O turista estrangeiro e o custo Brasil

José Horta Manzano

Em meados do século passado, era habitual que cada país contasse com (pelo menos) uma companhia aérea nacional. Era um dos componentes do orgulho e do sentimento de autossuficiência da nação. Todo país importante ‒ e até algum menor ‒ contava com «sua» empresa aérea. Se não fosse o único proprietário, o Estado era acionista majoritário.

O sistema vigorou até pelos anos 1980. Varig, Swissair, Pluna, Air France, PanAm, Iberia, Alitalia se encaixavam no modelo. Até a Bolívia tinha seu Lloyd Aereo. Estado que não possuísse empresa aérea nacional era olhado com comiseração.

Pelas voltas que o mundo dá, os últimos trinta anos trouxeram grandes turbulências. Varig, Pluna, Lloyd Aereo Boliviano sumiram do mapa. Swissair, quem diria, fez falência e foi engolida pela LuftHansa. A Alitalia, no miserê há anos, funciona sob perfusão. A Air France e a holandesa KLM, para não entrar em colapso, tiveram de se unir em casamento forçado. A PanAm, que chegou a ser uma das maiores do mundo, simplesmente fechou portas e escotilhas. Em matéria de companhia aérea, o conceito de «orgulho nacional» se esvaziou. Hoje vale quem pode, não necessariamente quem quer.

Está em tramitação no Congresso do Brasil um projeto de lei para permitir a abertura irrestrita do setor aéreo ao capital privado ‒ dispositivo considerado pecado mortal até um passado recente. Se aprovado, será passo na boa direção. Toda medida que possa trazer benefício ao usuário será sempre bem-vinda, pouco importando quem sejam os investidores da empresa. Por evidente, nenhum investidor vai botar seu dinheiro em saco sem fundo. De tabela, o risco de corrupção será menor.

Em entrevista concedida estes dias, o presidente da Embratur se pronuncia a favor da medida. Até aí, estamos de acordo. Dado que o Brasil se encontra distante dos centros geradores de turistas, os aeroportos são o principal portão de entrada. A nova lei tende a atrair companhias de baixo custo, fato que será apreciado tanto por turistas que chegam quanto por brasileiros que saem.

A certa altura, o entrevistado diz achar que o maior entrave à vinda de turistas estrangeiros é o «custo Brasil». Ignoro o sentido que ele empresta a essa expressão. Se ele se refere ao nível de preços de transporte, alojamento e alimentação, incorre em equívoco. Paris e Londres, apesar de figurar entre as cidades mais caras, encabeçam a lista das mais visitadas. Esse fato tende a demonstrar que o custo (monetário) não é empecilho.

by José Miguel Pereira de Sampaio (1927-2016), desenhista gaúcho
Charge publicada em 1949 na Revista do Globo
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Para quem vê o Brasil de longe, como este blogueiro, salta aos olhos que a criminalidade ‒ também conhecida como violência ‒ é a primeiríssima barreira. De pouco adianta mostrar fotos de praias paradisíacas quando, no instante seguinte, o candidato a turista lê na mídia que um arrastão acaba de depenar banhistas em Copacabana. Ou que um grupo que fazia trilha foi violentado. Ou que um estrangeiro desavisado, tendo entrado por engano numa favela, foi assassinado com rajada de metralhadora.

O buraco é bem mais embaixo. Em massa, turistas europeus visitam a China, que fica a 12 horas de voo. Em massa, norte-americanos fazem turismo na Europa, numa viagem que não sai em conta. Multidões de japoneses e outros extremo-orientais atravessam o Pacífico, numa viagem cansativa e interminável, para conhecer os EUA.

Por que é que tão poucos chegam até o Brasil? Por que será que desprezam praias, florestas tropicais, metrópoles gigantescas, pousadas encantadoras, relíquias coloniais, fauna e flora prodigiosos, sol e calor garantidos? Não será pelos preços elevados nem pela falta de conexões aéreas. A maior barreira é o temor de serem vítimas de assalto ou de bala perdida.

O preço da imprudência

José Horta Manzano

Velho ditado herdado dos lusos ensina que o segredo é a alma do negócio. Para mim, continua válido. No entanto, nestes tempos bizarros, parece que menos e menos gente leva essa evidência a sério.

Todo o mundo faz besteira de vez em quando, que ninguém é santo. Quando éramos adolescentes e fazíamos algo reprovável, a reação primeira era guardar segredo. Alguns, não aguentando a tensão e o peso de reter a informação, confiavam-se ao melhor amigo, àquele que oferecia certa garantia de não espalhar a notícia. Já outros, mais prudentes ainda, preferiam confiar o escorregão ao diário.

diario-1Aos mais jovens, explico que diário era um caderno pessoal, geralmente de capa dura, muitas vezes trancado com um cadeadozinho, onde o proprietário deitava por escrito as peripécias de cada dia. Alegrias, tristezas, esperanças e confissões se misturavam. Dado que faz anos que não ouço falar nesse tipo de confessionário, imagino que tenha desaparecido junto com a máquina de escrever e o óleo de fígado de bacalhau.

A popularização de ‘redes sociais’ tornou menos nítidos os limites entre o pessoal e o coletivo. Adolescentes ‒ e adultos também ‒ parecem não se dar conta de que, ao confessar «façanhas» a um círculo que imaginam fechado e confiável, estão divulgando informações que lhes podem ser prejudiciais.

Chamada do Estadão, São Paulo

Chamada do Estadão, São Paulo

Dia sim, outro também, a gente acaba ficando a par da besteira alheia. Tem aquela servidora ‒ Coordenadora do Programa de Saúde Bucal do Ministério da Saúde! ‒ que pediu licença médica para tratamento de saúde e se mandou para Madri, numa escapada de lazer. Imprudente, fez circular na internet a prova da transgressão. Com foto e tudo. Não deu outra: a história foi parar no Estadão e a moça perdeu o emprego.

Tem também aquela funcionária da Receita argentina que, alegando doença traumatológica, tirou licença. Na verdade, veio curtir o sol e «tomar uns tragos» nas praias de Florianópolis. Também ela fez questão de difundir a prova documental do delito. Tudo foi parar no Clarín, jornal argentino de grande circulação.

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Chamada do Clarín, Buenos Aires

Fico aqui a me perguntar o que leva essa gente a relatar suas infrações ao grande público. Será inconsciência? Vaidade exacerbada? Burrice mesmo? Ou, talvez, uma combinação de todas essas fraquezas?

Freud deve poder explicar. Enquanto a explicação não vem, astros e atrizes destes novos tempos pagam seu efêmero momento de estrelato com a perda do emprego. E assim vai o mundo. Imperfeições e desvios, que antes eram guardados debaixo de chave, vão-se tornando motivo de orgulho. Vá entender, distinto leitor!

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Só para finalizar
E o que acontece com médico que dá atestado a paciente em perfeita saúde? Fica por isso mesmo?

Mal de raiz

José Horta Manzano

Tudo indica que o risco oferecido pelo Brasil a investidores ‒ nacionais ou estrangeiros ‒ se esteja agravando. Importante agência de classificação acaba de rever sua apreciação. Considerando que a situação das finanças nacionais se deterioraram de alguns meses para cá, o instituto rebaixou a nota brasileira a um patamar mais próximo do fundo do poço.

Assalto 9Isso é mau porque importantes capitais ‒ cruciais para um país de baixa poupança interna ‒ tendem a migrar para outras plagas. Toda a mídia nacional captou o perigo. De ontem para hoje, o rebaixo da nota foi a manchete mais saliente em todos os jornais brasileiros.

Na imprensa estrangeira, no entanto, outro fato nacional ocupa espaço maior: o assassinato de turista argentina em Copacabana. Em inglês, francês, alemão, italiano ou espanhol, a notícia deu volta ao mundo.

O fato em si já é alarmante e comovente. Era uma turista estrangeira, pessoa de recursos limitados, cuja grande aspiração era conhecer o Rio. Enfrentou viagem de onze horas de ônibus desde sua recuada província argentina até São Paulo. Mais uma hora de ponte aérea e o antigo desejo se tornou realidade.

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

O sonho, no entanto, virou pesadelo quando energúmenos, no que se supõe fosse tentativa de assalto, trucidaram a moça a facadas. Estava a poucos metros do hotel Copacabana Palace, emblema da acolhida de nível internacional que o Brasil costumava oferecer.

Situação financeira evolui. Basta os analistas enxergarem uma luzinha no fim do túnel para que a nota de avaliação retorne a níveis mais comportados. O mundo das finanças sobe e desce, é gangorra cíclica, nenhum país tem garantia contra sobressaltos.

Assalto 5Já as incivilidades, a violência e a criminalidade não são cíclicas ‒ muito pelo contrário. São permanentes, constantes, progressivas, crescentes. Criam raízes cada dia mais profundas e resistentes sem que ninguém dê grande importância.

Brasileiros se desassossegam com a coincidência de epidemia de zika com os Jogos Olímpicos deste ano. Não é a melhor combinação de fatores, concordo. No entanto, há que lançar visão mais ampla.

Num futuro próximo, vacina terá sido encontrada contra essa doença. E o problema estará resolvido. Bem mais difícil será, desgraçadamente, encontrar vacina contra a criminalidade. É problema mais profundo que não se resolve botando grade e cadeado na frente de casa.

A banalização do mal

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 set° 2015

Arendt 2Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – Eichmann em Jerusalém: um relato da banalidade do mal. Em 1963, Hannah Arendt reuniu uma coletânea de artigos seus e os transformou no livro que leva esse título. A obra levanta polêmica até hoje. A controvérsia, no entanto, vai ficar para uma outra vez. O que hoje nos interessa é a universalidade do pensamento da autora.

Judia, de origem alemã, naturalizada americana, a senhora Arendt não gostava que a definissem como filósofa. Preferia ser designada como cientista política. O livro em questão, mais conhecido pelo subtítulo, introduz o conceito da banalização do mal.

O personagem central, Adolf Eichmann, foi um dos principais organizadores do extermínio dos judeus perpetrado pelo regime nazista durante a Segunda Guerra. Terminado o conflito, fez como numerosos correligionários: encontrou refúgio na Argentina, país onde viveu anos tranquilos, sem história. Em 1961, numa operação ousada e francamente impensável nos dias atuais, um comando especial israelense raptou-o e despachou-o ilicitamente de Buenos Aires a Jerusalém.

Arendt 1O objetivo era julgá-lo. Para que nenhuma dúvida subsistisse quanto à lisura do tribunal, as sessões foram públicas e integralmente filmadas. Hannah Arendt, que, durante a guerra, havia padecido em campo de concentração, estava particularmente interessada no desenrolar do processo. A síntese à qual ela chegou é peculiar e, até certo ponto, surpreendente.

Como a maior parte do público, a filósofa imaginava que a ação judicial fosse revelar um ser monstruoso e desprovido de humanidade, um sádico, um sanguinário, o demo em pessoa. Para seu espanto, ao sabor do desdobramento dos debates, delineou-se um funcionário zeloso, obediente, cumpridor dos deveres, dedicado e confiável. Em nenhum momento, o acusado demonstrou dar-se conta da hediondez de seus atos. Parecia até sincero ao repetir que não fizera mais que desempenhar-se e cumprir ordens e obrigações.

Eichmann 1Hannah Arendt identificou, nesse comportamento, os efeitos da banalização do mal. De tanto ser repetido, martelado e repisado, o que era monstruoso tinha-se tornado corriqueiro. A noção do mal se diluíra a ponto de converter-se em trivial burocracia.

Sem chegar a esses extremos – que nos proteja São Benedito! – a sociedade brasileira em geral, e a política do País em particular, se embrenham num caminho análogo. Perigosamente análogo.

A violência que, desde o tempo dos primeiros aventureiros, caracteriza nosso corpo social tem-se propagado. Livre, solta e incontida. A medida mais vistosa que cidadãos de bem costumam adotar é erguer muros e enjaular-se dentro de casa. A ninguém ocorre que as grades, se trazem alívio, não dão solução. E assim seguimos, conformados, resignados, convencidos de que a vida é assim mesmo e de que nada se pode fazer. É o mal banalizado.

Merenda 1No caldeirão da roubalheira, que é um dos componentes maiores da selvageria em que vivemos, esfervilham parlamentares de altíssimo coturno, megaempreiteiros, pequenas autoridades, obscuros funcionários, estafetas e até laranjas. Ainda estes dias saiu a notícia da prefeita de cidadezinha paupérrima que teria desviado, em proveito próprio, milhões de reais destinados à merenda escolar. À merenda escolar!

Sem se constranger, gente graúda defende bandidos condenados. Ministros se contradizem, presidente deita falatório estéril, parlamentares fingem que parlamentam e a gente finge que acredita. Vivemos no país das maravilhas. Dá-se mais importância a um boneco cheio de vento do que à família que vive debaixo da ponte – aqueles seres invisíveis que vegetam logo ali na esquina e que ninguém quer ver. É o mal banalizado.

by Alberto Soler, desenhista espanhol

by Alberto Soler, desenhista espanhol

Se, a nossos olhos, crimes e malfeitos parecem toleráveis, o mesmo não ocorre com os que nos observam de longe. Notícias correm hoje em dia. Tanto as boas quanto as más – especialmente as más. A benevolente estima com que nosso País sempre contou começa a chancelar.

Não sei se os brasileiros estão-se dando conta do estrago que a apreciação do País vem sofrendo no exterior. O Brasil sempre projetou imagem paradisíaca: sol, calor, alegria, gente pacífica, música, praia, futebol, harmonia, espírito acolhedor – são clichês que a simples menção do nome de nossa terra costumava evocar. Lamentavelmente, a imagem começa a fissurar-se.

Não percebido, traiçoeiro, nocivo e durável: é efeito colateral e inexorável da banalização do mal que plantou raízes em nosso País.

Sai do teu sono devagar

José Horta Manzano

A cidade do Rio de Janeiro, além de ser afamada pela beleza de sua exuberante natureza, é mundialmente lembrada por suas praias de areia fina. Quem diz praia, diz calor. Os registros meteorológicos trintenais da cidade, compilados entre 1961 e 1990, atestam que temperaturas de 40° (ou mais) já chegaram a ser registradas em todos os meses do ano, com a honrosa exceção de junho. No sexto mês do ano, a máxima registrada durante esses 30 anos não passou de 39°.

Essa tropicalidade toda convida a uma comida leve e fresquinha, acompanhada por uma bebida gelada sorvida num canudinho. Ou não? Pois parece que não. O restaurante mais badalado da cidade leva o estranho nome de Antiquarius. Para quem procura refeição fresca, não é um nome atraente.

Falando em comida fresca, a imprensa noticiou que, na noite de 6 de agosto, o Procon carioca fez uma batida de caráter sanitário em alguns dos mais conceituados restaurantes da cidade. Era a Operação Ratatouille, em alusão ao prato provençal e também ao filme de animação homônimo.

Nosso Antiquarius ― assim como outros conceituados restaurantes ― foram inspecionados. Escândalo! Quilos e mais quilos de alimentos com data de validade vencida foram pilhados. Como é que pode?

Restaurante Antiquarius, Rio de Janeiro by Lalo de Almeida, NYT

Restaurante Antiquarius, Rio de Janeiro
by Lalo de Almeida, NYT

Bem, alguma desculpa sempre se arruma. Para um dos gêneros incriminados, o Antiquarius informou que já não constava mais do cardápio fazia um ano. Ora, se já não é servido, por que razão ocupava espaço na geladeira?

Tivesse algo parecido acontecido em outros lugares do mundo, a onda de choque teria sido bem mais intensa. Em Paris, Londres ou Nova York, um restaurante acusado de servir comida suspeita pode fazer uma cruz sobre sua reputação. Não se levantará nunca mais. Não sei como os cariocas endinheirados encaram a situação. Evitarão essas estalagens suspeitas? Ou passarão por cima e se arriscarão a pagar elevadas quantias para encomendar pratos pra lá de duvidosos?

Rato

Rato

No Brasil, a avalanche de irregularidades e de casos escabrosos é tamanha, que um escândalo ofusca o anterior. Passados uns poucos dias, já ninguém se lembra.

No entanto, o caso dos restaurantes cariocas apanhados de calça na mão não escapou ao respeitado New York Times. Numa crítica azeda, o correspondente do jornal no Rio de Janeiro destaca o fato de o Antiquarius ostentar decoração de falso estilo fazenda antiga. E sublinha que um bacalhau ensopado custa ali 68 dólares(!).

O Rio anda na berlinda estes últimos tempos. Entre a copinha, a visita de Papa Francisco, a copona e os Jogos Olímpicos, a cidade está sendo examinada com lupa. E continuará assim até 2016.

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O piscinão e o rio

José Horta Manzano

Uma reportagem do Estadão informa que acabam de abrir uma praia artificial na cidade de São Paulo. Escrita com certo desmazelo, a notícia diz que vai ser possível curtir as férias «no mar» (sic) sem sair da cidade. Diz ainda que os termômetros da Zona Leste da cidade chegam a marcar temperaturas 14°C (!) mais elevadas que no resto do município. Afirmação fantasiosa. No dia em que fizer, ao mesmo tempo, 15° na Praça da Sé e 29° no Tatuapé, certamente já terá nevado em Caruaru.

O relaxo da repórter que jogou displicentemente palavras no papel sem refletir no que estava escrevendo ― e, principalmente, sem se preocupar com as consequências de sua incúria ― é sintomático. Entra na categoria do «não-estou-nem-aí», onipresente no dia a dia brasileiro.

O fato de a cidade ter tido de esperar até o século XXI para, enfim, conseguir que as autoridades municipais instalassem uma praia para o lazer de seus habitantes é outro exemplo do mesmo espírito.

Rio Tietê

Rio Tietê há 80 anos

São Paulo, plantada em região chuvosa, cresceu à beira d’água. A natureza é sábia: zonas tropicais, onde precipitações são constantes e abundantes, possuem drenos naturais. Se assim não fosse, pântanos e lagos se teriam formado. A área habitada do município conta com dezenas de escoadouros, fios d’água, tanques, ribeirões, córregos, riachos e rios. Por sinal, a cidade nasceu na junção de dois deles: o Anhangabaú e o Tamanduateí.

A mancha urbana foi-se expandindo lentamente. Um século atrás, a urbanização aproximou-se timidamente do pai de todos, o Tietê. A partir daí, a irresponsabilidade da administração pública encontrou na indiferença da população um forte aliado. Deram-se as mãos. Os danos causados ao conforto urbano têm sido, desde então, imensos e continuados. Em muitos casos, o mal é irreparável, não há volta possível. Um dos desastres maiores é o ‘desaparecimento’ dos cursos d’água que caracterizam nossa região.

Ocultou-se o Ribeirão do Anhangabaú, encoberto pelo vale homônimo. O Córrego do Saracura escondeu-se debaixo da Avenida 9 de Julho. O Ribeirão da Bexiga e o Itororó foram enterrados pela avenida 23 de Maio. Água Branca, Ipiranga, Lavapés, Água Espraiada e tantos outros sumiram do mapa. Literalmente.

Mas a natureza não deixou de ser tropical e úmida. As chuvas continuam caindo e a água, uma vez encharcada a terra, tem de escapar por algum lugar. Privada de seus drenos naturais, ela se acumula em baixios ― daí as enchentes e as inundações.

Outro crime causado pela cupidez imobiliária acumpliciada com sucessivas administrações municipais foi a instalação de um pesado parque industrial nas margens do escoadouro maior: o rio Tietê. Um dos recantos mais bonitos e agradáveis da cidade foi assim trucidado.

Com mais de 1’500km2 de território municipal à disposição, foram escolher justamente o lugar mais aprazível para instalar indústrias poluentes. Aquela região costumava servir para pesca, para lazer e para piqueniques. Onde, até 70 ou 80 anos atrás havia regatas e competições de natação, temos hoje um escoadouro a céu aberto, negro, viscoso, malcheiroso, morto.

Remédio, há. Se os londrinos conseguiram reabilitar seu rio, por que não conseguríamos nós? Pois o governo brasileiro não se vangloriou recentemente de a economia brasileira ter ultrapassado a britânica? E então? O País há de ter capacidade tecnológica e econômica para tratar os dejetos lançados in natura pelas indústrias. Ou não?

Mãos à obra, minha gente! Um Tietê recuperado e despoluído oferecerá possibilidades de lazer bem mais amplas que o acanhado «piscinão» do Tatuapé.

É Natal. Não custa sonhar, não é mesmo? Sai baratinho.

PS: Por coincidência, um dos editoriais do Estadão deste 23/12/2012 discorre sobre uma das tantas consequências do descaso com que vêm sendo tratadas as águas paulistanas desde os tempos de Anchieta.