Va-t-en guerre

José Horta Manzano

Os franceses dizem que alguém é «va-t-en guerre» (vai à guerra) quando essa pessoa é briguenta, daquelas que, quando veem uma confusão, já entram batendo pra só em seguida perguntar o que aconteceu. Entre o diálogo e o enfrentamento, o «va-t-en guerre» sempre dará preferência à solução forte. Hillary Clinton era vista como pertencente a esse grupo de valentões e essa tendência de madame há de ter contribuído para sua derrota nas últimas eleições.

Acabo de ler uma pesquisa feita por Ideia Big Data sob encomenda do Estadão. Buscava-se conhecer a opinião do brasileiro sobre a atitude que nosso país deve assumir diante da crise venezuelana. Foi perguntado aos entrevistados se acreditavam que o Brasil deve intervir militarmente pra depor Nicolás Maduro.

Sem pesquisa, eu teria lascado que nove entre cada dez compatriotas querem ver a pátria longe desse tipo de aventura. Afinal, somos alegres, sorridentes e pacíficos. Ou não? Pois fique sabendo, distinto leitor, que… não! Não é bem assim.

Foram 1300 entrevistados em todo o país. Praticamente metade deles (46%) são de opinião que o Brasil deve, sim, intervir militarmente na Venezuela. É um volume de gente impressionante. Nem doutor Bolsonaro, aquele que anda de braço dado com o lobby dos fabricantes de armas e que bate continência até pra porteiro de hotel, ousou pronunciar-se por esse tipo de solução.

Nessas horas, me divirto a imaginar que vou andando por uma rua cheia de gente. À medida que cruzo os passantes, vou contando: este é a favor, este é contra, este é a favor, este é contra. Metade dos compatriotas! Um pasmo! Estamos longe da imagem do Zé Carioca, o brasileiro esperto, mas gentil e inofensivo.

Sinceramente, não imaginava que o brasileiro fosse tão va-t-en guerre. Acredito que a existência desse espantoso contingente de belicosos possa ser atribuída ao perfeito alheamento da população. Por um lado, dado que o último conflito travado em território nacional foi a Guerra do Paraguai (1864-1870), ninguém faz a menor ideia do que seja viver em país em guerra. Devem ter uma visão romântica e acreditar que tudo se passa como nos videojogos (em português: video games). Por outro lado, desconhecem o fato de as forças armadas venezuelanas estarem superbem equipadas.

Se pensam que uma aventura venezuelana seria como um passeio à beira-mar, enganam-se. Que tal alguns mísseis de fabricação russa explodindo contra metrópoles brasileiras? Será que nossos va-t-en guerre pensaram nisso? Um alienamento desse porte cai bem nos coreanos do norte, gente que sofre lavagem cerebral permanente e vive numa realidade paralela. Mas no Brasil? Quem diria…

Aposta errada

Ruy Castro (*)

As forças que, há um ano, se juntaram para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando hoje se não teria sido melhor ficar com a primeira opção, o cabo Daciolo. Na época, ainda longe da largada, Bolsonaro e Daciolo, cada qual em seu box, pareciam focinho com focinho nas preferências. Ambos preenchiam os requisitos: eram carismáticos, primários e quase medievais.

A ideia era a de que qualquer um deles, se eleito, faria uma simpática figuração no Planalto enquanto o país seria gerido pelos profissionais – os quais, depois de milhares de reuniões-hora em suas instituições, já tinham tudo esquematizado: abertura, reformas, volta da economia. Ao presidente, caberia uma agenda que o manteria ocupado e à distância da única arma perigosa ao seu alcance: a caneta.

Mas, já na campanha, Daciolo começou a assustar os apoiadores. Em vez de prometer salvar o Brasil, fazia de cada 15 segundos na TV uma versão pocket do Sermão da Montanha. Sua voz, amplificada por anos de salmos em quartéis de bombeiros, era “assertiva” demais. E, pela frequência com que dava Glória ao Senhor Jesus, era como se tivesse o WhatsApp do homem e somente a Ele daria satisfações no mandato.

Os apoiadores voltaram-se então para Bolsonaro, com seu jeito de matuto simplório. No poder – pensaram –, enquanto ele brincasse de capitão dando ordens a generais, eles tratariam do país.

Bem, Bolsonaro foi eleito e fez o que eles não esperavam: resolveu usar a caneta. Diz os maiores absurdos, toma decisões irresponsáveis, provoca incêndios que o próprio governo tem de apagar, quer acabar com a educação e o ambiente, tem três filhos dementes e se deixa guiar por um esperto que está vivendo algo nunca sequer sonhado: dirigir o país por controle remoto. Resultado: erraram feio. Daciolo talvez fosse melhor – mesmo com Jesus Cristo como vice.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Brinquedo ressuscitado

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que patinete era feito de madeira. E preferia o gênero masculino: O patinete. E não andava sozinho, era movido a feijão e dependia da batata da perna. E era exclusivamente reservado para crianças de até 8 ou 10 anos. E, no meu caso pelo menos, tinha de ser vermelho. Hoje mudou.

Já faz alguns anos que o antigo brinquedo foi ressuscitado, numa prova de que o mundo dá voltas e os acontecimentos acabam se repetindo. Só que agora, motorizado, o simpático biciclo deixou de ser brinquedo para crianças. Quem sobe em cima agora são marmanjos.

Patinete (que costumava ser usado por crianças) e monociclo (que costumava ser usado por palhaços) proliferam atualmente. Ainda não enquadrados pela regulamentação viária, fazem como os primeiros veículos motorizados que circularam 120 anos atrás: rodam desordenadamente por onde bem entendem. O fenômeno não é só brasileiro mas mundial. Por toda parte, o problema é o mesmo: esses novos meios de transporte individual não se encaixam em nenhuma categoria de veículos. Assim, circulam como bem lhes agrada.

A França em geral e Paris em especial se ressentem do problema. Esses miniveículos mostram-se invadentes. Dezenas de acidentes graves já foram registrados, sempre envolvendo atropelamento de pedestres. As vítimas são em muitos casos pessoas idosas, cujos ouvidos já perderam a acuidade e cujos reflexos não são mais tão alertas.

O Código de Circulação francês está sendo modificado para incluir os novos veículos. Dentro em breve, eles não poderão mais circular na calçada. Terão de utilizar a faixa de bicicleta – se houver. Caso não haja, rodarão na rua. A velocidade está limitada a 25km/h. O transporte de passageiro será rigorosamente proibido, assim como a utilização por condutor com menos de 8 anos de idade. Conduzir em estado de embriaguez também é proibido. Quem for apanhado em infração, receberá multa de 135 euros (600 reais), um montante dissuasivo.

Detalhista e burocrático, o Estado francês já preparou longa lista de podes e não-podes. Uso do capacete, farol dianteiro, farol trazeiro, gestos para indicar mudança de direção, estacionamento estão entre os pontos tratados. Queira ou não, o Brasil terá de seguir o mesmo caminho. Quantos acidentes graves serão necessários pra pôr em marcha a máquina legislativa?

Qual é seu nome?

José Horta Manzano

Todo o mundo sabe que não convém mexer em time que está ganhando. Bolo feito pela receita da vovó sai sempre bom. Então pra que mudar o que está dando certo? Nome de firma, por exemplo, só se muda em dois casos: quando o nome já não bate com a atividade da empresa ou quando o negócio está indo pra trás.

Curiosamente, uma alteração que, no começo, salta aos olhos como jogada esperta pode acabar funcionando mais adiante. Na hora em que o nome é mudado, a esperteza fica muito evidente, quase incômoda. No entanto, passando o tempo, a gente acaba se esquecendo do nome antigo e adotando o novo. Vai para o esquecimento também a carga negativa que pesava sobre o nome antigo.

Tivemos um caso famoso de empresa que procurou nome novo quando o antigo ficou obsoleto. É a Sadia Transportes Aéreos, empresa que começou transportando salsicha e, quando passou a levar também passageiros, achou que não ficava bem uma companhia aérea com nome de frigorífico. O nome foi mudado para Transbrasil, empresa hoje falecida.

Em 2002, a companhia aérea Swissair foi à falência. Sua sucessora, que renasceu das cinzas após boa injeção de dinheiro do contribuinte, teve de encontrar nome novo. Um genial marqueteiro canadense, contratado pela módica soma de três milhões de dólares, bolou o extraordinário nome novo: Swiss. Um achado!

Partidos políticos – não só no Brasil – são fregueses dessa prática. Quando as coisas vão mal e os eleitores minguam, muda-se o nome. Costuma dar certo. Em pouco tempo, a população se esquece da sigla antiga. Vão-se as mágoas para o esquecimento. Já faz vários anos que o antigo PFL, que guardava o peso de ter sido braço do regime militar, se desfez do nome antigo e adotou DEM. Hoje, pouca gente se lembra.

Qual é seu nome?

O maior partido francês de extrema-direita, o Front National (Frente Nacional) suavizou seu ideário nos últimos anos. Deixou um pouco da ferocidade e adotou um discurso mais sorridente, com vistas a arrebanhar mais eleitores. Mudança de nome era indispensável. Tornou-se o Rassemblement National (Agrupamento Nacional). De propósito, muitos ainda insistem em chamá-lo pelo nome antigo. Mas a nova denominação vai se impondo pouco a pouco.

Nesse particular, a mais recente novidade entre nós é a intenção do MDB de adotar nome novo. Se acontecer, será a quarta denominação do partido, que já foi MDB, virou PMDB e voltou a ser MDB. Segundo alguns caciques, a mudança se faz necessária dado que o partido anda muito desgastado. Saiu magrinho das últimas eleições. Perdeu a presidência da Câmara e do Senado e, se bobear, vai acabar mergulhando no magma do baixo clero. Cogita-se que o novo nome pode ser Movimento. Original, não é?

Algum parlamentar, preocupado com nossas misérias humanas de cada dia, bem que podia entrar com projeto de lei permitindo que todo cidadão troque de nome quando quiser. Assim, quando a gente estiver chateado e tomar a decisão de começar vida nova, vai poder entrar no novo ciclo de alma lavada, com pé direito e… com nome novo. Não seria bom?

Tomara que caia

José Horta Manzano

Pouco comentada, uma marcante diferença de comportamento entre europeus e brasileiros é a facilidade com que estes últimos se desvestem em público para mostrar partes íntimas do corpo. Não sei de onde vem essa tendência nacional. Um primeiro pensamento pode ver a origem em nosso clima quente, mas duvido.

Embora a maior parte da Europa tenha clima frio, o verão costuma ser agradável e até escaldante em certas regiões. Multidões procuram o sol à beira d’água e se vestem em traje de banho, como manda o figurino. Mas nossa roupa de praia é sempre mais ousada que a de outros lugares. No Carnaval, nossas afrodescendentes de tez clara (antigamente conhecidas como mulatas) rebolam com menos roupa do que qualquer europeia em qualquer desfile.

1979 – Lula fazendo seu strip-tease

Nossa sem-cerimônia não se restringe às praias ou aos desfiles de Carnaval. Todas as camadas da população agem assim em muitas ocasiões. «Oia aqui, ó» – diz a moça conversando no ônibus com a vizinha de banco. E, sem a menor inibição, levanta a blusa pra mostrar a pinta ou a cicatriz à amiga. A cena, que no Brasil passa batida, é impensável em outras terras.

2019 – Camisa arregaçada, Bolsonaro faz seu show debaixo dos holofontes

Atualmente é de constatar que nem o exercício de altas funções é imunização contra essa falta de freios. Recentemente, dois dos maiores defensores da pudicícia pátria não hesitaram em arregaçar manga e camisa pra mostrar parte do corpo em cadeia nacional. Esse «oia aqui» do andar de cima foi protagonizado pelos doutores Bolsonaro e Weintraub, respectivamente presidente da República e ministro da Educação. É interessante notar que a arregaçada veio de dois ardentes defensores da pureza da alma nacional, sempre prontos a nos proteger contra ideias ou imagens indecorosas.

2019 – Weintraub deixa cair a camisa e mostra o ombro

Não foi espetáculo conjunto – cada um fez o strip-tease no seu canto, por razões pessoais. O atentado cometido na mesma semana pelos dois figurões é atitude inconcebível em qualquer personagem público da Europa. Nas muitas décadas que tenho vivido deste lado do mundo, nunca assisti a nada parecido.

Um dirigente de alto coturno deveria entender que, quando se pronuncia, a plateia, em princípio, não está ali pra conhecer os detalhes do que lhe vai sob a roupa. A meu ver, essa exibição de pelanca é de mau gosto e está fora de contexto. Ou talvez seja rabugice minha, vai saber.

1946 – Rita Hayworth de tomara que caia

Nota para os mais jovens
O ‘tomara que caia’ que aparece no título é reminiscência de moda feminina surgida lá pelos anos 1940. O vestido ‘tomara que caia’ não tinha alça que prendesse o conjunto aos ombros. Se não desabava, era por magia. A todo momento, parecia que a roupa ia cair, daí o apelido. Ousado naquela época, hoje não comove mais ninguém.

Debatendo com criminosos

José Horta Manzano

Há alguns anos, escrevi o artigo Os amigos de meus amigos. Conta o percurso acidentado de doutor José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal de 2005 a 2011. O bem-apessoado homem político coleciona percalços. A universidade que lhe deu o título de engenheiro foi fechada por falhas na pedagogia e também por ‘malfeitos’ éticos e administrativos. Embora os que lá se formaram não tenham culpa direta disso, enfrentam problemas de legitimidade.

Em provável busca de compensação, doutor Sócrates defendeu tese de mestrado num instituto de Paris. Em 2013, após deixar o cargo de primeiro-ministro, lançou um livro sobre a tortura na democracia, baseado na tese que havia defendido na França. Seu ‘ghost writer’ – o professor universitário que realmente escreveu o livro – confessou ao MP português ter sido remunerado com dezenas de milhares de euros para redigir não só o livro, mas também a tese de José Sócrates. O prefácio do livro é assinado por Lula da Silva. Não é proibido especular que o texto tenha sido redigido pelo mesmo escritor-fantasma que cuidou do livro.

Embora não esteja comprovado, diz-se, à boca pequena, que 98% dos exemplares da primeira edição do livro teriam sido comprados pelo próprio autor, com verbas desviadas de estatais. A manobra teria garantido sucesso editorial e imediata impressão da segunda edição. A história, se não for verdadeira, é bem bolada.

Pouco depois do lançamento do livro, doutor José Sócrates foi preso preventivamente. Não por ter escrito o livro, mas por ser alvo da Operação Marquês, processo complexo ainda em fase de instrução. De lá pra cá, já deixou a cadeia, mas está de tornozeleira, à disposição da Justiça. Sócrates é acusado por 31 crimes e delitos de corrupção e malversações diversas de dinheiro do contribuinte português. Por enquanto, ainda que tudo o acuse, a presunção de inocência impede que se lhe aplique etiqueta de culpado.

Semana passada doutor Sergio Moro, nosso ministro da Justiça, esteve em Portugal. Quando de uma entrevista, respondendo à pergunta de um repórter, citou a Operação Marquês – aquela em que José Sócrates é acusado – como exemplo das dificuldades de avançar da Operação Lava a Jato. Incomodado com a menção da operação em que é visado, o ex-primeiro-ministro tratou Moro de «ativista político disfarçado de juiz». Futriqueiros, os jornalistas correram levar o xingamento ao ministro Moro só pra ver a reação. Moro então perdeu as estribeiras e disse com todas as letras: «Eu não debato com criminosos pela televisão. Então, não vou fazer mais comentários.»

O prefaciador e o escritor, ambos enrolados com a Justiça.
O primeiro, condenado e preso; o segundo, de tornozeleira

Nosso ministro, de costume tão sossegado e comedido, devia estar num mau dia. Escorregou feio. Esquecido de que é ministro da Justiça do Brasil, desceu a lenha no réu de um processo em terra estrangeira e, mais que tudo, tratou Sócrates de «criminoso», passando por cima do fato de ele ainda não ter sido condenado. É imperdoável, principalmente na boca de um ex-juiz. Pegou muito mal. O revide do ex-primeiro-ministro veio rápido. Numa entrevista na televisão, pontificou: «Moro só é ministro por ter metido o Lula na cadeia».

Quem diz o que quer ouve o que não quer. Bem feito!

Da cadeia para o mundo

José Horta Manzano

Entre surpreso e incrédulo, o mundo recebeu a notícia de que Lula da Silva tinha dado entrevista à imprensa.

– Entrevista? Como assim? Mas ele não estava preso até outro dia?

– Pois ainda está. Mas o Brasil, sacumé, é um país que às vezes corre fora dos trilhos. Preso pode dar entrevista. Depois do Lula, dá pra imaginar um punhado de grão-condenados fazendo fila pra aparecer diante dos holofotes.

– Vão permitir que outros deem entrevista também?

– Se permitiram a um, não vejo como poderiam negar a outros. Quem se habilitar já pode começar a fazer fila.

Esse diálogo é imaginário. Mas não fantasioso. Fico realmente preocupado ao pensar que Marcola, Eduardo Cunha, Fernandinho Beira-mar e outros meliantes podem exigir o mesmo tratamento. Sempre haverá algum órgão de imprensa interessado em colher a entrevista. Já pensou?

Voltando à entrevista do Lula, foi particularmente edificante o trecho em que ele diz que essepaiz está sendo governado por «um bando de maluco». (Já reparou que Lula da Silva nunca pronuncia o nome dessepaiz? Freud deve poder explicar.) Pessoas sensíveis devem ter se sentido incomodadas com a violência das palavras proferidas por alguém que, afinal, já foi presidente da República. Não é comum. Bom, também não é comum um ex-presidente estar encarcerado por corrupção. Talvez isto explique aquilo.

Pouco comum também foi a resposta do atual presidente. Irritado, doutor Bolsonaro retrucou que mais valia o Brasil estar sendo governado por um bando de loucos do que por um bando de cachaceiros. Touché! Impressionante mesmo é o nível do palavreado dessa gente – tanto os loucos quanto os cachaceiros. Tudo farinha do mesmo saco.

Fiquei curioso em descobrir como a imprensa internacional tinha dado a notícia, em especial como tinham traduzido a expressão ‘bando de maluco’.

Os órgãos de língua francesa foram unânimes: disseram todos que o Brasil era governado por «une bande de fous». É tradução ao pé da letra.

A mídia de língua inglesa foi mais variada. Alguns, como The Guardian, traduziram por «lunatics». Outros, como o Washington Post, preferiram «crazy people». A edição inglesa de France 24 foi mais elaborada. Optou por «gang of madmen» – gangue de gente louca.

Os castelhanos também foram sortidos. TeleSur, a tevê de Maduro, tascou «una banda de locos». O Portal Notimerica foi mais sóbrio: «un puñado de locos». E o argentino Clarín escolheu uma formulação mais coloquial: «una banda de chiflados» – um bando de gente de raciocínio perturbado.

Antes, os cachaceiros. Agora, os loucos. Essepaiz está bem arrumado.

Nada é eterno, doutor!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 abril 2019.

Para quem se apresentava como o único candidato capaz de acabar com política contaminada por ideologia, doutor Bolsonaro está saindo melhor que a encomenda. Por detrás de cada ato, de cada nomeação, de cada pronunciamento, cochila um laivo doutrinário. As viagens presidenciais ao exterior, por exemplo, têm vindo embaladas pra presente, descritas como importantes para reforçar laços comerciais. Rasgado o invólucro vistoso, aparece o papel pardo de armazém chinfrim a denunciar que a motivação era, na realidade, ideológica.

Uma regra não escrita determina que a primeira viagem de todo presidente nosso seja a Buenos Aires. A razão é simples: ainda que não seja o maior cliente de nossas exportações, a Argentina é nosso mais importante vizinho de parede. Ainda que acontecimentos extraordinários deixem o mundo de ponta-cabeça, nossos hermanos estarão sempre ali, colados, do outro lado da fronteira. Pra viver em harmonia, convém tratar bem a vizinhança. Doutor Bolsonaro preferiu passar por cima dessa lógica trivial. Reservou a primeira saída internacional para uma visita ao Chile. Na volta, a geografia não havia mudado: a Argentina continuava vizinha. Vizinha e de nariz torcido.

Faz uns vinte anos, formou-se nos EUA o Congresso Mundial das Famílias, movimento ultraconservador dirigido contra os homossexuais, contra o divórcio, contra direitos LGBTs, contra o aborto, contra tudo que escape aos rígidos limites do que entendem ser a família tradicional. Desconfio um pouco desses movimentos que são contra. É mais produtivo ser a favor. As armas para lutar em prol de alguma coisa são sempre menos agressivas do que as que se utilizam pra lutar contra. Ser contra tanta coisa ao mesmo tempo só pode ser fonte de mau humor. Nas reuniões desse movimento, sorriso há de ser artigo raro. Vade-retro!

Cruzada medieval

Os congressos mundiais do grupo têm lugar anualmente. Dos três últimos, realizados na Geórgia, na Hungria e na Moldávia, pouco se falou. Este ano, dado que a honra de acolher a edição coube à Itália, o evento cresceu em importância. Quando alguém declara não ter «nada contra homossexuais, cada um que viva a vida que escolheu», fique de pé atrás, distinto leitor. É quase certo que se trata de alguém digno de ostentar carteirinha de sócio do Congresso das Famílias. Usando declaração desse teor como guarda-chuva, Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro da Itália, avalizou o evento com sua presença. Impossibilitado de comparecer, doutor Bolsonaro fez-se representar pela secretária nacional da Família – que prestigiou o congresso com um discurso. Para um presidente que prometia acabar com ideologias, está de bom tamanho.

Faz dez dias, na preparação de nova estrepolia, doutor Bolsonaro mandou um dos filhos em viagem exploratória a países da Europa, selecionados a dedo, que pretende visitar ainda este ano. São a Polônia e a Hungria, destinos que, somados, respondem por 0,4% de nossas exportações. Já se vê que a motivação comercial é pouca pra abalar presidente. À boca pequena, corre explicação mais convincente. O objetivo é inscrever nosso país no bloco ultraconservador cujos contornos já se desenham em forma de «cinturão bíblico» a proteger a Europa contra hipotéticas hordas de incréus. E lá vamos nós comprar mais uma guerra que não é nossa.

Mas a história é cíclica e o destino inexorável de todo bloco é o desmanche. Os de direita e os de esquerda se desfazem. Tanto o temível eixo Berlim/Roma quanto a poderosa URSS desmoronaram bonito. A vertigem do poder costuma cegar e impedir os ungidos de enxergar essa evidência. No entanto, se os filhos ainda não têm maturidade para entender, doutor Bolsonaro já tem idade e experiência pra se convencer de que o importante é melhorar as condições de vida do povo brasileiro, objetivo maior de seu mandato. Blocos, fugazes por natureza, fazem-se e desfazem-se ao sabor da alternância de dirigentes. O que vale hoje pode já não valer amanhã. Penduradas as chuteiras, melhor será ser lembrado por ter construído um Brasil melhor do que por ter sido membro de um grupo que virou pó.

Lula da Silva: o que vai sobrar

José Horta Manzano

Por unanimidade, o STJ confirmou a culpa de Lula da Silva. O ex-presidente se transforma assim em condenado em terceira instância. É dureza, meu irmão. São já dois tribunais colegiados a confirmar, por unanimidade, o entendimento da primeira instância. A duração da pena – que atende pelo curioso nome de ‘dosimetria’ – foi reduzida para estabilizar-se ligeiramente abaixo da que tinha sido imposta por doutor Moro. São só sete meses a menos.

É boa notícia essa decisão do STJ? Depende. A resposta não pode ser dada simplesmente com um sim ou um não. O assunto é um pouco mais complexo. Para muitos dos seguidores do Lula, é a grande notícia da temporada, aquela que põe o demiurgo mais próximo de uma afrouxamento da prisão: regime semiaberto ou prisão domiciliar. No outro polo, para muitos dos detratores do ex-presidente, a notícia é decepcionante, exatamente pelas mesmas razões: o Lula fica mais próximo de uma prisão aliviada.

Cada um é que sabe onde lhe aperta o sapato. Para o Brasil, de qualquer modo, a notícia não é nada boa. Não porque o condenado deva cumprir pena mais longa ou mais curta. Isso, para nós que estamos fora da cadeia, é de pouca importância. O que nos deixa a todos amargurados é o fato de o STJ ter confirmado que Lula da Silva é mesmo corrupto.

É uma mancha que, cada dia mais, vai se entranhando e marcando nossa história. A não ser que improvável reviravolta aconteça no STF e que o processo todo seja anulado por algum vício de forma, percebe-se hoje que o Brasil carregará para sempre a vergonha de ter tido um presidente condenado por ser ladrão. E justamente aquele que, eleito e reeleito, se apresentava como diferente dos demais, homem puro, bem-intencionado, disposto a dar a própria camisa pra vestir o próximo. Dos governantes recentes, foi o que melhor enganou o distinto público.

Daqui a muitos anos, quando a poeira tiver baixado e estivermos todos mortos, nossos trinetos vão considerar que esta é uma página negra de nossa história, um acontecimento que a gente gostaria de poder apagar.

A camiseta e o marketing

José Horta Manzano

Na França, um detalhe da Páscoa de doutor Bolsonaro chamou a atenção do distinto público. Foi quando o presidente, que parecia tomado pelo espírito de Dilma Rousseff, saiu por aí dando voltinhas de motocicleta.

by Jean Galvão (1972-), desenhista paulista

Fosse só isso, não teria sido notícia na França, país cujos jornais ainda estão preocupados com o incêndio de Notre-Dame, com os atentados do Ceilão (Sri Lanka), com as depredações dos «Coletes Amarelos». O que chamou a atenção foi o fato de doutor Bolsonaro estar vestido com uma camiseta do PSG (Paris Saint-Germain), o mais importante time de futebol do país.

Nas encenações de marketing moderno, todo detalhe tem importância. Atônitos, os analistas ainda estão tentando decifrar a mensagem que se esconde atrás da camiseta. Seria o número 10 alusão a Neymar? Por que o número está gravado na frente, no estilo do futebol americano? Por que ele não vestiu uma camiseta da Seleção? Se parou para a foto, é porque queria ser visto. Por que razão?

Podem discutir dias e dias, mas acho que não vão encontrar nenhuma explicação lógica. O marketing caseiro dos Bolsonaros costuma ser atabalhoado, sem pé nem cabeça. O que parece nem sempre é. Melhor deixar pra lá. Talvez não haja marketing nenhum e a resposta seja prosaica: o quarto estava escuro e o doutor só apanhou aquela camiseta porque ela estava no topo da pilha.

Observação futebolística
Na França, a força do PSG – Paris St-Germain é tamanha que os bolões esportivos nem perguntam mais quem será o campeão. A resposta é conhecida antes do começo do campeonato. As apostas começam do segundo colocado pra baixo.

Há pior

José Horta Manzano

Engana-se quem acha que as patacoadas imaginadas por doutor Bolsonaro são o cúmulo do atropelo ao bom senso. Há coisa pior. É verdade que nosso presidente se tem esforçado no campo da irracionalidade. Parece fazer de propósito. Diz hoje para, em seguida, desdizer-se amanhã. Irrefletido, engalfinha-se com a imprensa, esquecido do princípio básico que ensina que você não deve entrar em conflito com os órgãos dos quais pode precisar amanhã. Toma decisões de arrepiar o cabelo. Mas, como eu dizia, há pior.

O inimigo é Papa Francisco

Matteo Salvini, que compartilha com Luigi di Maio o posto de vice-primeiro-ministro da Itália, é o atual enfant terrible da política europeia. Desde a juventude, militou em movimentos nacionalistas que tinham como objetivo a independência do Norte da Itália. Ao ver que, numa Europa forte, não tinha chance nenhuma de atingir o objetivo, deu um passo atrás e decidiu agir na raiz. Se uma Europa forte impede o sonho de independência, o remédio é enfraquecer a Europa.

Dottor Salvini pôs de molho, por enquanto, o discurso separatista. Desde que chegou às altas esferas da política italiana, tem-se dedicado a solapar descaradamente a União Europeia. Faz amizade com qualquer político europeu, desde que isso lhe pareça contribuir para o desmonte do continente. A francesa Le Pen, o húngaro Orbán, o suíço Blocher, o inglês Farage, o holandês Wilders ‒ todos o que puderem ajudar no desmantelamento da União são bem-vindos.

Matteo Salvini: “O meu papa é Bento”

Do extremista americano Steve Bannon, ouviu recentemente um conselho: «Papa Francisco é o inimigo a atacar». Surpreendente de ousadia, não é? O americano, que é justamente aquele cujas posições extremadas já assustaram o próprio Trump, se referia à visão humanitária que o papa tem em matéria de migração.

Sem esperar o conselho do americano, Matteo Salvini já tinha decidido emprestar seu prestígio para demolir a imagem de Francisco. Deixou-se fotografar ostentando orgulhosamente uma camiseta com os dizeres «O meu papa é Bento», uma afronta à Igreja Católica Romana. Cai mal o vice-primeiro-ministro de um país civilizado intrometer-se numa instituição religiosa. Cai pior ainda quando se considera que o povo italiano tem forte ligação com essa Igreja.

Quem se arrepia com os escândalos do clã Bolsonaro deve ter em mente que podia ser pior. Mas estamos no bom caminho pra piorar.

E ponto final

José Horta Manzano

Continuam a ser registrados testemunhos de apoio à bizarra (e contestada) decisão de conceder passaporte diplomático a senhor Edir Macedo, dono de importante seita neopentecostal. A portaria a garantir o documento foi assinada por doutor Araújo, nosso barbudo chanceler, aquele cujo espírito de abertura ao mundo é notório. A concessão do documento foi sustada por determinação de uma juíza federal.

Assim mesmo, a emissão do passaporte ganhou novo apoiador na figura do presidente da República, homem de visão e cultura raras, como é do conhecimento de todos. Em declaração encharcada de autoritarismo, doutor Bolsonaro garantiu que o privilégio outorgado ao prelado será mantido. “E ponto final“ ‒ acrescentou. A convicção de estar no caminho certo vem do fato de tal passaporte já ter sido concedido por governos petistas. “Ora, se eles concederam, por que não eu?“ ‒ é o implacável argumento do presidente.

Ademais, pastores, bispos e outros prelados gozam da mesma prerrogativa. Em sendo gente acima da ralé, têm direito a escapar de filas e amontoados onde poderiam até terminar contaminados, um horror!

Continua em cartaz a doutrina do nós também. Se todos fazem, por que não nós? ‒ era o moto dos adeptos do caixa dois no auge da Operação Lava a Jato. O fato de outros já terem errado não justifica que se continue errando. Ao amparar-se nesse alicerce bambo, doutor Bolsonaro mostra que ainda não conseguiu escapar das manhas da velha política. O prolongado uso do cachimbo deixou-lhe torta a boca.

Clube latino-americano

José Horta Manzano

Quando viu baterem à porta de casa os policiais que o vinham prender, señor Alan García ‒ que foi duas vezes presidente do Peru ‒ pressentiu o frio das algemas e o peso da humilhação. Preferiu não enfrentar. Suicidou-se.

Para bordar o assunto, a mídia compôs listas de dirigentes que, nos últimos cem anos, decidiram, seja por que razão for, tirar a própria vida. Não são poucos. Entre eles, aparece Getúlio Vargas, que mandou no Brasil por 19 anos. A lista inclui ainda Adolf Hitler e o chileno Salvador Allende(1).

O elenco mais impressionante é o de ex-presidentes latino-americanos presos ou investigados por corrupção. A gente imagina que o caso de Lula da Silva seja único, mas não é bem assim. O clube dos corruptos, que perpetua secular tradição em nosso continente, tem muitos membros.

O Peru aparece em boa posição, com seus cinco últimos presidentes na lista. Além do recém-falecido Alan García, aparecem Alberto Fujimori, Ollanta Humala, Alejandro Toledo, Pedro Pablo Kuczynski. Todos eles já passaram algum tempo atrás das grades ou estão envolvidos em processo por corrupção. Os três últimos citados foram regados pelo propinodutro internacional patrocinado pela brasileira Odebrecht ‒ nossa maior exportadora de corrupção.

O clube dos presidentes corruptos tem mais gente fina. Está lá a argentina Cristina Fernández de Kirchner, que só escapou da cadeia até agora em razão de sua imunidade parlamentar. Outra figurinha carimbada é Rafael Correa, ex-presidente do Equador. Está sendo processado por “delinquência organizada” no caso Odebrecht. A América Central não está ausente. A representá-la, estão o panamenho Martinelli, o hondurenho Callejas, os guatemaltecos Pérez Molina e Álvaro Colom, todos ex-presidentes. Os representantes brasileiros nessa exemplar confraria são, como é sabido de todos, Lula da Silva e Michel Temer.

Li hoje entrevista concedida por um jornalista que trabalhou para O Pasquim nos anos 1970. Ele pondera que o fato de Lula da Silva estar preso é prova de vigor da democracia. Sem dúvida. Mais vigorosa seria a democracia, no entanto, se nenhum dirigente tivesse de ir pra cadeia por crime de corrupção.

(1) Dizem uns que Salvador Allende se suicidou, enquanto outros asseveram que «foi suicidado». Passado quase meio século sem conclusão confiável, a controvérsia tende a se perpetuar.

Silêncio é poesia

José Horta Manzano

Logo que começaram a pipocar as mensagens de simpatia de líderes do mundo inteiro abalados com o incêndio de Notre-Dame de Paris, senti uma certa inquietação: que faria doutor Bolsonaro? Será que ia se calar fingindo que era poste? Será que ia mandar mensagem? E, se mandasse, que barbaridade perigava escrever no bilhete?

Aliviado, descubro que o pior não aconteceu. A mensagem do presidente foi sóbria, digna, exatamente como se espera de personagem equilibrado. Não estivesse assinada de próprio punho, eu nem acreditaria que tivesse sido escrita por ele mesmo.

Já Mr. Trump, ai, ai, ai. Que bordoada! O homem se permitiu dar conselho aos bombeiros de Paris, imagine só! Enquanto as chamas consumiam o edifício, sugeriu que fossem despachados aviões-cisterna, daqueles que se usam para combater incêndio florestal. E que despejassem toneladas d’água sobre a catedral.

Condescendentes, os bombeiros de Paris responderam delicadamente que não era uma boa ideia, pois o peso da água perigava destruir o que restava do monumento além de matar pedestres. Muito acertadamente, as normas proíbem o uso de aviões-cisterna em meio urbano. Desta vez, doutor Bolsonaro livrou-se do ridículo.

Em boca fechada não entra mosca, minha gente. Donald Trump calado é um trovador. Se subsiste uma duvidazinha quanto à autoria da mensagem de doutor Bolsonaro, não há que hesitar pra designar o autor do bilhete de Mr. Trump: é ele mesmo.

Missionário no exterior

José Horta Manzano

Sem intenção de afrontar a notória abertura de espírito do culto ministro Ernesto Araújo, pergunto-me em que medida o passaporte diplomático que ele concedeu ao casal Edir Macedo Bezerra pode ajudar o eclesiástico a “desempenhar de maneira mais eficiente suas atividades em prol das comunidades brasileiras no exterior”.

Que tem o passaporte a ver com atividades episcopais do titular? Um doce pra quem puder informar. Cartas para a redação, por favor.

Nota da redação postada em 17 abr 2019
Um juiz federal do Rio de Janeiro confortou este blogueiro no entendimento de que não tem cabimento conceder passaporte diplomático a um eclesiástico sob pretexto de que costuma partir para viagens missionárias. Em sábio juridiquês, o magistrado deu despacho cassando o documento.

Aguardemos o próximo capítulo. Num país extremamente judiciarizado como o nosso, nunca se sabe. Batalhas judiciais são intermináveis, principalmente para quem tem (muito) dinheiro. É voz corrente que donos de igrejas neopentecostais vivem em abastança.

Olha o radar!

José Horta Manzano

Num momento de desatino ‒ ou inspirado sabe-se lá por qual guru ‒, doutor Bolsonaro mandou barrar a instalação de 8 mil radares nas estradas do país. Alem de afrontar o bom senso, a ordem contraria a tendência mundial de reforçar a regulamentação do tráfego rodoviário. Por toda parte, já está comprovada a relação entre a velocidade dos veículos e a gravidade dos acidentes.

Tão fora de esquadro é a decisão presidencial que até uma juíza federal se comoveu e emitiu contraordem. Não se sabe como terminará o embate, que a briga é de foice. Vença quem vencer, o balanço será ruim. Se a vontade presidencial prevalecer, perderão o utilizadores de nossas precárias estradas, que se tornarão ainda mais perigosas. Se a ordem judicial triunfar, a imagem de doutor Bolsonaro sairá do episódio ainda mais esfolada e enfraquecida.

Os franceses receberam, estes dias, confirmação da eficácia dos radares rodoviários na prevenção de acidentes. Desde que começaram a protestar, em novembro do ano passado, os Coletes Amarelos já atacaram 75% do parque de radares fixos instalados no país. Aparelhos foram queimados, derrubados, destruídos, inutilizados ou furtados. As estatísticas do primeiro trimestre, impiedosas, trazem o veredicto: o número de mortos nas estradas francesas aumentou 17% desde o início do ano. Uma subida brutal.

É fácil de entender. Os radares costumam ser instalados nos pontos perigosos, onde o motorista tende a aumentar a velocidade do carro. Ciente de que há um radar fixo, o cidadão refreia seus ímpetos pra não levar multa. Assim, contribui para desinchar as estatísticas de acidentes. Quando sabe que não há radar nenhum, o sujeito se solta. It’s human nature ‒ é natural.

Espero que o bom senso vença e que a instalação dos radares seja liberada no Brasil. É excelente caminho pra diminuir a hecatombe rodoviária brasileira, drama de características e proporções africanas.

Todas as fichas no passageiro

José Horta Manzano

É perigoso apostar todas as fichas em algo passageiro que, amanhã, já poderá ter mudado. Apostar em governo de turno é atraso de vida. Ontem, foi o terrorista Battisti que, tendo escolhido o volúvel Brasil, esborrachou-se no chão. Mudou o governo, e ele se estrepou. Hoje é Mr. Assange, aquele que andou divulgando documentos confidenciais ‒ um ato que agradou a muita gente mas desagradou fortemente ao governo dos EUA.

Perseguido e com a cabeça a prêmio, o ‘lançador de alerta’ aceitou a oferta do frágil Equador, cujo presidente à época jogava no time do antiamericanismo radical. Isso foi em 2012. Desde então, viveu recluso na embaixada londrina daquele país, confinado a um espaço bem menor do que a confortável suite que hospeda Lula da Silva em Curitiba.

Mas tudo muda na vida. Cansado de guerra e de mutretas, o povo equatoriano entronizou presidente de outra corrente filosófica. Ontem, ao cabo de longas negociações com Londres, Quito anunciou que cancelava o asilo político concedido a Mr. Assange. Ato contínuo, as portas da embaixada foram abertas para permitir que a polícia de Sua Majestade entrasse e apanhasse o ex-asilado. O moço foi levado algemado num veículo policial.

O balanço final mostra que Mr. Assange, tentando se esquivar à prestação de contas, apostou no cavalo errado. Depois de passar sete anos encerrado num cubículo sem ao menos possibilidade de tomar banho de sol, volta à estaca zero. Terá de enfrentar interrogatório, extradição, julgamento e provavelmente condenação. Em resumo, ter confiado num regime de turno só lhe valeu postergar o encontro com o destino. Acrescentou sete anos de cela solitária ao prontuário e terá de cumprir a pena que lhe for imposta, que pode ser de mais cinco anos.

O clã Bolsonaro escolheu uma senda perigosa. A vassalagem que vêm prestando à pessoa do presidente dos EUA não é caminho de sol e flores. À volta das próximas eleições americanas, tempestade e espinhos podem surgir. Suponhamos que Mr. Trump não seja reeleito. Não é provável, mas sempre é possível. Certamente o presidente democrata que viria ocupar seu lugar não lançaria o mesmo olhar lânguido a doutor Bolsonaro. As coisas poderiam azedar, principalmente levando em conta que, imprevidentes como são, os bolsonarinhos são bem capazes de continuar a se apresentar com o boné « Trump 2020 » enfiado no cocuruto. Se Trump perder… já imaginaram o desastre?

Anota na caderneta?

José Horta Manzano

Percorrer os corredores do supermercado, cheirar frutas, revirar embalagens, decifrar letrinhas, abrir portinholas, apanhar produtos, empilhar tudo no carrinho e dirigir-se à fila do caixa são atividades corriqueiras. De tão habituais, fazem parte do dia a dia, e a gente nem presta mais atenção. Mas houve um tempo em que isso não existia.

No hall central da estação

Quando surgiram os primeiros armazéns concebidos segundo o novo e revolucionário conceito ‘sirva-se você mesmo’, importado dos EUA, muita gente se espantou. «Como é que é? A gente mesmo vai pegando as compras e pondo na sacola? E na hora de pagar, como é que faz? Anota na caderneta? E se anotar errado?» As muitas indagações eram compreensíveis, tal era o chacoalhão que a novidade dava nos hábitos.

Loja de conveniência sem funcionários

Hoje, passados mais de sessenta anos, ninguém mais se espanta. Mesmo assim, o ramo da venda de produtos alimentícios no varejo ainda consegue inventar novidades. Não sei se já existe no Brasil, mas por aqui acaba de aparecer: uma loja de conveniência sem funcionário e sem caixa. Por mais blasés que estejam os cidadãos do mundo que nos tornamos, é pra lá de original ver um comércio sem ninguém pra servir nem pra cobrar. É fora dos padrões.

Escanear o código para abrir a porta

Na Suíça, a primeira loja do gênero abriu esta semana em Zurique. Está instalada provisoriamente no meio do grande hall da estação de estrada de ferro. Pra entrar, tem de ter baixado o aplicativo da empresa. Pra abrir a porta, precisa escanear, com o celular, o código afixado à entrada. A mercadoria está toda ali, exposta, à espera de ser carregada. O comprador terá de escanear cada artigo. Terminada a compra, dá um ‘totalizar’, e pronto. O montante será debitado do cartão de crédito. (Neste caso, cartão de crédito é a versão 2.0 da velha caderneta da venda.) Dois funcionários da empresa passam diversas vezes por dia pra reabastecer prateleiras e gondolinhas.

Ao carregar o aplicativo, o cliente já está dando sua identidade, o que reduz drasticamente toda tentação de furto. Se deixar de escanear um artigo, por exemplo, não escapará. Será flagrado por uma das câmeras de segurança e receberá a conta do mesmo jeito. O sistema é uma amostra do que nos espera no futuro. Ninguém segura o progresso.

(*) No Brasil, os primeiros empórios a adotar o sistema de autosserviço surgiram nos anos 1950. A rede Peg Pag foi pioneira. Maroto, o povo fazia troça com a novidade. Em vez de Peg Pag, dizíamos «Pegue e Corra».

A queda de Bolsonaro

José Horta Manzano

Grande estardalhaço se está fazendo em torno da queda de aprovação que castiga doutor Bolsonaro. O Instituto Datafolha, que vem fazendo esse tipo de levantamento desde os tempos de Collor de Mello, afirma que nenhum presidente em primeiro mandato sofreu, em tão pouco tempo, baixa de popularidade tão significativa. Para ser confiável, um levantamento tem de partir de bases concretas e comprovadas. Ora, no caso em questão, acredito que esses alicerces estejam faltando.

O Instituto diz que, aos três meses de mandato, FHC era aprovado por 39% da população, Lula da Silva chegava a 43% e a doutora atingia incríveis 47%. Na rabeira, doutor Bolsonaro não passa de 32%. À vista desses números, analistas afirmam que a queda de popularidade do atual presidente foi vertiginosa. Queda? Será mesmo? Tenho cá minhas dúvidas.

Para medir a queda, será preciso conhecer a aprovação do presidente no momento da eleição. A tarefa é impossível, dada a ausência de levantamento. Que fazem, então, os analistas? Partem da hipótese tácita de cada presidente, no momento da eleição, ter contado com aprovação plena. Visto que é virtualmente impossível alguém ser unanimemente aprovado, parte-se do pressuposto de todos os presidentes terem iniciado no mesmo patamar de aprovação, um número próximo da porcentagem de votos com que cada um foi eleito. É aí que reside o erro.

FHC, Lula e Dilma foram eleitos pelos méritos que o eleitor sabia que tinham ou supunha que tivessem. Portanto, pode-se considerar que seus eleitores ‒ que representam, grosso modo, metade do eleitorado ‒ votaram neles porque os aprovavam. Assim, esses três presidentes partem de um mesmo patamar de aprovação. A comparação entre a queda de cada um deles é válida. Já o caso de doutor Bolsonaro é diverso.

Parte considerável dos que votaram no atual presidente não o fez por convicção mas por exclusão. Votaram nele não por adesão à causa bolsonarista, mas para esconjurar o espectro da volta do petismo. Portanto, ainda que possa soar paradoxal, boa parte dos eleitores de Jair Messias não aprovava o personagem já àquela altura. Foram votar de nariz tapado, só pra afastar o mal maior. Já estavam de má vontade, preparados pra lançar um olhar pra lá de crítico ao novo governo.

É o que está ocorrendo. Acredito que os 32% que agora aprovam doutor Bolsonaro são o núcleo duro de seus eleitores, aqueles que o escolheram pelos méritos que tinha ou se supunha tivesse. A diferença entre esse patamar e os 55% ‒ sua votação total ‒ representa aquela porção do eleitorado que lhe deu ‘voto útil’. Não sendo bolsonaristas desde criancinhas e vendo que o perigo petista se afastou, esses cidadãos têm dificuldade em aprovar um presidente que, ainda por cima, não é lá essas coisas. Assim, aguçam suas críticas.

É o que me parece. A aprovação do presidente não “caiu”. O fato é que ela nunca esteve lá em cima. Portanto, não pode ter “caído” de uma altura onde nunca esteve.

Capitalização

José Horta Manzano

Pouco a pouco, o Brasil vai se dando conta de que, do jeito que está, a Previdência Social vai direto pro buraco. Gradualmente vai-se desfazendo a noção de que a entidade abstrata chamada «governo» tudo pode. Todos entendem que este é o país do toma lá dá cá, ou seja, a terra em que tudo tem seu preço e nada vem de graça. No entanto, curiosamente, a população tem dificuldade em entender que, para poder pagar a pensão dos aposentados, o «governo» tem de receber dinheiro dos que estão na ativa. Afinal, dinheiro não dá em árvores. Mas parece que a ficha está caindo e mensagem está passando. Era hora.

Esta mudança, apresentada como A reforma, não é senão um ajuste. A longevidade se espicha, os jovens entram cada vez mais tarde na vida ativa, casais têm menos e menos filhos ‒ enfim, a sociedade evolui. Que não se imagine que, feitos estes acertos, nada mais mudará nas próximas décadas. Não será assim. A reforma atual é significativa porque o corpo social evoluiu e as regras não têm sido adaptadas desde o tempo do Onça. O segredo de evitar choques traumáticos gerados por reformas drásticas é ir adaptando as regras aos poucos.

A grande medida a ser implantada agora, por ter sido descurada por muito tempo, tornou-se a principal anomalia da Previdência brasileira: a fixação de idade mínima para aposentadoria. No mundo civilizado, ninguém acreditaria se ficasse sabendo que brasileiros em boa saúde têm o direito de se aposentar por volta dos 55 anos de idade. É de admirar que a estrutura ainda não tenha arrebentado.

Aproveitando o atual debate, há quem fale em substituir o sistema de repartição pelo de capitalização. A meu ver, seria tremendo erro conceptual. O princípio da Previdência Social é a solidariedade nacional. Todos contribuem para alimentar a poupança comum, cada um conforme seus ganhos. Chegada a hora da aposentadoria, todos receberão da mesma sacola. O benefício variará conforme parâmetros individuais e profissionais.

Sistema de capitalização é outro capítulo. É cada um por si, longe de toda solidariedade nacional. É poupança individual, que nada tem a ver com Previdência Social. Pode servir como complemento ao benefício básico, mas não deve substitui-lo. Espero ‒ e acredito ‒ que o legislador evitará pautar a reforma por esse princípio.