Aclamada lá, ignorada aqui

José Horta Manzano

Neste comecinho de carrancuda tarde europeia – e neste comecinho de manhã brasileira que espero radiosa –, está sendo dada a partida da Transat Jacques Vabre(*), uma corrida de veleiros que, com o vigor de seus 26 anos de existência, tornou-se verdadeira tradição.

O percurso começa no porto de Le Havre (norte da França) e termina na sorridente cidade de São Salvador de Todos os Santos (Bahia). É organizada de dois em dois anos e, há 17 anos, o destino tem sido Salvador. Cada veleiro é pilotado por dois marinheiros. A corrida é chamada, às vezes, ‘Rota do Café’, em contraposição a outra tradicional corrida entre a França e o Caribe, a ‘Rota do Rum’.

Transat Jacques Vabre 2019: partida

Precisa muito treino, muito conhecimento e, principalmente, uma coragem impressionante pra enfrentar os perigos do oceano em embarcações bem menores do que as caravelas dos descobridores. É verdade que os modernos meios de comunicação ajudam, mas, quando uma tempestade faz o barco virar com os marinheiros aprisionados embaixo, telefone celular não é de grande valia.

A escolha de Le Havre é simbólica. Está ali «O Vulcão», construção monumental, uma espécie de canudo evasé truncado na parte superior, concebido por Oscar Niemeyer. É dedicado a manifestações artísticas, espetáculos teatrais, música e dança. É composto de dois auditórios.

“Le Volcan”, obra de Oscar Niemeyer
Le Havre (França)

Na França, faz dias que a mídia anda efervescente com a corrida. Hoje, estações de rádio e de televisão estão transmitindo ao vivo a largada. Especialistas comentam, técnicos explicam, engenheiros pontificam, antigos marinheiros relembram. Não há um francês que não esteja sabendo da partida dos barcos.

Consultei a imprensa brasileira. Hoje, dia da largada, nenhum dos grandes veículos nacionais deu a notícia. Nenhum. Nem mesmo a edição online de A Tarde, quotidiano de referência de Salvador. Por que esse desinteresse? Pra que serve o Ministério do Turismo? Francamente, fica às vezes a impressão de que o Brasil flutua num universo paralelo. Daqui a três semanas, quando os primeiros navegadores aportarem em Salvador, talvez apareça alguma nota de rodapé.

(*) A forma transat é usada na linguagem coloquial francesa para transatlântico.

3 pensamentos sobre “Aclamada lá, ignorada aqui

  1. Pingback: José Horta Manzano: a “Transat Jacques Vabre”(*) | Caetano de Campos

    • Você tocou num ponto muito importante para o qual pouca gente tem feito caso. Um desastre dessa magnitude não pode ser acidental. O petróleo espalhado pela costa brasileira bão é vazamento. Representa (no mínimo) o carregamento de um petroleiro inteiro.

      Ora, se tivesse havido um naufrágio, o mundo teria ficado sabendo. Haveria mortos, feridos, desaparecidos, choro, busca. Se não foi isso, só pode ser obra de um navio pirata, desses que navegam clandestinamente daqui pra lá, sem bandeira, sem transponder, sem anunciar. Sabe-se lá por que razão, despejou a carga inteirinha em alto-mar. As correntes se encarregaram de trazer os dejetos para cá.

      Por que terá feito isso? Um bom grupo de pessoas conhece a resposta. Difícil vai ser torná-la pública. Mas há explicação para tudo. Quem sabe, daqui a uns 10 ou 20 anos, documentos secretos serão desclassificados. Aí, quem viver verá.

      Americanos e russos possuem uma rede de satélites potentíssimos, capazes de identificar pequenos objetos. Um navio que abre as comportas e despeja esse tipo de carregamento na superfície do oceano deixa rastro. Não é possível que nada tenha sido detectado. O que deve estar acontecendo é que não interessa a ninguém dar publicidade ao fato.

      Em que mundo vivemos! Ai, ai, ai.

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