Noite Feliz

José Horta Manzano

Você sabia?

Os tempos eram duros na Áustria daquele começo de século 19. Naquele mundo mal emergido do regime feudal, a luta pela sobrevivência era espinhosa. Longe dos grandes centros, pior ainda.

O jovem Franz Xaver Gruber teve a sorte de receber instrução e iniciação musical. Ao atingir a maioridade, casou-se. Logo chegaram os filhos. À busca de rendimento pra sustentar a família, Herr Gruber encontrou uma colocação como professor de primeiras letras e organista na igreja do vilarejo de Arnsdorf, perto de Salzburgo.

Selo lançado pelos Correios Austríacos por ocasião do 150° aniversário do falecimento de Franz Xaver Gruber

Mais adiante, o músico recebeu novas responsabilidades. Foi nomeado organista e maestro de coro no vizinho Oberndorf bei Salzburg, vilarejo bem maior. Compositor a horas perdidas, ele decidiu apresentar uma peça nova para ser tocada na Missa do Galo daquele ano. Era bom de música, mas não tinha o dom de escrever versos. Deu com uns escritos de Joseph Mohr, padre que exercia seu ofício na mesma paróquia, e pôs-se a musicá-los.

Na véspera do Natal de 1818, o mundou ouviu, pela primeira vez, a melodia criada por Gruber: Stille Nacht, Heilige Nacht, que conhecemos como Noite Feliz. ‘O mundo ouviu’ é afirmação pra lá de exagerada. Quem ouviu a ‘première’ foram os poucos fiéis que tinham enfrentado o frio para assistir à missa da meia-noite. Como acontece muitas vezes, um sucesso planetário teve início modesto.

Partitura manuscrita de Noite Feliz.
Ainda sem título, vem descrita como Weyhnachts-Lied – Canção de Natal

Esquecida durante as primeiras décadas, a melodia ressurge em meados do século 19, primeiro como peça orquestral. A simplicidade da linha melódica, comovente, parece combinar com o espírito de Natal. Tanto é que, já na virada do século 19 para o 20, boa parte da Europa já conhecia a canção.

Estes dias, Noite Feliz está comemorando 200 anos de existência. De seu nascimento até hoje, já se registram mais de 300 versões gravadas em 45 línguas. De Bing Crosby a Justin Bieber, de Plácido Domingo a Fats Domino, muitíssima gente fina já gravou a canção.

A versão portuguesa foi feita há mais de cem anos. Por questões de métrica, o original alemão «Stille Nacht, Heilige Nacht», que significa «Noite Silenciosa, Noite Santa» deu lugar a nosso familiar «Noite Feliz».

O réveillon ‒ 2

José Horta Manzano

O verbo latino vigilo/vigilare significa estar desperto ‒ por oposição a estar dormindo. Temos, em nossa língua, diversas palavras correlatas: vigiar, vigia, vigília, velório. Todas guardam senso de permanecer acordado.

Na Idade Média, quando não havia luz artificial, ia-se dormir com as galinhas e acordava-se com o galo, como dizia minha avó. Logo depois de escurecer, por falta do que fazer, todos iam pra cama. A véspera de Natal marcava uma exceção: era a única noite do ano em que todos ficavam acordados até mais tarde pra poder assistir à missa do galo.

by Jan Steen (1626-1679), artista flamengo

Na volta da igreja, o estômago já estava começando a roncar. Tomavam então uma refeição fora da hora habitual. Os franceses chamavam a esse costume «faire réveillon»fazer réveillon, ou seja, ficar acordado (veiller) além da hora normal.

Até o século 19, «réveillon» se referia unicamente à véspera do Natal. Em épocas mais recentes, a denominação tende a estender-se também à comemoração do ano-novo, outra ocasião em que se comemora de véspera, todos acordados e enchendo a pança.

Escreve-se réveillon, com acento no primeiro é. Pronuncia-se rêvêiôn. O estagiário que escreveu a chamada ouviu cantar o galo mas não sabia onde. Tinha certeza de que a palavra levava acento, mas hesitava entre as vogais. Com preguiça de consultar o dicionário, tascou o dito em cima do ó. Marcou bobeira. A palavra ficou com um ar assim meio espanhol ‒ estrangeiro, sem dúvida, mas longe do original.

Ho, ho, ho!

José Horta Manzano

Antes de se tornar frenesi comercial como conhecemos hoje, Natal já foi festa religiosa. Talvez os mais jovens não consigam dar-se conta disso.

Noël 6Famílias reunidas – e com fome – iam à Missa do Galo, rito solene e demorado, que começava à meia-noite do 24 para o 25. Digo que iam com fome porque precisava estar em jejum pra receber a comunhão. O número de horas sem comer, que chegou a ser de 12 horas, foi-se afrouxando com o tempo. Depois da missa, ceia simples e levinha esperava em casa. A reunião familiar, de verdade, era para o almoço do dia 25.

É interessante saber também que, antes de ser comemoração religiosa, o fim de dezembro, período de solstício de inverno no hemisfério norte, era pontilhado por festas pagãs. O povo manifestava júbilo e alívio porque as longas noites iam começar a encurtar. A partir da época do Natal, os dias se alongam a olhos vistos. Dependendo da latitude, o período diurno vai mordiscando a noite e vai ganhando um, dois, quatro, cinco minutos por dia sobre o período de escuridão. O Natal anuncia a primavera e o renascimento.

A origem da figura do Papai Noel moderno é conhecida, mas não custa repetir. Até o começo do século XX, algumas regiões da Europa cultivavam a lenda do velhinho que vinha, na época do Natal, presentear as crianças bem-comportadas e castigar as que tivessem sido desobedientes.

Diferentemente do que ocorre hoje, presente de Natal não vinha automaticamente, não era uma evidência. Não bastava ser criança para merecer prêmio. Precisava, além disso, ter-se comportado bem. Pequerruchos rebeldes arriscavam-se a levar umas chicotadas do velhinho. Era, a meu ver, prática útil. Inculcava, nos pequeninos, a noção de que não existe almoço grátis – para atingir um objetivo, há que se esforçar.

Noël 7Não tem nada que ver com Natal, mas, como não sei ver defunto sem chorar, repito: os programas assistenciais implantados estes últimos anos no Brasil vão na contramão desse ensinamento básico. O sistema atual dá aos cidadãos a certeza de que é natural que Papai Noel distribua suas benesses sem pedir nenhum esforço em troca. É pena que crianças cresçam nessa ilusão, porque, na vida real, as coisas não funcionam exatamente assim.

A imagem que hoje temos de Papai Noel nada mais é que o fruto da imaginação de desenhistas americanos. Em 1921, por ocasião de uma campanha de propaganda encomendada pelos fabricantes de Coca-Cola, bolaram aquele velhinho gordo e sorridente, de bochechas rosadas, viajando num trenó puxado por renas. E dizendo “ho, ho, ho!”.

Os holandeses identificavam o velhinho do Natal com São Nicolau e o chamavam Sinterklaas. Por influência dos imigrantes batavos, os americanos adotaram o nome depois de o terem anglicizado para Santa Claus. Nos EUA, esse é o nome de Papai Noel. E, no resto do mundo, como fica? Que nome se dá ao bom velhinho do “ho, ho, ho”?

Noël 8EUA:         Santa Claus      (São Nicolau)
França:      Père Noël        (Pai Natal)
Brasil:      Papai Noel       [francês traduzido pela metade]
Portugal:    Pai Natal
Rússia:      Санта Клаус      (Santa Claus)
Reino Unido: Father Christmas (Pai Natal)
Alemanha:    Weihnachtsmann   (Homem da noite de Natal)
Catalunha:   Pare Noel        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Dinamarca:   Julemanden       (Homem do Natal)
Lituânia:    Kalėdų senelis   (Vovô Natal)
Holanda:     Kerstman         (Homem do Natal)
Suécia:      Jultomten        (Gnomo de Natal ou Duende de Natal)
Bulgária:    Дядо Коледа      (Vovô Natal)
Noruega:     Julenissen       (Gnomozinho de Natal)
Romênia:     Moș Crăciun      (Antepassado do Natal)
Turquia:     Noel Baba        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Polônia:     Święty Mikołaj   (São Nicolau)