Nem tudo está perdido

“Quem é que quer saber do passado, agora que o Brasil está voltado para o futuro?”
by Patrick Chappatte (1966), desenhista suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 27 agosto 2022

Afeganistão
Em 2001, na precipitação que resultou dos atentados perpetrados pelos terroristas da Al-Qaeda, o governo dos EUA tomou a decisão de cortar o mal pela raiz. Mandou tropas à região onde se presumia estivesse localizado o esconderijo dos cabeças da organização e deu início à Guerra do Afeganistão.

Relativamente modesta no começo, a força militar engrossou com o passar dos anos. No auge da intervenção, a coalizão encabeçada pelos EUA chegou a contar com um efetivo de 150 mil militares, oriundos de 48 países diferentes.

O objetivo perseguido era, na expressão do presidente Bush Jr., promover uma “guerra ao terrorismo”. Analistas militares botaram olho crítico na expressão e fizeram observar que, numa guerra, há que escolher o inimigo. Terrorismo não é o inimigo, mas apenas o método utilizado por ele. Ninguém faz guerra contra o esquema de combate do adversário. Assim mesmo, a descrição oficial permaneceu bastante vaga na hora de apontar o verdadeiro inimigo.

Em 2021, após duas décadas de ocupação e combates, as forças deixaram o território afegão. Apesar da permanência de vinte anos, foram incapazes de organizar a sucessão e de prever o que ocorreria. Aconteceu um desastre. No dia seguinte ao da partida do último soldado, os Talibãs voltaram, e o país deu um tremendo passo atrás. Foram tempos de morte, sofrimento, medo e privações que não serviram para nada. Em 20 anos ocupando o país, os invasores não aprenderam.

Ucrânia
Em fevereiro deste ano, um ultraconfiante Putin lançou sua versão 2.0 do Exército Vermelho contra a vizinha Ucrânia – país de superfície 28 vezes menor que a da Rússia. Ressalte-se que, desde os tempos da extinta União Soviética, os serviços de espionagem russos estão no topo da excelência. Na Ucrânia, para preparar a invasão, hão de ter tido grande liberdade de ação. Religião, costumes, clima, alfabeto, línguas são comparáveis, quando não idênticos. Um agente russo pode se perder em meio à massa humana de Kiev, por exemplo, sem que ninguém note a presença de um estrangeiro, visto que parte da população ucraniana tem o russo como língua materna.

Apesar dessa evidente vantagem, as boas informações não chegaram ao ditador em Moscou. Não está claro se por ineficiência dos agentes, traição, sabotagem ou algum outro motivo. É até possível que os russos, imaginando que seriam recebidos de braços abertos, tenham contratado espiões ucranianos, que se revelaram ser agentes duplos. A Rússia não levou em conta o patriotismo dos ucranianos.

Nessa guerra, que já dura seis meses, a Rússia vem sofrendo imensos reveses. Seu exército registra extensas perdas humanas e materiais; sua economia levou um baque que a fará recuar vários degraus; a fuga de cérebros jovens e promissores vai fazer falta no futuro; com a adesão da Finlândia e da Suécia, a Otan se aproximou mais ainda de suas fronteiras. Ao final, vê-se que os vinte anos de permanência de Putin no topo do poder não lhe ensinaram grande coisa. Apostou mal, arriscou demais e perdeu tudo.

Brasil
Quem assiste à constante multiplicação de desvios de conduta do presidente da República e a sua bizarra preferência por caminhos desviantes tem o direito de ficar intrigado. E assustado. São quase quatro anos sem um dia de trégua. Insultou dirigentes estrangeiros, ofendeu mulheres e negros, descambou para a homofobia, liberou armamento para todos, respaldou garimpo e desmate ilegais, exerceu o charlatanismo, louvou a cloroquina, vingou-se de servidores probos, menosprezou índios, desprezou a ciência, vilipendiou a cultura, fechou os olhos às milícias, minou a confiança de meio Brasil no sistema eleitoral.

Ao ver um currículo – que digo! – ao ver um prontuário dessa magnitude, a população brasileira tem razão em viver na angústia de um golpe de Estado ao aproximar das eleições. No entanto, recentes declarações do capitão de que aceitará o resultado do voto seja ele qual for tranquilizam. Vão no bom sentido. É um bálsamo saber que, diferentemente de estrategistas americanos e russos, ele parece estar se dando conta a tempo de que sua aventura não teria final feliz. Speremus, fratres!

Ação e reação

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 30 julho 2022

Vladímir Putin é homem esperto. Até antes do tremendo erro tático que cometeu ao invadir a Ucrânia numa guerra de conquista, sua ascensão tinha sido fulgurante. Obscuro funcionário burocrático dos serviços de espionagem até o fim dos anos 1980, perdeu o emprego assim que o império soviético se desintegrou. De volta à pátria, pôs um pé na política ao se aproximar do então prefeito de São Petersburgo, segunda metrópole do país.

O prefeito era sabidamente “capo” de uma rede mafiosa. O fato não saía nos jornais, mas, à boca pequena, todos sabiam. O jovem Vladímir há de ter se entendido bem com o chefe, visto que este lhe abriu as portas de uma carreira política à moda russa: sinuosa, mas certeira. Poucos anos depois, Putin já se encontrava em Moscou, agora sob as asas de outro figurão: Borís Eltsin, presidente do país.

Eltsin simpatizou com aquele funcionário taciturno que estava comandando os serviços de segurança interna. Imaginou que ele pudesse ser-lhe útil. Bonachão mas desregrado, Eltsin não vinha governando bem. O país, após oito anos vividos sob sua presidência, encontrava-se em má situação. Uma nova classe de ávidos oligarcas tinha se apoderado do espólio da antiga União Soviética. A população estava desassossegada. No final de 1999, acossado por escândalos de corrupção, Eltsin renunciou à Presidência e deixou Putin em seu lugar como substituto temporário. Nas eleições seguintes, Putin foi confirmado no cargo. Desde então, não deixou o topo do poder.

Nos primeiros anos, foi visto pelo mundo como dirigente respeitável. Foi até convidado a integrar o grupo das nações mais ricas, que então se chamava G8. Em 2014, porém, a Rússia invadiu e anexou a Crimeia, território ucraniano. A partir desse momento, Putin foi desconvidado pelo G8 e a Rússia foi posta de molho. Alguma sanção econômica foi infligida, mas nada que bloqueasse o país.

Se a anexação da Crimeia pareceu ter sido digerida, a invasão da Ucrânia, em 2022, passou dos limites. Ressuscitou dolorosas lembranças de guerras passadas. Era intolerável ver uma nação europeia invadindo outra nação europeia. A reação do mundo civilizado foi imediata, unânime e radical. Sanções duríssimas foram aplicadas ao país.

Mas o pior, a marca que permanecerá por décadas e décadas, é a degradação da imagem da Rússia e de seu povo. A Europa e o mundo voltaram a temer o urso soviético – e quem teme, repele. Em poucas semanas, Putin destruiu a normalidade que tinha sido construída desde a queda do Muro de Berlim. Gerações de russos, embora não sejam culpados dos delírios de Putin, sofrem hoje e vão continuar amargando a desconfiança e a repulsa dos povos civilizados.

Diferentemente de Putin, Bolsonaro não é esperto. Desde o início de seu mandato, parece não conhecer outro modo de operar se não o da marretada. Se a porta não abre, prefere demoli-la, sem que lhe ocorra entrar pela janela. Se encasqueta que tem de armar a população, pouco se lhe dá que pesquisas informem que a maioria abomina essa ideia: armará seus sequazes. Falta-lhe o senso da nuance. Sua personalidade é feita de arestas aceradas. Em seu lugar, um indivíduo de mente arejada já teria se dado conta de que ventos contrários ameaçam sua almejada reeleição. Ele não parece perceber que é hora de dar o pulo do gato, ainda que fosse preciso guardar na geladeira algumas convicções. Não – continua na marretada.

O mundo civilizado não é anestesiado como Bolsonaro parece imaginar. Se não foi vaiado ao fim do “brienfing” a que convocou os embaixadores, é porque diplomata é discreto por dever de ofício. Mas paciência tem limites e ninguém atura ser feito de bobo. Se o mundo continua calado, é por estarem todos no aguardo das eleições de outubro. Caso o capitão seja reeleito, a passividade terminará em janeiro. Caso dê autogolpe, a reação será imediata. Os EUA já deram o tom ao redigir a nota de repúdio à fala presidencial.

Se as forças vivas da nação não reagirem com vigor, os países civilizados o farão. O mundo precisa menos do Brasil do que o Brasil precisa do mundo. Segurem-se, que a reação vai ser forte! Ricos e pobres, todos vão sentir.

Ucrânia: o pós-guerra

José Horta Manzano

Um assíduo leitor que se assina Ricardo fez um comentário interessante no artigo Perigo por 100 anos, publicado faz alguns dias. Achei que podia interessar a todos. Publico aqui o comentário e minha resposta.

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Minha resposta
Hitler e Napoleão estão longe de ter causado à humanidade o estrago que essa estúpida guerra de Putin está provocando.

Nenhum dos ditadores belicosos do passado conseguiu a façanha de unir contra si todos os países da Europa como é o caso atualmente. Com a exceção notável da pouco significativa Bielo-Rússia (que alguns dizem ser “a última ditadura da Europa”), Putin conseguiu ressuscitar na Europa inteira o medo do urso russo, que assustou durante séculos, mas que andava hibernando havia 30 anos, desde a queda do Muro de Berlim.

Nenhum dos ditadores do passado conseguiu, como Putin, a façanha de esfomear o povo de dezenas de países espalhados pelo globo. As primeiras vítimas são os duzentos milhões de habitantes do norte da África (Egito, Argélia, Tunísia, Marrocos), que se encaminham para convulsão social em virtude da fome. Como outros países, eles são inteiramente dependentes do trigo da Ucrânia e da Rússia para fazer o pão, principal alimento da região. E esse trigo não chega mais. Quando os estoques acabarem, problemas graves vão surgir.

Quanto à Otan, ela não podia entrar na guerra como cobeligerante, nem muito menos fazer ataque preventivo à Rússia. A Otan é uma organização defensiva, não ofensiva. Foi criada logo depois da Segunda Guerra como contraponto ao Pacto de Varsóvia, que reunia os países que orbitavam em torno da União Soviética. Sempre funcionou como redoma de proteção para os países europeus que estavam fora da órbita comunista. Seu objetivo não é dar o primeiro tiro, mas responder imediatamente a um ataque inimigo. O Artigo 5° do Tratado reza que, se qualquer dos países-membros for atacado, o ataque será considerado como se fosse contra todos os signatários. A resposta, portanto, será dada por todos, em esforço coordenado.

Putin sabe muito bem disso, tanto é que não atacou os países baltas, por exemplo, que são pequenos e aparentemente indefesos. É que os três são membros da Otan. Quem está apreensivo atualmente é o povo da Moldávia, pequena e pobre vizinha da Ucrânia, que tem o PIB per capita mais baixo da Europa, que não é país-membro da Otan nem da União Europeia. No entanto, visto o fiasco protagonizado na Ucrânia pelo antes temido exército russo, dificilmente os generais de Moscou se arriscarão a atacar um segundo país, ainda que Putin esperneasse.

A decepção
A decepção dos peritos militares do mundo todo com o desempenho do exército russo é enorme. Nem mesmo os serviços de inteligência americanos, que costumam ser muito bem informados, previam um fracasso dessa magnitude. (Se previam, não deixaram vazar nada. Ficaram quietinhos.)

Imaginando que a guerra seria curta, a Rússia lançou milhares de mísseis sobre a Ucrânia. Passados dois meses e meio, não conseguiu capturar nenhuma cidade importante, perdeu sua nave-almirante (Moskvá, o encouraçado capitânia), perdeu mais algumas naves importantes e centenas (talvez milhares) de tanques. Quanto às perdas humanas, as estimações variam entre 15 mil e 30 mil homens e uma dezena de generais. Ainda por cima, o exército teve de abandonar a ideia de invadir e ocupar a capital, Kiev. Um vexame.

Nestas alturas, o estoque de mísseis russos de boa qualidade está praticamente exaurido. Eis por que eles tiveram de reduzir o front e encolher a linha de combate. Abandonaram as amplas ambições iniciais e agora limitam-se ao sudeste da Ucrânia. É exatamente a faixa litorânea que ambicionam tomar, o que incomoda a Turquia, dona do litoral do outro lado do Mar Negro.

Para fazer mísseis de boa qualidade, a Rússia precisa importar componentes eletrônicos dos Estados Unidos. Mas, ai! O comércio está embargado! Nada se vende, nada se compra. Mercadoria americana não entra mais na Rússia. Portanto, nada de míssil de boa qualidade. Os soldados de Putin às vezes lançam algum foguete de segunda categoria, tipo “buscapé”, que acaba atingindo edifício de habitação ou cemitério.

Daqui pra frente, a Rússia entra obrigatoriamente em declínio. Ainda que se aproxime da China, será a “sleeping partner” da sociedade, a parceira secundária do gigante asiático. Viverá na dependência dos caprichos de Pequim.

O futuro
O grosso das exportações russas é constituído de matérias primas: gás, petróleo e trigo. Todas as exportações estão sob crescente embargo dos países ocidentais. Dentro em pouco, as trocas comerciais entre a Rússia e o Ocidente cessarão e hão de permanecer em estado de hibernação por dezenas de anos. A China, por mais boa vontade que tenha, não será capaz de absorver sozinha a produção russa.

A Ucrânia receberá (já está recebendo) bilhões de euros e dólares para a reconstrução. Levará décadas, como foi o caso da Europa após a Segunda Guerra. Pontes, viadutos, aeroportos, estradas de rodagem, redes de saneamento e de eletricidade, edifícios públicos e privados terão de ser refeitos.

A desminagem do país – principalmente dos campos cultivados, onde o trator, a colhedeira e o arado podem roçar uma bomba e matar quem estiver por perto – será um problema a enfrentar com atenção. Vai levar muitos anos para desminar as terras aráveis.

A Rússia terá de se virar sozinha. Materialmente, não foi bombardeada nem destruída, o problema é mais profundo. Os russos terão de cuidar sozinhos de seus demônios. Um flagrante fracasso, como essa guerra de Putin, costuma levar a uma troca de regime. Mas, quando se fala em Rússia, toda previsão é arriscada. Vamos ver no que vai dar.

Por muitos e muitos anos, o país conservará seu armamento nuclear, mas continuará com extrema dificuldade para comprar ou desenvolver armas de alta tecnologia.

A consequência maior é que o medo do urso vermelho voltou à ordem do dia na Europa e na América do Norte. Desde já, no quesito imagem, a Rússia perdeu feio.

Perigo por 100 anos

Bomba da Segunda Guerra não explodida encontrada em canteiro de obras

José Horta Manzano

Na quarta-feira 11 de maio, Herr Olaf Scholz, o chanceler alemão (sucessor de Angela Merkel) fez uma declaração um tanto desanimadora.

Começou lembrando que “Todos os que vivem na Alemanha sabem que as bombas que caíram durante a Segunda Guerra Mundial continuam a ser encontradas até hoje e que os alertas continuam”.

Na sequência, foi ao ponto principal e fez uma advertência: “Portanto, é bom a Ucrânia ir se preparando desde já para enfrentar durante 100 anos as consequências desta guerra”.

E completou: “Sabe-se que guerras dessa magnitude deixam consequências de longo prazo. Todas as bombas que estão sendo lançadas agora ficarão muito tempo no solo”.

Um bocado deprimente, a observação do chanceler é desalentadora mas pertinente. Em todos os países europeus que sofreram bombardeios na última guerra mundial, volta e meia se encontra uma bomba enterrada – às vezes profundamente. São artefatos que caíram de um avião, não explodiram, ficaram enterrados, mas, ao menor descuido, podem explodir.

França, Inglaterra, Bélgica, Itália, Holanda – além da própria Alemanha – são países que sofrem até hoje consequências de bombardeios intensos. A guerra terminou faz 77 anos, mas o risco continua elevado.

O grande perigo surge quando se faz uma escavação urbana – para erguer edifício, construir metrô, enterrar cabos elétricos, instalar tubulações. Se uma grande bomba é descoberta, equipes de desminagem são chamadas. As autoridades mandam evacuar os quarteirões adjacentes e os profissionais cuidam de desarmar o artefato.

Calcula-se que o subsolo de Berlim contenha cerca de 3000 artefatos não explodidos. Os berlinenses caminham sobre um barril de pólvora. Infelizmente, acidentes ocorrem. São relativamente raros, mas o risco está sempre presente.

Numa Alemanha cujo território ainda está recheado de bombas que não explodiram e permanecem enterradas, aconteceu um drama recentemente. Foi em dezembro passado, num canteiro de obras perto da estação ferroviária de Munique. As escavadeiras roçaram numa bomba de 250kg, que explodiu e deixou 4 feridos. Até o tráfego ferroviário teve de ser interrompido.

Muitas gerações futuras de ucranianos continuarão correndo o risco de viver sobre um solo minado. E não há nada que o cidadão comum possa fazer. O que está feito, está feito – as bombas e os mísseis não explodidos estão lá e lá vão continuar.

Daqui pr’a frente, a quantidade só pode aumentar. O futuro depende dos neurônios desequilibrados de uma pessoa só: Vladímir Putin.

Nunca ninguém imaginou que um homem sozinho pudesse tomar a humanidade inteira como refém.

Observação
Quando fala em “100 anos”, até que o chanceler alemão está sendo otimista. Se hoje, quase 80 anos depois do último bombardeio, Berlim ainda esconde 3 mil bombas no subsolo, a conta não fecha. Os netos dos bisnetos das crianças ucranianas de hoje ainda estarão pisando em bombas.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano


Num mundo polarizado como o nosso, tentar se equilibrar em cima do muro pode não ser a melhor solução.


Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, quando batalhões russos, em quantidade impressionante, já se amontoavam junto à fronteira, Bolsonaro foi a Moscou prestar reverência ao ditador Putin.

A guerra de conquista prestes a ser lançada não lhe pareceu motivo válido para suspender a viagem nem para acrescentar, de última hora, uma “visita de médico” a Kiev – nem que fosse pra equilibrar a posição brasileira.


 

Solidariedade “à” Rússia (sic)

Uma vez em Moscou, declarou – sem ter sido indagado – que o Brasil se solidarizava com a Rússia. Foi mais um erro monumental provocado por seu inexistente senso de geopolítica – fato raro mesmo entre seus antecessores mais incapazes.

Estivéssemos sob outras latitudes, sua carreira terminaria naquele instante e seu futuro eleitoral estaria comprometido por décadas, talvez para sempre. Mas não estamos sob outras latitudes. As nossas são tropicais.

Estourada a guerra, ninguém exigiu do presidente um posicionamento definitivo. E ele não se posicionou. Ficou, pois, o dito pelo dito mesmo. Ficou cimentada a posição do Brasil: todos nós nos solidarizamos com a Rússia. E ponto final. Pô.

Até certo ponto, é compreensível que o capitão procure amigos aqui e ali. Afinal, ele é rejeitado pelo mundo civilizado, justamente em razão das incivilidades que vem cometendo desde que vestiu a faixa. Parodiando a expressão inglesa “serial killer” (assassino em série), eu diria que nosso presidente é pessoa “serially incivilized” (um incivilizado inveterado).


 

Num mundo em plena turbulência, o Brasil precisa de aliados

Procurar amigos é uma coisa; bater à porta de ditadores ferozes e sanguinários é outra, bem diferente. Em vez de solidarizar-se com autocratas belicosos, Bolsonaro estaria mais inspirado se se dedicasse a aparar as arestas e aplainar as relações com os ofendidos. Os que foram por ele agredidos são justamente nossos aliados e parceiros tradicionais, dirigentes de países com os quais compartilhamos interesses comuns.

Se ele um dia ofendeu a esposa de Macron, ignorar a existência da França não é a melhor solução. Veja o resultado: o presidente francês acaba de ser reeleito para mais 5 anos no Eliseu. Se Bolsonaro não procurar consertar esse deslize, as relações franco-brasileiras permanecerão curto-circuitadas esse tempo todo, o que não é boa coisa.

Se insultou o presidente argentino, afastar-se do personagem não é o melhor remédio. Há que ter em mente que a Argentina não vai se mudar amanhã. Não vai sair do lugar e continuará sendo nossa vizinha pela eternidade.


 

É hora de virar a página dos insultos passados e olhar para a frente

Com a carta de desculpas redigida por Temer e assinada por Bolsonaro, este último conseguiu aplacar a indignação dos brasileiros com as barbaridades proferidas naquele 7 de Setembro de triste memória. Que convoque Michel Temer de novo e lhe confie a missão de preencher as lacunas de nossa diplomacia mambembe! O ex-presidente, que é culto, não é ministro de Bolsonaro nem deve favores ao capitão, saberá encontrar termos contritos mas não servis para expressar uma guinada no posicionamento internacional do Brasil neste momento grave para a humanidade.

Enquanto o destino do planeta se decide nas margens do Mar Negro, nenhum país tem o direito de virar a cara e fazer de conta que não é com ele. O peso populacional do Brasil, se não houvesse outra razão, nos obriga a nos posicionar claramente. Se Bolsonaro não sabe o que fazer – e as palavras pronunciadas em Moscou mostram que não sabe – que tome conselho com quem sabe.

A guerra acabará. Bolsonaro passará. Mas o Brasil ficará. Os brasileiros das próximas décadas não podem ser reféns das más decisões de um presidente pusilânime.

Observação
Na verdade, distorcendo a norma gramatical, o capitão não disse que o Brasil se solidarizava com a Rússia, mas que se solidarizava à Rússia. O fundo foi tão desastrado, que ninguém se preocupou com a forma.

Devolvido 77 anos depois

José Horta Manzano

Naquele fim de abril de 1945, os combates no norte da Itália se travavam com ferocidade. As tropas nazistas, que tinham ocupado a região por mais de um ano, estavam em franco recuo diante do avanço das forças americanas. Mas não era uma retirada pacífica: metralhadoras matraqueavam e canhões ribombavam.

No vilarejo de San Pietro in Gù, perto de Vicenza, uma garotinha chamada Meri Mion estava para completar 13 anos. Na véspera do aniversário, assustadas pelos combates que se aproximavam do povoado, a mãe e ela passaram a noite escondidas no sótão da pequena granja familiar.

Na manhã seguinte, o ambiente parecia mais calmo. Dando uma espiada na ruela em frente de casa, viram que os soldados alemães haviam desaparecido. Os que circulavam agora usavam outros uniformes e falavam uma língua diferente: eram os americanos. No vilarejo, o tiroteio havia cessado.

Entenderam logo que os novos soldados não vinham com a intenção de oprimir, mas para liberar o país dos ocupantes nazistas. Feliz com a notícia, a mãe resolveu fazer um bolo de aniversário para os 13 anos da menina. Foi um bolo caseiro, simples, que as privações do momento não permitiam muita fantasia.

Saído do forno, o bolo foi posto pra esfriar no peitoril da janela da cozinha. Mais tarde, na hora de conferir se o doce já estava na boa temperatura, quase não acreditaram: o bolo havia desaparecido! O aniversário foi meio triste.

Na época, todos os habitantes do vilarejo ficaram sabendo do sumiço do bolo. Como todos ali se conheciam, ninguém ousaria roubar o bolo de um vizinho. A travessura certamente era obra de um grupo de soldados americanos famintos. Com o passar do tempo, Meri foi crescendo, e a história do bolo surrupiado foi se perdendo.

Estes dias, como fazem todos os anos, jovens soldados do exército americano visitaram a região para uma pequena cerimônia de comemoração da retomada de Vicenza. Meri Mion recebeu convite para comparecer. Ficou um tanto intrigada: “Por que estão me convidando?”.

Em 28 de abril, exatamente no dia em que completava 90 anos, a menininha que não tinha podido comemorar seu 13° aniversário teve uma surpresa. Em meio às celebrações militares, um punhado de jovens soldados americanos, devidamente uniformizados, lhe entregaram um belíssimo bolo de aniversário. Com direito a “Parabéns a você” cantado em italiano e em inglês. Era um ressarcimento por aquele que lhe havia sido furtado 77 anos antes.

Feliz, Meri – agora uma nonagenária – declarou que pretendia compartilhar o presente com filhos, netos e demais membros da família.

Com informações do site oficial do Exército dos EUA.

Quem vai ganhar a guerra?

José Horta Manzano


Como diz o outro, fazer prognósticos é muito difícil, especialmente para o futuro.


Pra responder à pergunta “Quem vai ganhar a guerra?”, é preciso primeiro saber o que se entende por “ganhar a guerra”.

Rússia
Para a Rússia, ganhar a guerra consistiria numa anexação pura, em que a Ucrânia seria engolida inteira, crua, sem mastigar. A crer nas falas de Putin, a vitória seria coroada pela total ‘desnazificação’ do país – o que subentende a derrubada do governo atual e sua substituição por um governo vassalo. O ditador russo cometeu a afronta de afirmar que a Ucrânia não existe como país, que não passa de uma invenção de prancheta, que aquele território foi, é e sempre será russo.

Decorridos dois meses desde o início da invasão, vai ficando evidente que a Rússia não tem como atingir os objetivos fixados. Submeter e ocupar um país cabisbaixo e desarmado é uma coisa; vencer e se apossar de um país habitado por gente bem armada e disposta a defender seu solo palmo a palmo é outra coisa. Nem o analista mais pró-Putin consegue vislumbrar a bandeira russa ondulando no topo de todas as prefeituras do país.

Nesses termos, a Rússia, desde já, perdeu a guerra. Movimenta-se, agita-se, ameaça o mundo com guerra nuclear. Mas não passa de figuração – pelo menos, é o que se espera. É ponto pacífico que não atingirá os objetivos iniciais.

Ucrânia
Para a Ucrânia, a vitória seria a total expulsão do exército russo do território pátrio, incluindo Crimeia e Donbás. Seria a reconquista de todo o terreno que as tropas russas ocuparam nestes meses de guerra. Impossível não é, mas não será tarefa fácil. A Ucrânia tem drones, mas não tem mais aviação. Tem mísseis antitanque, mas não tem mísseis de longo alcance. Não dispõe de forças navais. Nesse particular, por mais que o Ocidente forneça armamento aos ucranianos, os meios da Rússia serão sempre superiores.

A Ucrânia está semidestruída. Suas cidades foram bombardeadas, aeroportos estão impraticáveis, pontes foram dinamitadas, edifícios, teatros e hospitais foram pulverizados, a infraestrutura foi seriamente danificada.

Nesses termos, pode-se dizer que também a Ucrânia, desde já, perdeu a guerra.

Conclusão
A fim de evitar uma longa guerra de posição, como não se via desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as partes beligerantes terão de sentar-se ao redor de uma mesa e chegar a um acordo. Nenhum dos lados vai atingir seus objetivos. Mas não há outro jeito. Em seguida, cada dirigente poderá apresentar a seu povo a “narrativa” que lhe parecer mais conveniente.

A grande ganhadora deste conflito está a milhares de quilômetros do front. É a China, que, sem disparar um tiro, tem agora a Rússia a seus pés. Uma Rússia que precisa vender seu gás, seu petróleo e seu trigo. Uma Rússia que precisa importar insumos e peças tecnológicas. Pelos próximos anos, as normas do comércio exterior russo e, até certo ponto, da economia russa serão ditadas pela China.

No resultado final, a Rússia sai humilhada e diminuída. A Otan sai ressuscitada. Os EUA mostram quem é que dá as ordens no mundo ocidental. A União Europeia prova que, quando se sente ameaçada, tem capacidade para dar resposta rápida, unânime e enérgica. E a China, que ganha a Rússia como fornecedor e cliente preferencial, continua crescendo.

Uma pancada no soft power russo

Alexander Malofeev, jovem pianista russo

José Horta Manzano

O assunto é espinhudo. Em razão de Vladímir Putin ter declarado guerra à Ucrânia e invadido o país, a imagem da Rússia no exterior levou um golpe. Independentemente de quem venha a ser o vencedor do confronto – se houver –, um perdedor está desde já confirmado: a Rússia.

A simpatia ou antipatia que se tem por um país representa um papel importante. A categoria dos que se apresentam no exterior é peça central desse soft power. A dimensão internacional dos artistas e dos esportistas russos é significativa, bem maior do que os 145 milhões de habitantes do país poderiam fazer supor.

Desde que a primeira bomba estourou na Ucrânia, faz pouco mais de um mês, o contingente de russos que se apresentam fora do país passou a ser olhado com desconfiança. Essa suspeição é mais forte justamente nos países em que eles costumam se apresentar com maior frequência.

Cada país tem lidado com o problema a seu modo, sem acerto com aliados e parceiros. No mês passado, os festivais de cinema de Estocolmo (Suécia) e de Glasgow (Escócia) anunciaram ter retirado filmes russos da programação. As películas sofriam de um pecado original: tinham recebido subvenções do Estado russo.

Por seu lado, a Orquestra Sinfônica de Montreal (Canadá) anulou as três apresentações de Alexander Malofeev, pianista-prodígio russo nascido em 2001. O mesmo azar coube a Roman Kosyakov, outro jovem pianista, excluído do Concurso Internacional de Piano de Dublin (Irlanda) pelo fato de ser russo. Em razão da nacionalidade, também os para-atletas russos foram excluídos dos Jogos Paraolímpicos de Pequim.

Embora os artistas e esportistas russos que dão com a cara na porta sejam numerosos, o grande público nem sempre fica sabendo, visto que só os mais conhecidos aparecem na mídia. A lista dos excluídos é bem mais longa do que os que mencionei.

Agora vem a pergunta: é justo fazer pagar, a quem não tem nada a ver com o peixe, o preço da brutal estupidez de Putin? A arquitetura de nosso Direito exclui a expiação coletiva – a culpa é sempre individual, não cabendo a ninguém pagar por crime alheio.

A intenção dos que vetam a apresentação de artistas e esportistas russos carece de eficacidade. Os que impõem a proibição esperam que ela force os prejudicados a tomar partido e condenar publicamente a guerra. Mas acontece que, logo no começo de março, entrou em vigor na Rússia uma lei que permite condenar a até 15 anos de cárcere qualquer um que se posicione contra a Guerra de Putin. O veto aos artistas e esportistas os deixa num beco sem saída. Ainda que, no fundo, fossem contra a guerra, não ousariam declará-lo em voz alta.

Além dessa lei, as consequências para os infelizes podem ser ainda piores. Sob Putin, a Rússia se tornou um Estado ditatorial tão pesado e violento como na era soviética. Nenhuma discordância é tolerada. Toda oposição é reprimida com brutalidade. Caso um artista (ou um esportista) decida declarar-se contrário ao regime, correrá grande risco. Não adianta nem passar a residir no exterior e não mais retornar ao país: os membros de sua família que tiverem ficado na Rússia podem sentir a mão pesada do regime.

Não tenho a pretensão de trazer a solução do problema. A sinuca é de bico. O ideal seria que a Rússia se livrasse do ditador e se tornasse, pela primeira vez em sua longa existência, uma nação democrática. Mas aí já estamos pedindo demais.

A guerra e a mídia

Folha da Manhã (SP), 24 junho 1941
Capa mostra exclusivamente notícias da guerra

José Horta Manzano

É curioso constatar a que ponto o peso de cada acontecimento depende do ponto do planeta onde se situe o observador.

Nesta semana que assinala o início da primavera, olho pela janela e vejo a vegetação começar a dar sinal de vida. Saio à rua e assisto, em cada esquina, ao milagre do renascimento que retorna todos os anos. Os galhos das árvores, secos e nus de novembro até agora, soltam folhas novas, pequeninas, de um verde infantil.

Abro os jornais. A imprensa da Europa segue o mesmo roteiro das últimas 4 semanas: fala da invasão da Ucrânia – ou “Guerra de Putin”, como possivelmente virá a ser lembrada nos livros de história.

Na França, dado que o primeiro turno das eleições presidenciais está marcado para daqui a menos de duas semanas, o noticiário político devia estar ocupando todo o espaço midiático, com informações, análises e comentários. No entanto, o drama ucraniano supera as paixões partidárias. São as notícias do front que ocupam as manchetes.

Lembro as palavras que Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, pronunciou ao discursar perante o Congresso no dia seguinte ao do ataque japonês ao Havaí: “… a date which will live in infamy” (… uma data que ficará marcada pela infâmia).

Na memória dos europeus, o 24 de fevereiro de 2022 também ficou marcado para sempre. Foi tão impactante, que conseguiu a façanha de mandar para escanteio até a interminável pandemia – que ainda dá sinais de sobreviver nos acréscimos, pra continuar na metáfora futebolística.

Tivesse o ditador russo invadido o Turcomenistão ou a Quirguízia, não teria levantado oposição tão forte. Protestos protocolares, uma ou outra sançãozinha, e mais nada. O mundo teria continuado a girar. Mas não: o infeliz resolveu invadir um país europeu. Terrível engano.

Em matéria de guerra de conquista, a invasão da Ucrânia foi o maior erro tático cometido por um chefe de guerra desde que um certo Adolf Hitler decretou a Operação Barbarossa – a invasão da União Soviética, 81 anos atrás.

Apesar das declarações de vitória que cada uma das partes beligerantes possa vir a fazer, esta guerra não terá vencedor. Perderão todos. Uma vez cessadas as hostilidades, a Ucrânia receberá ajuda maciça para sua reconstrução. Vai levar alguns anos, mas o país vai ficar melhor do que era antes. Quanto à Rússia, sofrerá embargo, má-vontade e antipatia durante décadas.

As consequências negativas serão duradouras. Enquanto isso, quais são as manchetes na imprensa do Brasil? O tapa desferido no palco de entrega do prêmio Oscar ainda ressoa. Bolsonaro foi internado com “desconforto” digestivo (por “desconforto”, entenda-se “dores fortíssimas”; sem isso, dificilmente o homem teria sido internado). O ministro da Educação foi demitido por motivo de corrupção, deixando no ar a pergunta “cui bono?” – quem deu as diretivas ao ministro-pastor?

Notícias da guerra? Sim, há. Mas relegadas a segundo plano. A Operação Barbarossa, desencadeada num tempo sem internet e sem tevê, recebeu cobertura bem mais importante. Na imprensa, as informações cobriam a primeira página inteirinha. Os tempos mudaram.

Naquele ano de 1941, James Stewart (melhor ator) e Ginger Rogers (melhor atriz) tinham vencido o Oscar. Ainda não era costume astros e estrelas se estapearem no palco.

A Ponte da Crimeia

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José Horta Manzano

Tem muita gente fina afirmando que a invasão da Ucrânia vem sendo preparada há vários anos, com cálculo e frieza, por Vladímir Putin e seus comparsas. Os que assim pensam acreditam que a anexação da Crimeia, levada a cabo em 2014, era apenas o primeiro capítulo da saga que ora entra na fase 2.

Sei não. Não sou da mesma opinião. Para mim, a invasão do país vizinho não é parte de um plano solidamente arquitetado pelo Kremlin de reconstrução do antigo Império Tsarista. A decisão de tomar a Ucrânia só foi tomada bem recentemente. Siga meu raciocínio.

Antes de mais nada, é bom lembrar que, mesmo não sendo um país pobre, a Rússia está longe de viver na folga financeira de outras nações que a gente costuma colocar no mesmo nível: os EUA e a China. Seu PIB é o 12° maior do mundo, menor que o brasileiro, equivalente ao da Espanha. Moscou é, sem dúvida, uma potência bélica. Afora isso, sua economia baseia-se majoritariamente na exportação de matérias primas – como a nossa.

Agora, reflita comigo. Se em 2014, quando anexou a Crimeia, Putin já estivesse cumprindo a etapa 1 de seu plano de expansão territorial, estaria ciente de que não era hora de esbanjar um dinheiro que podia fazer falta mais adiante, na hora de alimentar sua máquina de guerra. Certo? Pois não foi assim que ele procedeu.

A Crimeia é uma península que avança sobre o Mar Negro. Cercada de mar por todos os lados, é ligada à terra firme por um istmo. O problema é que esse istmo não une a Crimeia à Rússia, mas à Ucrânia. Portanto, após a anexação, a Crimeia tornou-se um enclave russo em terras ucranianas, um pedaço de chão sem continuidade territorial com a pátria-mãe. Assim, um russo não podia chegar lá por terra, sem atravessar território ucraniano. Que é que Putin decidiu fazer?

Resolveu mandar construir uma ponte entre o litoral russo e a Crimeia anexada. Era o único jeito de integrá-la ao território nacional sem precisar baldear carros e caminhões numa balsa. Até aí, parece normal. O que não é normal é o custo dessa ponte. Para construí-la, o Estado Russo teve de desembolsar 3,8 bilhões de dólares (R$ 20 bi).

Agora diga-me: faz sentido o ditador de um país relativamente pobre, que se prepara para uma guerra de conquista, gastar essa exorbitância na construção de uma ponte, especialmente sabendo que, pouco mais tarde, será o único dono do litoral marítimo, fazendo a ponte perder toda importância estratégica? Para mim, não faz sentido. Torrar USD 4 bi é uma exorbitância! Não combina com um suposto plano de guerra de conquista em várias fases.

Acredito que só bem recentemente Putin se animou a invadir o vizinho. O elemento decisivo pode bem ter sido a retirada precipitada das tropas americanas do Afeganistão. O ditador russo, personagem que só entende a linguagem da força bruta, deve ter tomado aquela trapalhada por fragilidade de Joe Biden; afinal, era um presidente novato. Há de ter pensado que, se os EUA não se incomodaram de ver o Afeganistão ser retomado pelos talibãs, não iam se preocupar com uma longínqua e desconhecida Ucrânia ser tomada pelos russos.

O ditador russo tirou suas conclusões sozinho, foi na confiança, mas enganou-se.

Complemento de informação
A ponte que passa sobre o Estreito de Kertch, entre o território russo e a Crimeia ocupada por Putin, é a ponte rodoviária mais longa da Rússia. Tem 19 km de extensão. (Para efeito de comparação, a Ponte Rio-Niterói tem “apenas” 13 km.)

Ia ser engraçado se, numa hipótese altamente improvável, a Rússia tivesse de devolver a Crimeia à Ucrânia. A ponte, concebida para curto-circuitar fronteiras, passaria a ligar dois países diferentes. E um posto fronteiriço seria instalado em cada cabeceira. Quando menos se espera, o destino costuma aprontar das suas.

A acolhida dos refugiados

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José Horta Manzano

Já vi muita imagem de refugiado sendo acolhido em país que não é o seu. Já vi muita imagem de cidadão que, por motivo de guerra ou sequestro, foi fotografado na volta ao país natal. Todos chegam sorridentes. É sorriso de cansaço, mas sabem que é o último esforço antes de poder sossegar.

O que nunca vi é refugiado ou repatriado chegar ostentando a bandeira do pais natal ou do país que o acolhe. É imagem rara. Que eu me lembre, só cheguei a ver coisa parecida quando a doutora importou profissionais cubanos no âmbito do programa Mais Médicos, lembram-se? Eram aqueles que já vinham de jaleco – um contrassenso, visto o risco de contaminação –, todos agitando uma bandeirinha de Cuba e outra do Brasil.

O instantâneo estampado acima foi colhido em 10 de março, quando desembarcaram algumas dezenas de cidadãos provenientes da Ucrânia. Deviam estar todos pra lá de cansados. Dependendo da cidade ucraniana de onde cada um vinha, já tinha cumprido uma jornada de dias de perigo pra chegar a Varsóvia, ponto de embarque no aviãozinho da FAB.

Em seguida, dado que o pequeno aparelho não tem autonomia para ir muito longe sem reabastecer, tiveram de fazer quatro escalas: em Lisboa, depois em Cabo Verde (no meio do Atlântico), em seguida no Recife, para, finalmente pousar em Brasília sob aquele sol do meio-dia. Imagine em que estado chega alguém que saiu do inverno ucraniano, viajou sabe-se lá quantos dias e quantas noites fugindo de canhão, chacoalhou sentado num banco improvisado dentro de avião cargueiro, e desembarca no escaldante cerrado braziliense.

A meu ver, o que mais esse pessoal queria era poder espichar as pernas numa cama confortável e se deliciar com a sombra e o silêncio de um hotel qualquer. Mas Bolsonaro não liga pra essas coisas. Sofrimento alheio, pra ele, não conta. Enquanto ele e a família não estiverem em perigo, os outros que se danem. Todos tiveram de se alinhar, de pé, em cima do concreto, plantados ao lado do corpo metálico do bojudo avião, sem nada que lhes protegesse a cabeça.

O mais curioso é que, como por milagre, apareceram 10 ou 12 bandeiras, todas de mesmo tamanho e de mesmo feitio. Foi solicitado aos participantes que exibissem o símbolo nacional. Foi tão espontâneo, que alguns nem sabiam como segurar o lindo pendão da esperança.

Repare na foto. Tem um que “entornou” a flâmula, exibindo-a como livro em prateleira, daqueles que a gente tem de torcer o pescoço se quiser ler o dorso. Pior ainda, tem outra que segurou nosso símbolo maior… de cabeça pra baixo! (Fosse no tempo dos militares, seria chamada a prestar esclarecimentos no quartel mais próximo.)

Até o momento em que escrevo, perto de dois milhões (yes, dois milhões!) de cidadãos ucranianos já foram acolhidos na fronteira polonesa. Nem o presidente do país foi lá apertar mãos, nem a primeira-dama foi dar beijinhos. Ninguém distribuiu bandeiras para mostrar às câmeras. Presidente de país sério costuma ter mais que fazer. E as equipes designadas para a acolhida conhecem as necessidades urgentes dos refugiados: comida quente, água e uma cama quentinha o mais rápido possível.

O capitão precisa fazer um estágio fora do país. Não há muita esperança de ele aprender, mas não custa tentar.

Curiosidade
Ninguém se preocupou muito com isso, mas o fato é que Bolsonaro não discursou. Para um homem que, além de ter o costume de falar pelos cotovelos, está em desabrida campanha eleitoral, pode parecer estranho. Tenho cá uma explicação.

Os filhos e os áulicos devem ter recomendado vigorosamente a ele que não abrisse a boca diante de microfones. Sabem por quê? Porque fica difícil dirigir-se a um grupo que escapou de uma guerra sem pronunciar a palavra “guerra”.

Cairia muito mal que Bolsonaro – que não esconde sua admiração por Putin, nem o apoio indisfarçado que dá ao ditador russo – falasse em guerra, quando essa palavra está proscrita da ‘narrativa’ oficial russa. Pelas bandas de Moscou, quem ousar se referir à invasão da Ucrânia como “guerra” arrisca passar uma dúzia de anos nos gelos siberianos. Preso.

O capitão, que é meio bobão, era bem capaz de escorregar. Vai daí, foi compelido a calar o bico. Melhor assim. Já imaginaram, logo ele, que zombou do Lula quando foi preso no conforto de uma cela cinco estrelas em Curitiba, acabar encarcerado numa masmorra siberiana?

A Amazônia é nossa

Amazônia: um condomínio de 8 coproprietários

José Horta Manzano

Nosso capitão continua imerso em confusão mental. Não tem capacidade de entender o que se passa fora de sua bolha. Se o que acontece no Brasil já lhe escapa, o que ocorre na martirizada Ucrânia está totalmente fora de seu alcance.

Bolsonaro, que não lê e só se informa pelo que contam seus aduladores pelas redes sociais, não sabe os comos e os porquês do que se passa no mundo. Rússia, para ele, é aquele país muito grande, em que ele passou um frio danado ao descer do avião, por ter esquecido de perguntar qual era a temperatura externa.

Deve-se lembrar também que a Rússia é o país onde outro dia ele teve de dar as narinas cinco vezes ao teste anticovid, mas em seguida foi recebido como um rei por um baixinho de nome meio cômico que até parece palavrão. Deve saber ainda que seus amigos agrotrogloditas brasileiros importam fertilizantes da Rússia. Afora isso, não deve saber grande coisa. Pelo que se vê, seus áulicos também não.

Nem de longe ele consegue perceber que nosso planeta se encontra em uma daquelas esquinas cruciais da História, num daqueles momentos em que o futuro da humanidade nas próximas décadas está sendo equacionado.

Talvez não lhe tenham contado que, dois dias atrás, quando a assembleia geral da ONU aprovou uma moção exigindo a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia, apenas 5 dos 193 países-membros se opuseram. O Brasil aprovou a moção, decerto à revelia do próprio Bolsonaro.

Reconheço que, ao escrever os parágrafos acima, forcei um pouco nas tintas. Pouco. O exagero é leve. A verdade não está muito longe. Acho até injusto espalhar a responsabilidade pelos membros do clã e da equipe do capitão. Se ele mostrasse interesse, tenho certeza de que encontraria rapidamente assessores bem informados e solícitos, prontos a esclarecer. O problema é que ele não quer. E ponto final, talquei?

O mundo está atento a cada fragmento de informação que chega do front. Noite passada, bombas caíram a alguns metros da maior central nuclear da Europa, no sul da Ucrânia, com 6 reatores e geração total de 6.000 megawatts (Angra 1 gera 640 megawatts). Mais de um milhão de cidadãos daquele país já encontraram refúgio nos países vizinhos, onde estão sendo acolhidos com carinho. Ontem, o presidente da França, depois de passar hora e meia (contadas no relógio) em conversa telefônica com Putin, fez comentário assustador: “O pior ainda está por vir”.

Enquanto isso, nosso esclarecido capitão continua firme em seu fascínio por Putin. Parece até que tem atração por homens poderosos – Trump, de estatura avantajada, e agora Putin, menos dotado pela natureza, com seu metro e setenta. Ainda ontem, fez declaração agradecida ao ditador russo. Confessou estar feliz pelo cala-boca que Putin teria dado ao mundo sobre uma suposta e irreal internacionalização da Amazônia brasileira.

Pouco inteirado da realidade, Bolsonaro acredita que as expressões Amazônia e Amazônia brasileira são sinônimas. Não são. A Amazônia – falo da floresta integral, ou do que resta dela – se estende por 8 países. O Brasil tem, portanto, 7 sócios nessa região. A internacionalização, seja lá o que isso possa significar, da Amazônia é irrealizável. Teria de expropriar parte do território de 8 países, um dos quais é a própria França (Guiana Francesa). Seria um quebra-cabeça impossível de resolver.

Embora a espoliação da Amazônia brasileira seja o pesadelo número 1 de muito general, e do próprio Bolsonaro, ela é inviável. Inviável não: ela acontece diariamente. A espoliação vem sendo praticada por garimpeiros, madeireiros e grileiros ilegais, nas barbas do andar de cima. Ou com sua cumplicidade.

Portanto, quem tiver contacto com o capitão faça a fineza de informá-lo que não precisa reverenciar Putin, visto que não é a Amazônia brasileira que está prestes a ser ocupada por sabe-se lá que exército. É o mundo que está diante de uma encruzilhada. O embate é entre a democracia e a autocracia oligárquica. Estamos decidindo em que mundo queremos viver.

Não convém confiar em autocratas. A Ucrânia também acreditava que os russos eram um país-irmão. Até que um dia os mísseis de Putin começaram a derrubar prédios e seus tanques de guerra invadiram o país.

No dia em que zunirem os mísseis de Putin, o que é que Bolsonaro vai fazer? Pedir ajuda a quem, se já se indispôs com todos?

O que aconteceria

José Horta Manzano

Li hoje, de soslaio, um artigo em que o autor dava sua opinião sobre “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Era artigo longo, de mais de 4.000 toques (página e meia em escrita Arial corpo 12). Me pergunto se alguém terá lido.

Longe de mim pretender menosprezar o autor. Este escriba sabe, por experiência própria, quanto dói uma saudade. Meus textos para o blogue geralmente são feitos na hora, mas, quando escrevo para jornal, a conversa é outra. O Correio Braziliense, que costuma publicar meus artigos num sábado, pede que sejam enviados na quinta-feira o mais tardar.

Dado que não espero até o último minuto da última hora do último dia, escrevo antes. Lá pela segunda ou terça, já está pronto. Aí surge o dilema. Mando ou não mando? E se o assunto já tiver envelhecido quando chegar a hora da publicação? E se o problema já tiver desaparecido? E se o personagem malhado tiver sido hospitalizado com doença grave? Dizem que não é de bom-tom atirar em quem está caído.

Tem sorte quem, como eu, conta com autorização do jornal para abordar o assunto que bem entender. Jornalistas especializados não têm essa amplitude. Comentarista político tem de falar de política. Analista econômico só escreve sobre economia. E assim por diante.

Em situações em que o panorama pode mudar de um minuto a outro, a porca torce o rabo. O pobre comentarista que mencionei deve ter pulado miudinho para escolher bem suas palavras, pois foi dormir com um Putin vociferante e um exército de 100 mil homens amontoado junto à fronteira ucraniana. Era uma quase-guerra.

Só que, quando se levantou de manhã, ficou sabendo do começo de retirada das tropas russas e do arrego de um Putin que argumenta, num contorcionismo: “Mas eu nunca disse que invadiria país nenhum! Tudo não passa de intriga da oposição!”.

Nisso, o artigo já estava no prelo. E lá está ele hoje, com destaque: “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Mas a Rússia não invadiu a Ucrânia. E a invasão se torna menos provável a cada minuto que passa. Putin pode ser atirado, mas estúpido não é. Seria uma guerra em que todos perderiam, a Rússia mais que os outros.

Tecer considerações sobre o que aconteceria (ou, melhor dizendo, o que teria acontecido) se tivesse havido guerra corresponde a conjecturar como seria o mundo se Hitler tivesse ganhado a guerra. É assunto que pertence ao campo da ficção científica. Ou filme de horror.

Quem inventou a baguete?

José Horta Manzano

Você sabia?

Aquele pão comprido, crocante e de pouco miolo, que os franceses chamam “baguette” (baguete), está tão ligado ao patrimônio cultural da França, que a gente imagina que deva ser tradição antiga, velha de muitos séculos. Engano. A baguete é criação relativamente recente. As primeiras foram assadas faz 100 anos.

A baguete nasceu com o inchaço das cidades, que se verificou a partir do fim do século 19. A multiplicação das indústrias, geralmente localizadas na periferia das cidades maiores, fez surgir uma nova casta de cidadãos enriquecidos: os donos das fábricas.

Essa classe de novos-ricos já não se satisfazia com o pão tal como era feito tradicionalmente, em formato redondo, denso, cada bolota pesando de um quilo e meio a dois quilos. Durava uma semana, mas perdia o viço, amolecia por fora e secava por dentro. Já que tinham dinheiro e podiam pagar, os membros das classes urbanas enricadas queriam pão fresco e crocante no almoço e, de novo, no jantar.(*)

Uma lei de 1919, querendo proteger os padeiros, proibiu o trabalho noturno na profissão. Ora, o pão sempre foi amassado durante a noite e assado de madrugada para ser posto à venda de manhã logo cedo. Além disso, a panificação era tradicionalmente feita com fermento natural – que dá sabor especial ao pão, mas demanda trabalho e muita paciência.

Para resolver o problema, os padeiros parisienses decidiram abandonar o fermento natural e substitui-lo pelo fermento que conhecemos como biológico (ou Fleischmann), aquele de tabletinho que se guarda na geladeira, ou que também se encontra granulado, em sachê. O gosto e a textura do produto final mudavam bastante; em compensação a crosta ficava mais crocante, e o principal: a preparação era bem mais rápida e dispensava o trabalho noturno.

Para diminuir ainda mais o tempo de cozimento, a forma (ó) redonda foi abandonada e deu lugar ao formato comprido que conhecemos. O sucesso foi imediato.

Só que os tempos eram duros. Não é qualquer francês que podia se dar ao luxo de comprar pão duas vezes por dia. As classes menos favorecidas continuaram privilegiando o tradicional pão redondo, pesadão e de tamanho familiar.

Foi preciso esperar que o tempo passasse. Em 1945, terminada a guerra, a produção foi se regularizando e o racionamento de gêneros alimentícios foi pouco a pouco desaparecendo. Só então a baguete ganhou impulso, se popularizou e se espalhou pela França inteira.

No Brasil da minha infância, não se usava o termo baguete – isso é novidade das últimas décadas. A gente dizia “um filão” para designar um pão comprido, porém de diâmetro mais gordo. E “uma bengala” pra indicar aquele mais fininho. Não sei se alguém ainda fala assim.

(*) Até hoje, boa parte das famílias francesas não come, no jantar, o pão do almoço. Compram duas vezes por dia. Quem vive em cidade, vai até a padaria. Quem vive em vilarejo, compra do padeiro itinerante, que passa duas vezes por dia. Famílias pequenas compram meia baguete ao meio-dia e, de novo, meia baguette ao entardecer. Curioso costume, não?

Guerra de religiões

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 fevereiro 2020.

Fosse mineiro, doutor Bolsonaro teria aprendido, desde criança, que mingau quente se come pelas bordas. Está evidente que não aprendeu. Em repetidos ataques, o homem mira sempre o topo da hierarquia. Desde os tempos em que era candidato, já assestou golpes pesados à China (nosso maior parceiro comercial), à França (nosso único fornecedor de submarinos), à Argentina (nosso vizinho mais significativo), ao Congresso (que, na hora do aperto, será o garante da continuidade de seu mandato), à CNBB (congregação maior da Igreja no Brasil). O homem é desastrado. Esses ataques frontais têm alto potencial destrutivo. De ricochete, o próprio presidente sai um pouco chamuscado em cada episódio. E, por extensão, o Brasil e o povo perdem.

Em 2022, nem chineses, nem franceses, nem argentinos votarão em nossa eleição presidencial. Portanto, não há por que perder tempo a acariciá-los. Mas os brasileiros católicos, ainda majoritários no país, sim, votarão. Muitos deles estão se sentindo incomodados com a deferência que doutor Bolsonaro tem demonstrado para com as denominações neopentecostais. Essa tendência ficou ainda mais clara quando ele propôs alívio fiscal à conta de luz de templos; quando declarou desejar ministro ‘terrivelmente evangélico’ para o STF; quando se deixou filmar de joelhos, em posição de submissão, diante de um pastor paramentado.

Não se espera que o presidente de todos os brasileiros abrace uma raça, uma origem ou uma religião em detrimento das demais. Ao passar por cima dessa regra de bom senso, doutor Bolsonaro aciona perigosa armadilha que pode fechar-se em volta dele mesmo. Decerto avisado por seu entourage, mandou que a ministra Damares entrasse em contacto com dignitários católicos pra apagar o incêndio. Talvez dê certo, mas desagravo emitido pessoalmente pelo presidente teria mais força.

Por seu lado, o esperto (e agora experto) Lula da Silva já pressentiu o trunfo que se lhe apresenta. Nas trevas que envolvem a atual presidência, descobriu um fiapo de luz que pode ajudá-lo a subir de volta ao palco iluminado. O raciocínio é simples: se Bolsonaro for para um lado, ele tem de ir para o outro; tem de captar a simpatia dos abandonados por Bolsonaro. Tendo em vista o bate-cabeça que corre solto pelos corredores do Planalto – e que desagrada a muita gente –, a estratégia do Lula não tem nada de adoidada. Paparicar o novo governo argentino pode dar manchete, mas não traz votos. Há caminho mais direto.

Na onda do aceno que, ainda na cadeia, tinha recebido do papa Francisco, Lula fez questão de visitar Sua Santidade. Obra do acaso ou não, a viagem caiu bem no dia em que o ex-presidente tinha de comparecer a uma audiência judicial. Conseguiu adiamento e embarcou. E a notícia saiu em todos os jornais, tevês e portais. Protestantes, judeus e maometanos terão ficado indiferentes. Evangélicos terão feito muxoxo. Já católicos terão visto com alívio um importante personagem que, embora caído, dá mostras de estar bem com a Igreja. Faz um ano que os fiéis da religião majoritária no país se encontram reféns do estranho estrabismo que afeta o presidente, distorção que o faz considerar que adeptos de denominações neopentecostais valem mais do que os demais brasileiros.

Se, um quarto de século atrás, um futurólogo profetizasse que o Brasil destes anos 20 estaria armando a bomba-relógio de um conflito religioso interno, seria tachado de embusteiro. Naquela época, ninguém se dava conta de que o país era percorrido por tão profundas linhas de fratura, só à espera de um estopim. De lá pra cá, a estratégia do nós x eles fez grande estrago. Agora cada cidadão se equilibra entre laços de pertencimento de ordem étnica, sexual e, agora se vê, religiosa. Conflitos religiosos são a marca de países atrasados. Na Europa, num passado distante, guerras de religião chegaram a durar séculos. Hoje, estão extintas. Só faltava agora este florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo, seguir por esse caminho de pedra e retroceder às trevas medievais.

Va-t-en guerre

José Horta Manzano

Os franceses dizem que alguém é «va-t-en guerre» (vai à guerra) quando essa pessoa é briguenta, daquelas que, quando veem uma confusão, já entram batendo pra só em seguida perguntar o que aconteceu. Entre o diálogo e o enfrentamento, o «va-t-en guerre» sempre dará preferência à solução forte. Hillary Clinton era vista como pertencente a esse grupo de valentões e essa tendência de madame há de ter contribuído para sua derrota nas últimas eleições.

Acabo de ler uma pesquisa feita por Ideia Big Data sob encomenda do Estadão. Buscava-se conhecer a opinião do brasileiro sobre a atitude que nosso país deve assumir diante da crise venezuelana. Foi perguntado aos entrevistados se acreditavam que o Brasil deve intervir militarmente pra depor Nicolás Maduro.

Sem pesquisa, eu teria lascado que nove entre cada dez compatriotas querem ver a pátria longe desse tipo de aventura. Afinal, somos alegres, sorridentes e pacíficos. Ou não? Pois fique sabendo, distinto leitor, que… não! Não é bem assim.

Foram 1300 entrevistados em todo o país. Praticamente metade deles (46%) são de opinião que o Brasil deve, sim, intervir militarmente na Venezuela. É um volume de gente impressionante. Nem doutor Bolsonaro, aquele que anda de braço dado com o lobby dos fabricantes de armas e que bate continência até pra porteiro de hotel, ousou pronunciar-se por esse tipo de solução.

Nessas horas, me divirto a imaginar que vou andando por uma rua cheia de gente. À medida que cruzo os passantes, vou contando: este é a favor, este é contra, este é a favor, este é contra. Metade dos compatriotas! Um pasmo! Estamos longe da imagem do Zé Carioca, o brasileiro esperto, mas gentil e inofensivo.

Sinceramente, não imaginava que o brasileiro fosse tão va-t-en guerre. Acredito que a existência desse espantoso contingente de belicosos possa ser atribuída ao perfeito alheamento da população. Por um lado, dado que o último conflito travado em território nacional foi a Guerra do Paraguai (1864-1870), ninguém faz a menor ideia do que seja viver em país em guerra. Devem ter uma visão romântica e acreditar que tudo se passa como nos videojogos (em português: video games). Por outro lado, desconhecem o fato de as forças armadas venezuelanas estarem superbem equipadas.

Se pensam que uma aventura venezuelana seria como um passeio à beira-mar, enganam-se. Que tal alguns mísseis de fabricação russa explodindo contra metrópoles brasileiras? Será que nossos va-t-en guerre pensaram nisso? Um alienamento desse porte cai bem nos coreanos do norte, gente que sofre lavagem cerebral permanente e vive numa realidade paralela. Mas no Brasil? Quem diria…

Anestesiados

José Horta Manzano

Nunca vi guerra. Imagino (e espero) seja também o caso do distinto leitor. Dizem que os que viram guerra por dentro se assustam no começo, mas acabam por habituar-se com bombardeios e atrocidades de arrepiar o cabelo.

Isso também vale para outras situações. Por exemplo, quem tem a janela da sala dando pra uma avenida barulhenta já nem se dá conta, depois de algum tempo, do ruído contínuo.

O Insper publicou recentemente uma pesquisa intitulada Vitimização em São Paulo ‒ 2018. O estudo traz um dado estarrecedor. Atesta que 48% dos paulistanos já foram alvo de roubo ou furto pelo menos uma vez na vida. Metade dos habitantes da maior cidade do país! Um em cada dois!

E olhe que, nas outras metrópoles brasileiras, não deve ser muito diferente. Até cidades menores estão entrando nas estatísticas fúnebres. Para quem vive fora do país, como eu, é situação impressionante, difícil de conceber.

Nas muitas décadas em que tenho visto o Brasil de longe, não assisti a nenhum assalto nem me lembro de ter conhecido alguém que tenha sido assaltado. Que fique claro: não vivi num convento, mas em cidades comuns. Por aqui, assalto a mão armada sai no jornal televisivo da noite e deixa a população traumatizada.

Percebo que a população brasileira está habituada com essa barbaridade. Anestesiados, os honestos cidadãos acabam aceitando a situação, consolando-se com a (falsa) ideia de que «nas grandes cidades do mundo inteiro também é assim». Não é.

O problema no Brasil é complexo. Infelizmente, na atual temporada de eleições, não vejo nenhum candidato tratando a raiz da questão. Trancar-se em casa, levantar muros eletrificados e chamar o Exército é paliativo que não enfrenta nem resolve o problema. O buraco é bem mais embaixo.

Gostaria que candidatos mostrassem disposição pra integrar esse estrato da população que vive nas fímbrias da sociedade. Falo dessa juventude que, sem formação, sem trabalho, excluída e sem perspectiva, descamba para o crime. Infelizmente, parece que os do andar de cima ainda não se sensibilizaram com a situação. É pena.

A culpa não é de Trump

José Horta Manzano

Quem tiver acompanhado os recentes caprichos cometidos pela dupla Kim Jong-un e Donald Trump deve andar meio tonto. Faz apenas alguns meses, o mundo estava apavorado com a perspectiva de guerra iminente entre a Coreia do Norte e os EUA. A troca de farpas entre os dois dirigentes parecia coisa de criança travessa na hora do recreio. Só que ambos têm botão nuclear à disposição ‒ pouco importa se o de um é bem maior que o do outro.

De repente, o horizonte se desanuviou. Os dois passaram a jogar beijinhos mútuos. Prometeram reunir-se em breve e até marcaram lugar e data: 12 de junho, em Singapura. O mundo suspirou aliviado.

A despeito da cúpula anunciada, o misterioso ditador norte-coreano continuou a atirar pedrinhas no presidente americano. Este, que não tem sangue de barata nem costuma guardar a língua no bolso, resolveu acabar com a brincadeira: cancelou a cimeira. O planeta aguarda, aflito, o próximo capítulo.

Principais bases militares dos EUA instaladas em território sul-coreano

Vamos refletir um pouco pra entender, em grandes pinceladas, a situação. Quem dá uma olhada no mapa da região se dá conta de que a Coreia do Norte age como estado tampão entre a grande China e a Coreia do Sul. É importante saber que o território sul-coreano abriga nada menos que 15 bases militares americanas.

Tudo o que a China não deseja é ver a Coreia do Norte ingressar na zona de influência dos EUA. Se isso acontecesse, Pequim passaria a ter a incômoda presença da força militar americana às suas portas ‒ uma situação insuportável. Isso explica por que a China tem garantido apoio ao país do ditador Kim que, sem isso, já teria desmoronado.

O que está por detrás das palavras malcriadas que Kim Jong-un dirigiu a Trump dificilmente será divulgado. É permitido imaginar que a China tenha lançado um ultimatum ao ditador. Algo do tipo: “Ou vocês acabam imediatamente com esse namoro com os EUA ou vamos ter aqui uma conversinha séria”.

Não acredito que o namoro vingue. Ainda hão de passar muitos anos antes de uma cúpula reunir presidente americano e ditador norte-coreano.