Tomara que caia

José Horta Manzano

Pouco comentada, uma marcante diferença de comportamento entre europeus e brasileiros é a facilidade com que estes últimos se desvestem em público para mostrar partes íntimas do corpo. Não sei de onde vem essa tendência nacional. Um primeiro pensamento pode ver a origem em nosso clima quente, mas duvido.

Embora a maior parte da Europa tenha clima frio, o verão costuma ser agradável e até escaldante em certas regiões. Multidões procuram o sol à beira d’água e se vestem em traje de banho, como manda o figurino. Mas nossa roupa de praia é sempre mais ousada que a de outros lugares. No Carnaval, nossas afrodescendentes de tez clara (antigamente conhecidas como mulatas) rebolam com menos roupa do que qualquer europeia em qualquer desfile.

1979 – Lula fazendo seu strip-tease

Nossa sem-cerimônia não se restringe às praias ou aos desfiles de Carnaval. Todas as camadas da população agem assim em muitas ocasiões. «Oia aqui, ó» – diz a moça conversando no ônibus com a vizinha de banco. E, sem a menor inibição, levanta a blusa pra mostrar a pinta ou a cicatriz à amiga. A cena, que no Brasil passa batida, é impensável em outras terras.

2019 – Camisa arregaçada, Bolsonaro faz seu show debaixo dos holofontes

Atualmente é de constatar que nem o exercício de altas funções é imunização contra essa falta de freios. Recentemente, dois dos maiores defensores da pudicícia pátria não hesitaram em arregaçar manga e camisa pra mostrar parte do corpo em cadeia nacional. Esse «oia aqui» do andar de cima foi protagonizado pelos doutores Bolsonaro e Weintraub, respectivamente presidente da República e ministro da Educação. É interessante notar que a arregaçada veio de dois ardentes defensores da pureza da alma nacional, sempre prontos a nos proteger contra ideias ou imagens indecorosas.

2019 – Weintraub deixa cair a camisa e mostra o ombro

Não foi espetáculo conjunto – cada um fez o strip-tease no seu canto, por razões pessoais. O atentado cometido na mesma semana pelos dois figurões é atitude inconcebível em qualquer personagem público da Europa. Nas muitas décadas que tenho vivido deste lado do mundo, nunca assisti a nada parecido.

Um dirigente de alto coturno deveria entender que, quando se pronuncia, a plateia, em princípio, não está ali pra conhecer os detalhes do que lhe vai sob a roupa. A meu ver, essa exibição de pelanca é de mau gosto e está fora de contexto. Ou talvez seja rabugice minha, vai saber.

1946 – Rita Hayworth de tomara que caia

Nota para os mais jovens
O ‘tomara que caia’ que aparece no título é reminiscência de moda feminina surgida lá pelos anos 1940. O vestido ‘tomara que caia’ não tinha alça que prendesse o conjunto aos ombros. Se não desabava, era por magia. A todo momento, parecia que a roupa ia cair, daí o apelido. Ousado naquela época, hoje não comove mais ninguém.

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