História triste de fim de ano

by Caio Gómez, Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 janeiro 2022

É verdade que, em época de fim de ano, é costume falar de presentes, de peru e de farofa. Só que, ao lado do sonho, está sempre a vida real, uma danadinha que tem o desagradável hábito de nos puxar de volta ao chão. Assim, apesar da vontade de escrever uma fábula com guirlandas e fogos de artifício, cedo ao dever de manter pés na terra. Deixo pra passear de jet ski outra hora.

Alguns apontam La Niña como responsável; outros atribuem a tragédia a um pesado carma que o país carregaria. Pouco importa. O fato é que, desde novembro, o estado da Bahia vem sendo castigado por verdadeiro dilúvio. Chove tudo o que Deus mandou, e mais ainda.

Enxurradas, enchentes, desabamento de habitações, desmoronamento de morros, queda de pontes, colapso de estradas – nenhuma desgraça terá sido poupada à população. O governador do estado não economizou palavras. Segundo ele, estamos assistindo ao “maior desastre natural da história da Bahia”.

Na Europa, onde bem poucos seriam capazes de apontar a Bahia num atlas, a notícia tem saído no jornal, no rádio e na tevê, ao vivo e em cores. Comovidos, governadores de pelo menos dez estados brasileiros já se movimentaram para enviar ajuda humana e material para mitigar o apuro dos sinistrados.

Segundo a contagem publicada no momento em que escrevo, o desastre já atingiu mais de 100 municípios, pelo menos 25 mortos, cerca de 360 feridos e pra lá de 30 mil desabrigados. Para dar uma ideia de grandeza, é como se, de repente, a população inteira de Dracena (SP), de Diamantina (MG), de Soledade (RS) ou de Gameleira (PE) perdesse o teto. Incluindo homens, mulheres, crianças, gestantes e anciãos. Todos na rua. Sem contar os mortos e os feridos.

Decerto cutucado por algum assessor para que fizesse algum pronunciamento, o presidente Bolsonaro veio a público e pareceu condoído da sorte dos feridos e desabrigados. Disse que “agora, no início do ano que vem” tinha intenção de editar medida provisória liberando crédito de 200 milhões “para atender o pessoal”. Disse isso no dia 27 de dezembro. Até “o início do ano que vem”, com boa vontade, faltava pelo menos uma semana. Pra quem tem teto e vive abrigado em palácio, cercado de seguranças e com aluguel pago pela Viúva, ‘estar sem teto’ não passa de figura de linguagem. Na vida real, é outra coisa.

Mas o doutor seguiu para o segundo capítulo de suas férias. Depois da dança do funk no litoral paulista, foi gozar as delícias da costa catarinense, bem longe da Bahia, das enchentes, dos desmoronamentos e dos pobres. Partiu com o espírito leve dos que nada devem.

Assessores mais conscientes hão de ter considerado que, para quem perdeu tudo e vive ao relento, ter de esperar até “o início do ano que vem” era muito. Logo na terça-feira 28 saiu a medida provisória com o crédito extraordiário. Mas a nota da Secretaria-Geral da Presidência adverte aos baianos que não venham com muita sede ao pote. O dinheiro não é só para eles, não. Terão de compartilhar com Amazonas, Minas Gerais, São Paulo e Pará.

Pois é, enganou-se quem imaginava que o auxílio de emergência fosse para os desabrigados reconstruírem as casas. De olho na recuperação do tráfego rodoviário, ora bloqueado por causa dos estragos provocados pela chuva, o governo deixou bem claro que esse dinheiro se destina a recuperar as estradas. Quem perdeu a casa? Que se vire. Deus é grande e há de ajudar, não é mesmo?

Pela enésima vez fica escancarada a absoluta falta de empatia do capitão, sua rematada indiferença com os problemas alheios. Fosse ele um cidadão comum, essa bizarria não iria além do círculo familiar. No entanto, sua posição de chefe do Estado brasileiro faz que a distorção de caráter respingue sobre o andamento da nação.

Bolsonaro sabe que, sem uma economia florescente, será difícil reeleger-se. O espeto é que, possuído por essa ideia, não se dá conta de que os votos da reeleição virão justamente daqueles que ele hoje relega a segundo plano. Esses infelizes não são variáveis de ajuste, presidente, são seus potenciais eleitores!

Mas não adianta. Não há pior cego que aquele que não quer ver. Vamos torcer para que as eleições deste novo ano não nos ponham de novo um estropício na Presidência – nem este, nem aquele. Feliz 2022 a todos!

Ícaro moderno

José Horta Manzano

Você sabia?

Franky Zapata é piloto profissional de jet ski. Apesar do nome de revolucionário mexicano, o moço é francês de Marselha. Tem uma coleção de medalhas conquistadas em campeonatos nacionais e internacionais.

Acontece que Monsieur Zapata é buliçoso e criativo. Com um grupo de amigos, trabalhou duro durante anos a fim de construir o que chamou de Flyboard. O nome da geringonça corresponde ao que ela faz: é uma prancha que voa. Desde 2012, ele comercializa exemplares de seu invento.

Trata-se de uma prancha de diminutas dimensões, sobre a qual cabe apenas um homem de pé. Debaixo estão instalados os turbopropulsores. O reservatório de combustível fica… adivinhem onde? Numa mochila, nas costas do piloto. Precisa ser meio maluquinho, não?

Bom de marketing, o rapaz achou que precisava dar ao mundo um exemplo marcante do funcionamento da engenhoca. A travessia do Canal da Mancha – 35km entre França e Inglaterra – é o sonho de todos os que inventam algum objeto voador. Desde que o pioneiro Blériot atravessou o canal com seu precário avião, em 1909, muitos seguiram sua iniciativa. Nosso campeão de jet ski sentiu que tinha chegado sua vez.

Franky Zapata de ‘Flyboard’

Depois de uma tentativa infrutifera em julho, Franky Zapata conseguiu atravessar o canal neste domingo 4 de agosto. Decolou de Sangatte, uma praia na costa francesa, e pousou em St. Margaret’s Bay (Inglaterra), 20 minutos mais tarde. Voou a uma altura de 15-20 metros, a uma impressionante velocidade média de 160-170km/h. Foi acompanhado por helicópteros. No meio do percurso, um barco estava a postos, esperando por ele. Chegando lá, o aventureiro pousou por alguns segundos, só pra apanhar nova mochila. Em outras palavras: reabasteceu.

Um grupo de cinegrafistas disse adeus ao piloto quando levantou voo na França e outro grupo saudou sua chegada à Inglaterra. O engenhoso inventor já foi sondado pelo exército francês, interessado na utilidade que o Flyboard possa ter para o Ministério da Defesa.

Ainda bem que o voo experimental ocorreu antes do Brexit. Se tivesse sido depois de 31 de outubro, Monsieur Zapata poderia até ser preso assim que pisasse solo inglês. Seria processado por ter entrado no país através de passagem fronteiriça não autorizada. E era bom que tivesse o passaporte no bolso, se não ia ser ainda pior.

Para ter uma ideia de como é ver um homem voando, assista à chegada do aventureiro à praia inglesa neste videozinho de um minuto.