Bolsonaro & Bannon no mesmo saco

José Horta Manzano

Nascido no início dos anos 1970, o Front National (Frente Nacional), partido francês de extrema-direita, foi presidido durante décadas por Jean-Marie Le Pen, um dos fundadores. Polemista e provocador por natureza, o patriarca imprimiu ao partido a marca da pópria personalidade. O dirigente nunca se preocupou em disfarçar o caráter extremista da agremiação. No fundo, não acalentava ambições presidenciais. Contentava-se com ser um partido destoante e livre de amarras que lhe tolhessem a liberdade de permanecer ad æternum na oposição.

Com a velhice batendo à porta, o velho dirigente concordou que era hora de passar o bastão. Em 2011, fez o que se costuma fazer em organizações de vocação autoritária e dinástica: passou a coroa à própria filha. Exatamente como costuma ocorrer em Cuba ou na Coreia do Norte. Madame Le Pen, a filha, tinha outras ambições para o partido. Não se conformava em continuar à margem do tabuleiro político. Queria tornar sua legenda respeitável e capaz de guindá-la um dia à Presidência da República.

Quando o pai se tornou incômodo, com suas declarações insolentes e provocadoras, madame não teve dúvida: expulsou-o do partido. No ano passado, dando continuação ao saneamento da imagem, mudou o nome da agremiação. Em manobra bastante utilizada no Brasil – e bastante eficaz, diga-se – o Front National tornou-se Rassemblement National (Agrupamento Nacional).

Marine Le Pen e Steve Bannon
Em 2018, ao tempo em que andavam aos beijos e abraços

No ano passado, quando doutor Bolsonaro ainda fazia campanha para a Presidência, madame foi entrevistada na televisão francesa. O assunto eram as relações entre seu partido e signor Salvini, vice-primeiro-ministro da Itália. A entrevistadora quis saber o que madame Le Pen achava do então candidato a presidente do Brasil. Sabedora de que Bolsonaro, já à época, dizia muita besteira e ofendia muita gente, ela tirou o corpo fora. «A cada vez que alguém diz coisas desagradáveis, é logo etiquetado como de extrema direita» – foi o que disse. E continuou, sutil, a insinuar que maus modos são coisa de gente subdesenvolvida. E que não compactuava com esse tipo de indivído. E tome!

Marine Le Pen deu surpreendente demonstração de coerência e de lucidez estes dias. Ela está envolvida até o pescoço na atual campanha de eleição de deputados ao Parlamento europeu. Steve Bannon – aquele teórico de extrema-direita que foi homenageado com um jantar por doutor Bolsonaro quando de sua primeira visita aos EUA – andou metendo o bedelho na campanha. Insinuou estar envolvido na luta para eleger deputados do partido de madame. Como já tinha feito com doutor Bolsonaro, madame Le Pen afastou esse cálice. Declarou, a quem quis ouvir, que Steve Bannon «não é seu conselheiro político». E tome de novo!

Como se vê, a dirigente de um dos principais partidos de extrema-direita da Europa (e do mundo) rejeita, com gesto decidido, tanto Bolsonaro quanto Bannon. Mostra que não os considera dignos de sentar-se à mesa com ela. Enquanto isso, os dois rejeitados se encontram, confraternizam e elevam o cálice à saúde. Saúde de quem mesmo?

Qual é seu nome?

José Horta Manzano

Todo o mundo sabe que não convém mexer em time que está ganhando. Bolo feito pela receita da vovó sai sempre bom. Então pra que mudar o que está dando certo? Nome de firma, por exemplo, só se muda em dois casos: quando o nome já não bate com a atividade da empresa ou quando o negócio está indo pra trás.

Curiosamente, uma alteração que, no começo, salta aos olhos como jogada esperta pode acabar funcionando mais adiante. Na hora em que o nome é mudado, a esperteza fica muito evidente, quase incômoda. No entanto, passando o tempo, a gente acaba se esquecendo do nome antigo e adotando o novo. Vai para o esquecimento também a carga negativa que pesava sobre o nome antigo.

Tivemos um caso famoso de empresa que procurou nome novo quando o antigo ficou obsoleto. É a Sadia Transportes Aéreos, empresa que começou transportando salsicha e, quando passou a levar também passageiros, achou que não ficava bem uma companhia aérea com nome de frigorífico. O nome foi mudado para Transbrasil, empresa hoje falecida.

Em 2002, a companhia aérea Swissair foi à falência. Sua sucessora, que renasceu das cinzas após boa injeção de dinheiro do contribuinte, teve de encontrar nome novo. Um genial marqueteiro canadense, contratado pela módica soma de três milhões de dólares, bolou o extraordinário nome novo: Swiss. Um achado!

Partidos políticos – não só no Brasil – são fregueses dessa prática. Quando as coisas vão mal e os eleitores minguam, muda-se o nome. Costuma dar certo. Em pouco tempo, a população se esquece da sigla antiga. Vão-se as mágoas para o esquecimento. Já faz vários anos que o antigo PFL, que guardava o peso de ter sido braço do regime militar, se desfez do nome antigo e adotou DEM. Hoje, pouca gente se lembra.

Qual é seu nome?

O maior partido francês de extrema-direita, o Front National (Frente Nacional) suavizou seu ideário nos últimos anos. Deixou um pouco da ferocidade e adotou um discurso mais sorridente, com vistas a arrebanhar mais eleitores. Mudança de nome era indispensável. Tornou-se o Rassemblement National (Agrupamento Nacional). De propósito, muitos ainda insistem em chamá-lo pelo nome antigo. Mas a nova denominação vai se impondo pouco a pouco.

Nesse particular, a mais recente novidade entre nós é a intenção do MDB de adotar nome novo. Se acontecer, será a quarta denominação do partido, que já foi MDB, virou PMDB e voltou a ser MDB. Segundo alguns caciques, a mudança se faz necessária dado que o partido anda muito desgastado. Saiu magrinho das últimas eleições. Perdeu a presidência da Câmara e do Senado e, se bobear, vai acabar mergulhando no magma do baixo clero. Cogita-se que o novo nome pode ser Movimento. Original, não é?

Algum parlamentar, preocupado com nossas misérias humanas de cada dia, bem que podia entrar com projeto de lei permitindo que todo cidadão troque de nome quando quiser. Assim, quando a gente estiver chateado e tomar a decisão de começar vida nova, vai poder entrar no novo ciclo de alma lavada, com pé direito e… com nome novo. Não seria bom?