A multa

José Horta Manzano

La Chaux de Fonds é uma cidadezinha suíça situada num planalto a 1000m de altitude, nos Montes Jura. Desde o século 18, tem-se distinguido como centro relojoeiro. Naquele clima rude de altitude, a agricultura é problemática, daí a especialização em fabricação de relógios, atividade que se exerce em ambiente fechado e aquecido. Dois personagens de renome internacional fazem o orgulho da cidade.

Um deles é o arquiteto e urbanista Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887-1965), mais conhecido como Le Corbusier. Muitos de seus trabalhos estão na Suíça e na França, mas há realizações suas também em outros continentes. Sua obra está inscrita no patrimônio mundial da Unesco. Um exemplo é a Maison du Brésil, residência destinada a acolher estudantes e pesquisadores brasileiros, situada na Cidade Universitária de Paris. É obra conjunta do brasileiro Lúcio Costa e do suíço Le Corbusier.

1km/h acima do permitido

A outra glória de La Chaux de Fonds é Louis-Joseph Chevrolet (1878-1941), mecânico, piloto de corrida e empresário. Ainda jovem, emigrou para os EUA. Tinha raro pendor para a mecânica. Depois de trabalhar para algumas fábricas de automóvel – naquele tempo, eram numerosas –, fundou sua própria marca. Em 1911 abriu pequena montadora à qual deu seu sobrenome. É justamente a marca Chevrolet, famosa até hoje.

Estou pra lhes contar esta historinha faz tempo. Ela andou esquecida, mas hoje lembrei. Vamos lá. Ocorreu já faz uns anos. Eu estava circulando de automóvel por uma avenida do centro de La Chaux de Fonds, num trecho em que a velocidade é limitada a 50km/h. Distraído, não me dei conta de que estava rodando ligeiramente mais rápido que o permitido. O radar, no entanto, não estava distraído e me pegou.

Dias depois, recebi a multa por correio. No documento, explicavam bem que, numa via onde a velocidade autorizada era de 50km/h, eu estava circulando a 56km/h. A regra manda deduzir 5km/h como ‘margem de segurança’ – que, na minha juventude, se chamava ‘de lambuja’.

Na avenida Chevrolet

Contas feitas, 56 menos 5 = 51. Portanto, o excesso de velocidade era de 1km/h. Unzinho só. Geralmente, quando a infração é tão pequena, a direção do tráfego deixa pra lá. Nesse caso não deixaram. Fiquei surpreso e me perguntei qual poderia ser a razão desse excesso de zelo, que mais parecia pirraça. Multar alguém em 40 francos (170 reais) por um excesso de 1km/h? Dói.

Eis senão quando, descobri o nó. Eu estava na cidade natal de Louis-Joseph Chevrolet, na avenida Louis-Joseph Chevrolet, dirigindo um… Ford! Era afronta imperdoável. Onde já se viu?

De bicicleta

José Horta Manzano

A queixa mais recorrente que se faz contra homens públicos é a de se dedicarem mais a benefícios pessoais e menos ao interesse da população. O modo de agir de grande parte dos representantes do povo é, de fato, desleal. Eleitos que foram para cuidar do bem comum, desvirtuam-se. Uma vez instalados nas confortáveis poltronas das casas legislativas, mandam para escanteio o interesse dos eleitores e passam a cuidar dos próprios.

Um exemplo atualíssimo é a reticência dos parlamentares em promover reformas no sistema previdenciário. Toda pessoa de bom senso, com um mínimo de informação, consegue entender que, do jeito que está, a regra atual não tem condições de se sustentar. Nem a médio prazo. É falência certa, débâcle pela qual todos pagarão: ativos e aposentados, válidos e inválidos, ricos e pobres.

Apesar dessa evidência estatística, suas excelências resistem. O interesse eleitoral imediato de cada um prevalece sobre o bem comum, hipotecando o futuro dos cidadãos. Se trancam a pauta e sonegam o voto, não é por convicção nem por ideologia. Respondem apenas à mesquinha estratégia de passar por simpáticos e assim aumentar a chance de reeleição.

O exemplo vem de cima. Queiram ou não, o comportamento das excelências que nos governam dá o tom. Desvios de conduta lá em cima incentivam atitudes tortas cá embaixo. Fica difícil exigir do zé povinho um comportamento aprumado quando a safadeza de figurões frequenta quotidianamente a mídia.

Estes dias, tornou-se pública a informação de que um cidadão, interessado em conquistar a coroa de recordista mundial de rapidez em bicicleta, conseguiu a impressionante façanha de circular em velocidade superior a 200km/h. O fato se deu no Paraná em novembro último. Parabéns ao campeão. Mas.. como é que ocorreu?

BR-277 sem espetáculo ciclista

Para atingir o recorde, não havia outro meio senão correr no vácuo de outro veículo. O governo do Paraná e a Polícia Rodoviária Federal se acumpliciaram para dar uma ajudazinha ao rapaz. Passando por cima do interesse dos usuários, autorizaram o fechamento de longo trecho de uma rodovia federal. O “espetáculo” teve lugar na BR-277, importante via expressa que liga Curitiba ao litoral. Em plena luz do dia, o tráfego foi interrompido ‒ nos dois sentidos ‒ por longos 20 minutos.

O poder público não se comoveu com a aflição do honesto cidadão que tivesse de apanhar um avião no aeroporto nem com o desespero da mulher prestes a dar à luz que não tivesse outro caminho para a maternidade. Tampouco pensaram em ambulâncias, veículos de bombeiros ou viaturas policiais que porventura tivessem premência de circular por ali. Sem mencionar o contratempo causado aos demais usuários, que são, ao fim e ao cabo, os que pagaram pela construção da estrada e continuam pagando pela manutenção.

Ainda falta muito para o dia em que o interesse público primará sobre conveniências pessoais.

Nota 1
Segundo o locutor televisivo que comentou o “evento”, faz tempo que esse ‘campeão’ ciclista foi banido de competições regulares por motivo de dopagem. Eis por que se dedica a outro tipo de espetáculos. Ficam aqui nossos parabéns às autoridades que patrocinaram a pavonada.

Nota 2
Tanto o recordista quanto as dezenas de veículos que o acompanhavam no eletrizante show circularam em flagrante excesso de velocidade. Não há registro de que algum deles tenha sido multado. Pontos na carteira? Isso é pra nós, que somos menos iguais.

O trem-bala

José Horta Manzano

Uma primeira licitação está sendo preparada para a construção de um trem-bala ligando três grandes núcleos urbanos brasileiros: São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro. O valor estimado? Uma bagatela: 35 bilhões. Estimativa inicial, natualmente, sujeita a dobrar ou triplicar nos próximos anos. Mas isso é detalhe. O que são 50 ou 100 bilhões para um país rico e sem problemas como o nosso?

Primeira consideração:
São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro são cidades servidas por aeroportos de primeira linha. Uma ponte aérea funciona há mais de 50 anos entre o Rio e São Paulo, com partidas a cada 10 minutos. Quem tem pressa chega logo.

Train 2Segunda consideração:
Os mais de quarenta mil mortos (40’000!) em acidentes rodoviários que o Brasil registra a cada ano revelam uma desgraça nacional, um descalabro. Assistimos, indiferentes, a um genocídio continuado. Uma diminuição no volume de tráfego rodoviário seria mais que bem-vinda.

Terceira consideração:
Falta visão aos políticos brasileiros. Simplesmente porque são gente despreparada para as funções que pretendem exercer. A mentalidade que trouxe os primeiros povoadores europeus da terra tupiniquim continua valendo entre eles: après moi, le déluge. Depois de mim, pode vir até o dilúvio, porque estou aqui apenas para passar bem e ganhar dinheiro fácil. Se a coisa ficar preta, me mando pra Miami. Tchau e bença.

Quarta consideração:
Desde que se implantaram no Brasil nos anos 50, os fabricantes de automóveis, além de montar carros, montaram um grupo de pressão ― em bom português, um lobby ― destinado a abortar todo plano de expansão da rede ferroviária. As pressões foram tão fortes que desde então o governo central deixou até de investir na manutenção da malha existente. O resultado conhecemos todos: os caminhos de ferro do Brasil foram sucateados.

Conclusão:
Mesmo sem levar em consideração os inevitáveis «ajustes» de última hora, 35 bilhões de reais já é muita coisa. Melhor seria se o governo central investisse essa enxurrada de dinheiro na reabilitaçãTrain 3o do transporte ferroviário.

Na Europa, tirando algum caso muito especial e localizado, o transporte público intermunicipal se faz por estrada de ferro. Os trens são frequentes, limpos, bem cuidados, respeitam o horário, viajam a velocidades de cruzeiro entre 100 e 140km/h. Há sistemas de assinatura para viajantes frequentes: paga-se por mês ou por ano, com bom desconto. Tanto se pode escolher assinar por um determinado percurso ou pela rede nacional.

Aviões não se arriscam a levantar voo ou a pousar sob certas condições meteorológicas. Automóveis e ônibus não conseguem trafegar em pistas alagadas. Os trens são mais confiáveis. Chuva, vento, nevoeiro, frio, calor, neve, gelo ― nada impede que cumpram o prometido. O trem leva seus passageiros do centro de uma cidade até o coração de outra. Confortável e silenciosamente e, o que é ainda mais importante: sem poluir.

No Brasil, o material ferroviário foi liquidado, mas sobrou o traçado das linhas. Pode não parecer, mas a existência dessas rotas já é um grande passo: elimina ― ou diminui drasticamente ― o gasto com expropriações.

Por que não reabilitar a linha Campinas-SP-Rio, já existente? Que se refaça o traçado de certas curvas para permitir velocidade mais elevada. Que se reinstalem os dormentes. Que se invista em material, que se reabram as antigas estações, que se construam novas. Tudo isso custará infinitamente menos que um trem-bala. E ainda sobrará muito pano para mangas. Se as malversações permitirem, vai dar para reabilitar toda a rede ferroviária do Sudeste brasileiro.

Conosco ninguém podosco.