A queda de Bolsonaro

José Horta Manzano

Grande estardalhaço se está fazendo em torno da queda de aprovação que castiga doutor Bolsonaro. O Instituto Datafolha, que vem fazendo esse tipo de levantamento desde os tempos de Collor de Mello, afirma que nenhum presidente em primeiro mandato sofreu, em tão pouco tempo, baixa de popularidade tão significativa. Para ser confiável, um levantamento tem de partir de bases concretas e comprovadas. Ora, no caso em questão, acredito que esses alicerces estejam faltando.

O Instituto diz que, aos três meses de mandato, FHC era aprovado por 39% da população, Lula da Silva chegava a 43% e a doutora atingia incríveis 47%. Na rabeira, doutor Bolsonaro não passa de 32%. À vista desses números, analistas afirmam que a queda de popularidade do atual presidente foi vertiginosa. Queda? Será mesmo? Tenho cá minhas dúvidas.

Para medir a queda, será preciso conhecer a aprovação do presidente no momento da eleição. A tarefa é impossível, dada a ausência de levantamento. Que fazem, então, os analistas? Partem da hipótese tácita de cada presidente, no momento da eleição, ter contado com aprovação plena. Visto que é virtualmente impossível alguém ser unanimemente aprovado, parte-se do pressuposto de todos os presidentes terem iniciado no mesmo patamar de aprovação, um número próximo da porcentagem de votos com que cada um foi eleito. É aí que reside o erro.

FHC, Lula e Dilma foram eleitos pelos méritos que o eleitor sabia que tinham ou supunha que tivessem. Portanto, pode-se considerar que seus eleitores ‒ que representam, grosso modo, metade do eleitorado ‒ votaram neles porque os aprovavam. Assim, esses três presidentes partem de um mesmo patamar de aprovação. A comparação entre a queda de cada um deles é válida. Já o caso de doutor Bolsonaro é diverso.

Parte considerável dos que votaram no atual presidente não o fez por convicção mas por exclusão. Votaram nele não por adesão à causa bolsonarista, mas para esconjurar o espectro da volta do petismo. Portanto, ainda que possa soar paradoxal, boa parte dos eleitores de Jair Messias não aprovava o personagem já àquela altura. Foram votar de nariz tapado, só pra afastar o mal maior. Já estavam de má vontade, preparados pra lançar um olhar pra lá de crítico ao novo governo.

É o que está ocorrendo. Acredito que os 32% que agora aprovam doutor Bolsonaro são o núcleo duro de seus eleitores, aqueles que o escolheram pelos méritos que tinha ou se supunha tivesse. A diferença entre esse patamar e os 55% ‒ sua votação total ‒ representa aquela porção do eleitorado que lhe deu ‘voto útil’. Não sendo bolsonaristas desde criancinhas e vendo que o perigo petista se afastou, esses cidadãos têm dificuldade em aprovar um presidente que, ainda por cima, não é lá essas coisas. Assim, aguçam suas críticas.

É o que me parece. A aprovação do presidente não “caiu”. O fato é que ela nunca esteve lá em cima. Portanto, não pode ter “caído” de uma altura onde nunca esteve.

O Lula e as pesquisas

José Horta Manzano

Doutor Mauro Paulino, diretor do Datafolha (instituto de pesquisa de opinião cujo renome dispensa apresentações), deu entrevista à revista Valor. Declarou textualmente:

«Lula passou pelo mensalão e se reelegeu em 2006. Passou pelo farto noticiário negativo da Lava a Jato e permanece em primeiro, com 30%. Se for condenado [pelo TRF4], pode ser identificado como vítima, o perseguido».

À primeira leitura, sua declaração choca. Deixa a impressão de que o diretor realmente acredita que o eleitor brasileiro escolhe candidato por compaixão. Quanto mais coitadinho for, mais chance terá de ser eleito.

Como não posso crer em tamanha ingenuidade de diretor de instituto tão conhecido, privilegio uma segunda hipótese ‒ bem mais sutil. Para começar, o diretor insiste em ressaltar o resultado de sua sondagem para o primeiro turno, escamoteando a evidência de que o ex-presidente não venceria eventual segundo turno em nenhum dos cenários.

Em seguida, percebo um recado astucioso dirigido ao tribunal que vai julgar o Lula em segunda instância. Doutor Paulino não ousa dar instruções aos magistrados, mas adverte subliminarmente que, caso a condenação seja confirmada, o ex-presidente ganhará força e poderá voltar à presidência, coisa que ninguém de bom senso quer.

A declaração flutua entre apelo e ameaça e deixa no ar desconfortável sensação de ambiguidade. Para mim, não faz senão reforçar a impressão de que determinadas pesquisas parecem cronicamente tendenciosas. Errar, todos os institutos erram, é inevitável. Ressaltar certos pontos dos resultados e minimizar outros já é outra coisa.

Olimpíada e cheiro de cavalo

José Horta Manzano

João Baptista de Oliveira Figueiredo (1918-1999) foi o mais recente militar a ocupar a chefia do Executivo. Último presidente da série iniciada em 1964, não se pode dizer que tenha sido pessoa de fino trato. A ele, atribuem frases pra lá de politicamente incorretas. Eis algumas:

  • «Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo.»
  • «Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.»
  • «Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.»

Essa é pequena parte da coleção. Há coisa bem mais apimentada. No entanto, ninguém é totalmente branco nem inteiramente preto. Entre os dois extremos, todos carregamos nuances de cinza. O general Figueiredo não era exceção. Entre as barbaridades que pronunciou, há pelo menos uma que fez muito bem ao Brasil.

Cavalo 1A Copa do Mundo de 1986 estava programada para ter lugar na Colômbia. Graves desordens naquele país obrigaram a Fifa a procurar, de última hora, novo país-sede. João Havelange, então chefão do futebol mundial, propôs a João Figueiredo que o Brasil acolhesse o Campeonato.

Desprezando a «honra» que a fabulosa proposta oferecia ao país, o mal-humorado presidente deu resposta curta e grossa a Havelange: «Você já viu uma favela no Rio de Janeiro ou uma seca no Nordeste? Acha que eu vou gastar dinheiro com estádio de futebol?» A frase foi confirmada, anos depois, pelo neto do general.

A Copa foi para o México e a página foi virada. Os anos passaram. O Brasil, acreditando nas juras de honestidade de um grupo que parecia ter moralidade acima da média, foi ludibriado. Caiu na rede de um bando de criminosos que conseguiram assaltar o país por longuíssimos 13 anos.

Figueiredo pode ter sido ignorante, mas mostrou ter mais apreço por seu país do que o finado governo. E pensar que o lulopetismo se dizia «popular e voltado ao social». Quanta hipocrisia!

O general presidente, embora chucro, deu-se conta de que o Brasil tinha outras prioridades além do futebol. Recusou e bateu pé. Já o demiurgo populista, igualmente chucro, deu-se conta de que Copa do Mundo e Jogos Olímpicos abriam excelente oportunidade para negócios. E para obscuras transações.

Sondagem DataFolha, jul° 2016

Sondagem DataFolha, jul° 2016

O resultado é um Brasil empobrecido que ainda espera, pires na mão, os benefícios que a Copa 2014 devia ter trazido. Que espere sentado.

Infelizmente, a coisa continua: ainda temos pela frente um evento mundial, os Jogos Olímpicos Rio 2016. A Folha de São Paulo ‒ jornal que não pode ser acusado de oposição sistemática ao lulopetismo ‒ revela que 63% dos brasileiros (dois em cada três) consideram que a Olimpíada vai trazer mais prejuízos que benefícios.

Só que agora é tarde, minha gente. A quem elegeu o Lula, sobram os olhos pra chorar. A quem não votou nele, sobra a esperança de que tudo vai passar. Um dia, ainda hemos de sair do buraco.

Pesquisa de opinião – 2

José Horta Manzano

Dilma 9Este post faz eco a meu artigo de ontem. O grupo Folha de São Paulo há de ter-se dado conta de que sua “contagem científica” dos participantes da passeata de domingo 15 de março pegou mal pra caramba. O pouco que pudesse restar de credível à imagem do Instituto Datafolha sofreu sério arranhão. A partir de agora, duvido que alguém, com intenção honesta de conhecer a verdade verdadeira, arrisque confiar a sondagem a esse instituto.

Além de deixar no ar a suspeita de que suas pesquisas podem ser ‘negociadas’, a instituição deixa patente sua miopia estratégica. De fato, sondagens têm mais vocação para serem lidas pelos estratos esclarecidos da população. Logo, a trapalhada consiste em serrar precisamente o galho onde se está apoiado.

by Chico Caruso, desenhista paulista

by Chico Caruso, desenhista paulista

A duvidosa estimativa do número de participantes da manifestação de domingo passado assestou pancada pesada à credibilidade do instituto. Eles sentiram o golpe, sim. E a prova está em destaque no sítio do jornal.

Numa tentativa de amenizar suspeitas de parcialidade, a Folha traz, neste 18 março, o resultado de sondagem mostrando a baixa catastrófica na apreciação de nossa mal-amada presidente.

Sei não. Muitas pesquisas sérias terão de ser publicadas para alçar a confiabilidade do instituto ao patamar anterior.

Chamada de 18 mar 2015 - in Folha de São Paulo

Chamada de 18 mar 2015 – in Folha de São Paulo

Pesquisa de opinião

José Horta Manzano

A Europa é especialista em passeatas e manifestações de rua. Nesse quesito, a França sobressai: é campeã em todas as categorias. Por um sim, por um não, saem todos de casa, percorrem avenidas, reagrupam-se em praças simbólicas. Algum discurso pode até pintar. Em seguida, dispersam-se.

Folha tendencia 3Pode acontecer – mas é raro – que alguma passeata degenere. Vândalos desocupados podem surgir de alguma ruela, rosto dissimulado atrás de cachecol e capuz. Pouco se lhes dá o motivo da manifestação – vêm praticar seu esporte preferido: arrebentar vitrines. Aparecem, o mais das vezes, em passeatas gigantescas. É compreensível: quanto mais gente houver, mais fácil será confundir-se com a multidão e escapar a toda sanção.

No dia seguinte, sai a estimativa do número de participantes. Cada lado faz suas continhas. Manifestantes, compreende-se, costumam inflacionar números. Todos esperam pela estimativa da autoridade policial, a mais confiável, que tende a se aproximar da verdade.

No Brasil, manifestações de rua são menos frequentes. Em compensação, quando acontecem, chamam a atenção pelo elevado número de participantes. Observadores consideram a de domingo passado, 15 março, a maior exteriorização de protesto já registrada em nossa história.

Como no resto do mundo, a estimativa de participação tem duas versões. Na verdade, dado que a manifestação não foi convocada por nenhum grupo organizado – sindicato, central operária, corporação profissional, partido poítico – um só número deveria ser publicado: o das autoridades policiais. Em princípio, nenhum outro se lhe poderia contrapor.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

No entanto… o Brasil não é país como os demais. Enquanto, na Europa, a estimativa da polícia é contestada pelos organizadores da passeata, no Brasil ocorreu fato assaz curioso. Um instituto de pesquisa de opinião, contratado sabe-se lá por quem, houve por bem dividir por cinco a estimativa policial.

Em números claros, a PM de São Paulo calculou que um milhão de manifestantes lotaram a Avenida Paulista e ruas adjacentes. O Instituto Datafolha, por seu lado, tem outra versão. Assegura que não mais que 200 mil pessoas lá estiveram. A brutal diferença é de deixar cismado.

Palavras com que o instituto de opinião Datafolha se apresenta.

Palavras com que o instituto de opinião Datafolha se apresenta.

Dei uma espiada no site do instituto. Ele se apresenta como “instituto de pesquisa de opinião”. Na Europa, não me lembro de jamais ter visto instituto de pesquisa de opinião contar participantes de passeata. Colher opiniões, sim, que é seu ganha-pão. Calcular quantidade de gente, não – não faz parte do ADN (DNA) desse tipo de instituição.

A bizarria do acontecido, principalmente o fosso entre os números da polícia e os do instituto, deixa no ar incômoda suspeita de pau-mandado.

Interligne 28aPS 1:
De uns tempos a esta parte, tenho notado que o site da Folha de São Paulo suaviza notícias susceptíveis de ferir sensibilidades no andar de cima. Ao mesmo tempo, enfatiza as que possam afagar o Planalto. No capítulo “nós x eles“, veja a chamada publicada na manhã deste 17 mar 2015. Em matéria de tendenciosidade, é um primor:

Folha tendencia 1PS 2:
Ao dar-se conta da repercussão fortemente negativa de sua “estimativa científica”, o jornal Folha de SP publica hoje longa matéria abarrotada de números. Porcentagens pra cá, quocientes pra lá. Cheira a cortina de fumaça para amenizar o estrago que a imagem do instituto sofreu.