e do SP3, comercializados de 1972 a 1976. Foram feitos unicamente no Brasil, para o mercado interno. Nunca ficou claro o significado da sigla SP; as más línguas diziam que era “sem potência”. De fato, apesar da aparência simpática, o desempenho deles estava a anos-luz do que se obtém ao volante de um Porsche. Após quatro anos, a montadora deu por encerrada a fabricação. Cerca de 10.000 carros tinham saído da linha de montagem. Um punhado deles chegaram a ser levados à Europa como bens pessoais de estrangeiros de regresso à pátria.

Não sei se ainda circulam muitos SPs pelas estradas brasileiras quase meio século depois de terem sido fabricados. Na Europa, nunca vi nenhum. Fiquei sabendo que um exemplar esquecido nos gelos da Escandinávia está sendo posto à venda como raridade. Trata-se de carro bem conservado, que rodou apenas 16.000 km. Tudo é de origem inclusive os (poucos) accessórios.

O leiloeiro assegura que é um prazer dirigir a baratinha, graças à simplicidade da mecânica VW. O valor estimado é entre 270.000 e 320.000 coroas suecas (de R$ 135.000 a R$ 160.000). Muitos apreciadores suecos estão namorando o carrinho. Se alguém tiver interesse, ainda dá tempo. Aproveite que, no Brasil, já se pode importar carro. Imagine a alegria desse bijuzinho idoso se puder rever as terras tropicais onde nasceu! Favor entrar em contacto com o portal do automóvel sueco.

Lula em Berlim

José Horta Manzano

O quarto em que Lula da Silva esteve acomodado em Curitiba por ano e meio não era nenhuma masmorra. Assim mesmo, não há de ter sido um prazer ter de viver em espaço confinado por tanto tempo. Acima de tudo, faltou a nosso guia o calor de plateias amestradas.

É surpreendente constatar que os presidentes de nossa República, tanto o Lula quanto o atual, recusam contacto com audiência que não esteja pronta a aplaudir e a dizer amém. Ambos temem enfrentar plateia heterogênea. Lula da Silva deixou de se arriscar diante de público normal desde o dia em que foi vaiado nos Jogos Pan-americanos de 2007, faz 13 anos. Quanto a Bolsonaro, é paranoico de nascença. E tudo sugere que vai piorando. Não sai da bolha de jeito nenhum.

Aproveitando que está livre, Lula da Silva foi-se para a Europa. Passou por Paris e Genebra, visitas que renderam quatro artigos neste blogue: Lula no palanque, Lula em Paris, Lula em Genebra e Lula levanta poeira. Em seguida, já que estava em terras europeias, seguiu viagem. Seus admiradores organizaram uma apresentação para 500 pessoas em Berlim.

Nosso guia, exprimindo-se em português para uma plateia entusiasmada, disse o que se imagina que pudesse dizer. Criticou o governo atual mas confessou não achar que o presidente venha a sofrer impeachment – “Temos que amargar Bolsonaro por quatro anos”. Mas garantiu que o povo brasileiro “lutará pela democracia”. Insinuou apoio ao ditador Maduro ao criticar Señor Guaidó, o autodeclarado presidente.

Quanto às eleições de 2022, deixou o suspense no ar: não se declarou candidato. Por enquanto.

Coronavírus e precauções

José Horta Manzano

Não sei se será impressão minha, mas parece que, no Brasil, a perspectiva de crise econômica está preocupando mais do que a crise sanitária provocada pelo Covid-19. A julgar pelas manchetes e notícias da imprensa, minha impressão é correta. Considerando a área impressa, a recessão mundial que bate à porta ganha de goleada do vírus. Essa atitude é estranha, dado que a recessão é amanhã, enquanto o vírus é hoje.

É verdade que o Brasil não é o terreno de predileção do coronavírus. Não é porque «o vírus morre com o calor», como li outro dia – tolice. A rápida propagação da doença neste fim de inverno do hemisfério norte é simples de explicar. No inverno, faz frio. Com isso, as pessoas tendem a permanecer o tempo todo em locais fechados, abafados, confinados, com ar viciado. Bares, restaurantes e assemelhados são aquecidos e hermeticamente fechados. Transporte coletivo (ônibus e metrô) idem. Pronto, está dada a receita da propagação relâmpago.

No Brasil, dado que costuma fazer calor, há menos ajuntamento em local fechado. Bares e até restaurantes mantêm portas e janelas escancaradas. O vírus não derrete com o calor, mas pode até escapar pela janela.

Na Suíça, por enquanto, não há confinamento. Mas o jornal televisivo, que dura meia hora, gasta 15 minutos com notícias do vírus. Por seu lado, o governo federal lançou campanha de prevenção, com folhetos publicitários em 12 línguas.

Um dos ‘flyers’ editados pelo governo federal suíço. (O português é lusitano.)

Na Itália, saiu hoje ordem do governo: confinamento obrigatório em todo o território nacional. Sair de casa passa a ser permitido somente por razões de trabalho ou necessidade justificada. Estão fechadas, até o mês que vem, escolas, creches, faculdades. Casamentos e homenagens fúnebres estão proibidos. Até futebol, paixão nacional, se joga em estádios sem público.

Na França, o vírus já pegou um ministro e três parlamentares da Assembleia Nacional. O entorno do presidente está sendo cuidadosamente protegido. Banidas as coletivas de imprensa, as viagens, as entregas de condecoração. Confinamento obrigatório está em vigor somente nas regiões mais atingidas do território – por enquanto.

Espero que, no Brasil, as autoridades tomem consciência rapidamente. Não convém brincar com coisa séria. Deixado à solta, sem que se tomem precauções, o Covid-19 que saiu pela janela pode voltar pela porta e fazer estragos.

Lula levanta poeira

José Horta Manzano

A vinda de Lula da Silva a Paris continua levantando poeira. Tanto seus admiradores quanto seus críticos estão em ponto de bala. Do lado dos admiradores, está, em primeiro lugar, a prefeita de Paris. Madame Anne Hidalgo foi autora do convite e idealizadora da outorga da cidadania parisiense honorária ao ex-presidente do Brasil. O convite feito ao Lula é interesseiro: no final, é ela a grande beneficiária da popularidade que ele ainda goza na Europa.

É curioso que, na cabeça da maioria dos europeus, tenha ficado marcada a imagem de um Lula benevolente, caridoso, justo, pai dos pobres. O outro capítulo da novela – o assalto ao erário e as condenações – ainda não passou por aqui. Por que isso acontece? Para mim, é um enigma.

Há quem atribua a magia à máquina de propaganda do lulopetismo. Não acredito. Essa máquina não era forte a ponto de manter o herói no pedestal apesar de todo o infortúnio que se abateu sobre ele desde que deixou a presidência.

Como se sabe, a mente humana é seletiva: digere as verdades que lhe interessam e repele as que lhe são incômodas. Na minha visão, a opinião que europeus têm de Lula da Silva se encaixa nessa mecânica. Registraram a parte boa e rejeitaram os podres. Talvez o identifiquem com a figura tragicômica daquele que rouba mas faz. Trocado em miúdos, o raciocínio do europeu fica assim: naquele país, roubar, todos roubam; este, pelo menos, pensou nos mais pobres.

Fenômeno semelhante aconteceu com Mikhail Gorbatchev, respeitado e paparicado no exterior, mas malvisto em seu país. Sua gestão levou liberdade ao povo russo, razão suficiente para mantê-lo no pedestal dos europeus. Já os russos estão do outro lado do espelho. Por lá, a popularidade do antigo mandatário é sofrível; ele é visto como aquele que fez o império russo virar pó.

Madame Hidalgo não para de falar do Lula. É “Lulá” pra cá, é “Lulá” pra lá. O partido dela, o PS (Partido Socialista) está em declínio acentuado há uma década. Nas últimas eleições presidenciais, conseguiu apenas 6,4% dos votos. A estratégia de Madame é encobrir o nome do partido, omitir os podres de sua gestão como prefeita, e mostrar só coisas boas – como a presença do Lula, por exemplo.

É raro, mas acontece
O jornal francês Valeurs Actuelles, ancorado fortemente à direita, quase escorregando para a direita extrema, não vê o Lula como ‘pai dos pobres’. Fabricou hoje uma manchete assassina e mandou ver: «Lula: tentativa frustrada de ressurreição de um condenado por corrupção – com o apoio de Hidalgo, Hollande e Sarkozy».

The dinner

José Horta Manzano

A foto publicada por The New York Times mostra o jantar oferecido por Donald Trump a doutor Bolsonaro. A refeição não foi servida numa residência oficial da presidência, mas numa propriedade pessoal do presidente dos EUA. Pode ser que a intenção tenha sido instalar clima de maior cordialidade. Também pode ser que Mr. Trump, como todos os que enricaram muito rápido, tenha feito questão de reafirmar sua sólida riqueza e exibir sua suntuosa propriedade, situada numa restinga de Palm Beach.

A foto foi batida antes de o jantar ser servido. Alguns detalhes surpreendem este blogueiro que, na longínqua juventude, trabalhou em hotéis de esplêndida categoria.

É verdade que a perspectiva distorce a imagem; assim mesmo, noto que o vaso de flores e a dobra da toalha não coincidem. Das duas uma: ou o vaso está descentrado, ou a toalha foi mal colocada. Ambas as possibilidades depõem contra o excelso anfitrião.

Outro ponto me chama a atenção; em restaurantes de alta categoria, a toalha é passada a ferro diretamente em cima da mesa – justamente pra evitar dobras e amarfanhados que possam enfeiar o conjunto. Vê-se que os integrantes da governança da propriedade de Mr. Trump faltaram a essa aula.

by Juan de Juanes (1523-1579), artista da renascença espanhola

O número de convivas é simbólico: são 12 ao redor da mesa. Em posição de Deus-Pai, o presidente americano sobressai. O conjunto evoca vagamente uma Santa Ceia com um personagem a menos. Só não fica claro qual dos apóstolos está faltando. Note-se, à esquerda, quase caindo da foto, um doutor Bolsonarinho – aquele que é deputado – pasmado diante da sabedoria que emana do dono da casa.

As demais mesinhas redondas que aparecem ao fundo destoam. Por lembrar prosaica festa caipira, elas atrapalham a alteza da cena. Esclareça-se que os dois personagens postados atrás dos presidentes não são apóstolos. São funcionários intérpretes, cada um a serviço do respectivo governo. Doutor Bolsonaro, que passou a vida preso à dura labuta de sete mandatos consecutivos de deputado federal, não teve tempo de aprender inglês, a língua das comunicações internacionais. Continua monoglota. Ou monolíngue, que soa mais chique.

Uma última observação. Comentaristas políticos se perguntam todos os dias quando é que Bolsonaro vai aprender isto ou aquilo. A foto dá uma pista. Reparem que, durante o solene discurso do anfitrião, todos se mantêm empertigados, em posição de respeito. Todos? Não. Doutor Bolsonaro, que não prestou atenção na postura dos demais, continua dentro de sua bolha estreita e aparece debruçado sobre a mesa, como se em casa estivesse.

Conclusão: quem não costuma observar o mundo a seu redor dá mostra de não ter capacidade de aprender. Assim sendo, está condenado a carregar suas lacunas até o fim.

Lula em Genebra

José Horta Manzano

O distinto leitor há de se lembrar que, pouco antes das eleições de 2018, Lula da Silva solicitou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU que desse parecer sobre a possibilidade de ele – então preso em Curitiba – se candidatar. Numa liminar, o Comitê recomendou ao governo brasileiro que deixasse o Lula ser candidato. Nosso governo repeliu a recomendação, numa decisão, a meu ver, acertada. Aceitar a injunção teria ofendido a soberania do Brasil e de seu Judiciário.

Aproveitando seu atual giro turístico em terras europeias, o ex-presidente desembarcou em Genebra faz dois dias. Veio pressionar pessoalmente o Comitê. Seu objetivo deixou de ser a candidatura às últimas eleições; essas são águas passadas. Quer agora que a entidade lhe conceda uma espécie de salvo-conduto, de absolvição ampla e irrestrita – uma carta branca que apague e anule os erros do passado, as condenações, as penas e suas consequências.

Genebra (Suíça), seu lago e seu jato d’água

A empreitada não é simples. Sem querer prejulgar o processo, é difícil imaginar o egrégio Comitê de Direitos Humanos da ONU afrontando a Justiça brasileira em decisão colegiada e final. Lula já foi condenado em três instâncias. Não dá mais pra falar em perseguição contra sua inflada pessoa unicamente por obra de doutor Moro.

Quanto ao resultado da solicitação, quem viver verá. Pelo momento, fico imaginando que o Lula deve ter economizado um bocado pra poder se oferecer o luxo desta viagem. Paris e Genebra são conhecidas pelo elevadíssimo custo de vida. Como é que ele faz pra pagar viagem, hotel, refeições e tutti quanti? O homem deve estar com dinheiro saindo pelo ladrão. (Sem alusões.) Sua bênção, padrinho!

Boîte à bébé

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos em que vivemos sob o império do politicamente correto, o nome das coisas tem-se transformado. No entanto, de pouco adianta usar luva de pelica: a coisa continua sempre sendo a coisa, ainda que o nome tenha mudado. Mais abaixo, explico.

Desde os tempos bíblicos, existiu a dolorosa situação do recém-nascido rejeitado. Diversas razões podiam levar à rejeição:

    • O pai desconfiava que o filho não fosse seu;
    • O bebê apresentava um defeito físico;
    • A família não tinha recursos para sustentar mais uma boca;
    • A criança, fruto de amor clandestino, tinha sido dada à luz por mãe solteira.

Nos tempos de antigamente, o infanticídio era tolerado. Antes de atingir a idade em que podia servir como força de trabalho, a criança era considerada um não-ser, um objeto. Encaixava-se em estatuto análogo ao do animal.

Boite a bebe 2

Na Europa, o advento do cristianismo introduziu conceitos novos. A caridade e a compaixão foram enaltecidas. Pouco a pouco, o infanticídio passou a ser visto como ato criminoso. Vez por outra, no entanto, crianças continuavam a ser rejeitadas. Como fazer para conciliar crime e virtude?

Boite a bebe 3Pelo fim do século XII, na Itália e na França, uma solução surgiu. Conventos e hospitais (ou hospícios, como eram chamados na época) instalaram um dispositivo engenhoso. Tratava-se de um tambor, geralmente de madeira, embutido num canto discreto da parede. A peça, que girava em torno de um eixo vertical, era oca e tinha uma abertura. Quem estivesse do lado externo podia girar o tambor para inserir, no oco, um recém-nascido. Em seguida, bastava dar meia-volta ao dispositivo para o neonato se encontrar do lado de dentro.

Antes de desaparecer nas sombras da noite, a mãe puxava uma cordinha para avisar que um pequenino acabava de chegar. Assim, em toda discrição, abandonava-se um bebê sem ter de recorrer ao homicídio.

Boite a bebe 4

Na Itália, o sistema chamou-se Ruota degli esposti(1) ‒ roda dos expostos. Na França, deram-lhe o nome de Tour d’abandon ‒ torno de abandono. Aliás, também no Portugal medieval, o dispositivo era conhecido como torno. Esses tambores multiplicaram-se e espalharam-se por toda a Europa até o fim do século XIX quando começaram a rarear.

Boite a bebe 1

A partir dos anos 1950, ressurgiram. Os nomes antigos, hoje, chocam. Foram substituídos por perífrases mais suaves: Le berceau de la vie ‒ o berço da vida; Culla per la vita ‒ berço para a vida; Baby box ‒ caixa de bebês.

Boite a bebe 5Na Alemanha, existem atualmente cerca de 200 desses tambores, chamados Babyklappe ‒ caixa de bebês ou Babyfenster ‒ janela de bebês. A prática tem-se espalhado. A primeira boîte à bébés(2) da Suíça Francesa foi inaugurada estes dias. Hoje em dia, já não precisa tocar o sininho. Um detector de presença indica que a cegonha acaba de trazer um pequenino.

Boite a bebe 6

Não sei se no Brasil existem dispositivos assim. Se não existem, está mais que na hora de pensar nisso. É sempre menos desumano que abandonar recém-nascido em caçamba de lixo.

Interligne 18h

(1) Uma curiosidade
O sobrenome italiano Esposito indica que, setecentos anos atrás, o patriarca da estirpe foi abandonado, quando recém-nascido, na Ruota degli esposti ‒ roda dos expostos. O sobrenome tem variantes (Esposto, Esposti, Espositi) e é particularmente presente na região de Nápoles.

(2) Outra curiosidade
A palavra francesa boîte, que se pronuncia boate, significa caixa. A casa noturna que conhecíamos no Brasil como boate diz-se, em francês, boîte de nuit ‒ caixa de noite. Etimologicamente, a palavra descende da mesma raíz que deu box em inglês e buxo em português (um arbusto comum na Europa, mas raro no Brasil). Interessante, não?

Publicado originalmente em 3 fev° 2016.

Lula em Paris

José Horta Manzano

Já contei aqui que Lula da Silva esteve em Paris, segunda-feira passada, convidado pela prefeita Anne Hidalgo para receber o título de cidadão honorário da cidade. Considerando que o antigo sindicalista já coleciona duas dezenas de diplomas de doutor ‘honoris causa’, concedidos por universidades ao redor do planeta, um título a mais ou a menos não deveria fazer diferença. Acontece que a notícia causou rebuliço na França e, por motivos diferentes, também no Brasil.

A prefeita de Paris é filiada ao Partido Socialista. Parlamentares do campo político oposto ao dela acusaram madame de promover confusão entre o público e o privado. Censuram Madame Hidalgo – que é candidata à reeleição – por gastar dinheiro dos parisienses para promoção pessoal e fins eleitorais. Ela nega.

clique para ampliar

No Brasil, o vice-líder do governo na Câmara, deputado Marco Feliciano, foi outro que não apreciou nadinha a passagem do Lula por Paris. Fiel ao estilo escrachado de doutor Bolsonaro, trepou-se nas tamancas e mandou a equipe preparar ofício dirigido ao presidente da Casa. Em linguagem barroca, com palavras pescadas em dicionário arcaico, a carta sugere que um certo Monsieur Cassandri seja homenageado pela Câmara, em protesto contra a distinção concedida ao Lula.

A lembrança me deixou surpreso. O deputado Feliciano tem excelentes assessores. Monsieur Jacques Cassandri foi o autor intelectual do ‘casse du siècle’ – assalto milionário e espetacular perpetrado em 1976 contra um banco de Nice. Já contei a história num artigo de 2018. Foi cinematográfico. Para recordar, clique aqui.

Por seu lado, achei que o deputado Feliciano está desperdiçando dinheiro nosso. Entre bolar, pesquisar, preparar, escrever, enviar ao destinatário e publicar o ofício nas redes, horas de trabalho foram gastas nessa brincadeira. Os assessores deixaram de fazer coisa mais útil. Não devem ter grande coisa que fazer.

Para encerrar, quero relatar o trecho de entrevista que o Lula concedeu ontem, 4 de março, à rádio pública francesa. Por aqui, ninguém está muito interessado em saber se ele roubou ou corrompeu. O que preocupa os europeus é o descaso com que o Brasil cuida da Amazônia.

Na hora de enfrentar jornalistas, o Lula tem mais jogo de cintura que doutor Bolsonaro. Fez um rápido discurso em favor de maior empenho no desenvolvimento sustentável da Amazônia. E foi nesse ponto que cometeu um ato falho(*).

Declarou que a conservação da Amazônia era importante «para o bem da imunidade». Corrigiu-se em seguida, mas, para mim, já era tarde. Por sorte, a tradução simultânea passou por cima da escorregadela; assim, pouca gente se deu conta.

Fiquei com impressão de que o desejo mais ardente do Lula é conseguir imunidade parlamentar ou presidencial. Ele ainda teme ser levado de novo ao cárcere. Como se sabe, a imunidade o livraria do enrosco.

Ato falho
Segundo o Houaiss, é o «aparecimento, na linguagem falada ou escrita, de termos inapropriados que supostamente remetem para conteúdos ou desejos recalcados referentes ao objeto, à pessoa ou ao fato em questão».

Lula no palanque

José Horta Manzano

Você sabia?

Daqui a dez dias, como fazem a cada 6 anos, os eleitores franceses vão às urnas eleger vereadores e prefeitos. Apesar do protagonismo do coronavírus estes dias, a campanha corre solta, com beliscões, mordidas, acusações, revelações, golpes baixos.

Naturalmente, a disputa pela prefeitura de Paris atrai o interesse da nação inteira. Há já seis anos, a capital é governada pela franco-espanhola Anne Hidalgo, nascida Ana Maria Hidalgo Aleu. Ela nasceu na Espanha mas foi, ainda pequena, para a França, para onde a família emigrou. Perfeitamente bilíngue espanhol-francês, cresceu no país de adoção e naturalizou-se. Sempre militou no PS – Partido Socialista.

Madame Hidalgo concorre à reeleição. Sua mais recente jogada, que deixou boquiabertos e indignados os adversários, foi chamar Lula da Silva para dar uma forcinha em sua campanha. Ontem de manhã, valendo-se dos poderes que lhe confere o cargo de prefeita, Madame Hidalgo convidou-o para uma cerimônia oficial em que lhe concedeu o título de cidadão honorário de Paris. Horas mais tarde, nosso ex-presidente aparecia ao lado da prefeita num comício eleitoral. E não foi à festa sozinho: levou Dilma e Haddad.

Lula, Dilma e Haddad com a prefeita de Paris
2 março 2020

Os adversários de Madame Hidalgo chiaram. Disseram que não é normal ela gastar dinheiro público convidando gente e organizando cerimônias com a única finalidade de alavancar a própria candidatura.

No fundo, eles têm razão. Mas o que ela fez não é proibido; só pega mal. Quanto a nós, o importante é que nossos dois ex-presidentes, assim como doutor Haddad, não venham se servir na arca da Receita Federal para financiar viagens particulares. Acredito que não seja mais o caso. Além do que, o polpudo salário que se paga aos ex-presidentes dá pra essas ninharias.

Curiosidade
Nestas eleições francesas, uma centena de municípios não têm candidatos nem a prefeito, nem a vereador. Visto do Brasil, parece estranho. Como é que é?

O fato é que, num município pequeno, o salário é baixo e o trabalho, puxado. O prefeito funciona como padre no confessionário: tem de ouvir os problemas de cada um, resolver todos os conflitos, estar de prontidão o tempo todo. E, no final, o salário é baixo, não compensa.

Na França, salário de prefeito não é decidido em cada município. É fixado por lei nacional e varia de acordo com a população. Alguns exemplos:

Vilarejos de menos de 500 habitantes: 661,20 euros

Vilarejos entre 500 e 999 habitantes: 1.205,71 euros

Cidadezinhas entre 1000 e 3499 habitantes: 1.672,44 euros

E assim por diante, aumentando pouco a pouco, até chegar ao mais bem pago, o prefeito de Paris, que recebe 9.207 euros por mês.

Note-se que o salário mínimo em 2019 estava em 1.521 euros. É fácil entender que somente prefeito de cidade grande pode dar-se ao luxo de não ter outra atividade. A imensa maioria dos eleitos, depois de empossados, continuam a exercer sua profissão.

Quem quiser saber mais sobre o salário dos prefeitos franceses deve clicar aqui.

O chinês e os mapas

José Horta Manzano

Você sabia?

O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século XX, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.

China painting

O Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.

A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.

Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda de Pequim. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O príncipe tinha duas missões: por um lado, buscava firmar acordos comerciais; por outro, tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.

O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.

Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.

Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.

Mapa chinês alegórico Princípios do séc. XX

Mapa chinês alegórico
Princípios do séc. XX

As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, a Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.

Naqueles tempos, a totalidade da península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. É por isso que, no mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque o francês é apelidado de frog (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.

Mapa-múndi chinês

Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então os dois que reproduzo acima. A China está localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.

Cada um vê o mundo com seus óculos.

Nota
Embora representem variedades do mesmo animal, os termos sapo, e perereca são intercambiáveis no falar brasileiro.

Artigo publicado originalmente em 15 jan° 2014

De nascença

José Horta Manzano

Quase três anos atrás, escrevi um artigo sobre a menção, em documentos oficiais, do lugar de nascimento. É que nova lei acabava de ser publicada no Diário Oficial pra, digamos assim, ‘flexibilizar’ a naturalidade do registrando.

Até aquela data, o município de nascimento que figurava no registro de cartório tinha de corresponder ao município onde a criança realmente tinha nascido – o que não deixa de ser lógico. A nova lei veio afrouxar o rigor tradicional. A regulamentação passou a permitir a escolha entre o município onde o nascimento tinha realmente ocorrido e o município de residência da mãe. Condenar um neonato a começar a vida com informação falsa logo no primeiro documento oficial não me pareceu ser boa ideia.

Ultimamente, eis que a França também anda falando em afrouxar as regras de registro de nascimento. As razões são diferentes das do Brasil. Muitos hospitais pequenos estão fechando as portas no país. Financiamento minguado e falta de pessoal médico e paramédico são os motivos. Como consequência, chegado o momento de dar à luz, parturientes têm de viajar dezenas de quilômetros. A criança acaba nascendo num município com o qual a mãe não tem laços afetivos. Daí a ideia de fazer figurar, no registro de nascimento, o lugar de residência da mãe.

A meus olhos, a falsidade continua. Se o registro de nascimento mencionar o município de residência da mãe, isso terá de ser anotado. Desaparece o lugar onde a criança realmente nasceu e o campo passa a intitular-se «Município de residência habitual da mãe». Além de afagar o ego materno, não vejo bem a utilidade dessa menção. Pode até atrapalhar a futura confecção do horóscopo de nascimento do cidadão – coordenadas geográficas errôneas vão falsear o resultado.

O lugar de nascimento é um acidente. Portanto, que seja este ou aquele, pouca diferença faz. Já houve quem tenha nascido num navio, num avião, num bonde, num táxi, numa ambulância. Nada disso afeta a dignidade da pessoa. Assim sendo, mais vale mencionar o município onde o nascimento realmente ocorreu. Ressalvada a particularidade dos (raros) que nascerem dentro de avião ou a bordo de navio, naturalmente.

Coronavírus e pânico

José Horta Manzano

Coronavírus
Uma amiga me pergunta, preocupada, o que penso do coronavírus chinês, e se os europeus estão entrando em pânico por causa da propagação da doença. Respondi que sim, como por toda parte, o coronavírus anda mexendo com os nervos.

Há muita gente entrando em pânico, mas acho que ainda é cedo pra exagerar. É verdade que o bichinho tem potencial de se alastrar rápido, embarcado no enorme volume atual de viagens internacionais.

Assim mesmo, autoridades do Sistema de Saúde da França afirmam que esse novo vírus não é mais letal do que o da gripe comum. Cálculos atuais indicam uma taxa de letalidade em torno de 2% a 3%. Quem corre mais risco são os que estão nos extremos da vida: recém-nascidos e velhos.

Todo ano, milhares morrem de gripe e não sai nos jornais. Quanto a nós, temos de nos orgulhar de nossos vírus nacionais endêmicos; a dengue, o sarampo e a ignorância matam muuuito mais do que qualquer vírus importado.

Representação do deus grego Pan

Pânico
Embora seja atualmente usado quase somente como substantivo, pânico entrou na língua como adjetivo. Como tantas outras palavras, nasceu no grego e viajou até nós através do francês.

Pânico refere-se ao deus Pan, protetor dos rebanhos e dos pastores, frequentemente representado como criatura fantástica, meio homem, meio bode. Diz a lenda que assustava e desorientava os que se aproximassem com os ruídos estranhos e fortes que emitia. Quem o ouvisse se sentia perdido, desorientado, assustado. Entrava em medo pânico (=medo de Pan).

Na língua francesa, ainda se diz peur panique (=medo pânico). Há também o verbo paniquer (=panicar), que nossos dicionários ainda não abonam. Qualquer dia destes, chega.

Lista dos corruptos

José Horta Manzano

É desagradável constatar, mas é a pura verdade: vivemos imersos na corrupção. Ela não está unicamente nas altas esferas da República. Está no quotidiano de todos, nas pequenas transgressões que fazemos sem prestar muita atenção. Somados, esses pequenos deslizes vão pesando na conta geral da percepção da corrupção.

A respeitada Transparency International acaba de publicar o índice global da corrupção, país por país, versão 2019. É assustador. São 180 países, alinhados como em lista de chamada escolar, não mais por ordem de prenome, mas por ordem de corrupção nacional.

Como na escola primária do meu tempo, a pontuação vai de zero (corrupção total e absoluta) a 100 (ausência absoluta de corrupção). Nenhum país consegue a façanha de levar zero nem 100. Viver num país de nota mínima significaria que, pra ganhar um beijo da namorada ou pra entrar de visita no prédio onde mora a avó, precisasse pagar – à namorada ou ao porteiro, conforme o caso. Em nenhum lugar se chega a esse ponto. Na outra ponta, nenhum país chega a levar um 100 pra casa.

Faz anos que o pior lugar da lista é ocupado pela Somália, imersa em guerra de clãs, lugar onde o poder do governo central não vai além dos portões do palácio. Lá fora, na vida real, mandam os chefes de guerra, todos levando uma Kalachnikof a tiracolo. Pra tudo, paga-se. A Somália ganhou nota 9, próxima do zero absoluto.

Os melhores se alternam nos dez ou doze primeiros lugares. Sobem um pouquinho, descem um pouquinho, mas estão sempre ali. Tomaram assinatura. São os países escandinavos, a Suíça, a Alemanha, a Holanda. Assim mesmo, nem a Dinamarca e a Nova Zelândia, que empataram em primeiro lugar, levaram 100. Ficaram no 87. É sinal de que, mesmo nesses países bem-comportados, muito discretamente, ainda se consegue dar um ou outro jeitinho. Coisa leve, hein!

Nas Américas, o Canadá é o primeirão, no 12° lugar mundial. Em seguida, surpreendentemente, vem o Uruguai, em 21°, mais bem colocado que França e EUA. Segue-se o Chile em 26°. Costa Rica, o próximo, só aparece bem mais abaixo, em 44° lugar. Daí pra frente, começa o elenco da vergonha. Quem estiver vendo a lista na tela do computador, tem de rolar um bocado até encontrar o Brasil.

Estamos em 106° lugar, um susto! Uma baciada de países esquisitos nos precedem, com índice de corrupção menos pesado que nós. Por exemplo: Albânia, Kosovo, Etiópia, Equador, Turquia, Indonésia, Marrocos, Benin, Ghana, Bulgária, Romênia, Senegal. Até nossos hermanos da Argentina nos deixam pra trás: estão em 66° lugar.

O mal é muito profundo. Mas alguém tem de ser o primeiro a dar o exemplo. Em vez de brigar por escola com partido ou escola sem partido, por que não inculcar na meninada os princípios da honestidade? Custa pouco e sempre pode dar algum resultado.

A fama já chegou lá

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro chega à Índia como convidado especial para assistir aos festejos do R-Day, festa nacional que comemora a República.

Por essa ocasião, o jornal anglófono Times of India botou na capa um resumo da biografia do convidado. E fecha com a informação principal: “Conhecido como Donald Trump brasileiro”.

O Trump brasileiro
Times of India

Eu me sentiria incomodado com a comparação. Quanto a nosso doutor, acredito que se sinta elogiado. Cada qual com seu cada qual.

Davos e seu cantão

José Horta Manzano

Davos é uma cidadezinha do cantão dos Grisões, Suíça. Li hoje, nalgum lugar, que Davos ficava no «estado» de Graubünden. Não é bem assim. No Brasil, estamos de tal maneira habituados a um país formado por estados, que imaginamos ser isso regra universal. Temos dificuldade em entender que nem todo país é formado da mesma maneira. Não precisa ir muito longe; basta olhar nossos vizinhos e hermanos: Argentina e Peru têm províncias; Paraguai e Uruguai têm departamentos.

Grisões: estrada de ferro turística

A Suíça, que não tem províncias, nem departamentos, nem estados, é formada por 26 cantões. Não convém dizer que ela se divide em, mas realmente que é formada por cantões. O país não resulta de um território originário que, em seguida, foi dividido. Bem ao contrário, é fruto do agrupamento de pequenos territórios indepedentes que, ao longo dos séculos, foram aderindo à confederação. Foi nesse ‘unidos, venceremos’ que encontraram o modo de se proteger contra pretensões de potências maiores. Pequenos territórios foram se agregando até formar a Suíça atual. As fronteiras externas do país estão consolidadas desde o Congresso de Viena, 1815.

O nome do cantão dos Grisões varia conforme a língua. Em alemão, é Graubünden; em italiano, Grigioni; em francês: Grisons; em romanche (a língua local), é Grischun. Em todas as variantes, nota-se um resquício da cor cinza (grau, gris, grigio). É longínqua referência à cor dominante da roupa dos primitivos habitantes, lá pelos anos 1400, 1500.

Uma curiosidade
A língua caseira dos suíços de língua alemã é um dialeto germânico – uma coleção de dialetos, melhor dizendo. No falar deles, o nome dos Grisões é Graubünda. Isso mesmo.

A fome e o meio ambiente

José Horta Manzano

Diante da recusa do chefe, que refugou na hora de embarcar para o Fórum Econômico Mundial, doutor Paulo Guedes se armou de coragem e foi enfrentar o frio de Davos. (Na passada madrugada, o termômetro marcou 12 graus abaixo de zero.)

Para não ir, doutor Bolsonaro alegou razões de segurança. Pegou mal porque ninguém acreditou. Por coincidência, está hoje discursando em Davos o amigo dele, Donald Trump, seguramente o homem mais protegido do mundo.

Quando o avião do presidente dos EUA pousa no pequenino aeroporto de Davos, pode-se observar um balé de dez helicópteros girando em torno da pista, em baixa altitude. A partir daí, entra em cena a comitiva de carrões pretos, blindados, com vidros fumês, cheios de homens troncudos, mal-encarados e bem armados. Essa turma acompanha Trump onde quer que ele vá. Onde estiver Trump, a segurança é pra lá de garantida. Estes dias, pode haver atentado até nos EUA – em Davos, é certeza que não haverá.

A razão do não comparecimento de nosso presidente há de ser outra. No ano passado, quando discursou, ele parecia calouro prestes a cantar um samba em programa de rádio. Provavelmente não sabedor de que há aquecimento nos países avançados, subiu ao palco de casaco. Ficou esquisito. Em seguida, leu umas frases banais, numa curta alocução em que não disse nem deixou de dizer. Vai ver que deixou de comparecer este ano com receio de ser criticado de novo por decepcionar a audiência.

Doutor Guedes disse hoje que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Pontificou que «destroem porque estão com fome». Esse é o senhor –graduado em escolas americanas – que governa nossos dinheiros. Para ele, a degradação do meio ambiente se resume ao deflorestamento da Amazônia. Nada mais.

Nossos dirigentes continuam mal assessorados. A destruição da floresta é apenas um entre muitos fatores que afetam o clima. E não é o mais importante. Se é tão falado atualmente, é porque nosso presidente agitou ao mundo uma bandeirinha vermelha ao mostrar-se favorável ao desmatamento. Aí, caíram matando. Não fosse essa imprudência, ninguém estaria falando em Amazônia.

Entre os dez maiores emissores de CO2 por habitante, não há nenhum país «pobre», pra citar doutor Guedes. São eles, na ordem: Arábia Saudita, Austrália, Canadá, EUA, Coreia do Sul, Taiwan, Rússia, Japão, Alemanha e Polônia. São grandes poluidores porque produzem eletricidade a partir de petróleo ou, pior, a partir de carvão. Se considerarmos somente a emissão total de CO2, sem levar em conta a população do país, a China, os EUA, a Índia, a Rússia, o Japão e a Alemanha aparecem à frente dos outros. Por um lado, têm vasta população; por outro, volta o fator carvão. São eles os grandes vilães do aquecimento do clima.

A zona equatorial africana é muito mais populosa do que a Amazônia. A população é eminentemente pobre. Se pobreza destruísse floresta, a África já teria perdido a cobertura vegetal, o que está longe de ser o caso. O caminho não é esse, doutor Guedes.

Cruz de Lorena

José Horta Manzano

No Brasil, será difícil encontrar alguém que não tenha assistido ao vídeo em que o recém-demitido Secretário Especial da Cultura fez um discurso empolado. Não quero aqui analisar as palavras pronunciadas. Acabo de ler pelo menos uma dúzia de artigos, todos pertinentes. O que me chamou a atenção foi um detalhe cujo significado parece ter escapado a muita gente.

Falo da estranha cruz que aparecia no canto direito da tela, feita com duas barras horizontais em vez da barra única à qual estamos acostumados. Esse objeto não estava ali por acaso.

É a Cruz de Lorena, ostentada desde a Idade Média. Em heráldica, leva nomes pomposos: Cruz Arquiepiscopal ou ainda Cruz Patriarcal. Já apareceu no brasão de armas de bispos, arcebispos e duques.

Nos anos 1400, um tempo em que a fronteira entre França e Alemanha se modificava ao final de cada guerra, a cruz com barra dupla começou a aparecer também na bandeira da Alsácia-Lorena, região fronteiriça que muitas vezes mudou de ‘dono’. Navegou entre França e Alemanha até ser atribuída definitivamente à França em 1945.

No final da última guerra, a Cruz de Lorena foi adotada como símbolo pelas FFI – Forças Francesas do Interior, nome dado ao conjunto daqueles que, armados ou não, se recusaram a aceitar bovinamente a ocupação do país pelas tropas nazistas. Atiraram, explodiram, sabotaram – enfim, infernizaram a vida dos ocupantes.

Mas esses são fatos históricos que o bolsonarismo, doutrina sem raíz, desconhece. O motivo da presença da estranha cruz no vídeo do personagem é outro. Nas últimas décadas, a Cruz de Lorena foi acaparrada pelas agrupações francesas de extrema-direita. O Rassemblement National (antigo Front National), partido da família Le Pen, usa e abusa dessa cruz.

O resultado final é que a nobreza do símbolo acabou desvirtuada. Hoje em dia, qualquer um que brandir a Cruz de Lorena, será imediatamente etiquetado como simpatizante da extrema-direita.

Foi dessa fonte que bebeu o discursante recém-despedido. Teve o desplante de expor, em pé de igualdade, nossa bandeira verde-amarela e o emblema da direita extrema. É simbolismo que dá arrepio.

O homem foi despedido, mas as ideias do bolsonarismo ficam. Continuam intactas para mostrar o caminho radioso da cultura nacional nos próximos anos. Preparem-se.

O Irã e o míssil

José Horta Manzano

Nos tempos atuais, o Irã é um dos países mais vigiados do planeta. Qualquer bombinha de São João que estoure será ouvida, analisada, registrada, perscrutada, estudada. E a informação ainda será arquivada para uso futuro.

Milhares de satélites circulam em volta do planeta. Muitos deles são dedicados à espionagem. Quantos? Impossível saber; normalmente os Estados não costumam deixar filtrar informação sobre os próprios espiões. Seguramente algumas dúzias desses aparelhinhos estão continuamente espionando países como a antiga Pérsia – que, desde 1935, convém chamar Irã.

Como é possível que o alto comando dos aiatolás tenha imaginado sustentar por muito tempo a versão de que o avião ucraniano tinha se espatifado por problemas mecânicos? Antes que o míssil iraniano(*) atingisse o aparelho, já devia estar nos radares de satélites bisbilhoteiros. É evidente. A tentativa de botar nos outros a culpa pelo erro imperdoável era manquitola, esfarrapada. Não enganou ninguém.

A teocracia explicada:
“Vocês votam, Deus decide.”
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

É assustador constatar que, naquele país, míssil capaz de derrubar avião pode ser lançado com tal leviandade. Quer dizer que basta apertar um botão pra mandar pro paraíso duas centenas de nossos semelhantes? Não há filtros de contenção de doidos nessa fieira de comando militar?

Quando se veem absurdos desse calibre, compreende-se a apreensão com que o mundo civilizado cuida de impedir o Irã de fabricar bomba atômica. Imagine por um momento que, no lugar do míssil convencional, estivesse um artefato nuclear. Sente a catástrofe?

Numa região constantemente em ebulição, quando se tem pela frente uma corrente de decisões tão frouxa e pouco confiável, ter bomba atômica é tremenda ameaça. Proibir aquele país de fabricar artefatos nucleares não é birra; está em jogo a segurança do planeta.

(*) Circula a notícia de que o aparelho não foi atingido por um, mas por dois mísseis. Nada muda; a conclusão é a mesma: deixar bomba na mão dessa gente é temerário.

Com casca e tudo

José Horta Manzano

Você sabia?

O sítio onde hoje se ergue a cidade do Porto – maior metrópole portuguesa depois de Lisboa – está entre as zonas de povoamento mais antigo da Península Ibérica.

Livraria Lello & Irmão, PortoBem antes da chegada das primeiras legiões romanas, um povoado já lá estava, implantado bem à beira do Rio Douro. Durante séculos foi conhecido como Cale, mais tarde como Portus Cale. É geralmente aceito que o nome da aldeia se tenha transmitido ao país inteiro.

De fato, a evolução de Portus Cale a Portugal é difícil de contestar. Já quanto ao significado primitivo de Cale, não há consenso. Alguns vêem um descendente do latim calidus (=quente). Dado que não há registros escritos da época, não será fácil dar resposta definitiva.

Porto 1A língua portuguesa é avessa à letra L. Em inúmeros casos em que línguas irmãs apresentam um L simples, o português puramente o suprimiu. Exemplos? Aqui vão:

Italiano     Espanhol     Francês     Português
colare       colar        couler      coar
filo         hilo         fil         fio
tela         tela         toile       teia
volare       volar        voler       voar

Livraria Lello & Irmão, Porto

Livraria Lello & Irmão, Porto

Os artigos definidos seguiram o mesmo caminho. O L que aparece nas línguas hermanas desapareceu na nossa. Le, el, il transformaram-se em o. É um charme, não há dúvida, mas essa queda do L nos causou problemas. Um dia falarei sobre isso. Por hoje, vamos continuar nossa visita a Portugal.

A cidade do Porto é uma das raras que, em nossa língua, são sempre precedidas do artigo. As outras são: o Rio de Janeiro, o Recife, o Crato, o Cairo, o Guarujá. Se houver mais, são poucas. Vai daí, mapas antigos costumavam anotar O Porto, como se escrevessem O Rio de Janeiro ou O Recife.

Vuelo de Ginebra a Oporto

Vuelo de Ginebra a Oporto

Ignorando que aquele «o» não fazia parte do nome da cidade, espanhóis e ingleses engoliram o produto sem desembalar. Consumiram a mercadoria do jeito que veio.

Pelas bandas de Londres e de Madri, o nome da segunda cidade de Portugal é Oporto, sim, senhor. Aliás, o código internacional do aeroporto da cidade é OPO.

Curiosamente, os ingleses, maiores consumidores do vinho do Porto, não aglutinaram o artigo ao nome da bebida. Acertadamente, dizem Port Wine. É de crer que o consumo do néctar produzido nas encostas ensolaradas do Douro esclarece as ideias.(*)

(*) A consumir com moderação.

Publicado originalmente em 6 março 2015.

Visto negado

José Horta Manzano

Não sei se a ideia terá saido direto da cabeça de Mr. Trump ou da de algum acólito. Tanto faz. Combina com o estilo de caubói truculento que, para azar dos americanos e do resto da humanidade, está aboletado na Casa Branca. O fato é que os EUA negaram, esta semana, visto de entrada no país ao ministro de Relações Exteriores do Irã. O estrangeiro não tencionava fazer turismo nos Estados Unidos, mas participar de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. Como todos sabem, a sede principal da organização está situada exatamente em Nova York.

Que fique claro: não estou aqui louvando o regime dos aiatolás e tampouco recebi procuração para defendê-los; o problema não é esse. O nó está em outro lugar.

Em 1945, a Organização das Nações Unidas estava em formação sobre os escombros da Segunda Guerra. A primeira assembleia teve lugar em 1946, em Londres. Naquela ocasião, os países-membros decidiram aceitar a proposta do Congresso americano de instalar a sede principal nos EUA. Depois de longa hesitação na escolha da cidade que acolheria a organização, ficou acertado que seria em Manhattan, Nova York.

O imenso edifício levou 5 anos pra ser construído. Foi inaugurado em 1951. Um tratado foi então assinado entre a ONU e os EUA. Entre outras especificidades, a sede nova-iorquina goza de estatuto de extraterritorialidade, exatamente como qualquer embaixada. O governo dos EUA comprometeu-se a conceder visto de entrada a toda autoridade estrangeira que o solicitasse. Isso demonstra que, tendo em vista que a sede da ONU goza de estatuto extraterritorial, a entrada do estrangeiro nos Estados Unidos nada mais é que passagem. Ele faz o percurso do aeroporto até Manhattan como qualquer passageiro em trânsito.

Portanto, se a notícia da não concessão de visto ao ministro iraniano for verdadeira, temos aí escândalo de proporções planetárias. Pode-se discutir se o assassinato do general iraniano, ordenado por Donald Trump em pessoa, foi ato de guerra ou não. Pode-se também discutir se a retaliação iraniana foi atentado terrorista ou não. Toda opinião é respeitável e cada um tem a sua. Já quanto ao visto negado, no entanto, nenhuma discussão é permitida: trata-se de atentado contra o bom senso. É não cumprimento de palavra dada. Os EUA estão renegando o compromisso que assumiram ao acolher a ONU. O presidente do país não tem o direito de atropelar o que foi combinado.

Quando doutor Bolsonaro, com seu linguajar tosco, ofende a honra e a dignidade de jornalistas que o vêm entrevistar, ninguém diz nada. Todos enfiam o rabo no meio das pernas e engolem qualquer patacoada como se natural fosse. Espero que a banda pensante dos dirigentes do planeta não se acovarde. Não se pode conceder a Donald Trump o poder de tomar esse tipo de decisão por conta própria. Da próxima vez, pra contornar esse estropício, a ONU devia usar sua sede europeia, situada em Genebra (Suíça). O civilizado governo suíço jamais negará visto a ministro nenhum.