Nossa língua

José Horta Manzano

Surpreso (quem diria!) com a avalanche de críticas ao discurso que pronunciou no púlpito da ONU, doutor Bolsonaro reage e persevera: “Não fui agressivo”. Insiste na tese de que foi um discurso ‘patriótico’, seja lá o que isso quer dizer. Tentou ser espirituoso perguntando se queriam que ele ‘falasse abobrinhas’. Ficou, de fato, gracioso.

Para emendar, voltou a questionar a liderança do velho cacique Raoni, exatamente como já tinha feito na ONU. Não parece ter-se dado conta de que não cai bem um presidente se queixar, perante plateia planetária, do comportamento de um de seus 200 milhões de governados. É como se Monsieur Macron fosse à ONU queixar-se do chefe do movimento dos Coletes Amarelos. Coisa sem pé nem cabeça.

Doutor Bolsonaro desqualificou o cacique ao dizer que «ele não fala nossa língua». Agora ficou urgente. Alguém precisa dizer imediatamente ao presidente que a frase está expressa ao contrário.

Na verdade, somos nós que não falamos a língua dele. Afinal, os povos nativos – como o nome indica – já eram donos destas terras milênios antes da chegada do europeu e do africano. Assim, nós todos é que devíamos ter aprendido a língua deles, e não o contrário.

Macron e a casca de banana

José Horta Manzano

A notícia passou meio despercebida na imprensa francesa, neste momento mais preocupada com as consequências das eleições europeias, com o interminável folhetim do Brexit e com os irritantes protestos dos derradeiros Coletes Amarelos. Vamos rebobinar o filme.

Dia 21 de abril, Volodimir Zelenski, jovem ator ucraniano de 41 anos, foi eleito presidente de seu país. Exemplo de ficção que se torna realidade, o moço tinha encarnado, numa minissérie televisiva, um professor de História que se tornava, por acaso, presidente do país. No auge da popularidade mas sem nenhuma experiência política, candidatou-se à Presidência assim como quem não quer nada. Com estonteantes 73% dos votos, venceu, no segundo turno, o presidente atual, que disputava a reeleição. Foi bem sucedido num desafio que nem nosso Tiririca ousou enfrentar!

Como acontece nessas horas, todos os dirigentes do planeta sentiram a necessidade de dar parabéns ao recém-eleito e desejar-lhe boa sorte. Dois humoristas russos, especialistas em dar trotes e pregar peças a personagens importantes, resolveram preparar uma pegadinha pra Monsieur Macron, presidente da França. Valendo-se do caminho mais simples, ligaram para o palácio presidencial francês e deixaram o número de celular do novo presidente. O número, naturalmente, era do celular deles.

Tranquilizados pela voz com sotaque carregado, os responsáveis pelo cerimonial da Presidência francesa não desconfiaram. Transmitiram o número a Emmanuel Macron. Pouco depois, o francês liga para o número que lhe haviam dado e, convencido de que estava a conversar com o novo presidente ucraniano, sente-se à vontade e solta as amarras.

 Do outro lado, a suposta voz do presidente recém-eleito provoca:

«– Veja, Monsieur Macron, com meus 73%, eu me sinto como meu vizinho Vladimir Putin, o presidente da Rússia.»

E Macron, que não perde a ocasião pra responder na lata:

«– É, mas eu tenho a impressão de que o sistema na Ucrânia ainda não está tão bem organizado como na Rússia. Você ainda não botou todos os seus oponentes na cadeia.»

Ai, ai, ai… Os humoristas russos, que tinham gravado tudo, puseram o áudio à disposição em sua conta no Twitter. Estavam à mesa todos os ingredientes de um sério incidente diplomático. Alguns poucos comentaristas franceses se mostraram surpresos pelo fato de o Palácio do Eliseu ter se deixado tapear com tanta facilidade. E também pela imprudência de Macron ao pronunciar palavras sarcásticas contra o presidente da Rússia, país importante e amigo.

Passado um mês, uma constrangida Presidência francesa segue firme na recusa de confirmar o fato. Tampouco emitiu desmentido, o que já é meia confissão. Por seu lado, a embaixada da Rússia em Paris informou não ter intenção de tecer comentários sobre o ocorrido.

Como se vê, não é só nosso presidente linguarudo que se mete em palpos de aranha ao dizer o que não deve a quem não convém. A diferença é que, enquanto outros escorregam na casca de banana que alguém lhes colocou no caminho, doutor Bolsonaro atravessa a rua pra escorregar na casca que avistou na outra calçada.

Barriga vazia

José Horta Manzano

O governo francês acaba de descobrir duas verdades. Embora evidentes para os brasileiros, eram fatos desconsiderados, pelo menos até aqui, pelas autoridades de Paris. A primeira verdade revela que, muitas vezes, criança de família pobre chega à escola de manhã de barriga vazia. A segunda, incontestável, diz que a fome é inimiga do bom aprendizado.

Apesar de serem, pela média estatística, mais ricos que os demais, os países do Primeiro Mundo também têm bolsões de pobreza. A rigor, as pessoas de baixa renda estão concentradas em determinados municípios ou bairros afastados e esquecidos pelo poder público. Aluguéis mais abordáveis são a principal razão de essas pessoas viverem nesses lugares. É justamente nessas regiões que alguns aluninhos chegam à escola de barriga roncando.

O ministro francês da Educação anuncia que um café da manhã gratuito deverá ser oferecido aos pequenos da escola elementar. Por enquanto, o experimento se fará a título facultativo. Fica a critério do prefeito de cada município. Os que quiserem tentar a experiência podem solicitar ajuda financeira do governo central.

Para nós, a medida parece tão evidente que nem vale a pena discutir. Na França, no entanto, a polêmica é esporte nacional. Discute-se sobre tudo, e cada um faz questão de dar opinião. Assim que foi anunciada a proposta do governo, surgiram vozes discordantes. Há quem diga que alimentar crianças não é papel da escola. É verdade, mas… fazer o quê? Esperar pra ver como evolui o mundo enquanto barriguinhas roncam?

Há também quem argumente que a medida vai agir como estigma. As crianças que tomarem café na escola estarão passando atestado de pobreza. Os alunos ou vão desfilar na ala dos abastados ou na dos miseráveis. É até capaz de algum pai proibir o filho de tomar café na escola só pra não descobrirem que a família está passando por um aperto. O argumento tem lá seus fundamentos. Caberá à escola inventar um modo de contornar o problema. Talvez instituindo um cardápio tão inventivo que nenhuma criança consiga resistir.

Há ainda outros argumentos contra a medida:

  • «Que cada município use seu dinheiro pra cuidar dos próprios pobres. Por que é que eu tenho de financiar café da manhã com meus impostos?»
  • «Os pais é que deviam ser penalizados por não darem de comer aos próprios filhos.»
  • «Isso é coisa de estrangeiros. Franceses de raiz não deixam os filhos passar fome.»
  • «Crianças que já comeram em casa vão querer acompanhar os outros e vão acabar tomando café pela segunda vez. Isso é incentivo à obesidade.»

O número de opiniões empata com o número de habitantes do país.

A mim, parece uma resolução de bom senso. Podem-se discutir os detalhes, mas o acerto da medida é indiscutível. Vamos ver como evolui a ideia. É bom que venha novo debate nacional, que o país está precisando. Essa insistência dos «Coletes Amarelos» de infernizar a existência já deve estar dando nos nervos da população. É hora de mudar de estação.

Olha o radar!

José Horta Manzano

Num momento de desatino ‒ ou inspirado sabe-se lá por qual guru ‒, doutor Bolsonaro mandou barrar a instalação de 8 mil radares nas estradas do país. Alem de afrontar o bom senso, a ordem contraria a tendência mundial de reforçar a regulamentação do tráfego rodoviário. Por toda parte, já está comprovada a relação entre a velocidade dos veículos e a gravidade dos acidentes.

Tão fora de esquadro é a decisão presidencial que até uma juíza federal se comoveu e emitiu contraordem. Não se sabe como terminará o embate, que a briga é de foice. Vença quem vencer, o balanço será ruim. Se a vontade presidencial prevalecer, perderão o utilizadores de nossas precárias estradas, que se tornarão ainda mais perigosas. Se a ordem judicial triunfar, a imagem de doutor Bolsonaro sairá do episódio ainda mais esfolada e enfraquecida.

Os franceses receberam, estes dias, confirmação da eficácia dos radares rodoviários na prevenção de acidentes. Desde que começaram a protestar, em novembro do ano passado, os Coletes Amarelos já atacaram 75% do parque de radares fixos instalados no país. Aparelhos foram queimados, derrubados, destruídos, inutilizados ou furtados. As estatísticas do primeiro trimestre, impiedosas, trazem o veredicto: o número de mortos nas estradas francesas aumentou 17% desde o início do ano. Uma subida brutal.

É fácil de entender. Os radares costumam ser instalados nos pontos perigosos, onde o motorista tende a aumentar a velocidade do carro. Ciente de que há um radar fixo, o cidadão refreia seus ímpetos pra não levar multa. Assim, contribui para desinchar as estatísticas de acidentes. Quando sabe que não há radar nenhum, o sujeito se solta. It’s human nature ‒ é natural.

Espero que o bom senso vença e que a instalação dos radares seja liberada no Brasil. É excelente caminho pra diminuir a hecatombe rodoviária brasileira, drama de características e proporções africanas.

Medo da polícia

José Horta Manzano

Os franceses andam assustados e preocupados. As mais recentes estatísticas relativas à delinquência atestam um aumento da incidência de pequenos crimes de novembro pra cá. Em apenas seis meses, o conjunto de crimes e delitos chamados «petite délinquence ‒ pequena delinquência» aumentou de 7% a 10%. Estamos falando de ocorrências como furto ou roubo de pessoa física, furto ou roubo de veículo, assalto a residência na ausência do morador.

Não foi preciso analisar muito profundamente pra descobrir relação entre o súbito aumento da criminalidade e as manifestações dos Coletes Amarelos. De fato, as passeatas de protesto começaram em novembro, atravessaram Natal, continuaram no ano-novo e estão chegando à Páscoa. Tirando a pequena parte da população que gostaria de ver o circo pegar fogo, os franceses estão até aqui de confusão. Não aguentam mais ver o país tomado por arruaceiros. Sair de casa aos sábados tornou-se um exercício perigoso.

Mas o quem tem de ver o movimento de protesto com o aumento da criminalidade? A relação é simples. Frequentemente violentos, os protestos exigem presença reforçada de batalhões inteiros de policiais. E de onde é que vem esse reforço? Pois é justamente do policiamento normal, ostensivo e de proximidade. Despe-se um santo pra vestir outro.

Os policiais convocados pra garantir a segurança de pessoas e bens durante as manifestações acabam fazendo falta na região onde costumam trabalhar. Ao notar que não há guardas, os bandidos fazem a festa. É a demonstração de que a mera presença do uniforme inibe muita incivilidade e muito delito.

Quanto dura uma paixão?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 23 fevereiro 2019.

Até o fim do século 20, a extrema-direita francesa se confinava às beiradas do eleitorado. Nas asas da crise econômica e sob a batuta do impagável Le Pen, deixou de ser movimento folclórico. Saiu da margem para inserir-se no tabuleiro político. Como adolescente que desabrocha, o partido espichou. Nas presidenciais de 2002, o timoneiro deu um susto ao guindar-se ao segundo turno. Não foi mais longe, que ainda não era hora. Na reta final, foi esmagado por Chirac. Aliviada, a nação sossegou.

Passados quinze anos, veio nova presidencial. Um Le Pen aposentado confiou as rédeas do partido à filha ‒ numa mostra de que o fantasma da monarquia hereditária de direito divino ainda assombra os palácios de Paris. (Não só de Paris, diga-se.) De novo, cidadãos descontentes viram no discurso extremista o remédio contra todos os males e alçaram Madame Le Pen ao segundo turno. A maioria dos eleitores, porém, não digeria a ideia de ver candidata extremista na Presidência. Assim, o turno final foi acachapante: 66% para Macron x 34% para Le Pen.

Recém-eleito, Monsieur Macron deixou-se embalar pela brisa leve da vitória confortável. Esquecido de ter-se beneficiado do voto antiextremista, acreditou que dois terços dos franceses fossem realmente seus eleitores de raiz. A arrogância custou-lhe caro. O namoro que costuma unir o povo ao presidente recém-chegado tem prazo de validade restrito. No caso Macron, durou pouco. Desabusados, os eleitores que lhe haviam dado voto unicamente para afastar a ameaça extremista constataram que as reformas não estavam saindo como desejavam. Era hora de levantar protesto. Nasceu assim o Movimento dos Coletes Amarelos, que aporrinha o governo há meses. Passou o encanto. Por contaminação, até os próprios apoiadores do presidente ‒ aqueles que votaram nele por convicção ‒ começam a duvidar. Fosse hoje a eleição, é provável que aquele que venceu com 66% dos votos fosse reprovado e despachado à vidinha de cidadão comum.

Fenômeno semelhante ocorreu no Brasil na última presidencial. Beneficiado pela repulsa a um partido identificado com rapina desembestada ao erário, doutor Bolsonaro foi eleito por confortável maioria. Releve-se o fato de ter atravessado período conturbado em decorrência do atentado de que foi vítima durante a campanha. O povo, um tanto esquizofrênico, ao mesmo tempo que se condói do sofrimento do presidente, impõe que ele deixe o leito e acuda o país. Já vamos pra dois meses da diplomação e a realidade é cruel. Apesar de o maestro ter estado de recesso, atos e fatos do andar de cima têm sido, para o bem ou para o mal, a ele tributados. E o que tem ocorrido não é belezura.

Atropelos, quiproquós, indecisões, fofocas, injúrias, traições, cotoveladas ‒ uma constrangedora vitrine da miséria humana vem sendo exposta. Mais exigentes e menos pacientes, os que votaram em Bolsonaro de nariz tapado, no objetivo único de barrar caminho à corrupção, se exasperam: «Então era essa a alternativa ao descalabro petista?» ‒ impacientam-se. A pública lavagem de roupa suja tem sido tão enervante que até mesmo os que votaram no presidente por convicção já se perguntam se fizeram bem em confiar as chaves do Planalto a amadores deslumbrados.

Nestes tempos em que tuitadas preenchem o espaço político e ameaçam encolher prazo de validade de homens de poder, que se cuide o presidente. A paixão do povo, se é que um dia existiu, caminha rápido para o vencimento. Maiorias parlamentares, flutuantes e infiéis, deixaram de ser garantia absoluta. Pra provar, está aí a recente defenestração do inoxidável presidente do Senado, homem cuja reeleição perpétua era tida como garantida até a véspera. Na França, os Coletes Amarelos não vão conseguir derrubar o presidente, que isso não está nos costumes do país. No Brasil, no entanto, presidente corre sempre perigo. É bom que ele trate logo de botar ordem na casa, ou o povo depressa lhe mostrará quanto dura uma paixão.

Panela no fogo, barriga vazia

José Horta Manzano

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Venezuela? Cuba? Iraque? Coreia do Norte? Não, minha gente. É França, sim senhor. As fotos, tiradas hoje, mostram gôndolas de um supermercado do interior do país, a mais de 500km de Paris, em estado de desesperador desabastecimento, especialmente nesta época de festas.

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A penúria de mercadorias é consequência dos distúrbios causados pelos protestos dos gilets jaunes ‒ coletes amarelos. As arruaças mais importantes e mais violentas aconteceram em Paris. No entanto, em virtude do bloqueio que os manifestantes promovem a centros de distribuição de mercadorias, o abastecimento do país inteiro está prejudicado.

Gilet jaune

Por que será que o movimento escolheu o colete amarelo como símbolo? E como é possível que, de repente, milhares de pessoas tirem do guarda-roupa coletes ‒ todos da mesma cor e mesmo modelo?

A resposta é simples. Na França, é obrigatório ter no automóvel, em permanência, essa peça de vestuário. É pra ser usado quando o carro enguiça e a gente tem de parar na beira da estrada e sair do veículo. Os coletes são amarelos e fosforescentes. Todos os automobilistas têm.