Anota na caderneta?

José Horta Manzano

Percorrer os corredores do supermercado, cheirar frutas, revirar embalagens, decifrar letrinhas, abrir portinholas, apanhar produtos, empilhar tudo no carrinho e dirigir-se à fila do caixa são atividades corriqueiras. De tão habituais, fazem parte do dia a dia, e a gente nem presta mais atenção. Mas houve um tempo em que isso não existia.

No hall central da estação

Quando surgiram os primeiros armazéns concebidos segundo o novo e revolucionário conceito ‘sirva-se você mesmo’, importado dos EUA, muita gente se espantou. «Como é que é? A gente mesmo vai pegando as compras e pondo na sacola? E na hora de pagar, como é que faz? Anota na caderneta? E se anotar errado?» As muitas indagações eram compreensíveis, tal era o chacoalhão que a novidade dava nos hábitos.

Loja de conveniência sem funcionários

Hoje, passados mais de sessenta anos, ninguém mais se espanta. Mesmo assim, o ramo da venda de produtos alimentícios no varejo ainda consegue inventar novidades. Não sei se já existe no Brasil, mas por aqui acaba de aparecer: uma loja de conveniência sem funcionário e sem caixa. Por mais blasés que estejam os cidadãos do mundo que nos tornamos, é pra lá de original ver um comércio sem ninguém pra servir nem pra cobrar. É fora dos padrões.

Escanear o código para abrir a porta

Na Suíça, a primeira loja do gênero abriu esta semana em Zurique. Está instalada provisoriamente no meio do grande hall da estação de estrada de ferro. Pra entrar, tem de ter baixado o aplicativo da empresa. Pra abrir a porta, precisa escanear, com o celular, o código afixado à entrada. A mercadoria está toda ali, exposta, à espera de ser carregada. O comprador terá de escanear cada artigo. Terminada a compra, dá um ‘totalizar’, e pronto. O montante será debitado do cartão de crédito. (Neste caso, cartão de crédito é a versão 2.0 da velha caderneta da venda.) Dois funcionários da empresa passam diversas vezes por dia pra reabastecer prateleiras e gondolinhas.

Ao carregar o aplicativo, o cliente já está dando sua identidade, o que reduz drasticamente toda tentação de furto. Se deixar de escanear um artigo, por exemplo, não escapará. Será flagrado por uma das câmeras de segurança e receberá a conta do mesmo jeito. O sistema é uma amostra do que nos espera no futuro. Ninguém segura o progresso.

(*) No Brasil, os primeiros empórios a adotar o sistema de autosserviço surgiram nos anos 1950. A rede Peg Pag foi pioneira. Maroto, o povo fazia troça com a novidade. Em vez de Peg Pag, dizíamos «Pegue e Corra».

Panela no fogo, barriga vazia

José Horta Manzano

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Venezuela? Cuba? Iraque? Coreia do Norte? Não, minha gente. É França, sim senhor. As fotos, tiradas hoje, mostram gôndolas de um supermercado do interior do país, a mais de 500km de Paris, em estado de desesperador desabastecimento, especialmente nesta época de festas.

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A penúria de mercadorias é consequência dos distúrbios causados pelos protestos dos gilets jaunes ‒ coletes amarelos. As arruaças mais importantes e mais violentas aconteceram em Paris. No entanto, em virtude do bloqueio que os manifestantes promovem a centros de distribuição de mercadorias, o abastecimento do país inteiro está prejudicado.

Gilet jaune

Por que será que o movimento escolheu o colete amarelo como símbolo? E como é possível que, de repente, milhares de pessoas tirem do guarda-roupa coletes ‒ todos da mesma cor e mesmo modelo?

A resposta é simples. Na França, é obrigatório ter no automóvel, em permanência, essa peça de vestuário. É pra ser usado quando o carro enguiça e a gente tem de parar na beira da estrada e sair do veículo. Os coletes são amarelos e fosforescentes. Todos os automobilistas têm.

Crença

Fábio Porchat (*)

Religião 1Atendente
Boa tarde, posso ajudar?

Cliente
Eu tava querendo uma religião.

Atendente
Ah, bem legal. Tá procurando alguma coisa específica?

Cliente
Não, é mais pra distrair mesmo.

Atendente
Bom, se é para distrair, a gente vai ter uma religião católica aqui que pode ser bem interessante.

Cliente
Será? Não sei. Tô achando meio batida.

Atendente
Bom, a mais da moda é o islamismo mesmo.

Cliente
Mas daí é muito empenho, eu queria uma coisa mais pra usar em casa, uma coisa mais levezinha.

Religião 2Atendente
Temos o budismo que é bem em conta e tá saindo muito.

Cliente
É uma, hein?

Atendente
É bem relaxante essa.

Cliente
Essa aqui é qual?

Atendente
Essa é a cientologia.

Cliente
Como é que é essa aí?

Atendente
Ah, o espiritismo. Hoje o espiritismo está na promoção, tá? E se você quiser levar um espiritismo, paga apenas 50% em qualquer umbanda dessas daqui. Candomblé também.

Cliente
Aceita cartão?

Atendente
Todas as bandeiras. A evangélica é que tem muita gente usando. Mas daí custa um pouco mais caro.

Cliente
E o judaísmo, hein?

Atendente
Tem que pedir no estoque e ver se eles autorizam.

Cliente
Tá.

Atendente
Se quiser uma coisa um pouco mais radical temos uma mórmon aqui que pode ser a sua pedida. Até a Testemunha de Jeová também é uma opção…

Cliente
Não sei, acho que eu vou dar mais uma olhada.

Religião 3Atendente
Se você quiser, a gente pode aqui preparar uma mistura pra você com um pouquinho de tudo. Funciona bem também. O brasileiro adora. É um pacotão completo: Você passa a acreditar em Deus, acha que vai pro céu, mas também acende uma velinha, vê espírito, medita, pula sete ondinhas e lê a Bíblia.

Cliente
Ah, gostei dessa.

Atendente
Todo mundo gosta.

Cliente
Mas coloca aí nesse pacote as 70 virgens.

Atendente
Quer que embrulhe?

Interligne 18h

(*) Fábio Porchat é empresário e figura da mídia. Crônica publicada no Estadão.