Vítimas esquecidas

José Horta Manzano

O Brasil tem 200 milhões de habitantes. A Suíça, 8 milhões. Dá uma proporção de 25 brasileiros para cada suíço.

O Brasil tem sido país de imigração desde que o primeiro navegador aportou. A quase totalidade do povo descende de gente que chegou, por vontade ou à força, de outros continentes. Eram verdadeiros imigrantes: vieram para ficar.

A Suíça tem forte contingente de estrangeiros. Apesar disso, não aparece entre tradicionais países de imigração. Os forasteiros, em maioria vindo de países vizinhos, guardam contacto íntimo com a pátria. Conservam língua e costumes. Sempre que podem, passam férias no país onde nasceram. Chegada a idade da aposentadoria, é comum retornarem ao lugar de origem.

Siria 2No Brasil, calcula-se em 2 milhões os descendentes de árabes – predominantemente sírios e libaneses. Desconheço estatísticas suíças sobre esse particular. Seja como for, o número de sírio-libaneses é ínfimo.

Já faz alguns anos que a Síria, como bem sabem meus distintos leitores, atravessa período turbulento. Bombardeios, atentados, balas perdidas, perseguições, execuções sem julgamento, prisões arbitrárias, atrocidades, destruição em massa, ataques a minorias. A guerra civil é medonha. Quase sete milhões de infelizes – um terço da população – foram obrigados a abandonar tudo o que possuíam e fugir pra salvar a pele.

Parte dos exilados vive em acampamentos precários na Turquia, na Jordânia ou no Líbano. A maior parte dos expulsos não tem para onde fugir: vagam ao deus-dará dentro do próprio país. Uma desumanidade.

O portal Último Segundo informa que, nos últimos quatro anos, o Brasil deu refúgio a exatos 1524 sírios. Quanto à Suíça, as mais recentes estatísticas indicam a presença de 4000 refugiados daquele país. E isso não é tudo. O governo helvético acaba de anunciar que vai dar asilo, ao longo dos próximos três anos, a mais três mil sírios, perfazendo um total de sete mil refugiados daquele castigado país.

Siria 1Guardando a proporção (25 brasileiros para cada suíço) e extrapolando o número de asilados, a aritmética é implacável: para fazer igual, o Brasil deveria acolher 175 mil refugiados sírios. E isso sem levar em conta os laços de parentesco, simpatia e amizade que unem os dois países há mais de um século. Amigo deveria ser pra essas coisas. Ou não?

Realmente, o cálculo não bate, não faz sentido. Refugiado não vota, será por isso que não desperta o interesse dos poderosos? Francamente, se temos dinheiro até para perdoar dívida de ditaduras africanas, deveria sobrar um pouquinho para dar uma mão a um povo com o qual temos ligação tão forte.

Hoje em dia, na hora de tentar asilo no Brasil, criminoso tem mais chance que vítima de guerra.

Desafio

José Horta Manzano

Duelo 1Fui desafiado! Ainda bem que já vai longe o tempo em que se duelava em defesa da honra. Fiel leitora e amiga de longa data, a escritora Myrthes Suplicy Vieira resolveu chacoalhar o vespeiro. Dou-lhes, aqui abaixo, o pingue-pongue.

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Repto ao editor deste blog

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Meu questionamento é simples: vale realmente a pena salvar a democracia do Brasil?

Conversei demoradamente com minhas cachorras sobre esse tema. Elas demonstraram, assim como eu, um enorme ceticismo quanto à possibilidade de implementação de uma solução realmente eficaz para enfrentar em definitivo os desafios de nossa pátria.

Embora concordemos que a convocação de uma Assembleia Constituinte seja a opção mais sensata neste momento, ainda guardamos fortes resistências quanto à sua formatação. Quem seriam os constituintes? Os mesmos parlamentares que hoje nos enchem de vergonha por sua miopia na defesa dos direitos dos cidadãos? Juristas e pessoas consideradas como de douto saber? Quem especificamente? Novos representantes do povo escolhidos especialmente para a ocasião? Que critérios seriam adotados para identificar os mais aptos ética e politicamente a desempenhar essa missão?

Cachorro 18Vai longe o tempo em que nos deparamos com estadistas, aquele tipo de pessoa que minhas cachorras insistem em chamar de líder de matilha. Não sabemos mais identificar governantes capazes de esconjurar o populismo e que se façam seguir meramente por serem modelos vivos de suas crenças. Que façam na prática o que pregam como estratégia política. Que queiram servir e não servir-se.

Minhas cachorras apontam ainda outra fragilidade em nosso sistema. O país, dizem elas, está hoje dividido entre nós e eles, brancos e negros, ricos e pobres, defensores do impeachment e os que anseiam pela volta dos militares. Quem poderia, perguntam, promover a reconciliação? E vão além. Dizem que a população está numa fase delicada de transição, sem saber ao certo se aposta no próprio poder e descarta as velhas estruturas viciadas ou se quer delegar o poder uma vez mais a um guia forte, centralizador, que jure conhecer todas as saídas. Quem poderá falar aos corações das duas partes e cicatrizar as feridas que o ódio de classes abriu?

Perdoe o avolumado de nossas perguntas. Você sabe como os cães conseguem ser insistentes e como eu busco incessantemente pelo em casca de ovo. Tão logo você consiga metabolizar tantas indagações, por favor registre suas percepções em uma nova postagem. Aguardamos ansiosas suas respostas. Torcemos para que você consiga identificar pessoas ou instituições dispostas a pegar do chão a banana que atiraram contra nós e usá-la como fonte de nutrientes.

Atenciosamente,
Myrthes, Molly e Aisha

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

 

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Querida amiga e fiel leitora,

Como se costuma dizer em países de fala francesa, «la réponse est dans la question» – a resposta está contida na própria pergunta. Você quer saber se vale realmente a pena salvar a democracia do Brasil? Se, por «salvar», você entende segurar e dar sustento ao regime que vivemos atualmente, minha resposta é claramente negativa. Não, não vale a pena manter o que aí está. E não acredito ser o único a pensar assim. Isso posto, que fazemos?

Com a arrogância que só a ignorância lhe permite, nosso guia acaba de conclamar o país a uma guerra civil. Não deixa de ser um caminho, embora não me pareça o mais cômodo. Luta armada não é cenário propício para cidadãos condenados a continuar vivendo juntos depois do armistício. Marcas profundas perigam subsistir por decênios. Melhor escolher outra via.

Nós e elesAs instituições jurídicas de que dispomos têm mostrado sua ineficácia. Por um lado, vemos ladrões de galinha apodrecendo em masmorras por anos inteiros. Por outro, vemos bandoleiros de colarinho e gravata livres e soltos – à custa de batalhões de advogados pagos com nosso dinheiro. Para os poderosos, embargos infringentes, remissões de pena, indultos, perdões e outros habeas corpus. Pros outros, a crueza da lei nua. A manter-se esse baião judiciário de dois tempos – um tempo para os do andar de cima e outro, bem diferente, para a ralé –, o País não voltará aos trilhos tão cedo.

Constituição 5Que senda escolher então? Convocamos os russos? Os americanos? Os chineses talvez? O prazo está-se esgotando. Mais vale agir antes que o clamor nacional – que se avoluma em ritmo frenético – não deixe outra saída senão chamar de volta os brucutus. Daí eu preconizar novo arcabouço legislativo. Um reset e uma reformatação geral. Uma nova república.

A atual, nascida das cinzas de regime autoritário, privilegiou a liberdade. Preocupados em suprimir o «entulho autoritário», descuidados constituintes exageraram na dose. Esqueceram que, a cada direito concedido, tem de se contrapor um dever. Como resultado, vivemos num regime em que o cidadão tem braçadas de direitos e escassos deveres. Naturalmente, o que tinha de acontecer está acontecendo: os direitos de uns se sobrepõem aos direitos de outros. O resultado é bagunça total. Manda quem grita mais alto.

Assembleia 3Para criar novo regime sem guerra civil, sem intervenção estrangeira e sem brucutu nas ruas, não há outro caminho senão uma assembleia constituinte. Como montá-la? Quem serão os componentes? Quais serão suas atribuições? E o Código Penal – fica como está ou deve ser reescrito? Não cabe a mim, sozinho, dar resposta a essas questões. Diferentemente de nosso guia, tenho a humildade de reconhecer não dispor de soluções mágicas na algibeira. Tampouco costumo tirar coelhos do boné.

Não sei por onde começar, mas sinto que a hora é agora. O Brasil tornou-se um pote até aqui de mágoa. Acredito (e espero) que, entre nossos 200 milhões de compatriotas, ainda haja gente de bom senso e de boa vontade, cidadãos dispostos a levar a ideia adiante. Oxalá.

Ou então… resta a opção mais simples: deixar tudo como está pra ver como fica. Na hora H, é até capaz de dar tudo certo. Afinal, Deus é brasileiro, não é mesmo?

Mui cordialmente,
José Horta Manzano

O futuro das filhas do futebolista

José Horta Manzano

Bola futebolMaxwell Scherrer Cabelino Andrade, capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, é jogador de futebol. Por ter atuado desde jovem no exterior, é pouco conhecido no Brasil.

Aos 20 anos foi contratado pelo Ajax de Amsterdam e, desde então, seguiu carreira na Europa. Na sequência, foi contratado pelo Internazionale de Milão (Itália) e pelo Barcelona (Espanha). Faz três anos que o moço joga no Paris Saint-Germain.

Atualmente com 33 anos, o jogador vê aproximar-se a hora de pendurar as chuteiras. Em entrevista ao portal francês Goal, abriu-se e gerou a manchete: «Maxwell ne veut plus rentrer au Brésil» – «Maxwell não quer mais voltar para o Brasil».

É sabido que todo futebolista brasileiro em fim de carreira arruma um contratozinho em terra tupiniquim. Um ou outro vai para os EUA, mas a maioria prefere mesmo a terra tropical. Por que será que esse defensor do PSG pensa diferente? Na entrevista, ele mesmo conta.

Maxwell confessa ter sucumbido aos encantos de Paris. O que mais o deixa maravilhado é a oferta histórico-cultural da cidade. Museus estão por toda parte. O jogador considera que, para suas filhas, é uma grande sorte poder continuar vivendo na França. Crescendo naquele ambiente, elas terão oportunidades muito maiores do que se estivessem no Brasil.

Futebol Maxwell«Estou feliz de poder dar a elas algo que eu não recebi quando criança» – acrescenta o esportista. E completa: «A coisa mais preciosa que posso deixar a minhas filhas é a educação. Acredito que voltar ao Brasil hoje não seria a melhor solução para elas».

Como as coisas mudam, distinto leitor! Até dez ou vinte anos atrás, o sonho maior de todo brasileiro que tivesse vivido no exterior era voltar um dia para a terra natal. Praia, coqueiro, rede, sombra e água de coco falavam mais alto. Hoje, já não é mais sistematicamente assim.

Se bem que, com a Pátria Educadora… quem sabe as coisas mudam? Parece que agora vai.

Bode expiatório

José Horta Manzano

Bode 1O homem costuma dar um jeito para que seus pecados sejam pagos por algum outro vivente. Religiões e civilizações trataram de designar seu bode expiatório. Houve quem sacrificasse animais – algumas religiões continuam seguindo a prática. Houve até os que chegaram a sacrificar gente – qualquer um servia, desde que não fosse o comanditário.

Por se faz isso? Porque se supõe (e se espera) que o sacrifício aplaque a ira dos deuses. Já que alguém tem de ir para o abatedouro, que seja um bicho, que é mais simples. Na pior das hipóteses, que vá um ser humano – qualquer um serve, desde que não seja eu.

Dezenas de empresários, políticos, figurões, deputados, senadores – até um governador! – estão atualmente na berlinda, acusados de participação na roubalheira orquestrada contra a petroleira nacional. Não estamos falando do seu Manuel da venda, minha gente, são mandarins graúdos: até o presidente da Câmara e o do Senado aparecem na lista dos réus! Não é coisa pouca.

No entanto, anestesiado por mentes muito mais matreiras do que imagina, o povo anda seguindo, sem se dar conta, o velho padrão. Dado que é difícil pedir a cabeça de tanta gente, o foco cristalizou-se numa figura só: a da presidente da República. É a Geni da vez, para-raios da ira popular.

ba Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

by Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

Panelaços, críticas, acusações, diatribes e cartuns são lançados contra dona Dilma. Não digo que ela esteja isenta de culpa na deliquescência de nossa sociedade. Culpada certamente é, como são todos os que, tendo como fazê-lo, se desobrigaram de dar contribuição para minorar os males de que sofrem os brasileiros. Dona Dilma, contudo, não é a única, longe disso.

Muitos medalhões merecem tanto quanto ela – talvez até mais – ser alvo de condenamento público. Para essa gente, o panorama atual é bálsamo, um presente do povo brasileiro. Estão esfregando as mãos de satisfação. Enquanto o rebanho se pinta de verde-amarelo e levanta cartazes exigindo o impedimento da presidente, a caravana dos velhacos-mores vai passando. E a poeira vai baixando. Nada como dar tempo ao tempo.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Fica cada dia mais evidente que a República Nova, que emergiu em 1985 das cinzas do regime militar, se esgotou. Populismo, incompetência e corrupção acabaram com ela. O regime nascido em 1946 tinha durado parcos 18 anos. O regime militar não se manteve de pé por muito mais: só 21 aninhos. Estes trinta anos de República Nova já representam, para nossos padrões, duração apreciável.

Dá no mesmo, que Dilma fique ou que Dilma se vá: o regime está carcomido e o fundo do poço está próximo. Chegou o momento de convocar, pelo voto universal, representantes do povo a fim de fabricar nova Constituição. Constituinte, já!

Frase do dia — 228

«Cabe, sim, que as forças sociais, econômicas e políticas se organizem e dialoguem sobre como corrigir os desmandos do lulopetismo que levaram o país à crise moral e a economia à recessão.»

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República, em nota publicada em 7 mar 2015.

A caixinha mágica

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 mar 2015

Caixa 1Minha avó, genuíno produto do século 19, nasceu antes do rádio, do avião e do automóvel. Mal e mal chegou a conhecer a televisão. Costumava contar uma história fantástica que tinha ouvido quando criança. Falava de um rei de conto de fadas que possuía uma caixinha mágica. Aproximando o ouvido do estojinho, o monarca podia escutar tudo o que acontecia no reino, inclusive as conversas de todos os súditos. Um prodígio.

Radio 4«Era o rádio!» – explicava-nos a velhinha, extasiada de ter assistido à transmutação da caixa mágica em objeto real. Até o último suspiro, a velha senhora acreditou firme que, com a radiodifusão, a humanidade tinha atingido o apogeu em matéria de comunicação e de encurtamento de distância.

Estava enganada, como hoje sabemos. Ainda havia muito pela frente. Vieram os satélites artificiais e, com eles, a banalização da telefonia intercontinental. Aviões a jato converteram expedições dificultosas em escapadinhas de fim de semana. Os complicados «cérebros eletrônicos» de antanho evoluíram: onde antes exigiam local vasto e exclusivo, cabem hoje no bolso de qualquer mortal. Calculadora de supermercado tem poder superior ao dos gigantescos ancestrais.

Carro 3Veja só como era. Uma explosão, atribuída a enorme meteoro, sacudiu a Sibéria em 1908. A rebentação destruiu a floresta num raio de 20 quilômetros e danificou aldeias a léguas dali. De trem, a notícia levou alguns dias para chegar aos ouvidos do tsar, na capital do império. Precisou mais algumas semanas para o mundo ficar sabendo. Para arrematar, a primeira expedição de inspeção científica ao local só foi organizada vinte anos mais tarde. Era essa a velocidade com que notícias se alastravam.

O mundo mudou. O andamento se acelerou. A assombrosa rapidez com que zilhões de gigabaites se disseminam a cada segundo tem facilitado a vida de muitos – mas conturbado a existência de outros. Quem pouco ou nada tem a esconder aprecia o ritmo frenético de redes sociais, uotisaps & congêneres. Já pra quem prefere a discrição… todo cuidado é pouco. O ambiente está ficando perigoso.

Qualquer cidadão dotado de bom senso concorda que o Brasil atravessa etapa periclitante. Se a vertiginosa circulação da informação não é causa única, tem contribuído para agravar.

Apito 1Já não se pode mais ter confiança em nada nem em ninguém. Câmeras, grandes e pequenas, estão por toda parte. Você pode estar sendo filmado e gravado pelo próprio cidadão com quem está confabulando – um microaparato pode-se dissimular no nó da gravata ou até no botão do colarinho.

Um magistrado toma emprestado por alguns minutos um carrão apreendido, só pra sentir o gostinho de sentar-se ao volante de um bólido, e pronto: já foi filmado, gravado e denunciado. Um apuro!

Camera 1Um figurão, no inocente intuito de conhecer a cotação do dólar, chama um doleiro amigo, e pronto: já caiu na boca do povo. Uma impropriedade!

Um obscuro funcionário dum banco de Genebra, ao levar no bolso um trivial pendrive carregado com dados financeiros de seleta clientela, incendiou a banca e mandou para o espaço o secular segredo bancário suíço. Uma iconoclastia!

Nossa presidente já disse mais de uma vez que nunca antes neste país se haviam investigado tantos crimes. Tem razão. Primeiro, porque nunca se tinha visto cachoeira de malfeitos tão caudalosa. Segundo, porque a linha que antes apartava os bastidores do picadeiro está cada dia menos nítida. Francamente, já não se pode mais nem delinquir em paz.

Computador 8O que tem salvo figurões, medalhões e magnatas – por enquanto! – é o fato de o cenário andar muito concorrido. Os envolvidos são pletora, e o palco está lotado. Tudo o que é demais cansa. Chegado ao ponto de exaustão, o cidadão, vencido pela apatia, vai-se tornando blasé, indiferente.

Mas deixe estar. Mais dia, menos dia, esse deprimente espetáculo do petrolão, em cartaz já faz um ano, há de chegar ao fim. Alguns comparsas serão irremediavelmente condenados, nem que seja para exemplo. Já os capangas-mores – alguém duvida? – escaparão. Impedimento da presidente? Nem pensar. Não interessa a ninguém, e a emenda pode sair pior que o soneto.

Big Brother 1O petrolão terá sido marco divisório entre o velho Brasil e o novo. Deverá desestimular a corrupção, assim como a Segunda Guerra baniu conflitos globais.

Nepotismo, compadrio e corporativismo sempre existirão, é inelutável. Mas, convenhamos, candidatos à delinquência em escala industrial serão muito cuidadosos da próxima vez. Onde antes não havia risco, hoje há. Big Brother veio pra ficar.

A lista que incomoda

José Horta Manzano

by Roque Sponholz, desenhista paranaense (clique para aumentar)

by Roque Sponholz, desenhista paranaense
(clique para aumentar)

Sei não. Essa história de divulgar a lista do petrolão numa sexta-feira à noite está-me cheirando a artimanha pra evitar que a imprensa tenha tempo de reagir.

Editoriais & assemelhados só vão aparecer na segunda-feira, quando a poeira já tiver baixado um pouco. Difícil acreditar que tenham escolhido o dia por mero acaso.

Basta de criminosos!

José Horta Manzano

Já temos bandidos suficientes. Não precisamos de criminosos estrangeiros.

Battisti, o fugitivo mais procurado da Itália

Battisti, o fugitivo mais procurado da Itália

Todos os jornais italianos – todos eles – aplaudiram de pé a surpreendente reviravolta do caso Battisti. Foi neste 3 de março que o Estadão deu a notícia: uma juíza federal determinou que o referido senhor seja expulso do território nacional.

A sentença leva a data de 26 fev°. É intrigante que tenha passado despercebida por quase uma semana. A gente imagina que a mídia esteja atenta a tudo o que de importante acontece mas, na hora do vamos ver, fica claro que observadores andam meio sonolentos. Jornais do mundo inteiro repercutiram a novidade. Até o New Zealand Herald, do outro lado do globo, postou um artigo.

O simbolismo por detrás da boa-nova é alvissareiro. Os longos anos em que o Lula presidiu a República caracterizaram-se por uma política externa particularmente danosa. No Planalto, a ignorância de uns combinada à ingenuidade de outros resultou em mistura explosiva.

Durante aqueles anos de tresvario, assistimos impotentes a:

Interligne vertical 16 3Kbafagos a ditadores sanguinários,

trôpega tentativa de aproximação com o Irã,

juras de amor eterno a Chávez e aos Castros,

desmantelamento da Alca,

consolidação de aliança «estratégica» com a China – o maior destruidor de nossa indústria e de nossos empregos,

intervenção marota, amadora e infrutífera na Honduras de Zelaya,

implantação de dezenas de custosas embaixadas em ilhotas que literalmente não estão no mapa,

ridícula tentativa de desenredar a questão palestina,

abertura de embaixada na Coreia do Norte, país que abriga 6 (seis) brasileiros, incluindo o embaixador, mulher e filha.

Foi um desastre que deixará marcas.

Lula e ChavezEntre as safadezas, sobressaiu a concessão de asilo político a um fugitivo chamado Cesare Battisti, condenado em seu país por participação em assassinatos.

O Lula esperou o último dia de seu mandato para, contrariando determinação do STF, assinar o ato de acolhida do criminoso. Por acaso, foi no mesmo dia em que concedeu passaporte diplomático a toda a «primeira família», crianças incluídas. Quanta arrogância!

Quanto a dona Dilma, tirando dois beijinhos nos Castros e alguma declaração retórica de apoio a este ou àquele hermano, não fez nem desfez. Menos efusiva que seu predecessor, não nos cobriu de ridículo. O fato de nossas representações diplomáticas estarem em atraso no pagamento de contas de água e luz é menos vexatório do que ver o Lula em manchete global levantando o braço de Ahmadinejad. Francamente.

Bigode 1A decisão tomada agora pela corajosa e lúcida juíza federal representa o início do desmonte do desvario inaugurado doze anos atrás. Se tudo correr como manda o figurino, signor Battisti será devolvido a seu país de origem para responder pelos crimes que tiver cometido. No momento, seu lugar é lá, não aqui.

Que volte ao Brasil mais tarde, como cidadão livre, no dia em que estiver quite com a justiça italiana. Agora, não é hora.

Para juristas
A íntegra da sentença de expulsão do estrangeiro está disponível aqui.

Dignidade démodée

José Horta Manzano

Petrobras 3Nestes tempos bicudos de valores pervertidos e de salve-se quem puder, vez por outra surge um fato pra ajudar a levantar o moral.

Destoando da enxurrada de calamidades, uma notícia honrada apareceu mês passado. Em outros tempos, seria encarada como banal, evidente. Já em épocas degeneradas como a atual, merece destaque.

Mônica Bergamo, articulista da Folha de São Paulo, informou – em letrinhas miúdas – que familiares de dona Zilda Arns tinham polidamente declinado de uma homenagem que a Petrobrás se preparava a prestar à ilustre médica falecida tragicamente cinco anos atrás no terremoto de Porto Príncipe. A petroleira se propunha a dar, a um dos navios da Transpetro, o nome da médica sanitarista.

Zilda ArnsNuma educada resposta, a família renunciou à homenagem. Como justificativa, argumentou que só permitia que o nome de dona Zilda fosse usado em eventos ou objetos cujo objetivo não fosse comercial. Não era, evidentemente, o caso do barco da Petrobrás, portanto…

Andamos todos tão acostumados a ver gente se apoderando do que não é seu sem pedir licença que ficamos surpreendidos com tal demonstração de recato fora de moda.

O que costumava ser regra passou a ser exceção cada dia mais rara. Vamos torcer para que atitudes como essa se multipliquem.

Só para terminar: diante da recusa, a Petrobrás tascou na embarcação o nome da falecida escritora Zélia Gattai, mulher de Jorge Amado.

Vamos votar?

José Horta Manzano

Você sabia?

Lembrete aos eleitores: Vota-se este fim de semana

Lembrete aos eleitores:
Vota-se este fim de semana

No Brasil, o cidadão só dispõe de uma maneira de votar. Tem de apresentar-se pessoalmente no local determinado, assinar o livro de presença, encarar aquela maquineta (que algumas línguas venenosas garantem ser pouco confiável) e apertar o botão quando a cara do menos ruim aparecer.

Em outros cantos do mundo, o eleitor dispõe de outros caminhos pra exprimir seu desejo. Em muitos países, o voto antecipado por correspondência é comum. É o caso da Suíça e da Itália, entre outros.

Cada cidadão maior de idade recebe, três ou quatro semanas antes do escrutínio, todo o material necessário para votar. Vem o título de eleitor (que vale só para aquela eleição), o boletim com as diversas opções ou as linhas em branco, o envelope que garantirá o segredo. Vem também um folheto com o nome dos candidatos e, se for o caso, uma explicação sobre o objetivo do plebiscito ou do referendo.

Urna 7A maioria prefere votar logo e mandar pelo correio. Quem fizer questão, pode também dirigir-se ao local de voto no dia da eleição, geralmente um domingo de manhã. Poucos deixam para o último dia. De qualquer maneira, cada um já chega lá com o voto preenchido e o envelope fechado. A única diferença é o gesto simbólico de depositar pessoalmente o boletim na urna.

Algumas cidades – Genebra entre elas – já andaram testando o voto por internet. Acredito que as conclusões não tenham sido lá muito positivas, porque não tenho mais ouvido falar nessa modalidade. Todos sabem que, no quesito segurança, internet não é a melhor pedida.

Na França, não se vota por correspondência. Em compensação, oferecem uma opção surpreendente: o voto por procuração. É isso mesmo – um cidadão passa procuração a um outro, que vai votar em seu lugar. Soa esquisito, não?

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Há condições a preencher. O mandante e o procurador têm de ser domiciliados no mesmo município. Além disso, nenhum procurador pode representar mais de uma pessoa. Em outros termos, ninguém pode ser encarregado de votar por 2, 10, 20 ou 50 indivíduos.

A modalidade é últil para pessoas acamadas ou com problemas de locomoção. Pode também servir para os que estarão de viagem no dia do voto.

É cenário que só pode funcionar em país onde a desigualdade sociocultural se mantém dentro de faixa apertada. No Brasil, por enquanto, é inconcebível.

A bolha assassina

Ruy Castro (*)

Dilma gordaA presidente Dilma emagreceu 13 quilos em menos de dois meses. Puxados pelos índices econômicos, seu governo, sua força no Congresso e sua popularidade também emagreceram em escala equivalente. Essas quedas bruscas podem ser enganadoras, mas os observadores mais independentes consideram que Dilma já não tem muita gordura para queimar e garantem que seus índices continuarão caindo. Ainda mais agora, por ter contra si um partido capaz de tudo quando se encontra na oposição: o PT.

E é isto que torna a coisa intrigante. Dilma foi criação exclusiva de Lula – fundador, perpétuo inspirador e sinônimo do PT. Feita de barro e posta a andar com um sopro, ocupou cargos-chave nas duas administrações do criador e, por sua identificação com os princípios, programas e posturas do PT, foi duas vezes escolhida candidata à presidência pelo partido. Em ambas as campanhas, e nos dois turnos de cada, foi solidamente instrumentalizada pelos ideólogos e marquetólogos petistas – nenhuma frase, palavra ou ideia lhe saiu pela boca sem aprovação oficial.

Dilma magraInstrumentalização esta que atravessou seu primeiro governo e se materializou na chuva de benesses populistas, redução de taxas, estímulo ao consumo, vivas ao desperdício e bolsas a cair do céu para tantas categorias. Tudo proposto e aprovado triunfalmente pelo PT, e executado por milhares de militantes ocupando cada espaço da administração e reafirmando ser aquilo apenas uma fiel continuação do governo Lula.

Se, de repente, descobre-se que tal triunfalismo não passava de uma bolha, que a bolha estourou e é preciso conter o pus, por que espremer somente Dilma se, em quatro anos, ela só fez o que os companheiros achavam justo e certo?

Só falta agora que, abandonada por Lula, desprezada pelos companheiros e odiada pelo povo, Dilma engorde tudo de volta.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

Joões que choram, joões que riem

José Horta Manzano

Campo de colza na Europa

Campo de colza na Europa

O azar de uns…
A insatisfação de caminhoneiros anda fazendo a infelicidade de muitos no Brasil. Nos anos 1960, a rodovia primeiro suplantou, depois dizimou toda atividade ferroviária. Desde então, a economia do País tornou-se dependente do caminhão. Qualquer perturbação no movimento de carga pesada tem reflexo imediato dos montes roraimenses às coxilhas gaúchas.

… faz a felicidade de outros
Mas a balança tem dois pratos. Se um baixa, o outro, necessariamente, tem de subir. O Brasil, grande fornecedor de soja, não é o único produtor de alimento animal. Outras partes do mundo cultivam outras comidas pra bicho.

Nos países de clima fresco, uma planta anual resultante de antiquíssimo cruzamento entre repolho e nabo está entre as três principais fontes de óleo vegetal de regiões temperadas: é a colza. O girassol e a oliveira completam o trio das estrelas oleaginosas.

Campo de colza em andares

Campo de colza em andares (terraços)

Um campo de colza é esteticamente muito bonito. Lá pelo mês de abril-maio, suas flores amarelas enfeitam a paisagem. Da colza, planta polivalente, extrai-se óleo comestível, etanol e alimento animal.

A canola, termo familiar ao brasileiro, é uma variedade de colza desenvolvida no Canadá.

Os dez maiores produtores mundiais são os seguintes:

Interligne vertical 16 3Kb1°) Canadá
2°) China
3°) Índia
4°) França
5°) Alemanha
6°) Austrália
7°) Reino Unido
8°) Polônia
9°) Ucrânia
10°) Estados Unidos

Flor de colza

Flor de colza

Exatamente como a soja, a colza também é cotada nas bolsas de matérias-primas. Com o tráfego bloqueado e a soja fermentando na carroceria de caminhões brasileiros, o que é que aconteceu? Um doce pra quem adivinhar.

É claro: a cotação da colza subiu. A balança começa a pender pro outro lado. É a lei da gangorra.

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(*) A palavra colza é contribuição dada ao mundo pela língua holandesa. O original é koolzaad (= semente de repolho).

O joio, o trigo & outras considerações

Carlos Brickmann (*)

O joio é um vegetal parecidíssimo com o trigo, que nasce nos mesmos lugares. Só que, em vez de benéfico, é daninho. Quem planta trigo precisa separar o joio, para não estragar a colheita. Quem faz jornalismo, também – embora um intelectual e político americano, Adlai Stevenson, duas vezes candidato à Presidência (e duas vezes derrotado), costumasse dizer que a função de um editor é separar o joio do trigo, e publicar o joio.

Hem?
Quando Winston Churchill tinha sete anos, seu professor de Latim quis ensinar-lhe a declinação de “mensa” – mesa. Parou no vocativo, quando Churchill quis saber o que aquilo significava. O professor explicou: “É a forma que você deve usar quando falar com uma mesa”. O garoto garantiu ao professor que jamais conversaria com uma mesa. O professor se ofendeu e suspendeu-o. E Churchill, numa frase que deve ser lembrada, disse que nunca mais se interessaria por grego, latim ou outras línguas: queria aprender inglês. Queria ser o melhor em sua própria língua.

Sir Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Pois é. Nos nossos meios de comunicação, o profissional que fale várias línguas é valorizado (o que é ótimo). Mas parece que houve um certo esquecimento: é ótimo falar alemão, chinês, inglês, francês e espanhol, desde que o conhecimento do português também seja obrigatório. E não está sendo: em grandes jornais, que já prezaram a qualidade do texto, diz-se que o carro “o pertencia”, coisas do tipo. Um cavalheiro se apresenta como “acessor parlamentar e acessor (…)” da Prefeitura de uma grande cidade (ou talvez “sidade”).

O recorde, entretanto, vem numa grande matéria sobre a morte de uma grande artista, Tomie Ohtake. Dizia-se que a Tomie era acompanhada por um “secto”. Deu trabalho, mas enfim foi possível chegar a uma conclusão: o que deveria estar escrito, provavelmente, era “séquito”.

O pai do primo do avô
Um antigo (e excelente) livro, Introdução ao Jornalismo, de Frazer Bond, que o notável Woile Guimarães mandou este foca estudar, já ensinava há mais de 50 anos que parentesco só é notícia se tiver algo a ver com os acontecimentos. Em “Filho do ministro vende facilidades”, o parentesco provavelmente tem a ver com os fatos. Mas em “Filho do ministro é preso em roda de crack” é provável que o parentesco nada tenha a ver com o evento. O responsável que responda sozinho por seus atos, poupando o parente.

O livro já ensinava isso há mais de 50 anos. Mas quem disse que todos aprenderam? Frases apanhadas em jornais, a esmo, nos últimos dias:

Interligne vertical 11a1 – Parentes de filha de (…) brigam em hotel e polícia aparta
2 – Primo de (…) foi preso em flagrante na Operação Lava Jato
3 – Filho de (…) beija moreno em camarote na Bahia

Nos três casos, o parentesco não tem nada a ver com os fatos. Entra apenas para atrair o leitor incauto. Num deles, o terceiro, se o rapaz beija o moreno ou o loiro num camarote de Carnaval o problema é dele. No caso, nem há o que noticiar, a não ser a busca de um factóide sensacionalista.

Legenda publicada num caderno especializado em automobilismo:
“Audi R8 teria sido destruído por mulher enfurecida após descobrir que, supostamente, havia sido traída pelo marido”.
Não deixa de ser uma novidade: a descoberta de uma suposição.

Da internauta Rita Xavier:
“Ninguém pode dizer que o ditador da Guiné Equatorial não investe em escola.”

O grande título
Uma bela colheita esta semana. Há manchetes para todos os gostos:

Interligne vertical 11bdas enigmáticas:
“Tamires corta alface em silêncio”

às de duplo sentido:
“De olho no folião, ambulantes inflacionam pau de selfie em SP”

uma frase notável da presidente Dilma, que mais uma vez diz exatamente o contrário do que pretendia:
“Nunca deixamos de esconder que era 4,5%”

uma manchete notável:
“Mutirão propõe salvar Sistema Cantareira com cultivo e produção de água”
Quanto mais se vive, mais se aprende: quem é que sabia que a água pode ser cultivada?

e o grande título:
“Metrô de NY tem bactérias nojentas, mas ninguém morreria por lambê-lo”
Quem será o depravado que quer lamber o Metrô de Nova York?

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

O ovo da serpente

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«And therefore think him as a serpent’s egg which, hatched, would, as his kind, grow mischievous, and kill him in the shell.»

«Então consideremo-lo um ovo de serpente que, eclodido, se tornaria perigoso como seus semelhantes e matemo-lo no ovo.»

A réplica que Shakespeare põe na boca de Brutus, na tragédia Júlio César, talvez seja demasiado excelsa para combinar com o assunto de hoje. Vou falar de ovo, mas vamos esquecer Shakespeare.

Assustado com o estrago que a revelação do gigantesco assalto à Petrobrás está causando, nosso guia sente que o controle da situação lhe escapa. Súditos outrora fiéis e submissos adquiriram vida própria e já não seguem mais o mestre. Extasiados pela riqueza fácil, lambuzaram-se e foram apanhados em flagrante com a mão no pote de mel. Um desastre.

Abusando de sua conhecida «quase-lógica», o antigo presidente estrelou, ladeado por meia dúzia de devotos, um ato em que clama pela «defesa da Petrobrás». Menos, excelência, menos!

É tarde. Havia que defendê-la antes do assalto. Agora, que a porta foi arrombada e o baú saqueado, atos de desagravo não têm mais alcance.

Manif RioLula, Dilma e todos os companheiros passarão. Mais dia, menos dia, nos iremos todos – ninguém vai ficar pra semente. A Petrobrás, ela sim, sobreviverá. Durante anos vai atravessar inferno astral. Vai amargar a desconfiança do mercado, perdendo, assim, o bem mais precioso de que dispunha: a credibilidade. Ou o distinto leitor arriscaria seu peculiozinho em ações da petroleira nacional?

Para reforçar a imagem « popular » do evento, partidários de Lula convocaram a militância. Vieram todos raivosos, uniformizados de vermelho, caracterizando assim a espontaneidade da presença.

Segundo informa a Folha de São Paulo, um grupo não cooptado passava pelo local. Pediam a saída da presidente da República. Os de vermelho não apreciaram. E que fizeram? Atiraram ovos nos de verde-amarelo.

Longe de mim imaginar que tenham trazido ovos de caso pensado. Certamente, no calor do momento, se abasteceram numa quitanda próxima. Distribuíram ovos, socos e pontapés. Em defesa da Petrobrás.

Persona non grata

José Horta Manzano

Persona non grata 1O ofensor esquece e logo vira a página. O ofendido leva mais tempo. Pelas bandas do Planalto, o coice que nossa presidente assestou no embaixador da Indonésia já caiu na vala do esquecimento. Não é o que acontece em Djacarta.

Quatro dias depois da deplorável proeza de nossa esperta diplomacia, o governo indonésio ainda está longe de digerir o insulto. A edição do Jakarta Post deste 24 fev° traz artigo intitulado Brazil plays down RI’s threats – Brasil zomba das ameaças da Indonésia. O jornal lembra que o governo indonésio prometeu represálias que perigam custar caro ao Brasil.

O texto mostra indignação com o menosprezo explícito de dona Dilma por aquele país. Nossa presidente, para quem as estatísticas do momento contam mais que perspectivas futuras, declarou que as relações comerciais entre o Brasil e a Indonésia não representam mais que um porcento de nosso comércio exterior.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Mais uma vez, a senhora Rousseff escancara sua curta visão. Já próxima das setenta primaveras, a presidente ainda não conseguiu entender que o mundo não é congelado, que as coisas costumam mudar. O que hoje é pequeno pode-se tornar importante amanhã. E vice-versa, naturalmente.

O ultraje infligido àquele país foi pesado demais. Pior: foi proposital, de caso pensado, calculado para impactar. Mostrou a arrogância dos perigosos personagens que, aboletados no Planalto, maltratam nossa política exterior como criança birrenta pisoteia brinquedo que não lhe agrada mais.

O voluntarismo presidencial – na certa incentivado por seus toscos conselheiros de marketing – já começa a dar frutos. O Jakarta Post relata que o governo indonésio está reavaliando a planejada compra de 16 aviões modelo Super Tucano, da Embraer. O preço básico de cada aparelho é de 11 milhões de dólares. Sem opcionais.

Uma das páginas do portal de nosso Ministério das Relações Exteriores traz uma citação que vai assim:

Frontispício de um dos portais do Itamaraty

Frontispício de um dos portais do Itamaraty

«O Brasil é um dos 11 países do mundo que se relacionam com todos os Estados-membros das Nações Unidas. Dialogamos com todos porque respeitamos as diferenças.»

O importante não é a quantidade de países com os quais o Brasil se relaciona. A qualidade do diálogo pesa mais. A afronta que dona Dilma impôs ao povo indonésio desmente a bonita frase do Itamaraty.

Longe de ser partidária da dialética, nossa presidente é, no duro, fã do monólogo. Raivoso e insolente.

O escândalo tem nome

Sebastião Nery (*)

No governo Juscelino (1956-1961) o general Idálio Sardenberg comandou um grande salto da Petrobrás: instalou novas unidades das refinarias Landulfo Alves na Bahia e Duque de Caxias no Rio, o terminal e oleoduto da Ilha d’Água no Rio, o terminal Madre de Deus na Bahia. Montou a fábrica de borracha sintética em Duque de Caxias. Dobrou a capacidade da refinaria de Cubatão em São Paulo. A produção total de petróleo passou de 60 mil barris/dia em 1959 para 72 mil em 1960. O refino foi a 300 mil barris diários.

Petrobras 9Tudo isso e nunca se ouviu falar em escândalo. Veio o primeiro governo Lula e… Dilma caiu em cima da Petrobrás como uma ave de rapina. Saiu das Minas e Energia para a Casa Civil e levou a Petrobrás com ela, para ela, continuando como presidente do Conselho de Administração.

Este escândalo de agora, o maior da história do pais, tem nome: Dilma.

(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.

Frase do dia — 225

«A África era a cereja do bolo da política externa do Lula, mas sabe quantas vezes o chefe do Departamento de África do Itamaraty visitou algum dos 54 países do continente no ano passado? Nenhuma! E não foi por culpa dele.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 20 fev° 2015.

Diplomacia do coice

José Horta Manzano

Dilma 1Como eu, meus distintos leitores certamente ficaram sabendo do coice que nossa egrégia presidente assestou gratuitamente no embaixador da Indonésia – e, por procuração, nos 250 milhões de habitantes daquele país.

Como eu, meus distintos leitores se consternaram com a baixeza com que foi tratado o embaixador que, tendo vindo a palácio a convite, viu-se humilhado e feito de bobo na frente de diplomatas e autoridades. Imagine a situação: convidado formalmente a uma festa, você vai. Na porta, sua entrada é proibida e você é chamado de penetra. Foi o que aconteceu.

Palácio do Itamaraty e seu espelho d'água

Palácio do Itamaraty e seu espelho d’água

Como eu, meus distintos leitores ficaram apreensivos com a repercussão que essa grosseria está tendo nos itamaratis do mundo. A estas alturas, todos os governos do planeta já estão a par da estupidez de tratamento à qual diplomatas forasteiros estão expostos no Brasil.

Como eu, meus distintos leitores entenderam que, se alguma chance ainda subsistia de salvar o traficante brasileiro prisioneiro na Indonésia, ela escoou pelo ralo. Aquele país não pode agora graciar o condenado nem atenuar sua pena. Se o fizer, mostrará que se dobrou à chantagem de Brasília, atitude inconcebível. O comportamento de nossa preclara presidente foi o passo definitivo para a execução do apenado.

Como eu, meus distintos leitores atribuíram o gesto arrogante à conjugação de dois fatores venenosos: o mau humor crônico da mandatária e o aconselhamento gangrenado que tem recebido de seus ‘assessores’, notadamente um certo senhor Garcia – aquele do ‘top-top’.

Dilma e Garcia 3Pois fiquem meus distintos leitores sabendo que… por baixo do angu tem carne. A informação vem do Diário do Poder, do superantenado jornalista Cláudio Humberto. A carne por debaixo do angu é mais podre do que se pode imaginar. Sabe aquele tipo de gente capaz de pisar o pescoço da mãe para alcançar seu objetivo? Pois é, nossa altas autoridades são membros desse clube.

Dilma 3

Pelo relato do jornalista, o coice aplicado no diplomata indonésio nada mais seria que uma ideia de marqueteiro destinada a levantar ‘cortina de fumaça’. A intenção era fornecer matéria para reportagens revoltadas e editoriais indignados que assim, distraídos, desviariam por um momento a atenção da incômoda operação Lava a Jato. Funcionou perfeitamente.

Não estou aqui pra substituir-me ao tribunal indonésio. Se o conterrâneo condenado na Indonésia é culpado ou não, se foi julgado com isenção ou não, se a pena de morte é adequada ou não – meu intuito não é discutir isso. O que nos fica é a certeza de que, nesse episódio, o traficante condenado fez papel de inocente útil, de boi de piranha. Foi sacrificado para aliviar a barra do Planalto.

Descansai tranquilos, brasileiros! Vosso País está em boas mãos!

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Quem perdeu algum capítulo da história e gostaria de pôr-se a par do assunto pode clicar aqui.

A ruína emergente

José Horta Manzano

Braço da Represa de Chambod, França em tempos normais

Braço da Represa de Chambod (França)
em tempos normais

Governar é abrir estradas. Governar é prever. Governar é satisfazer às necessidades de cada cidadão. Governar é botar as contas em ordem. Governar é cuidar da educação, da saúde e da segurança.

Afinal… o que é governar? É tudo isso aí e um pouco mais. Mas essa é a teoria. Na prática, como se sabe, a teoria é outra. Governantes não abrem mais estradas. Aliás, já nem cuidam das existentes.

Braço da Represa de Chambod, França esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Braço da Represa de Chambod (França)
esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Governantes não satisfazem às necessidades de cada cidadão. Contentam-se de ações vistosas, midiáticas, em que migalhas são distribuídas a pequena parte do público, como dinheiro em programa de auditório. O resto da plateia que se vire.

Quanto a botar as contas em dia… ai, ai, ai. Garantir o amanhã não é a tônica dos dirigentes atuais. E a educação, a saúde e a segurança – como é que ficam? De novo: toda energia é focada em ações momentâneas, aparatosas, sem compromisso com o futuro. Governantes mantêm-se fiéis ao pensamento medieval: «o futuro a Deus pertence».

A seca que persiste no sul do Brasil tem causado danos e grande temor. Caso tudo seque, não há solução a curto prazo. Luz e água vão faltar, não há alternativa. Um aqueduto para transportar o precioso líquido da Amazônia até o sul do País não se instala em uma semana.

Represa de Chambod, França esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Represa de Chambod (França)
esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Infelizmente, não tenho solução milagrosa. Tampouco estou aqui para apontar culpados. O descalabro atual resulta de décadas e décadas de descompromisso com o futuro.

Mas vamos ser optimistas. Crises têm seu lado bom. Servem pra abrir os olhos. De agora em diante, autoridades serão mais previdentes e guardarão em mente que os atos de hoje determinam os fatos de amanhã. Certo?

Não, distinto leitor, não é assim. A lição não está sendo aprendida. As autoridades encarregadas da manutenção das represas não estão fazendo seu trabalho. A fotomontagem aqui abaixo dá um exemplo concreto.

Represa de Atibainha: nível sobe após estiagem

Represa de Atibainha (SP):
nível subindo após estiagem severa

Um energúmeno arremessou, faz anos, uma carcaça de automóvel numa represa. Nem visto nem sabido, o esqueleto permaneceu submerso. Com a seca, reapareceu. Fotógrafos não se privaram de retratar a descoberta. Galhofeiros se encarregaram de engalanar o destroço com faixas de duvidoso humorismo. No entanto, a ninguém ocorreu o óbvio: remover a ruína insepulta.

Bondoso, São Pedro mandou alguma chuva. O nível de tanques e barragens tem subido. Fotógrafos se precipitam à beira de reservatórios para registrar o fato. E… que vemos? A carcaça continua lá, intocada, como se repousasse em túmulo adequado.

Represa 2Fosse nosso País mais civilizado, as coisas teriam seguido outro rumo. Em primeiro lugar, o responsável pelo arremesso do automóvel teria sido procurado e punido. Em segundo lugar – e rapidinho – o destroço teria sido retirado. Já imaginou o que pode acontecer amanhã se um inocente banhista der um mergulho naquele lugar? Já pensou na desgraça programada que será uma embarcação abalroar a carcaça, soçobrar e ir a pique?

De que adianta ficar eu aqui cogitando? Pessoas, grupos, departamentos inteiros são pagos para agir. Se governar é prever, fica cada dia mais evidente que não há mais governo em nosso País. Se é que, algum dia, houve.

Interligne 18fClique nas fotos para aumentar.

EBC – salários

José Horta Manzano

Palhaço 1Para complementar a informação de ontem sobre os salários pagos pela EBC, informo que o Diário do Poder reproduz a lista dos 2446 funcionários ativos em 31 dez° 2014.

O salário mensal de cada um deles aparece com todos os pontos e as vírgulas. A lista tem 130 páginas.

Uma página, tomada ao acaso, da lista de salários 2014 da EBC Clique para aumentar

Uma página, tomada ao acaso, da lista de salários 2014 da EBC
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Que clique aqui quem tiver curiosidade de saber um pouco mais sobre a política salarial dessa generosa empresa. Afinal, esse povo todo é pago com nosso dinheiro.