Qual é seu nome?

José Horta Manzano

Todo o mundo sabe que não convém mexer em time que está ganhando. Bolo feito pela receita da vovó sai sempre bom. Então pra que mudar o que está dando certo? Nome de firma, por exemplo, só se muda em dois casos: quando o nome já não bate com a atividade da empresa ou quando o negócio está indo pra trás.

Curiosamente, uma alteração que, no começo, salta aos olhos como jogada esperta pode acabar funcionando mais adiante. Na hora em que o nome é mudado, a esperteza fica muito evidente, quase incômoda. No entanto, passando o tempo, a gente acaba se esquecendo do nome antigo e adotando o novo. Vai para o esquecimento também a carga negativa que pesava sobre o nome antigo.

Tivemos um caso famoso de empresa que procurou nome novo quando o antigo ficou obsoleto. É a Sadia Transportes Aéreos, empresa que começou transportando salsicha e, quando passou a levar também passageiros, achou que não ficava bem uma companhia aérea com nome de frigorífico. O nome foi mudado para Transbrasil, empresa hoje falecida.

Em 2002, a companhia aérea Swissair foi à falência. Sua sucessora, que renasceu das cinzas após boa injeção de dinheiro do contribuinte, teve de encontrar nome novo. Um genial marqueteiro canadense, contratado pela módica soma de três milhões de dólares, bolou o extraordinário nome novo: Swiss. Um achado!

Partidos políticos – não só no Brasil – são fregueses dessa prática. Quando as coisas vão mal e os eleitores minguam, muda-se o nome. Costuma dar certo. Em pouco tempo, a população se esquece da sigla antiga. Vão-se as mágoas para o esquecimento. Já faz vários anos que o antigo PFL, que guardava o peso de ter sido braço do regime militar, se desfez do nome antigo e adotou DEM. Hoje, pouca gente se lembra.

Qual é seu nome?

O maior partido francês de extrema-direita, o Front National (Frente Nacional) suavizou seu ideário nos últimos anos. Deixou um pouco da ferocidade e adotou um discurso mais sorridente, com vistas a arrebanhar mais eleitores. Mudança de nome era indispensável. Tornou-se o Rassemblement National (Agrupamento Nacional). De propósito, muitos ainda insistem em chamá-lo pelo nome antigo. Mas a nova denominação vai se impondo pouco a pouco.

Nesse particular, a mais recente novidade entre nós é a intenção do MDB de adotar nome novo. Se acontecer, será a quarta denominação do partido, que já foi MDB, virou PMDB e voltou a ser MDB. Segundo alguns caciques, a mudança se faz necessária dado que o partido anda muito desgastado. Saiu magrinho das últimas eleições. Perdeu a presidência da Câmara e do Senado e, se bobear, vai acabar mergulhando no magma do baixo clero. Cogita-se que o novo nome pode ser Movimento. Original, não é?

Algum parlamentar, preocupado com nossas misérias humanas de cada dia, bem que podia entrar com projeto de lei permitindo que todo cidadão troque de nome quando quiser. Assim, quando a gente estiver chateado e tomar a decisão de começar vida nova, vai poder entrar no novo ciclo de alma lavada, com pé direito e… com nome novo. Não seria bom?

Cachaça não é água

Sebastião Nery (*)

Lula caricatura 2O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal eleito no levante eleitoral do MDB em 1974, realizou um seminário trabalhista nacional com destacadas lideranças sindicais e com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaúcho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador do Estado. E também Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo, e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que deixara o exílio no Uruguai e, em Portugal, articulava sua volta.

Copo d'água 2Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia, vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nasceria o PT, marco da história política brasileira.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembro-me bem de que lá em Criciúma, já rouco de falar, Lula pediu:

‒ Me dá minha água.

Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.

Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.

Casa 1Minha casa, minha vida
Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sítio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca. O triplex do Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira foi ele, quem construiu as suítes foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a madrinha Odebrecht, a titia OAS, o vovô Teixeira.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.

Carta aberta ao Lula

José Horta Manzano

by Eduardo Baptistão desenhista paulista

by Eduardo Baptistão
desenhista paulista

O advogado Antonio Tito Costa, hoje com 92 anos, foi prefeito de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, entre 1977 e 1983. Eram anos difíceis. A ditadura militar estava nos estertores mas mantinha a mão de ferro. A inflação crescia e a marmita dos movimentos sindicais ameaçava explodir.

Tito Costa tinha sido eleito pelo MDB, o partido que se contrapunha à ditadura. Nessa qualidade, estava próximo de oposicionistas, entre os quais Luiz Inácio da Silva, o Lula. Caminharam juntos por aqueles tempos pesados. Passada a tempestade, cada um seguiu seu destino.

Em carta aberta dirigida ao Lula e publicada na Folha de São Paulo de 20 set°, o antigo prefeito relembra aqueles anos e escancara a alma. Com sinceridade comovente, expõe sua visão dos caminhos tortuosos pelos quais enveredou o antigo metalúrgico.

Vale a pena ler. Quem estiver interessado deve clicar aqui ou aqui.