O culpado de hoje ser fim de ano

Martín Antonio Caparrós (*)

Chamava-se, parece, Luigi Lillio e nasceu, se nasceu, em 1510 num pequeno porto calabrês que na época era Psycròn e agora se chama Cirò, situado exatamente na sola da bota. Mas não há registro de seu nascimento: naqueles tempos ninguém anotava essas coisas.

Supõe-se que pelos 20 anos foi-se embora para Nápoles estudar medicina; supõe-se que tenha conseguido. Supõe-se que daí se abalou para Roma, mas ninguém sabe o que foi fazer lá. E dali, sempre supostamente, foi a Perugia, onde parece que ensinou medicina. Talvez tenha tido algum filho, talvez uma mulher, um homem, um cão fiel. Quem sabe. Quiçá se entristecia com a chuva, quiçá comia carne de porco na Quaresma, quiçá detestava os exageros de Dante Alighieri. Quiçá imaginava que o futuro lhe pertencesse. Supõe-se que em 1574 já estava morto, mas nem sobre isso se tem certeza.

Sua vida se dissolveu no ar como tantas, como a enorme maioria. Algum dia inda hei de calcular quantos, dos 100 bilhões de homens e mulheres que já viveram, deixaram alguma lembrança. De nosso personagem, apesar de tudo, alguma coisa sobrou.

Pra começar, há duas menções. Há a carta que o conterrâneo Giano Teseo Casopero lhe mandou dia 28 de janeiro de 1532 pra contar-lhe que em Nápoles não havia perdido tempo e se tinha concentrado nos estudos: «Tenta descobrir sempre algo novo, de maneira que, com a bênção de Mercúrio, possas ser teu próprio patrão e vender tua arte a bom preço». E havia a carta que um certo cardeal Cervini escreveu dia 25 de setembro de 1552 a um colega em Perugia pedindo que conseguisse um aumento para «messer Aluigi Gigli».

Fora isso, não sabemos nada: se era alto e loiro ou atarracado e dispéptico, se vivia apressado, se gostava de vinho. No entanto, hoje vamos beber como cossacos por culpa dele.

Porque o tempo, naqueles dias, era caótico. O mundo ocidental e cristão se esforçava por usar um calendário que já carregava 1500 anos de problemas. Tinha sido imposto por Júlio César no ano 45 aC, uma façanha e tanto. O problema é que seu desajuste com relação ao ciclo solar fazia que o equinócio de primavera já estivesse caindo em 10 de março e continuasse regredindo em direção a janeiro. O tempo dos homens não combinava com o tempo do céu.

A Igreja de Roma sentia o baque: os dias se lhe escapavam das mãos sem que conseguisse fixar corretamente a data das festas religiosas. O Vaticano precisava, entre outras coisas, voltar à tradição de celebrar a Páscoa no primeiro domingo depois da Lua cheia que se seguia ao equinócio. Era imperioso reformar o calendário, mas não era fácil. Não sabemos o que levou senhor Lillio a pensar que ele mesmo podia fazer isso. Sempre há, felizmente, pessoas que acreditam que podem o inacreditável.

Lillio escreveu um tratado em que explicava o plano: bastava eliminar alguns anos bissextos e suprimir 10 dias numa canetada. Os bissextos, naturalmente, não atrapalhavam ninguém, mas os 10 dias despertaram resistência feroz. Os romanos pobres suspeitavam uma manobra dos senhorios para roubar-lhes uma semana e meia de aluguel.

Ao final, apesar de tudo, a mudança se fez: o dia 5 de outubro de 1582 passou a ser 15 de outubro. Lillio já estava morto quando um certo Ugo Boncompagni ‒ de quem sabemos muita coisa ‒ impôs o calendário e lhe deu o próprio nome.

Boncompagni deu à obra o nome que já havia inventado para si ‒ Gregório XIII ‒ porque era papa, e os papas fazem essas coisas. O calendário gregoriano é o culpado de hoje ser 31 de dezembro e de que esta noite nos pareça que tudo termina e tudo começa. Luigi Lillio, se é que existe, se é que existiu, deve estar morrendo de rir.

(*) Martín Antonio Caparrós (1957-) é escritor e jornalista argentino.

Tradução deste blogueiro.

 

Usos e desusos

José Horta Manzano

No tempo em que a humanidade vivia de caça, pesca e colheita, não havia necessidade de calendário. A vida da tribo se desenrolava à ventura. Se houvesse que caçar, caçava-se. Se houvesse que colher, colhia-se. Se já nada mais houvesse, levantava-se acampamento em busca de lugar mais generoso.

Essa usança seguiu por milênios, até o homem descobrir que podia controlar a reprodução dos vegetais. Foi um achado e tanto, que abriu as portas da agricultura e, consequentemente, do sedentarismo.

Agricultura 1Técnicas de cultivo desenvolveram-se rapidamente. Cada espécie de planta tinha suas manhas. Esta tem de ser semeada em tal época. Aquela tem de ser podada em tal período. Aqueloutra estará pronta para a colheita em tal estação.

O homem deixou de viver ao deus-dará para seguir as imposições da agricultura. Foi nesse estágio que surgiu a necessidade de contar o tempo, de conhecer com exatidão a época do plantio e da colheita. Os primeiros calendários brotaram dessa exigência.

Ainda que todos concordassem com um ciclo de 365 dias, cada povo organizou o calendário à sua moda. Judeus antigos deram ênfase ao fim das colheitas, quando a terra é posta a descansar. O ano judaico começa entre 5 set° e 5 out°.

Ano-novo chinês

Ano-novo chinês

O zoroastrismo dos persas preferiu situar o início do ano no equinócio de primavera, aquele momento em que dias e noites têm exatamente a mesma duração. No Hemisfério Norte, cai em geral em 21 de março. É o «nowruz» (= dia novo), momento de festa grande. Até hoje, o «nowruz» é celebrado numa quinzena de países que receberam influência da antiga civilização persa.

Na China, foi escolhido outro momento para começar o ano. Faz milênios que ficou combinado que o ano começa exatamente a meio caminho entre o solstício de inverno (21 dez°) e o equinócio de primavera (21 mar). Portanto, cai no começo de fevereiro. Festas e festivais têm lugar nessa época. Fábricas e escritórios fecham, e grande movimento de populações ocorre. Trens e aviões ficam lotados. Embora faça um frio do cão, é momento de férias coletivas. E é bom aproveitar porque, para a (imensa) porção pobre da população, é a única semana de férias do ano.

Janus

Janus

Como os persas, os antigos romanos iniciavam o ano em março, no equinócio de primavera. Foi no império de Júlio César que a data foi transferida para 1° janeiro. Às autoridades, pareceu mais conveniente que o ano começasse no primeiro dia do mês dedicado ao deus Janus ‒ aquele que tem uma cara olhando para o passado e outra para o futuro, simbologia forte. Essa alteração de calendário só foi possível porque Roma, civilização urbana, já não estava tão ligada à lavoura.

Há muitos calendários: o cambodjano, o vietnamita, o muçulmano, o etiópico, o coreano, o hindu e numerosos outros. Assim mesmo, faz séculos que o sistema romano se impôs. Revisto e corrigido em 1582, durante o papado de Gregório XIII, o calendário atual universalizou o 1° de janeiro como primeiro dia do ano civil.

Que 2016 traga a todos saúde, paz e prosperidade. Amém, a nós também.

O ovo da serpente

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«And therefore think him as a serpent’s egg which, hatched, would, as his kind, grow mischievous, and kill him in the shell.»

«Então consideremo-lo um ovo de serpente que, eclodido, se tornaria perigoso como seus semelhantes e matemo-lo no ovo.»

A réplica que Shakespeare põe na boca de Brutus, na tragédia Júlio César, talvez seja demasiado excelsa para combinar com o assunto de hoje. Vou falar de ovo, mas vamos esquecer Shakespeare.

Assustado com o estrago que a revelação do gigantesco assalto à Petrobrás está causando, nosso guia sente que o controle da situação lhe escapa. Súditos outrora fiéis e submissos adquiriram vida própria e já não seguem mais o mestre. Extasiados pela riqueza fácil, lambuzaram-se e foram apanhados em flagrante com a mão no pote de mel. Um desastre.

Abusando de sua conhecida «quase-lógica», o antigo presidente estrelou, ladeado por meia dúzia de devotos, um ato em que clama pela «defesa da Petrobrás». Menos, excelência, menos!

É tarde. Havia que defendê-la antes do assalto. Agora, que a porta foi arrombada e o baú saqueado, atos de desagravo não têm mais alcance.

Manif RioLula, Dilma e todos os companheiros passarão. Mais dia, menos dia, nos iremos todos – ninguém vai ficar pra semente. A Petrobrás, ela sim, sobreviverá. Durante anos vai atravessar inferno astral. Vai amargar a desconfiança do mercado, perdendo, assim, o bem mais precioso de que dispunha: a credibilidade. Ou o distinto leitor arriscaria seu peculiozinho em ações da petroleira nacional?

Para reforçar a imagem « popular » do evento, partidários de Lula convocaram a militância. Vieram todos raivosos, uniformizados de vermelho, caracterizando assim a espontaneidade da presença.

Segundo informa a Folha de São Paulo, um grupo não cooptado passava pelo local. Pediam a saída da presidente da República. Os de vermelho não apreciaram. E que fizeram? Atiraram ovos nos de verde-amarelo.

Longe de mim imaginar que tenham trazido ovos de caso pensado. Certamente, no calor do momento, se abasteceram numa quitanda próxima. Distribuíram ovos, socos e pontapés. Em defesa da Petrobrás.

Perigo à vista

José Horta Manzano

As coisas vão mal em Brasília. Deputados se escondem atrás do anonimato do voto secreto para dar apoio a colegas criminosos. Enquanto isso, a presidente e seus áulicos, acuados por suas repetidas trapalhadas, se escondem do povo, com medo de apupos.

Artigo do Correio Braziliense de 29 de agosto nos dá conta de que as manifestações de junho abalaram mais do que se imagina. A maioria que nos governa há mais de dez anos, acostumada a arrancar aplausos e a colher vivas por toda parte, está sendo obrigada a rever sua estratégia. Os tempos estão mudando rapidamente.

As festividades de 7 de setembro, a data maior, estão aí na esquina. Por um lado, lembrarão aos distraídos que nosso País se emancipou de Portugal em 1822 e tornou-se soberano. Oficialmente, pelo menos.

Por outro lado, os festejos deixarão patente a fragilidade dos que achavam que tudo estava dominado, que estavam por cima da carne seca.

7 de setembro ― preparação Crédito: Correio Braziliense

7 de setembro em Brasília ― preparação
Crédito: Correio Braziliense

Em outras plagas, aparição pública de figurões causa suor frio nos encarregados da segurança. O pavor maior é o de um atentado, de uma bomba, de uma bala disparada por um franco-atirador. É compreensível.

Assim como Júlio César, Dom Carlos de Portugal, John Kennedy e Anuar El-Sadat, muitos mandatários já perderam a vida quando de uma aparição em público. Sem contar os que passaram rente à catástrofe e sobreviveram, como De Gaulle, o papa João Paulo II, Jacques Chirac e outros.

Mas… em nossas terras tropicais, tem disso não! O medo aqui é outro, minha gente. Nossos mandachuvas têm medo mesmo é de povo. Tantas aprontam, que começam a suar frio só de pensar em encarar uma multidão.

Nos bastidores ou diante de uma seleta assembleia de correligionários, político brasileiro se solta, conta bravatas, esbraveja, acusa, se autoexalta, faz o diabo. Já quando tem de enfrentar povo de verdade, só falta fazer cocô nas calças. Uma sonora vaia machuca o ego. Quanto mais alto é o coqueiro, mais forte é o tombo. Quanto mais inflado é o ego, maior pungente é a dor.