O jogo

José Horta Manzano

Você sabia?

Imagine o distinto leitor que a Seleção viaje a um país estrangeiro pra enfrentar a seleção local num jogo classificatório de uma copa qualquer. Chega o dia da partida. Estádio repleto, bandeiras desfraldadas, apitos, risos, gritos, torcidas organizadas, ambiente de festa. E de tensão.

Antes do apito inicial, é hora dos hinos. Pelo alto-falante, vem a voz do lucutor: “And now, ladies and gentlemen, please stand for the national anthem of Brazil – E agora, senhoras e senhores, queiram levantar-se para o hino nacional brasileiro”. Os jogadores perfilados, rosto sério, mão no coração, esperam os acordes da introdução. Eis senão quando… soa o hino argentino!

Estupefação geral. Os jogadores se entreolham sem entender. Ninguém sorri, ninguém faz cara feia, todos arregalam os olhos. Na arquibancada, os torcedores brasileiros que acompanharam a Seleção vaiam com estrondo. O hino continua irritantemente a tocar. Vai até o fim. Ninguém aplaude. Em seguida, soa o hino dos donos da casa. O estádio explode de contentamento.

by Kopelnitsky, desenhista ucraniano-americano

O árbitro faz menção de dar início à partida, mas a equipe visitante se nega a jogar. “Não vamos jogar enquanto não tocarem nosso hino!” Os minutos passam sem que os organizadores se deem conta do que está acontecendo. Por que não querem jogar? Demorou até entenderem que tinham tocado o hino errado. E demorou mais ainda até encontrarem o hino certo.

Chega mais uma vez a ordem pra ouvir os hinos. Os jogadores voltam a perfilar-se. “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas” – desta vez, foi. Quando a coisa estava pra entrar nos eixos, a diretoria do estádio decidiu jogar flores na equipe visitante. Ecoa de novo a voz tonitruante do locutor: “Damos as boas-vindas à seleção da Bolívia!”. No alarido do ambiente, poucos se deram conta do disparate. Mas os jornais deram no dia seguinte.

Tem cara de piada, não é? Pois fique sabendo que aconteceu de verdade. Foi ontem à noite, 8 de setembro. Na campanha de classificação para a Eurocopa 2020, a França recebeu a Albânia para um jogo no imponente Stade de France, nas cercanias de Paris. Os fatos se desenrolaram como contei. Em vez do hino albanês, ouviu-se o hino de Andorra – que, aliás, quase ninguém conhecia. E o locutor deu boas-vindas à seleção da… Armênia.

O time francês acabou vencendo a Albânia por 4 a 1. Não se sabe até que ponto os incidentes do início desestabilizaram os visitantes. Compungida, a federação francesa apresentou humilde pedido de desculpa.