Quem tem telhado de vidro – 2

José Horta Manzano

O inclassificável Abraham Weintraub foi-se. Homem de pouca leitura, também tinha cara de poucos amigos. Não é de espantar que tenha colecionado inimigos. Entre eles, surpreendentemente, a colônia judaica. Uma façanha!

Foi ministro durante ano e pouco, tempo insuficiente pra fazer estrago maior na Instrução Pública. Imagino que os danos sejam reversíveis, se bem que, à boca pequena, corre a informação de que o sucessor será alguém ‘terrivelmente ideológico’. Isso quer dizer que, tirando aquele inimitável ar aparvalhado de Weintraub, a troca será de seis por meia dúzia. Pobre Brasil…

Correio Braziliense: capa da edição impressa de 19 jun° 2020

Como toda a imprensa, sem exceção, o Correio Braziliense também deu a notícia em primeira página. O redator quis fazer troça com o “imprecionante”, aquele pontapé que o (agora ex-) ministro tinha dado na língua algum tempo atrás. Até aí, nada de mais, que a falta de familiaridade do moço com a língua não era segredo pra ninguém. No entanto, quem atira pedra ao telhado do vizinho deve assegurar-se de não estar coberto por telhas de vidro.

O jornal descuidou-se. Duas linhas abaixo do “imprecionante”, tascou, por conta própria, um “distencionar”. Ai, ai, ai. O verbo deriva de tenso, que se grafa com s. Portanto, toda a família acompanha. Tensão, distensão, extensão, ostensão, tensionar e, naturalmente, distensionar. Paft! – o telhado estilhaçou.

Melhor faria se tivesse usado distender, que é sinônimo e tem a vantagem de ser desprovido de armadilhas.

O ovo da serpente

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«And therefore think him as a serpent’s egg which, hatched, would, as his kind, grow mischievous, and kill him in the shell.»

«Então consideremo-lo um ovo de serpente que, eclodido, se tornaria perigoso como seus semelhantes e matemo-lo no ovo.»

A réplica que Shakespeare põe na boca de Brutus, na tragédia Júlio César, talvez seja demasiado excelsa para combinar com o assunto de hoje. Vou falar de ovo, mas vamos esquecer Shakespeare.

Assustado com o estrago que a revelação do gigantesco assalto à Petrobrás está causando, nosso guia sente que o controle da situação lhe escapa. Súditos outrora fiéis e submissos adquiriram vida própria e já não seguem mais o mestre. Extasiados pela riqueza fácil, lambuzaram-se e foram apanhados em flagrante com a mão no pote de mel. Um desastre.

Abusando de sua conhecida «quase-lógica», o antigo presidente estrelou, ladeado por meia dúzia de devotos, um ato em que clama pela «defesa da Petrobrás». Menos, excelência, menos!

É tarde. Havia que defendê-la antes do assalto. Agora, que a porta foi arrombada e o baú saqueado, atos de desagravo não têm mais alcance.

Manif RioLula, Dilma e todos os companheiros passarão. Mais dia, menos dia, nos iremos todos – ninguém vai ficar pra semente. A Petrobrás, ela sim, sobreviverá. Durante anos vai atravessar inferno astral. Vai amargar a desconfiança do mercado, perdendo, assim, o bem mais precioso de que dispunha: a credibilidade. Ou o distinto leitor arriscaria seu peculiozinho em ações da petroleira nacional?

Para reforçar a imagem « popular » do evento, partidários de Lula convocaram a militância. Vieram todos raivosos, uniformizados de vermelho, caracterizando assim a espontaneidade da presença.

Segundo informa a Folha de São Paulo, um grupo não cooptado passava pelo local. Pediam a saída da presidente da República. Os de vermelho não apreciaram. E que fizeram? Atiraram ovos nos de verde-amarelo.

Longe de mim imaginar que tenham trazido ovos de caso pensado. Certamente, no calor do momento, se abasteceram numa quitanda próxima. Distribuíram ovos, socos e pontapés. Em defesa da Petrobrás.