Brasil de perto

José Horta Manzano

Hoje o BrasilDeLonge foi ver o Brasil de perto: fui votar. Volto com impressões contrastadas.

A organização
Só em Genebra são perto de 9 mil eleitores inscritos. Para acolher todo esse povaréu, o consulado alugou um espaço num centro de convenções e lá instalou numerosas secções eleitorais. Não sei por que razão, algumas tinham grande quantidade de gente esperando pra entrar enquanto outras não tinham ninguém. O contraste entre as secções concorridas e as demais era muito forte. Não atino a razão.

A espera
Com o voto no exterior, o Brasil exporta uma especialidade genuinamente nacional: a fila. Há muitos anos eu não fazia fila, coisa desconhecida por aqui. Pra começar, havia uma fila de uns 15 minutos na calçada só pra poder entrar no centro de convenções. Em seguida, outra fila mais rápida pra saber o número da secção, dado que o que está escrito no título não vale mais. Pra terminar, mais uma fila interminável, de hora e meia, pra entrar na secção. Deu um total de duas horas, tempo suficiente pra voltar com dor nas pernas.

Calor humano
Cáspite! Não imaginava que houvesse tantos compatriotas por aqui! Fila é sinônimo de proximidade. (Dependendo do espaço disponível, pode tornar-se sinônimo de contacto íntimo.) Proximidade + longo tempo de espera = conversa animada com o vizinho de fila.

Diferença de costumes
Por aqui, ninguém costuma se dirigir a estranhos. Hoje deu pra lembrar que no Brasil não é bem assim. Logo de cara, minha vizinha de fila me olhou no fundo dos olhos e tascou «‒ Desculpe perguntar, mas o senhor vai votar em quem?» Pausa pra um momento de estupor. É nessas horas que a gente se dá conta de que as diferenças culturais são ainda mais fortes que diferenças de nível econômico ou social. Por aqui, ninguém ousaria fazer uma pergunta dessas. Nunca, jamais, em tempo algum. Assim mesmo, respondi.

Razão do afluxo
Dirigi-me a um senhor de crachá, que fiscalizava o movimento. Perguntei a ele por que razão havia tanta gente a ponto de ser preciso fazer fila. Lembrei que, nas eleições anteriores, nunca houve espera. Responde ele que, desta vez, dada a polaridade da eleição, todos fazem questão de votar. Ninguém quer deixar a decisão na mão de outrem. O nível de abstenção baixou muito. Faz sentido.

O novo e o velho
Fiquei encantado com o tal de aplicativo que substitui o título de eleitor. Em vez de levar aquele papelzinho verde que a gente nunca sabe onde guardou, os que baixaram o programinha exibem o celular e lá está, na tela, o título com foto e todos os dados. E o número da secção se atualiza automaticamente. Coisa do outro mundo! No entanto, como nada é perfeito, todo esse automatismo cessa no momento em que o eleitor se aproxima da mesa. A partir daí, três figuras sorridentes começam a procurar seu nome em listas impressas. Igualzinho a como se fazia no século passado. Nem sempre encontram na primeira tentativa. Daí, o mesário passa para o colega. Se o colega falhar ‒ aconteceu, acreditem ‒ o presidente entra na dança. Encontrado finalmente o nome do cidadão, ele é autorizado a votar. Terminado o exercício, dão-lhe um papelzinho minúsculo. É o «comprovante», documento importantíssimo, que deverá ser guardado preciosamente. Um trapinho! É coisa do século 19!

Consideração final
Se estas eleições ‒ com segundo turno ou sem ele ‒ nos livrarem definitivamente da praga do lulopetismo, toda essa aventura terá valido a pena. Valha-nos, São Benedito!

A caixinha mágica

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 mar 2015

Caixa 1Minha avó, genuíno produto do século 19, nasceu antes do rádio, do avião e do automóvel. Mal e mal chegou a conhecer a televisão. Costumava contar uma história fantástica que tinha ouvido quando criança. Falava de um rei de conto de fadas que possuía uma caixinha mágica. Aproximando o ouvido do estojinho, o monarca podia escutar tudo o que acontecia no reino, inclusive as conversas de todos os súditos. Um prodígio.

Radio 4«Era o rádio!» – explicava-nos a velhinha, extasiada de ter assistido à transmutação da caixa mágica em objeto real. Até o último suspiro, a velha senhora acreditou firme que, com a radiodifusão, a humanidade tinha atingido o apogeu em matéria de comunicação e de encurtamento de distância.

Estava enganada, como hoje sabemos. Ainda havia muito pela frente. Vieram os satélites artificiais e, com eles, a banalização da telefonia intercontinental. Aviões a jato converteram expedições dificultosas em escapadinhas de fim de semana. Os complicados «cérebros eletrônicos» de antanho evoluíram: onde antes exigiam local vasto e exclusivo, cabem hoje no bolso de qualquer mortal. Calculadora de supermercado tem poder superior ao dos gigantescos ancestrais.

Carro 3Veja só como era. Uma explosão, atribuída a enorme meteoro, sacudiu a Sibéria em 1908. A rebentação destruiu a floresta num raio de 20 quilômetros e danificou aldeias a léguas dali. De trem, a notícia levou alguns dias para chegar aos ouvidos do tsar, na capital do império. Precisou mais algumas semanas para o mundo ficar sabendo. Para arrematar, a primeira expedição de inspeção científica ao local só foi organizada vinte anos mais tarde. Era essa a velocidade com que notícias se alastravam.

O mundo mudou. O andamento se acelerou. A assombrosa rapidez com que zilhões de gigabaites se disseminam a cada segundo tem facilitado a vida de muitos – mas conturbado a existência de outros. Quem pouco ou nada tem a esconder aprecia o ritmo frenético de redes sociais, uotisaps & congêneres. Já pra quem prefere a discrição… todo cuidado é pouco. O ambiente está ficando perigoso.

Qualquer cidadão dotado de bom senso concorda que o Brasil atravessa etapa periclitante. Se a vertiginosa circulação da informação não é causa única, tem contribuído para agravar.

Apito 1Já não se pode mais ter confiança em nada nem em ninguém. Câmeras, grandes e pequenas, estão por toda parte. Você pode estar sendo filmado e gravado pelo próprio cidadão com quem está confabulando – um microaparato pode-se dissimular no nó da gravata ou até no botão do colarinho.

Um magistrado toma emprestado por alguns minutos um carrão apreendido, só pra sentir o gostinho de sentar-se ao volante de um bólido, e pronto: já foi filmado, gravado e denunciado. Um apuro!

Camera 1Um figurão, no inocente intuito de conhecer a cotação do dólar, chama um doleiro amigo, e pronto: já caiu na boca do povo. Uma impropriedade!

Um obscuro funcionário dum banco de Genebra, ao levar no bolso um trivial pendrive carregado com dados financeiros de seleta clientela, incendiou a banca e mandou para o espaço o secular segredo bancário suíço. Uma iconoclastia!

Nossa presidente já disse mais de uma vez que nunca antes neste país se haviam investigado tantos crimes. Tem razão. Primeiro, porque nunca se tinha visto cachoeira de malfeitos tão caudalosa. Segundo, porque a linha que antes apartava os bastidores do picadeiro está cada dia menos nítida. Francamente, já não se pode mais nem delinquir em paz.

Computador 8O que tem salvo figurões, medalhões e magnatas – por enquanto! – é o fato de o cenário andar muito concorrido. Os envolvidos são pletora, e o palco está lotado. Tudo o que é demais cansa. Chegado ao ponto de exaustão, o cidadão, vencido pela apatia, vai-se tornando blasé, indiferente.

Mas deixe estar. Mais dia, menos dia, esse deprimente espetáculo do petrolão, em cartaz já faz um ano, há de chegar ao fim. Alguns comparsas serão irremediavelmente condenados, nem que seja para exemplo. Já os capangas-mores – alguém duvida? – escaparão. Impedimento da presidente? Nem pensar. Não interessa a ninguém, e a emenda pode sair pior que o soneto.

Big Brother 1O petrolão terá sido marco divisório entre o velho Brasil e o novo. Deverá desestimular a corrupção, assim como a Segunda Guerra baniu conflitos globais.

Nepotismo, compadrio e corporativismo sempre existirão, é inelutável. Mas, convenhamos, candidatos à delinquência em escala industrial serão muito cuidadosos da próxima vez. Onde antes não havia risco, hoje há. Big Brother veio pra ficar.