A camiseta e o marketing

José Horta Manzano

Na França, um detalhe da Páscoa de doutor Bolsonaro chamou a atenção do distinto público. Foi quando o presidente, que parecia tomado pelo espírito de Dilma Rousseff, saiu por aí dando voltinhas de motocicleta.

by Jean Galvão (1972-), desenhista paulista

Fosse só isso, não teria sido notícia na França, país cujos jornais ainda estão preocupados com o incêndio de Notre-Dame, com os atentados do Ceilão (Sri Lanka), com as depredações dos «Coletes Amarelos». O que chamou a atenção foi o fato de doutor Bolsonaro estar vestido com uma camiseta do PSG (Paris Saint-Germain), o mais importante time de futebol do país.

Nas encenações de marketing moderno, todo detalhe tem importância. Atônitos, os analistas ainda estão tentando decifrar a mensagem que se esconde atrás da camiseta. Seria o número 10 alusão a Neymar? Por que o número está gravado na frente, no estilo do futebol americano? Por que ele não vestiu uma camiseta da Seleção? Se parou para a foto, é porque queria ser visto. Por que razão?

Podem discutir dias e dias, mas acho que não vão encontrar nenhuma explicação lógica. O marketing caseiro dos Bolsonaros costuma ser atabalhoado, sem pé nem cabeça. O que parece nem sempre é. Melhor deixar pra lá. Talvez não haja marketing nenhum e a resposta seja prosaica: o quarto estava escuro e o doutor só apanhou aquela camiseta porque ela estava no topo da pilha.

Observação futebolística
Na França, a força do PSG – Paris St-Germain é tamanha que os bolões esportivos nem perguntam mais quem será o campeão. A resposta é conhecida antes do começo do campeonato. As apostas começam do segundo colocado pra baixo.

O céu de papel laminado

Priscila Ferraz (*)

Naquele tempo, não me causava estranheza um céu noturno com nuvens tão brancas. Eu ficava ali por o que eu achava que eram horas, mas as crianças não têm paciência para contemplar nada por mais do que alguns segundos.

Céu estreladoLembro-me do tempo em que eu ainda era criança, e o mundo, muito diferente. Encantava-me o pequeno presépio que minha mãe montava na nossa garagem para somente um carro. Colocava uma mesa debaixo do vão da escada, que formava um meio arco embaixo do qual colava papel laminado azul-celeste. Era nosso céu particular. Colava, sobre esse azul, estrelas de papelão com purpurina prateada e alguns chumaços de algodão à guisa de nuvens.

As figuras sacras e alguns complementos, ainda guardo com carinho de canceriana, e ano após ano vou tentando recuperar um telhado de palha, a forração da manjedoura, a pintura no nariz de São José, uma perninha quebrada do burro ou o chifre da vaquinha que compartilhavam o celeiro onde nasceu o homem mais conhecido da história.

O anjo da Anunciação mais o cometa, também de purpurina, dividiam o espaço que simbolizava o infinito, tão circunscrito ao pequeno vão de escada.

SP antigo 1Num tempo em que televisões ainda não habitavam cada lar brasileiro, as pessoas da vizinhança vinham ver nosso presépio, que ficava aberto à visitação. Meu pai tinha uma firma de instalações elétricas, e o Sr. Alcides, seu eletricista e padrinho de minha irmã, vinha fazer a iluminação das casinhas. A porta da garagem ficava escancarada, e qualquer passante era convidado a entrar em nosso lar para apreciar aquela belezura.

Outros tempos.

Sobre a mesa, mamãe colocava areia e papel-pedra simulando a paisagem de um distante Oriente. Ali pastavam cabras e vacas, e ciscavam galinhas com seus minúsculos pintainhos, que saíam dos jornais que os embalavam durante um ano inteiro para a alegria das três meninas da casa.

Durante um tempo, era colocada uma pequena vasilha que recebia moedas, não sei bem qual seria o intuito. Presente para o Menino Jesus?

PresépioTinha também um espelho simulando um lago onde ficavam patos e cisnes, e uma carrocinha puxada por um cavalo e dirigida por um infeliz que era, ano após ano, empalado num prego para que não caísse.

Motivo de discórdia eram os três reis magos, que deveriam chegar no Dia de Reis para a entrega dos presentes. Uma de minhas irmãs, a mais ansiosa, todos os dias empurrava-os para mais perto. Resultado: muito antes do Natal já estavam aos pés de Santa Maria com a mirra (o que seria isso?), o incenso (e isso?), e acho que o outro levava joias. Aí começava a discussão, que não raras vezes terminava em empurrões e choro, com direito a sermão da mãe:

“Onde já se viu? Duas irmãs brigando bem na frente de Jesus. Este ano Papai Noel não vem.”

Mais choro.

A decoração de Natal nos dias de hoje começa cada vez mais cedo, e já vejo o dia em que logo após a fogueira de São João entrarão as luzinhas de Natal.

Céu estreladoJá na nossa casa, com a chegada dos netos e sobrinhos, fica muito mais divertido montar aquele velho presépio, agora dentro de minha lareira com céu de veludo e luzinhas simbolizando estrelas. O que se passará na cabecinha deles? Será que também ficarão embasbacados? Não acredito.

Na era dos tablets e smartphones, é difícil encantá-los com meus bonequinhos descascados.

(*) Priscila Ferraz é escritora
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