A tolerância é uma prática

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já faz tempo que venho filosofando a respeito de como a moralidade do século 21 deslocou-se integralmente para o discurso, deixando praticamente intocada a aceitação social de práticas perversas, típicas de nossos ancestrais das cavernas.

Pense comigo. A gente é capaz de aprender rapidinho a substituir negro por afrodescendente, veado e sapatão por gay, mongoloide por Down, piranha ou galinha por mulher liberada e empoderada, mas demora uma eternidade para incorporar o conceito de que todos, sem exceção, são portadores da mesma essência de dignidade humana. É como se acreditássemos que, retirando o peso discriminatório que algumas palavras adquiriram historicamente, toda a mágoa desaparecesse e se abrissem, por milagre, as portas para a plena incorporação das diferenças.

Ledo engano. Quando a emoção cresce, a razão evanesce e a hipocrisia desaparece. Um instante de desatenção e o filtro de censura volta a se fragilizar. E lá vamos nós gritando de novo da arquibancada: «Macaco, volta para a senzala de onde você nunca deveria ter saído!»; «Bicha louca, desce do salto e aprende a ser homem!»; «Sai daqui, seu debiloide babão!»; «Aí, gostosa, vem aqui que o papai vai te mostrar como é que se faz!».

O velho Shakespeare já havia nos alertado séculos atrás que as palavras podem ser cheias de som e fúria, mas, em última análise, não querem dizer nada. Caetano nos ensinou, através da canção, que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nelson Rodrigues usou toda a sua mordacidade para nos mostrar que, olhando de perto, ninguém é normal. Em vão.

Não nos parece contraditório sair às ruas gritando palavras de protesto contra a corrupção na política e continuar fazendo pequenos agrados a quem pode nos tirar de uma situação aflitiva. Assinar petições contra o desmatamento na Amazônia ou aquecimento global e continuar a jogar lixo nas ruas e nos córregos. Postar nas redes sociais mensagens religiosas de amor ao próximo, respeito às diferenças e compaixão diante do sofrimento humano e, no minuto seguinte, propor com o máximo de virulência possível a perseguição, tortura e morte da pessoa que espancou um cão. Condenar com veemência o terrorismo, elegendo como bode expiatório de ocasião o fundamentalismo islâmico, e matar a pauladas e pontapés o torcedor do time adversário. Repetir de peito estufado o velho discurso ufanista de que somos o país da conciliação e, na sequência, reclamar que o Brasil não vai para a frente por causa de seu povinho que abaixa a cabeça para tudo.

Por que, se estamos fartos de saber de tudo isso, as mil cabeças da Hidra da intolerância continuam assumindo o controle? Como fazer para que nosso discurso e nossa prática passem a coincidir? É isso que venho tentando investigar.

Dia desses, tropecei num interessantíssimo artigo científico a respeito do modo como nossos cérebros processam palavras e significados. Segundo estudos realizados com pacientes que sofreram lesões em um dos hemisférios cerebrais, o sentido literal (de dicionário) de cada palavra é apreendido primordialmente pelo lobo esquerdo, o cérebro da razão e da lógica linear. No entanto, quando a palavra vem acoplada a outra que envolve julgamento de valor, o cérebro esquerdo fica confuso e passa a depender integralmente do direito para absorver as alterações de significado da mensagem. Só para relembrar, o cérebro direito é aquele da síntese, da apreensão global da realidade e do manejo das emoções.

Parece então que, talvez por influência da hiperutilização do modelo binário da tecnologia da computação, desaprendemos a manter razão e emoção unidas ao interagirmos com a realidade e com as pessoas à nossa volta. Em vez disso, alternamos o discurso politicamente correto e a indignação com o comportamento de terceiros que verbalizam outras percepções.

A armadilha é perigosa e eu mesma não me canso de cair nela. O sentimento de superioridade moral que embala nossa reação de crítica a práticas sociais que não endossamos é tão poderoso que nos impele a desconsiderar quaisquer condicionantes e passar por cima do outro com trator e tudo, esmagando-o sem clemência e destruindo cada um de seus argumentos.

A saída? Ainda não sei. Só posso oferecer como sugestão para reflexão um pensamento de Aristóteles com que me deparei outro dia: «Educar a mente sem educar o coração não pode ser chamado de educação».

Outra pista que persigo há um bom tempo me foi ofertada em caráter pessoal por aquele que chamo de “meu anjo”. Certa vez, durante uma discussão ácida com meu pai, perdi a paciência e saí batendo a porta, esbravejando que meu ouvido não era penico para ele depositar sua insensatez. Ainda no corredor, já me sentindo um tanto acabrunhada e envergonhada, tive a nítida sensação de ouvir o conselho: «É preciso negociar também com as feridas».

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Tratamento desigual

José Horta Manzano

Não tenho acompanhado de perto os escândalos políticos do Brasil. Tudo o que é demais cansa. Além disso, me dá muita pena ver o mal que essa balbúrdia está trazendo ao país, um mal duradouro de que padecerão nossos netos. Justo quando parecia que estávamos pra atingir a borda e nos safar do naufrágio, catapimba! Estamos de novo no fundo do poço. E, desta vez, mais desesperançados que nunca, na quase certeza de que lá permaneceremos até o fim de nossos dias.

Chamada Estadão, 6 jun 2017

Enquanto a caravana da história passa, continuamos discutindo miudezas. Um juiz da corte suprema puxa o tapete pra fazer outro escorregar. O outro revida. Num jardim da infância, certos caprichos são toleráveis ‒ na alta magistratura, não. Corruptos, corruptores, ladrões e rapinadores se fazem defender em tribunal por batalhões de penalistas retribuídos regiamente com nosso dinheiro.

Depoimentos filmados são distribuídos ao grande público, exatamente como se lança miolo de pão a pombas famintas. Não tenho nada contra o fato de serem registrados e filmados. Já o fato de pôr som e imagem à disposição da população, como se cada interrogatório fosse capítulo de trágica e interminável novela, não me agrada nada. Pode até ser legal, mas não contribui para a serenidade exigida pelo exercício da justiça. Fica a impressão de que o intuito é justamente esse: tumultuar os espíritos.

Chamada Estadão, 6 jun 2017

Enquanto peixinhos são encarcerados e condenados a vinte, trinta, quarenta anos de cadeia, peixões são agraciados com liberdade total. É insuportável o tratamento dado àquele senhor de prenome simplório e sobrenome pio, um dos homens mais ricos do país. Falo daquele que, na moita, gravou uns quantos personagens graúdos e, em troca de absolvição, entregou os cúmplices e se mandou para Nova York sob as bênçãos das autoridades judiciárias.

Não tenho especial simpatia para com senhor Temer, presidente em exercício. Nem especial antipatia para com o novo-rico de nome simplório, exceto por ter ele praticado a traição, um crime que abomino. Assim mesmo, as duas notícias que li hoje me impressionam. Por um lado, a Justiça dá ao presidente 24 horas para responder a 82 perguntas no âmbito da investigação de que é objeto. Por outro, a mesma Justiça dá à empresa do rapaz que está passeando nos EUA 90 dias para apresentar a «lista de propinas». O prazo é noventa vezes mais longo!

Quero crer que tudo esteja dentro da legalidade. Mas, convenhamos, há uma flagrante disparidade de tratamento. Trabalhando oito horas seguidas, supondo que não tenha nada mais a fazer, senhor Temer terá de responder por escrito a dez perguntas por hora, seis minutos para cada resposta. Por que tanta benevolência para com o rapaz de Nova York? Imaginando que as propinas não tenham sido dadas ao acaso, com o dinheiro que o bom moço tinha na carteira, a lista de montantes e de beneficiários já deve estar pronta há anos.

Como pôs Shakespeare na boca do personagem Marcellus da peça Hamlet, «Something is rotten in the state of Denmark» ‒ algo está podre no Reino da Dinamarca.

Observação
Na época em que a peça foi escrita, por volta de 1600, não existia o Reino do Brasil. Se existisse, talvez o dramaturgo inglês tivesse situado o enredo em terras de Santa Cruz.

O ovo da serpente

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«And therefore think him as a serpent’s egg which, hatched, would, as his kind, grow mischievous, and kill him in the shell.»

«Então consideremo-lo um ovo de serpente que, eclodido, se tornaria perigoso como seus semelhantes e matemo-lo no ovo.»

A réplica que Shakespeare põe na boca de Brutus, na tragédia Júlio César, talvez seja demasiado excelsa para combinar com o assunto de hoje. Vou falar de ovo, mas vamos esquecer Shakespeare.

Assustado com o estrago que a revelação do gigantesco assalto à Petrobrás está causando, nosso guia sente que o controle da situação lhe escapa. Súditos outrora fiéis e submissos adquiriram vida própria e já não seguem mais o mestre. Extasiados pela riqueza fácil, lambuzaram-se e foram apanhados em flagrante com a mão no pote de mel. Um desastre.

Abusando de sua conhecida «quase-lógica», o antigo presidente estrelou, ladeado por meia dúzia de devotos, um ato em que clama pela «defesa da Petrobrás». Menos, excelência, menos!

É tarde. Havia que defendê-la antes do assalto. Agora, que a porta foi arrombada e o baú saqueado, atos de desagravo não têm mais alcance.

Manif RioLula, Dilma e todos os companheiros passarão. Mais dia, menos dia, nos iremos todos – ninguém vai ficar pra semente. A Petrobrás, ela sim, sobreviverá. Durante anos vai atravessar inferno astral. Vai amargar a desconfiança do mercado, perdendo, assim, o bem mais precioso de que dispunha: a credibilidade. Ou o distinto leitor arriscaria seu peculiozinho em ações da petroleira nacional?

Para reforçar a imagem « popular » do evento, partidários de Lula convocaram a militância. Vieram todos raivosos, uniformizados de vermelho, caracterizando assim a espontaneidade da presença.

Segundo informa a Folha de São Paulo, um grupo não cooptado passava pelo local. Pediam a saída da presidente da República. Os de vermelho não apreciaram. E que fizeram? Atiraram ovos nos de verde-amarelo.

Longe de mim imaginar que tenham trazido ovos de caso pensado. Certamente, no calor do momento, se abasteceram numa quitanda próxima. Distribuíram ovos, socos e pontapés. Em defesa da Petrobrás.

A arte de criar problemas

José Horta Manzano

Cofrinho 2Ouvi agora no rádio que, no Brasil, há escassez de troco. Confesso que não sabia. Parece que comerciantes dão tratos à bola para não ouvir reclamação de fregueses. Tem padeiro que dá pãozinho a quem trouxer 50 ou 100 reais em moedinhas. Uma cadeia de lojas de sanduíche de carne moída (ambúrgui) oferta lanche tamanho família contra aporte de um punhado de moedas.

Nos anos 50, era crônica a falta de troco. Não só moedas, mas notas de pequeno valor – chamadas então ‘manolitas’ – eram bem precioso que a gente relutava em passar adiante.

Nas décadas seguintes, com o galope inflacionário, moedas desapareceram. Tudo melhorou a partir de 1994. Com a estabilização garantida pelo Plano Real, problema de falta de troco já deveria fazer parte do folclore nacional. Surpreso, descubro que não é bem assim.

Segundo a repórter que ouvi, não precisou delação premiada para designar o culpado: é o cofrinho. Foi afirmação convicta. A moça disse que, pouco afeito ao uso de moedas, o povo tende a tirá-las de circulação para entesourá-las.

Cofrinho 1Pouco afeito ao uso de moedas? Não faz sentido. Brasileiro com menos de 30 anos não conheceu a vida sem moeda. Até os mais velhos já se acostumaram (ou se reacostumaram) a manusear pecinhas de metal.

A Casa da Moeda se defende dizendo que fabricou não sei quantos milhões de moedinhas. Recomenda aos cidadãos utilizá-las em suas trocas diárias permitindo, assim, que circulem.

O distinto leitor certamente concordará comigo se eu disser que, no Brasil, criar problemas insolúveis é esporte nacional. Veja, pois:

Interligne vertical 16Por um lado, autoridades financeiras lamentam que a poupança média do brasileiro seja uma das mais baixas do planeta – o que é prejudicial ao País. Compra-se a crédito. Gasta-se o que não se possui. Contraem-se dívidas. Depositam-se todas as esperanças num amanhã que não se sabe de que será feito.

Por outro lado, as mesmas autoridades incentivam a população a abandonar o esboço do rascunho do começo de uma incipiente cultura de poupança. O cofrinho é excelente meio didático de infundir no pequerrucho o costume de guardar para dias incertos.

E pensar que a solução do problema é tão simples: basta cunhar mais moedas. Não é complicado, não?

Excerto do solilóquio de Hamlet, na peça homônima de William Shakespeare. Facsimile da edição de 1604

Excerto do solilóquio de Hamlet, na peça homônima de William Shakespeare.
Facsimile da edição de 1604

To be or not to be. As diretivas oficiais parecem indicar esquizofrenia. Mas a verdade é mais simples: os que dão essas ordens são simplesmente incapazes. Incapazes de refletir e incapazes de se pôr de acordo.

Nada pode ser e não ser ao mesmo tempo – que se há de fazer? Quatrocentos anos atrás, Shakespeare já punha na boca de Hamlet essa incontornável obviedade.

To be, or not to be

José Horta Manzano

«There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.»

William Shakespeare
Hamlet, Ato I, Cena 5

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A fala de Hamlet costuma ser traduzida livremente como «há mais mistérios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia». Não corresponde exatamente ao texto original, mas transmite a mesma ideia.

A parafernália eletrônica atual tem acelerado a circulação da informação e dado suores frios a todos os encarregados de manter secretos certos fatos.

No entanto, apesar de todos os Snowdens da vida, das câmeras de vigilância, do esquadrinhamento de mensagens eletrônicas, algum mistério ainda perdura. E sempre há de perdurar.

Dia 25 de julho, duas jornalistas assinaram artigo na Folha de São Paulo revelando que um jovem cubano ― por coincidência chamado Fidel Castro ― havia sido internado no Hospital das Clínicas de São Paulo para tratar-se de um problema urológico.

Até aí, não há nada de espantoso. Ter nome semelhante ao do Líder Máximo não é um pecado. Ser cubano, tampouco. E a dignidade manda tratar os males do próximo e aliviar-lhe o sofrimento.

É a partir daí que começa o jogo de empurra. A internação do estrangeiro no HC foi sigilosa. Para garantir discrição, foi registrado na ala infantil. Um não identificado «integrante do governo brasileiro» foi o facilitador da admissão do paciente no hospital. Apresentou-o como parente do Comandante.

O Itamaraty alegou total ignorância dos fatos. José Dirceu, contactado por sua notória proximidade com os dirigentes da ilha, desmentiu que o doente seja parente dos Castros. Feitos os exames necessários, foi marcada cirurgia para o dia seguinte, no próprio Hospital das Clínicas.

Hamlet William Shakespeare

Hamlet
William Shakespeare

Embora pareça evidente, não está confirmado que a reportagem da Folha tenha tido alguma influência na evolução dos acontecimentos. O fato é que, apesar de a operação estar marcada para o dia seguinte, foi dada alta ao paciente às oito e meia da noite, no mesmo dia em que saiu a reportagem.

O Itamaraty continua sem saber o que aconteceu. Os dirigentes do hospital não foram encontrados. Médicos e enfermeiros, escudados atrás do segredo profissional, não podem dar maiores explicações. Tudo indica que não interessa a ninguém que se continue discutindo sobre este caso. Assunto encerrado.

O paciente foi-se. Escapou como um ladrão. Nada mais se publicou sobre o fato. Sobrou um saco de perguntas.

Quem era o doente? Estará ainda no Brasil? Terá sido operado? Estará no Sírio-Libanês, o hospital que costuma tratar os que vivem no andar de cima? Terá voltado a Cuba num avião medicalizado da FAB? Por que o primeiro artigo da Folha foi assinado, mas não o segundo (e último)? Quem era o «integrante do governo» que encaminhou o enfermo ao hospital? Como é possível que o Itamaraty não esteja a par de nada?

Muitas outras questões estão sem resposta e certamente assim continuarão in æternum.

Há mais mistérios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia.

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