Nobel dos escritores

José Horta Manzano

Saiu hoje o nome dos vencedores do Nobel de Literatura, safra 2019. O momento é bom pra lembrar que, em 120 de existência, esse troféu glorioso já foi atribuído a nomes como: George Bernard Shaw, Thomas Mann, Hermann Hesse, William Faulkner, Albert Camus, Salvatore Quasimodo, John Steinbeck, Mario Vargas Llosa. Apesar da penca de celebridades, ficou de fora muita gente. Muitos sentem certa frustração ao constatar que a distinção nunca coube a Jorge Amado, Jorge Luis Borges, Umberto Eco, Simone de Beauvoir e mais uma baciada de sumidades.

É da vida. Em toda competição há sempre o incômodo segundo lugar, classificação que cabe àquele que quase chegou lá, roçou a vitória, mas voltou pra casa mãos abanando. Sabe-se lá quem terá sido o segundo colocado em cada edição? A comissão julgadora, imbuída de escandinava secretividade, não dá entrevista nem se manifesta sobre debates internos. (Diferentemente de nosso STF que, de escandinavo, não tem muito.)

Toda escolha envolve boa dose de subjetividade. Não é razoável exigir que a comissão julgadora leia, um a um, os milhares de romances publicados cada ano no mundo. É obrigatório dar uma peneirada prévia, o que elimina muita coisa boa e afasta muita gente fina.

Se você, escritor, nasceu em país anglo-saxônico e escreve em língua inglesa, tem muito mais chances de ser lido do que se escrevesse em javanês ou moldávio. Por mais que o comitê tenha vocação universalista e democrática, algum resquício de prevenção sempre fica grudado no fundo da panela.

Sir Winston Churchill

Uma curiosidade
O ganhador do Nobel de 1953 ficou na história por motivos bem afastados da amena literatura. Poucos se lembram de que o vencedor daquele ano foi Sir Winston Chuchill, herói do Reino Unido, reverenciado por ter conduzido a nação à vitória na Segunda Guerra Mundial.

A produção literária de Sir Winston, basicamente dedicada à biografia e à história, não seria suficiente pra justificar atribuição de tão elevada distinção. O próprio comitê, ao motivar sua decisão, alargou o espectro e mencionou «seus discursos brilhantes para a defesa dos valores humanos». Passemos sobre o fato de que discurso de homem político é frequentemente escrito por terceiros. Churchill terá tido o mérito de escolher bons assessores, uai!

Dizem que o velho guerreiro, já então com 79 anos, ficou decepcionado ao tomar conhecimento da láurea. Teria mil vezes preferido receber o Nobel da Paz. É verdade que cairia melhor.