Olha o radar!

José Horta Manzano

Num momento de desatino ‒ ou inspirado sabe-se lá por qual guru ‒, doutor Bolsonaro mandou barrar a instalação de 8 mil radares nas estradas do país. Alem de afrontar o bom senso, a ordem contraria a tendência mundial de reforçar a regulamentação do tráfego rodoviário. Por toda parte, já está comprovada a relação entre a velocidade dos veículos e a gravidade dos acidentes.

Tão fora de esquadro é a decisão presidencial que até uma juíza federal se comoveu e emitiu contraordem. Não se sabe como terminará o embate, que a briga é de foice. Vença quem vencer, o balanço será ruim. Se a vontade presidencial prevalecer, perderão o utilizadores de nossas precárias estradas, que se tornarão ainda mais perigosas. Se a ordem judicial triunfar, a imagem de doutor Bolsonaro sairá do episódio ainda mais esfolada e enfraquecida.

Os franceses receberam, estes dias, confirmação da eficácia dos radares rodoviários na prevenção de acidentes. Desde que começaram a protestar, em novembro do ano passado, os Coletes Amarelos já atacaram 75% do parque de radares fixos instalados no país. Aparelhos foram queimados, derrubados, destruídos, inutilizados ou furtados. As estatísticas do primeiro trimestre, impiedosas, trazem o veredicto: o número de mortos nas estradas francesas aumentou 17% desde o início do ano. Uma subida brutal.

É fácil de entender. Os radares costumam ser instalados nos pontos perigosos, onde o motorista tende a aumentar a velocidade do carro. Ciente de que há um radar fixo, o cidadão refreia seus ímpetos pra não levar multa. Assim, contribui para desinchar as estatísticas de acidentes. Quando sabe que não há radar nenhum, o sujeito se solta. It’s human nature ‒ é natural.

Espero que o bom senso vença e que a instalação dos radares seja liberada no Brasil. É excelente caminho pra diminuir a hecatombe rodoviária brasileira, drama de características e proporções africanas.

Vou pra Diamantina

Monica Melo (*)

Carnaval 7Se tem uma coisa que eu tenho dó é dos repórteres nessas épocas de feriados e comemorações.

Porque entra ano e sai ano e os pobres coitados repetem a mesma ladainha, entrevista com o chefe da Polícia Rodoviária Federal sobre como viajar com segurança, como evitar a ressaca, imagens ‘exclusivas’ dos foliões pulando e berrando freneticamente enquanto dão adeusinho para as câmeras, tentativas de conversar pelo menos um minutinho com alguma celebridade (subcelebridades ninguém precisa procurar, elas aparecem do nada na frente do microfone), a tradicional reportagem sobre o fim da farra na quarta-feira, yadda yadda yadda.

E também o movimento nas rodoviárias. Aí me lembrei de uma repórter de um telejornal local valentemente tentando encontrar alguma informação remotamente interessante na rodoviária de Belo Horizonte para colocar no ar.

Como nada muito relevante parecia estar acontecendo, lá vai a moça entrevistar os foliões, né, fazer o quê?

Onibus 3E pergunta pro primeiro: Vai pra onde neste Carnaval? Vou pra Diamantina.

E então pro casalzinho logo atrás: E vocês, pra onde vão no feriado? Pra Diamantina.

Dois ou três viajantes indo pra Diamantina depois, a câmera dá aquele zoom out básico e a gente percebe (mas aparentemente a repórter não) que aquilo ali é uma fila. Pra comprar passagem. Pra Diamantina.

A matéria deve ter ido ao ar por absoluta falta de opção… ou pra sacanear com a jornalista.

(*) Monica Melo é jornalista. Edita e anima o blogue Crônicas Urbanas.