Salve-se quem puder

José Horta Manzano

Faz alguns dias, a França mandou suas tropas para o Mali.

Antes de ir mais adiante, vamos pôr as coisas claras: os habitantes do país lhe dão o nome de Mali (LÍ, com acento tônico na última sílaba). Ouvi dizer que locutores da televisão brasileira andam pronunciado Male, como se a palavra fosse paroxítona. Não me parece correto. Fico com Mali (LÍ). Afinal, quem deu o nome ao país não fomos nós.

Como todos sabem, a França e mais 26 parceiros integram um organismo supranacional chamado União Europeia, união cada vez mais estranha, em que cada um faz o que lhe apraz, no momento em que decide, da maneira que lhe parece mais conveniente, sem se preocupar com os outros sócios.

Desde que Shakespeare pôs na boca de seu Hamlet a celebérrima réplica “to be, or not to be: that’s the question”, a humanidade se deu conta de que não se pode ser e não ser ao mesmo tempo. A gente não se associa somente para as horas do bem-bom, para, em seguida, se fingir de morto quando o negócio azeda. Ultimamente, é assim que tem funcionado esta União. Desde que estourou a crise económica, já faz alguns anos, o clube navega à deriva, sem eira nem beira, tapando um buraco aqui e outro ali.

Na intervenção em terras africanas, o intuito declarado do governo francês é cortar na raiz a ameaça ― concreta ― de que terroristas fanáticos façam da região uma base, um refúgio. É uma opção militar forte, mas não destituída de lógica.

Em matéria de ingerência em países estrangeiros, há precedentes, alguns bem sucedidos, outros não.Marché commun

Nos anos 60, os EUA intervieram no distante Vietnã com o mesmo propósito. Acabou em desastre.

Canhões soviéticos calaram revoluções na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968). Conseguiram o que queriam. Tudo viria a desmoronar junto com o Muro de Berlim, anos mais tarde, mas essa já é uma outra história.

Há muitos e muitos outros exemplos de intromissão na casa dos outros. Mas cada caso é um caso, não vamos explorá-los todos neste espaço.

Voltando ao problema do Mali, os 26 parceiros da França ― falo dos demais membros da União Europeia ― já declararam que não enviarão reforço militar. Se Paris tomou essa decisão com desenvoltura e sem consultar os sócios, que siga seu caminho solitário até o fim.

Não discuto sobre a conveniência da decisão francesa. Soberano, seu governo fez o que achava que devia. O que me surpreende é o fato de a União, após mais de 50 anos de convivência, ainda ser incapaz de combinar antes de agir.

Cada dia fica mais claro que este agrupamento de países está perdendo sua razão de ser. Nascido de um consenso, vai aos poucos se esfiapando, como tecido mal alinhavado.

Não faz sentido expor ao resto do planeta uma falta de coesão tão profunda. Tudo isso acaba deixando uma impressão de desordem que não bate com a imagem de civilidade e de civilização que os 27 gostariam de exibir.

Ao fim e ao cabo, não sobra mais que uma confraria de comerciantes. Que fariam seus negócios de qualquer maneira, com tratados ou sem eles.