A raiz da crise

Carlos Brickmann (*)

Paulo Guedes, o Imposto Ipiranga do Governo Federal era para ser, dizia Bolsonaro, o grande condutor da Economia brasileira. É ele, efetivamente, quem dá a última palavra em todas as medidas: “Sim”, “Sim, Senhor” e “Pois não, Excelência”.

Guedes acredita que os problemas do país nascem da possibilidade de reeleição. “Aprovar a reeleição”, disse, em entrevista à Rádio Jovem Pan, “foi o maior erro político que já aconteceu no país”. Em sua opinião, “há uma fixação constante dos ocupantes de cargos eletivos na conquista do segundo mandato”.

Muita gente, incluindo este colunista, concorda com Guedes. Só que é ele, e não quem concorda com ele, que trabalha o Orçamento para permitir medidas que facilitem a reeleição do presidente Bolsonaro.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Umas bobagens e outras

Carlos Brickmann (*)

As bobagens
Desemprego de quase 15% da população? Bobagem: o ministro pôs a culpa no IBGE. Quase 600 mil mortos na pandemia? Bobagem: o ritmo se reduziu, morrem menos de mil por dia, no máximo o equivalente a cinco desastres do avião da TAM em Congonhas. Preços da comida multiplicados? Bobagem: quem comia carne nem lembra mais como era, quem comia frango come ovo, quem comia ovo irá, um dia desses, receber a nova Bolsa Família.

O Governo tem coisas mais importantes a fazer: por exemplo, condecorar a primeira-dama Michelle Bolsonaro com a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, destinada a pessoas com atuação destacada “no campo das atividades científicas, educacionais, culturais e administrativas” que obtêm “resultados benéficos à saúde física e mental dos brasileiros”. Além de sua esposa, Bolsonaro condecorou seus ministros da Educação, Comunicação, Turismo, Relações Exteriores. Outros beneméritos homenageados são os presidentes da Câmara e do Senado. E que é que fizeram para receber esta bela homenagem, com o nome de Oswaldo Cruz, pai da vacinação no Brasil?

O ministro do Turismo, por exemplo, levou cinco assessores para reunião internacional, onde havia três vagas para o Brasil, incluindo a dele. Um bom passeio é benéfico à saúde física e mental de qualquer pessoa, e os caronas são brasileiros. Foi este ministro que, na sanfona, fazendo a trilha sonora de Bolsonaro, destroçou a Ave Maria, alegrando quem odeia música.

E Michelle?
A primeira dama é um motivo de orgulho para seu marido presidente. Pois não é que, percebendo como o frio maltratava os moradores de rua, foi à luta e conseguiu 148 agasalhos para doar aos pobres? Como o passarinho jogando água com o bico num dos incêndios da Amazônia, ela fez sua parte. Foi de coração, fez o melhor que pôde. E conseguiu 148 agasalhos (número oficial) sozinha, sem ter sequer um Queiroz para ajudá-la. Tudo sozinha, apenas com os meios de que dispunha: carro oficial, seguranças e motorista.

A patriota
É a terceira condecoração que a esposa de Bolsonaro recebe em seu Governo. Já ganhou a Medalha da Vitória, que normalmente é concedida a quem contribuiu para divulgar a coragem dos soldados que combateram o fascismo na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, participou de conflitos internacionais defendendo o Brasil ou integrou missões de paz. Foi agraciada com a Ordem do Mérito da Defesa, destinada a homenagear quem prestou “relevantes serviços ao Ministério da Defesa ou às Forças Armadas do Brasil”. E agora recebe a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz, categoria Ouro, a mais alta.

O caro leitor não sabe o que foi que Michelle fez para receber as medalhas? Vá pesquisar, uai! Este colunista é que não vai combater sua ignorância sobre o tema – até porque também não sabe. O fato é que Michelle tem mais medalhas do que a olímpica Rebecca.

Inculta Flor do Lácio
O governador João Doria inaugurou o Museu da Língua Portuguesa (uma beleza: bem melhor do que o que pegou fogo, e que já era muito bom) e convidou todos os ex-presidentes da República, mais os presidentes de todos os países de língua portuguesa. Marcelo Rebelo, de Portugal, e Jorge Fonseca, de Cabo Verde, vieram. Angola mandou o ministro da Cultura. Temer e Fernando Henrique compareceram. Sarney teve um problema de saúde. Bolsonaro, Lula, Dilma, Collor? Esse negócio de cultura é chato!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O bode na sala

Carlos Brickmann (*)

Dizem que há muitos anos, numa região muito pobre, um lavrador vivia com a enorme família numa casa minúscula, quase em ruínas. Um dia, ele se queixou ao padre da aldeia da vida que levava: a família toda vivia reclamando das más condições e do pouco espaço da casa, mas como mexer nisso sem dinheiro?

O padre o aconselhou: leve seu bode para dentro de casa, e daqui a uma semana voltamos a conversar. O lavrador obedeceu. Na semana seguinte, voltou dizendo que tudo estava muito pior: o espaço tinha diminuído, o bode destruía o que podia e ainda cheirava pior que as histórias de compra de vacinas. O padre lhe disse: tire o bode de dentro da casa. Dois dias depois, o lavrador agradeceu ao padre: sem o bode na sala, todo mundo estava mais feliz, se sentia melhor, e as queixas tinham virado elogios.

Essa história de o fundão eleitoral passar de R$ 2 bilhões (o que já é um despropósito) para R$ 5,7 bilhões não é igualzinha a botar o bode na sala? O presidente veta R$ 5,7 bi, se acertam todos em algo como R$ 4 bi, e todos ficam felizes: Bolsonaro fatura o veto, Suas Excelências comem o dobro da já enorme verba de campanha, e haverá quem acredite que o presidente que come picanha de R$ 1.700,00 o quilo por nossa conta defendeu o Tesouro.

O gasto público na campanha eleitoral brasileira já é o maior do mundo – isso antes do bode na sala. Como diria Dilma Rousseff, alcançada a meta, dobramos a meta. E continuamos trabalhando para alimentar pançudos.

De ponta a ponta
Quando se trata de sugar mais dinheiro da população, ideologia deixa de ser importante: deputados que adoram Lula e deputados que amam Bolsonaro votaram juntos para triplicar as verbas de campanha. Farinha do mesmo saco. Condenarão a tunga, embora tenham votado por ela. Aceitarão com ar de sofrimento, em nome do interesse nacional, a falsa redução de verbas que representará, na verdade, o dobro daquilo que já mamam.

Senhor juiz, pare agora!
A única solução para a indecente situação do financiamento de campanha é o pedido, já feito ao Supremo, para que suspenda o escândalo. Espera-se que o ataque a nossos bolsos vá contra a lei. Ou a politicalha vai tomar o nosso.

Em poucas palavras
O Fundo Eleitoral é o dinheiro que as Excelências tomam dos cidadãos para decidir quem ocupará os cargos que lhes permitirão continuar a tomá-lo.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Lições de vida

Carlos Brickmann (*)

Dia 13 de março de 1964. Este repórter ia a pé para a Folha de S.Paulo quando encontrou uma multidão no sentido oposto: era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Foi difícil atravessá-la.

Chegando à Redação, vi muita gente discutindo o tamanho da Marcha que eu tinha acabado de cruzar. Diziam que ali só havia milionários; que a Igreja ordenara aos fiéis que marchassem; ou que havia dois milhões de pessoas – uns 30% da população da cidade, na época.

Bem, milhões não caberiam, milionários não lotariam o centro, a Igreja há milhares de anos recomenda a fidelidade conjugal, sem tanta adesão. Logo depois, o secretário de Redação, Woile Guimarães, me manda coordenar a cobertura.

Fiquei orgulhoso: 19 anos de idade, um ano de jornalismo, e recebia esta missão! Eu devia ser bom mesmo. Só depois descobri que era o único a não ter opinião prévia sobre o tamanho da Marcha. Dizia apenas que tinha gente pra burro (e não era essa a palavra que usava).

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Amazonas

Carlos Brickmann (*)

Bolsonaro não foi ao Amazonas quando lá morriam pessoas por falta de oxigênio. Mas agora foi, com farta comitiva, para inaugurar uma ponte de madeira de 18 metros por seis – no Interior, seria chamada de “pinguela”.

Lá gravou uma live defendendo a cloroquina, chamando-a de “aquele remédio que ofereci à ema”. Esqueceu de contar que a ema, indignada, o bicou.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Na semana que passou

Carlos Brickmann (*)

Frente a frente
Seria ótimo promover uma acareação entre três membros do Governo: o publicitário Fábio Wajngarten, que disse que Bolsonaro ignorou ofertas de vacinas; o diplomata Ernesto Araújo, que confirmou a ordem do presidente de negociar a importação de cloroquina; e Pazuello. É provável que a tal “síndrome vasovagal”, que dizem que teve e levou à interrupção da sessão da CPI, acabe sendo chamada pelo nome mais popular.

Dilmismo bolsonarista
O então deputado Jair Bolsonaro disse que, para o país tomar jeito, era preciso que morressem umas 30 mil pessoas. Donde se conclui que o general Pazuello atingiu a meta, dobrou a meta e dobrou-a de novo até ser afastado.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Estrela brasileira no céu azul

Carlos Brickmann (*)

Sim, já houve época em que Varig, Panair, Vasp, Transbrasil e TAM eram embaixadoras do Brasil no Exterior. Respeitadas internacionalmente, era em seus escritórios que os brasileiros no Exterior liam jornal e tomavam cafezinho; eram seus pilotos que traziam remédios do Exterior, sem frete.

Hoje, que o governo federal se orgulha de ter transformado o Brasil em pária entre as nações, podemos voar livremente, ou quase livremente, para oito países: México, República Centro-Africana, Nauru, Tonga, Costa Rica, Afeganistão e Albânia. Senhores passageiros, sejam bem-vindos a seus destinos de comércio e de turismo e tenham uma boa viagem pela Bolsonair!

Temos oito destinos dos quais dois valem a pena. E 217 países restringem a entrada de passageiros vindos do Brasil. Nada ideológico: Europa Unida, Estados Unidos, Rússia, China, Cuba, Argentina, Chile, Canadá, Inglaterra, Israel, Irã, Turquia impõem sérias restrições aos viajantes provenientes de nosso país tropical.

Este colunista passou por diversas fases em voos internacionais: a fase Pelé, a fase samba-mulher-futebol, a fase da ditadura militar, a fase Amazônia, e até, surpreendentemente, uma fase Jorge Amado, em que a Europa intelectual discutia a opção menos partidarizada de seus romances.

A fase atual – “bote esse cara na quarentena e cobre adiantado” – me era desconhecida. O Brasil era pobre, mas o brasileiro era bem recebido. Hoje o brasileiro, vetor de vírus, é mal recebido. E o Brasil continua pobre.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O bem da família

Carlos Brickmann (*)

Quando Bolsonaro quis nomear seu filho Eduardo “Bananinha” (apelido que lhe foi dado pelo vice, general Mourão) para a Embaixada do Brasil em Washington, disse que era natural que entregasse o filé-mignon para sua família. Pois é. Já para a população em geral, ele recusou a oferta de vacinas da Pfizer; optou por entrar com a cota mínima no consórcio internacional que garantiria vacinas mais baratas; votou na ONU contra a quebra de patentes das vacinas, o que teria permitido que vários países as produzissem, garantindo a imunização de muito mais gente em muito menos tempo; disse que quem tomasse a vacina da Pfizer podia virar jacaré; desprezou a vacina do Butantan por achar que os chineses não sabiam fazer coisa boa, chamou-a de “vachina”.

Mas sua mãe, o presidente mandou vacinar. E sua nora, esposa do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01, foi vacinar-se no dia 2. Família merece sempre maior atenção.

Já dizia Chico Anysio que o povo é apenas um detalhe.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Ontem, hoje, amanhã

Carlos Brickmann (*)

Há 57 anos, nesta data, o general Olímpio Mourão Filho botou a tropa na rua e iniciou a derrubada do governo João Goulart. A situação era tensa: num grande comício, no Rio, Brizola repetira o slogan “reformas na lei ou na marra” e Luís Carlos Prestes, líder revolucionário, dizia que os comunistas já estavam no poder, só faltava tomar o Governo. Em São Paulo, centenas de milhares de pessoas, na Marcha da Família, queriam depor o presidente. Cabos e sargentos se rebelaram em favor de Goulart, que parecia tranquilo: até levou a esposa, Maria Tereza, ao comício do Rio, para vê-lo aplaudido.

Goulart tinha a seu lado o ministro da Guerra (hoje seria o da Defesa), Jair Dantas Ribeiro, o general Ladário Pereira Telles, comandante da mais poderosa tropa do país, o 3º Exército (Rio Grande do Sul), as Ligas Camponesas de Francisco Julião no Nordeste, as milícias Grupos dos Onze, de seu cunhado Leonel Brizola, um “dispositivo militar” montado por seu chefe da Casa Militar, general Assis Brasil. Era amigo do general Amaury Kruel, comandante do 2º Exército (São Paulo). Tinha “generais do povo” dirigindo estatais. Se tentasse derrubá-lo a oposição seria esmagada.

No dia 31 o general Mourão botou a tropa na rua, em Juiz de Fora. Em um dia de marcha, sem um tiro, o que parecia sólido desmanchou-se no ar. Os militares de Goulart se evaporaram ou aderiram. Bolsonaro tinha uns nove anos, não percebeu nada. E não seria em livros que buscaria se instruir.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Bolsonaro e a guerra ao vírus

Carlos Brickmann (*)

Respondendo a pressões americanas contra incêndios na Amazônia e no Pantanal, no fim do ano passado, Bolsonaro disse que, quando as palavras acabam, chega a hora da pólvora.

Pois agora, cansado das palavras contra a covid, parece ter decidido ir à guerra contra os coronavírus: destinou 20% do orçamento oficial para as Forças Armadas. Serão destruídos à bala!

Além disso, para estimular os combatentes, decidiu que os militares serão os únicos servidores a ter reajuste neste ano. A nutrida tropa (nutrida com 700 mil kg de picanha, 80 mil litros de cerveja, boa parte importada, uísque do bom e enorme estoque de leite condensado) terá armas à vontade.

Tremei, vírus!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Já são dois

José Horta Manzano

Quando dois argutos analistas políticos cogitam e olham na mesma direção e no mesmo momento, convém prestar atenção. Estou falando de Carlos Brickmann e Eliane Cantanhêde. Neste domingo, cada um deles publicou um artigo apontando uma hipotética candidatura apta a encarar Bolsonaro nas eleições de 2022 – se ele se aguentar no trono até lá, naturalmente. Aqui vai um trecho de cada artigo.

Palpite

Carlos Brickmann

Preste atenção na empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza: caso o plano que vem articulando para vacinar toda a população do país antes do fim do ano dê certo, ela pode ser a novidade eleitoral. Terá feito aquilo que ninguém conseguiu fazer, sua reputação é excelente, já mostrou que é muito competente e capaz de fazer o que é preciso. Mas, exatamente por isso, espere pelos obstáculos que vão colocar-lhe no caminho. Não podemos nos iludir: salvar vidas, ajudar a vencer a pandemia, melhorar a situação da população, nada importa para os lá de cima. Importa é não ter adversário.

E Luiza Trajano?

Eliane Cantanhêde

Doria, Huck, Moro e Luiz Henrique Mandetta são torpedeados antes de alçar voo, mas, como não há vácuo em política, quem pode preencher esse vácuo é uma mulher, empresária, colecionadora de êxitos, com o pé no chão e defensora de boas causas, como cotas, vacinas, menos ideologia e mais resultados. Sim, Luiza Trajano, sem partido e sem traquejo político, mas instada a botar o bloco na rua e, num carnaval tão atípico, animar e atrair um grande aliado de Bolsonaro: o eleitor desiludido, ou desesperado, que só vê o buraco aumentando.

Comentário deste blogueiro
Estes últimos vinte anos, presidentes desastrosos têm reprimido o avanço do país, deixando-nos cada vez mais firmemente ancorados num Terceiro Mundo irrevogável. Pra consertar, os brasileiros bem-intencionados estão apelando pra qualquer um, desde que jure:

  • que a Terra não é plana,
  • que não pretende armar a população,
  • que não prestigiará ditador africano,
  • que não concederá passaporte diplomático aos parentes,
  • que não acreditará no E.T. de Varginha,
  • e, principalmente, que, sim, acredita na vacina e pretende imunizar toda a população.

Se dona Luíza preencher todos os requisitos, vamos de Madame Trajano!

Mais fatos, menos mentiras

Carlos Brickmann (*)

A melhor maneira de desmentir uma notícia falsa é publicar a verdade. A destruição das fake news não se faz por censura ou por arbítrio, mas trocando o falso pelo verdadeiro.

Já ninguém diz, hoje, que quem toma vacina vai virar jacaré: a imbecilidade se desfez sozinha, e sozinha mostrou quem é o jacaré.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O buraco é mais à frente

Carlos Brickmann (*)

O presidente Bolsonaro pensa que seu maior problema é o Congresso. Não é: tudo o que pode ser resolvido com dinheiro não é problema, é custo. Sim, está sendo caro: evitar impeachment, evitar CPIs, o investimento é alto mesmo. Mas não é um problema.

Para evitar o constrangimento de levar uma proposta indecente a um parlamentar decente, o Brasil criou uma novidade tecnológica: a turma disposta a ouvir os argumentos do Poder Executivo – e, ao menos em um caso famoso, de até entubá-los – usa código de barras em local visível. Facilita o diálogo, evita incompreensões, não se perde tempo.

Mas o maior problema não é o Congresso (nem é o Congresso a solução). A turma do código de barras quer é levar vantagem em tudo. E, se já foram pagos, qual o problema de mudar de posição? Trair e coçar é só começar.

O grande problema do presidente Bolsonaro é um grupo de trabalhadores que já acreditou nele: os caminhoneiros. Como já acreditaram (e já levaram um pé no pazuello), conversar com eles é difícil. Talvez não aconteça nada, pois não há cúpulas que os comandem; mas, se acontecer, os caminhoneiros programaram sua parada para esta segunda-feira.

Se não pararem, Bolsonaro poderá continuar pensando o tempo todo no governador João Doria. Mas se houver paralisação, todo o país terá problemas sérios. Bolsonaro também.

Boa parte das mercadorias viaja de caminhão. Uma greve derruba o abastecimento. Vai faltar até leite condensado para o pão de Sua Excelência.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Não se metam

Carlos Brickmann (*)

Há cerca de um ano, o Brasil podia ter entrado na Covax, um grupo de 165 países que receberiam vacinas a preços menores, com cota de 200 milhões de doses. Uns meses depois, após hesitar muito (Trump não lhe havia dado a ordem), Bolsonaro entrou no programa, com cota de vinte milhões de vacinas.

Em agosto, a Pfizer ofereceu ao Brasil 70 milhões de doses, a entregar até janeiro deste ano. O Brasil não respondeu.

Em 20 de outubro, o general Cloroquina, o super-homem da logística que ocupa a Saúde, anunciou a compra de 46 milhões de doses da Coronavac. No dia seguinte, Bolsonaro desautorizou o Cloroca e disse que jamais compraria essa vacina.

Vamos somar: são 316 milhões de doses que Bolsonaro não quis comprar quando havia estoques e que hoje seriam suficientes para a população brasileira – e com duas doses.

E não seria preciso ajoelhar-se ante Índia e China para implorar vacinas.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A vida dos outros

Carlos Brickmann (*)

Há tempos já se sabe que os estoques de oxigênio líquido na região Norte são precários. Que fez o governo? Aumentou, no final do ano, os impostos de importação. De acordo com a BandNews FM, a alta do dólar já elevara os custos. Com os impostos, um cilindro grande, que custava R$ 1.000, foi para os atuais R$ 1.600. O governo foi apanhado de surpresa? Talvez – mas por falta de atenção.

Houve reunião do Ministério da Saúde em Manaus, descrita com precisão pela repórter Malu Gaspar na revista Piauí de janeiro. Um dos momentosos temas em debate foi a vida sexual do governador de São Paulo, João Doria. Frase de Zoser Plata Bondim Hardman de Araújo, assessor do ministro da Saúde: “Doria é o maior pau pequeno, um boiola”.

Faltam leitos, oxigênio? Bobagem. O tema é Doria – pau dele, pau nele.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Cala-te, boca

Carlos Brickmann (*)

O problema do presidente Bolsonaro não é dizer o que pensa: é pensar o que diz. Desta vez conseguiu provocar uma onda de simpatia por uma pessoa famosa por ser irritanta, desagradável, prepotenta.

Dilma passou três anos na prisão, na época daquela ditadura militar que Bolsonaro tanto elogia embora diga que não existiu. Foi torturada, como era praxe na época; a tortura foi confirmada pela Justiça. Agora, 50 anos depois, sem qualquer motivo, a não ser a vontade de falar demais, Bolsonaro pôs em dúvida, às gargalhadas, as torturas a que Dilma foi submetida. Diz que espera as provas, por raios X, da fratura que ela sofreu durante a tortura.

Bobagem, por dois motivos: 1) todos os documentos estão em poder das autoridades; 2) ele reuniu, em solidariedade a Dilma, personalidades dos mais diversos partidos, como Fernando Henrique, Rodrigo Maia, e naturalmente toda a ala esquerda da política brasileira.

Fez o possível para reviver uma personalidade esquecida.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Chega de intermediários

Carlos Brickmann (*)

O chanceler brasileiro acredita em comunavírus, em perigo amarelo, em perigo vermelho. Talvez tenha de ser substituído por alguém que tema o perigo azul, dos democratas americanos. E que saiba negociar, entre amarelos e azuis, vantagens para o Brasil na implantação da rede 5G.

Trump fazia pressões para manter a Huawei chinesa fora da rede brasileira. Biden, não se sabe. Mas para o Brasil, que tem EUA e China como principais parceiros comerciais, é hora de fazer bons negócios com ambos. Ou, se é por ideologia, chega de intermediários: Olavo de Carvalho no Itamaraty.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Gooood friends

Carlos Brickmann (*)

Foi só a missão diplomática americana que veio pedir apoio na guerra à Huawei chinesa deixar o Brasil, que os EUA começaram a investir – investir contra a economia brasileira: impuseram sobretaxa de 50% às importações de chapas de alumínio aqui produzidas.

Segundo a Associação Brasileira do Alumínio, a sobretaxa inviabiliza as exportações para o mercado americano, até agora o maior cliente do Brasil. Isso ocorre junto com a assinatura do acordo brasileiro-americano sobre redução de obstáculos ao comércio.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.