O verdadeiro problema

José Horta Manzano

Os brasileiros antenados andam inquietos. Pra onde vai o barco nacional – nau sem timoneiro, em tempestade grossa, em noite sem lua? A água entra às cataratas e só temos xícaras pra esvaziar o porão. O naufrágio passa a ser possibilidade concreta. Pelo chacoalhar da diligência, já não se deve perguntar se, mas quando vai acontecer.

Uns acusam os filhos dementes do presidente. Outros preferem situar a origem do desastre na interferência malfazeja de um astrólogo boca-suja. Há quem constate que, com uma oposição política em frangalhos, o governo se esteja consumindo num macabro ritual de autofagia. O dedo da CIA, da China ou até de Putin é visto por alguns como culpado pela crise – ainda que eu não entenda bem que vantagem uma débâcle nacional traria a essa gente.

Pra mim, estão todos longe da verdade. Nem os filhos dementes, nem o astrólogo boca-suja, nem a oposição desmilinguida, nem a CIA, nem a China, nem Putin. Nenhum desses seria capaz de empurrar o país para o abismo. O verdadeiro problema, a desgraça que nos desabou sobre a cabeça – e que ninguém havia previsto – é uma só: temos um presidente fraco.

Que se pode esperar de um homem que nem ao menos tem mão forte pra enquadrar os próprios filhos? Quem não consegue fazer reinar a harmonia no círculo familiar não está em condições de conduzir o barco.

O pior de tudo é que essa desgraça não tem remédio. É ilusão esperar que um biotônico qualquer venha dar força a um presidente fraco. O homem é assim e assim continuará. As futricas palacianas tendem a se estender por todo o mandato. E é bom que o petismo não se fortaleça muito nos próximos quatro anos. Se um candidato do lulopetismo estiver em condições de disputar as próximas eleições com chance de vitória, o mesmo fenômeno de voto útil de 2018 tende a repetir-se. Assim, a reeleição de doutor Bolsonaro está garantida.

Aposta errada

Ruy Castro (*)

As forças que, há um ano, se juntaram para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando hoje se não teria sido melhor ficar com a primeira opção, o cabo Daciolo. Na época, ainda longe da largada, Bolsonaro e Daciolo, cada qual em seu box, pareciam focinho com focinho nas preferências. Ambos preenchiam os requisitos: eram carismáticos, primários e quase medievais.

A ideia era a de que qualquer um deles, se eleito, faria uma simpática figuração no Planalto enquanto o país seria gerido pelos profissionais – os quais, depois de milhares de reuniões-hora em suas instituições, já tinham tudo esquematizado: abertura, reformas, volta da economia. Ao presidente, caberia uma agenda que o manteria ocupado e à distância da única arma perigosa ao seu alcance: a caneta.

Mas, já na campanha, Daciolo começou a assustar os apoiadores. Em vez de prometer salvar o Brasil, fazia de cada 15 segundos na TV uma versão pocket do Sermão da Montanha. Sua voz, amplificada por anos de salmos em quartéis de bombeiros, era “assertiva” demais. E, pela frequência com que dava Glória ao Senhor Jesus, era como se tivesse o WhatsApp do homem e somente a Ele daria satisfações no mandato.

Os apoiadores voltaram-se então para Bolsonaro, com seu jeito de matuto simplório. No poder – pensaram –, enquanto ele brincasse de capitão dando ordens a generais, eles tratariam do país.

Bem, Bolsonaro foi eleito e fez o que eles não esperavam: resolveu usar a caneta. Diz os maiores absurdos, toma decisões irresponsáveis, provoca incêndios que o próprio governo tem de apagar, quer acabar com a educação e o ambiente, tem três filhos dementes e se deixa guiar por um esperto que está vivendo algo nunca sequer sonhado: dirigir o país por controle remoto. Resultado: erraram feio. Daciolo talvez fosse melhor – mesmo com Jesus Cristo como vice.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.