Sangria de gente e de dinheiro

José Horta Manzano

Interligne vertical 12«Pregúntele a los brasileños acaudalados por qué se están mudando al sur de Florida y mencionarán las altas tasas de criminalidad y la moribunda economía de su país.

Sin embargo, hay otra explicación que Alyce M. Robertson, directora de la Autoridad de Desarrollo del Centro de Miami, escuchó con frecuencia en sus recientes viajes de negocios a Brasil: “Dilma”.»

Meus distintos e cultos leitores hão de ter entendido a citação acima, extraída do jornal hondurenho La Prensa, 8 fev° 2015. De fato, o artigo informa que brasileiros endinheirados buscam o sul da Florida para escapar da violência e da «economia moribunda» do Brasil. Outro motivo citado com frequência para a fuga é simplesmente: “Dilma”. Sem comentários.

Imigração 5Ninguém quer ser o último a sair do País, aquele que vai apagar a luz do aeroporto. Embora o êxodo se esteja acentuando estes últimos anos, não é de hoje que brasileiros abastados procuram escapulir do ambiente agressivo do país de origem. Uns poucos optam pela Europa, mas a grande maioria gosta mesmo é dos EUA.

Já repararam que todo latino-americano tem uma quedinha especial pelo grande irmão do Norte? Isso vale até para os que nutrem forte antipatia por aquele país. Ou alguém já viu algum arauto do antiamericanismo transferir-se, de mala e cuia, para Cuba ou para a Venezuela?

Miami 1O jornal hondurenho ressalta que Miami se tornou a maior cidade brasileira fora do Brasil. Estimativas indicam que 300 mil compatriotas vivem nos arredores daquela metrópole. As estatísticas mostram também que 51% dos turistas que visitam a região são brasileiros.

Em 2010, os brasileiros investiram menos de um bilhão de dólares em compra de imóveis no exterior. Três anos depois, a cifra subiu para perto de três bilhões e meio. De dólares.

Os pioneiros, aqueles que se transferiram ao sul da Florida décadas atrás, constituíram o pedestal sobre o qual se assenta a corrente migratória atual. Os primeiros que lá chegaram abriram as primeiras lojas dedicadas a brasileiros, supermercados, bares, restaurantes, açougues, cabeleireiros, agências imobiliárias. Todos os serviços, enfim, aos quais estamos acostumados.

Compra de propriedades no exterior por brasileiros 2007 a 2013, em bilhões de dólares

Compra de propriedades no exterior por brasileiros
2007 a 2013, em bilhões de dólares

Ao encontrar infraestrutura montada, os novos imigrantes se sentem em casa. E vão ficando. E contribuem para reforçar o pedestal onde se virão apoiar novos imigrantes. Está formado o círculo virtuoso.

Imigração 3Ninguém abandona a terra natal de coração leve. Se centenas de milhares de conterrâneos se foram – e justamente os mais endinheirados – é porque a coisa tá realmente preta. É uma pena. É de mau agouro para o Brasil de amanhã.

Os mais abastados são os que mandarão os filhos às melhores escolas. Estatisticamente, essa segunda geração será mais bem formada do que a média de nossa juventude nacional. Sendo jovens criados e escolarizados nos EUA, é pouco provável que retornem à terra dos pais. Prejuízo para quem ficou pra trás.

Enfim, que fazer? Esse é mais um efeito colateral do inacreditável descalabro que transpira por todos os poros da administração pública brasileira.

Voto eletrônico

José Horta Manzano

Não é a primeira vez que escrevo sobre este assunto. Nem há de ser a última. Mecânica e eletricidade são noções antigas, princípios que a gente já teve tempo de assimilar. Quando nascemos, já fazia tempo que existiam.

ComputadorJá no que se refere à eletrônica… nós, os mais antigos, ficamos com um pé atrás. Eletrônica é novidade. Claro está que ela tem seu lado bom – também não precisa ser chucro nem turrão. No entanto, ela guarda um lado meio arisco, sombrio, misterioso, insondável, impenetrável.

De repente, o computador que funcionava perfeitamente trava. É como burro quando empaca: não há meio de fazê-lo sair do lugar. A única saída é desligar, esperar um pouco, religar e torcer pra que dê certo. E não adianta perguntar ao especialista. Tampouco ele sabe o que aconteceu.

Urna 5O mesmo drama se repete quando o mouse «encanta»; quando o teclado não responde mais; quando vírus escandaloso destrói a memória; quando vírus malicioso nos conduz a destinos que não estavam no programa.

Já disse e repito: desconfio da urna eletrônica. Pode ser modernosa, mas esconde perigos grandes. Se Mister Obama, de seu trono na Casa Branca, consegue ouvir as conversas de dona Dilma, em seu trono no Planalto, não me espantaria que algum enxerido mal-intencionado alterasse – à distância – o resultado de um voto. Nada nos garante que isso não esteja sendo feito.

Antes de entabular hipotética e complicada «reforma política», mais fácil seria começar pelo começo: instituir o voto seguro. A Europa inteira vota com o sistema tradicional: cabine com cortininha, cédula de papel, urna transparente, apuração pública e controlada por representantes de todos os partidos. Por que, diabos, nós temos de fazer diferente?

Urna 8Não sei se o distinto leitor reparou na votação que elegeu o presidente do Senado Federal. É sintomático. Nada de maquininha de votar, de botão, de alavanca, de painel. Cédulas de papel foram depositadas na velha e boa urna de nossos avós. Ad majorem securitatem – para maior garantia.

Se eles, que são do ramo, desprezam o voto eletrônico, por que devemos nós, do andar de baixo, engolir sem reclamar?

Ameaça

Coruja 1«Enquanto a população do Distrito Federal sofre com a precariedade da segurança pública e com o crescimentos dos índices de criminalidade, esta semana a Polícia Militar foi acionada para cumprir missão de emergência: capturar uma coruja que estava à espreita, nos jardins do Palácio da Alvorada, residência oficial de Dilma.

Alguém, no Alvorada, considerou ameaçadora a presença do animal-símbolo da sabedoria.»

Extraído do Diário do Poder, 24 jan° 2015.

Frase do dia — 219

«A posse do cocaleiro Evo Morales, na Bolívia – salada de crendices alimentada pela ignorância e pelo culto à folha de coca (matéria-prima da cocaína) – foi de um ridículo atroz. Dilma poderia ter evitado esse mico.»

Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder, 23 jan° 2015.

Morreu de medo…

José Horta Manzano

Suisse 7Estes dias, realiza-se o Fórum Econômico Mundial, simpósio que, ano após ano, congrega os grandes deste mundo durante alguns dias em Davos, Suíça. Em seus tempos de esplendor, nosso guia fazia questão de comparecer e aparecer. Este ano, quarenta chefes de Estado fizeram questão de estar presentes, assim como 1500 dirigentes de multinacionais – um total de 2900 participantes.

É possível que a Mongólia não tenha enviado representante. É também provável que nenhum responsável do Haiti ou do Butão esteja presente.

Pelo ordenamento constitucional brasileiro, os cargos de chefe de Estado e de chefe do governo são exercidos pela mesma pessoa. Atualmente, dona Dilma Rousseff encarna esse superpersonagem.

Suisse 4Pois dona Dilma, mostrando que sua autoestima anda mais baixa do que se imagina, fez saber que preferia desdenhar a Suíça e prestigiar a reentronização de seu ídolo Evo Morales. A escolha há de ser fruto de um daqueles ataques de voluntarismo de que nossa presidente é vezeira. Recuso-me a acreditar que seus assessores, posto que sejam tacanhos, lhe tenham aconselhado trocar Davos por La Paz.

A ausência da figura maior da nação brasileira no fórum assinala marcha à ré na política de projeção mundial entabulada por nosso guia doze anos atrás. Põe a perder o esforço – às vezes atabalhoado, mas sincero – de alçar o nome do Brasil entre as potências planetárias.

Suisse 6Não acredito em escolhas ideológicas. Se dona Dilma faltou à reunião, foi por orgulho. Fugiu para escapar às críticas e à reprovação a seu modo de gerir a coisa pública. O mundo sabe, hoje, que a gestão de seu primeiro quadriênio foi calamitosa. Todos sabem também que nada de auspicioso se apresenta para o futuro próximo.

Resultado: como em reuniões familiares, fala-se mal dos ausentes. O economista-chefe do IHS – instituto americano de análise econômica e tecnológica – chegou a qualificar de «moribundo» o estado de saúde do Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Índia e o México estão no foco da admiração. De fato, ninguém gosta de quem anda pra trás.

Suisse 5Dona Dilma tem perdido apoio internamente. Sua renúncia a representar o país em reuniões importantes periga ser interpretada como renúncia do Brasil a participar do clube dos grandes deste mundo. Nosso guia há de estar desgostoso.

De criança, a gente cantava um refrãozinho de deboche que assenta bem na atual chefe do Estado brasileiro. Começa com «Morreu de medo…». E termina com «… no dedo».

As balanças de dona Dilma

José Horta Manzano

O braço armado da Justiça indonésia aplicou ontem a pena capital a meia dúzia de indivíduos. Todos eles haviam sido condenados por infração gravíssima à lei nacional que reprime a produção e o tráfico de drogas entorpecentes.

Entre os executados, estava um conterrâneo nosso. Traficante multirrecidivista, o moço estava preso e condenado havia mais de dez anos. Iludido pelo clima tropical, imaginou que sua saga teria o desfecho usual no Brasil: a impunidade e o apagamento da memória.

Deu-se mal. Assim como nem tudo o que reluz é ouro, clima quente não é automaticamente sinônimo de justiça mansa. Que o diga a cidade-estado de Singapura, aquela onde quem atira papel na rua paga multa de mil dólares.

Dilma indignadaDona Dilma – aquela que já integrou milícias cujo intuito era eliminar inimigos a tiros – «indignou-se». Chamou para consultas seu embaixador em Djacarta. Não há que pasmar: faz parte do jogo. Em código diplomático, significa que o Brasil está descontente. Daqui a algumas semanas, quando a poeira tiver baixado, o embaixador volta a seu posto, e vira-se a página.

A boa notícia é que dona Dilma já não parece mais raciocinar como fazia nos anos 1970. Já abandonou a ideia de que a solução tem de passar pelo estampido das armas. A má notícia é que dona Dilma tem várias balanças – nem todas aferidas pelo mesmo gabarito.

De fato, não me lembro de jamais ter lido uma linha sobre eventual «indignação» presidencial em referência aos mais de 150 assassinatos que ocorrem todos os dias no país que ela mesma governa há mais de quatro anos.

São cento e cinquenta execuções. Por dia. Ontem, hoje e amanhã também. Sem processo, sem condenação, sem habeas corpus, sem advogado, sem embargos infringentes. Sem «indignação» presidencial e sem recolha de embaixador.

Ah, essas balanças desreguladas… Faz-se urgente a criação de um Ministério de Pesos e Medidas.

Pátria educadora

Carlos Brickmann (*)

Sim, Dilma disse num dia que o lema de seu governo seria: “Brasil, pátria educadora”. E, na mesma semana, houve cortes no orçamento federal. Os maiores cortes atingiram o Ministério da Educação.

Mas a pátria educadora não é apenas a educação: é também a cultura. E o Museu Nacional, com 196 anos de história, maior instituição latino-americana de antropologia e história natural, fechou as portas ao público.

"Que notas são estas?" by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

“Que notas são estas?”
by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

Motivo: há três meses a Universidade Federal do Rio de Janeiro não paga as empresas terceirizadas de limpeza e segurança. Os serviços foram paralisados e o museu não podia mesmo receber visitantes.

Por que a UFRJ, subordinada ao Ministério da Educação, parou de pagar? Porque o governo federal parou de repassar as verbas para esses serviços. O salário de dezembro dos funcionários não saiu, nem o vale-transporte. E os 4 milhões que prometeram liberar nesta semana não resolvem o problema.

É a pátria educadora em ação.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.

A marcha dos 4 milhões na França envergonha o Brasil

Cláudio Tognolli (*)

Paris

Paris

A marcha dos 4 milhões, em Paris, envergonha a América Latina em geral e o Brasil em particular. Prova que, tecnicamente, abandonamos a cidadania há muito.

Magro e grave, outro dia um comerciante dos Jardins comentava: «Em São Paulo, se mata apenas para ouvir o barulho do tombo. Mas deixa pra lá, sempre foi assim». No Brasil roubos e matanças já se incorporaram ao nosso biótipo: saem pela urina. E sem pedrinhas machucantes.

Há finais de semana em que se matam 50 pessoas em São Paulo. Homicídios mataram 56 mil brasileiros em 2013. Qual o hino da Irlanda? Na prática, a balada Sunday Bloody Sunday, do U2. Sabe quantos morreram no Domingo Sangrento em janeiro de 1972? Quatorze ativistas. Quantos morreram no nosso Carandiru? Cento e onze. Os números brutais de matanças no Brasil não mais nos emocionam.

O brasileiro incorporou à sua sub-rotina o acostumar-se com mortes a quilo e roubos a tonelada. Uma vez, em Israel, um ministro caiu por desviar seis mil dólares. Por aqui, todos seguem firmes com o petrolão. E Dilma vai muito bem, obrigado.

Interligne vertical 11aNo livro Os Sertões, Euclydes da Cunha descreve o brasileiro como o Hércules-Quasímodo: «Falta-lhe a aparência impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente».

Somos Hércules porque ainda sobrevivemos nesta pré-coerência estilizada que é a cidadania brasileira.

Os 4 milhões de pessoas nas ruas não protestaram apenas contra as mortes. Protestaram contra o estado de coisas que o terror traz.

Bordeaux

Bordeaux

Sabem o que é o terror? É o medo sem objeto. Por isso, a Bruxa de Blair fez tanto sucesso: não eram tubarões ou Jasons ou Chucks no ataque: eram ventos, galhinhos. Era o Nada. Por isso, Heidegger e Sartre diziam que a questão mais fundamental da filosofia do século 20 era o Nada.

A França não quer viver no estado do Nada. Neste sábado, os policiais franceses foram orientados a retirarem suas fotos das redes sociais porque «o ataque terrorista pode vir de qualquer canto». Ninguém suporta o terror sem objeto.

Isso serve para os dois lados. Logo depois do ataque às torres gêmeas, o presidente George W. Bush mostrava a foto dos 19 terroristas. Mais tarde, proibiu a divulgação. Saía de cena o «terrorista» e entrava o «terrorismo», o que justificava combatê-lo onde interessasse a Bush. Foi assim que se forjou a invasão do Iraque.

Marselha

Marselha

O cineasta Alfred Hitchcock admitia que «não existe terror no estrondo, mas na antecipação dele». Richard Nixon, que foi presidente dos EUA, gostava de dizer que «as pessoas reagem ao medo, não ao amor». E Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que «falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito».

O terrorismo vive de efeitos. Quer se fazer presente mesmo onde jamais vai estar. A França não protesta apenas contra as mortes, mas contra um estado de coisas no ar.

Mas o brasileiro jamais vai conhecer esse tipo de sensibilidade. Afinal, Hércules-Quasímodo não tem tempo pra essas coisas…

(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico.

Interligne 18cObservação deste blogueiro
Analisando os 56 mil homicídios que ocorrem no Brasil a cada ano, chegamos à média de 153 por dia. Dá 6,4 por hora. Desde o momento em que o distinto leitor iniciou a leitura deste artigo, é enorme a probabilidade de (pelo menos) um humano ter sido assassinado. Comparados a nossa cifra impressionante, os caídos em guerras e guerrilhas de Afeganistão, Iraque, Síria & adjacências – todos juntos! – são café pequeno. Nesse ramo de atividade, pelo menos, somos campeões do mundo. Fazemos mais e melhor que qualquer país em guerra.

Já acabou

José Horta Manzano

Inimigas 1Em entrevista concedida à jornalista Eliane Cantanhêde, dona Marta Suplicy – figurinha carimbada e assaz longeva do petismo – declarou que «ou o PT muda ou acaba». Causou frisson no partido. Passadas 24 horas, os líderes atuais ainda estão discutindo o teor da resposta.

O amargor de dona Marta é compreensível. Nos tempos áureos em que caminhava sobre tapete vermelho, ganhava eleição e era prestigiada no partido, a vida lhe parecia mais doce. Não deu nem um pio quando estourou o escândalo do mensalão. Continuou calada quando companheiros foram condenados à prisão fechada.

Sua contribuição maior ao folclore político brasileiro – aquela que marcará sua biografia – foi a frase pronunciada em jun° 2007, no auge da crise da aviação conhecida como apagão aéreo. Nove entre dez brasileiros pensantes se lembrarão de sua declaração debochada: «Relaxa e goza!». Raras foram as figuras políticas capazes de despertar, com três palavras, reprovação instantânea, nacional e unânime. Dona Marta realizou a façanha.

Dilma e MartaSua bronca com o partido é relativamente recente. Desde que o Lula, seu padrinho, deixou a presidência, os holofotes se desviaram pouco a pouco da senadora. Pra reverter a situação, ela bem que tentou algum golpe de estrelismo. Não funcionou. É situação pra lá de frustrante para quem se afiliou ao partido 35 anos atrás.

Pra pôr a coisa em termos polidos, direi que dona Dilma e ela não são exatamente amigas do peito. Desbocada como criança mimada, Marta pisoteou muita gente e colecionou inimizades. Nos próximos quatro anos, sua probabilidade de obter posto de destaque são franzinas. Desesperançada com a falta de perspectiva, a senadora – que completará 70 anos daqui a dois meses – resolveu chutar o pau da barraca.

Inimigas 1«Ou o PT muda ou acaba» – foi o que disse. Tenho o embaraçoso dever de lembrar à senadora que, como partido, o PT já acabou faz mais de dez anos. A antiga agremiação que lutava contra roubalheira e injustiças se degenerou, se abastardou, se desnaturou. Pulou a cerca e exibe hoje perfil de organização criminosa.

Já faz tempo que o Brasil inteiro entendeu a metamorfose desse curioso partido. Está na hora de dona Marta também reconhecer a realidade.

Interligne 18b

A contar desta semana, a jornalista Eliane Cantanhêde passa a assinar uma coluna no Estadão. Suas análises aparecerão três vezes por semana. O link permanente está anotado na coluna da direita, no tópico meus links preferidos.

Tomara que caia

Guilherme Fiuza (*)

by Jorge Braga, desenhista goiano

by Jorge Braga, desenhista goiano

«O mensalão e o petrolão não são casos de corrupção. Pertencem a um sistema de corrupção, montado sob a bandeira da justiça social e da bondade.

(…) E as investigações já mostraram que esse sistema esteve ligado diretamente ao Palácio do Planalto nos últimos dez anos. Um deputado de oposição disse que o maior medo do PT não era perder a eleição presidencial, mas que depois Dilma fizesse delação premiada.»

(*) Guilherme Fiuza é jornalista e escritor. Excerto de artigo publicado no jornal O Globo. Para ler na íntegra, clique aqui.

Os 39 ministérios

José Horta Manzano

Dilma ministerio 2Estive dando uma espiada na lista dos 39 integrantes do obeso ministério de dona Dilma. Encontrei lá algumas curiosidades.

Temos dois ministérios encarregados de zelar pela agricultura: o Ministério da Agricultura e o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Falta, no entanto, um Ministério da Pecuária – uma das maiores fontes de renda do País. Original, não é?

O Ministério da Educação, o Ministério da Cultura e o Ministério da Saúde coexistem. Nos tempos em que nosso país era menos desvairado, uma pasta cuidava sozinha dos três assuntos.

Há um curioso Ministério de Assuntos Estratégicos. Sua denominação soa incômoda e até ofensiva para com os outros ministérios. É como se os outros, não sendo estratégicos, fossem de secundária importância. Quais seriam esses «assuntos estratégicos» que não são da conta de outras pastas? Relações bolivarianas? Contabilidade paralela? Conchavos com “base aliada”?

Dois ministérios parecem disputar a mesma área: o das Comunicações e o da Comunicação Social. A denominação deixa claro que um deles é voltado para o social. E o outro que faz?

Temos o Ministério das Cidades, mas não o Ministério do Campo. Fica aqui a sugestão para o quadragésimo. Mais de cem anos atrás, Eça de Queirós já distinguia as cidades e as serras.

Sempre imaginei que Justiça fosse conceito abrangente. Aos olhos dos teóricos do Planalto, não é. Nossa justiça é magrinha. Diversas áreas foram amputadas do Ministério da Justiça para constituir ministérios separados: Ministério da Igualdade Racial, Ministério de Direitos Humanos, Ministério de Políticas para as Mulheres. Privada de cuidar de direitos humanos, o que é que sobra na pauta da Justiça? Será o direito dos animais?

Dilma ministerio 1Temos um peculiar Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Fome não se combate com ministério, mas com escola e formação profissional. E essas são atribuições de outros ministérios. Esse da fome, portanto, há de ser o que distribui a bolsa família.

O Ministério dos Transportes sofre pesada concorrência do Ministério da Aviação Civil. A coexistência dos dois deixa a impressão de que avião civil não é meio de transporte. Fica aqui registrada a sugestão de dois novos ministérios: o da Viação Civil (para cuidar dos ônibus) e o do Desenvolvimento Ferroviário (para promover implantação de ferrovias).

Fico a me perguntar para que serve o Ministério da Integração Nacional. Se o Brasil está-se desintegrando, não será um ministério a mais que vai estancar a dissolução do País. Política boa e bem-intencionada não precisa de ministério exclusivo. Quem garante – ou devia garantir – a integração do País é o chefe do Executivo. No caso, nossa presidente.

by Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

by Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

Dá pena saber que há um Ministro dos Portos. Faria mais sentido mandá-lo para Cuba, para gerir o ultramoderno Puerto de Mariel, presente do povo brasileiro aos empreiteiros amigos. Nosso portos estão sucateados. A verba destinada à manutenção do ministério seria mais bem empregada na recuperação de nossos terminais.

Para encerrar – e para não cansar demais o distinto leitor – informo que, velando pelo comércio e pela indústria, temos dois ministérios. Por um lado, o do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Por outro, o da Micro e Pequena Empresa. Assim, indústria, microempresa, pequena empresa e comércio exterior estão cobertos. E grandes empresas de comércio interno como é que ficam? Soltas no organigrama?

«C‘est du grand n‘importe quoi» – é uma salada de asneiras, como dizem por aqui.

Vem de cima

José Horta Manzano

Cachorro 13Desde pequenino, a gente ouve dizer que o exemplo vem de cima. É pura verdade. Assim como a criança se molda imitando os adultos, a sociedade se norteia pelo exemplo de seus líderes. É lógica da qual não dá pra escapar.

O cão rosna para afastar quem ousar se aproximar dele na hora da comida. Por natureza, o homem também é egoísta. Se se deixar dominar pelo instinto, não há de se comportar de modo diferente. Não somos espontaneamente altruístas – muito pelo contrário. «Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.»

Assalto 1A educação, a família, a escola, a sociedade e – mais importante ainda – os que estão no topo da pirâmide são os que ditam o ritmo e o tempo da valsa. Com pequenas variantes individuais, os cidadãos de determinada sociedade costumam agir e reagir de modo coerente e homogêneo.

Petrificado, leio que vítimas de um desastre ferroviário nos arrabaldes do Rio de Janeiro foram assaltadas enquanto aguardavam por socorro.

Já tinha ouvido falar em roubo de carga espalhada na estrada por motivo de colisão de veículos. Já tinha ouvido falar em saqueio a casas abandonadas por motivo de terremoto ou tsunami. Já tinha até ouvido falar em assalto a cidadãos presos no tráfego e impossibilitados de se defender.

Ambulância 1De agressão a vítimas de acidente, é a primeira vez que tenho notícia. Parece difícil que nossa sociedade descambe ainda mais baixo na escala da selvageria. Até brutamontes do Velho Oeste sabiam que não se atira em homem caído. Todo bandido sabe que tampouco se deve atirar em ambulância.

Assaltar vítimas de desgraça – infligindo-lhes, assim, duplo castigo – é covarde e ignóbil. É ato incompreensível num País cuja presidente afirmou, ainda outro dia, que seu governo é «o que mais tem combatido malfeitos».

Das duas, uma:

Interligne vertical 151) A correia de transmissão de valores, que deveria conduzir o exemplo do topo à base, está emperrada. Há que providenciar conserto urgente.

2) Ou então – o que é bem pior – a correia está, sim, funcionando. O comportamento abjecto dos que assaltaram vítimas de desastre é mero reflexo do comportamento dos inquilinos do andar de cima. Os valores do topo estão-se alastrando para a base. Meu pirão primeiro, companheiro!

O distinto leitor é livre de escolher a opção que lhe pareça mais adequada.

Os cinco selecionados

José Horta Manzano

Diplomacia não é o forte de dona Dilma – isso não é novidade. Mas há momentos em que ela consegue se superar e atingir a excelência na arte de maltratar autoridades estrangeiras.

Dilma e Joe Biden, vice-presidente dos EUA

Dilma e Joe Biden, vice-presidente dos EUA

Reportagem do jornal O Globo informa que nossa presidente recebeu 15 pedidos de entrevista formulados por autoridades estrangeiras que vieram prestigiar sua tomada de posse. Dos quinze, só cinco foram atendidos. Madame descartou dez.

Assim, dois terços dos solicitantes voltarão para casa chupando o dedo. E pensar que, depois de abandonar família e amigos no réveillon de ano-novo, essa gente atravessou mundo para aplaudir dona Dilma. Não os receber é grande falta de educação. Se concedesse dez minutos a cada um, em menos de duas horas a fatura estaria liquidada. Além de malcriada, a presidente está sendo mal aconselhada – o que tampouco é novidade.

O artigo não diz quem foram os rechaçados. Mas dá a lista dos que foram atendidos. São eles: o representante dos EUA, o da China, o da Suécia, o da Venezuela e o da Guiné-Bissau. Vamos tentar adivinhar a razão dessa seleção.

Dilma e Stefan Löfven, primeiro-ministro da Suécia

Dilma e Stefan Löfven, primeiro-ministro da Suécia

Estados Unidos e China são os mais importantes parceiros comerciais do Brasil. Recusar-lhes o pedido de entrevista seria pecado mortal. Faz sentido.

Quanto à atenção dedicada ao primeiro-ministro sueco, a explicação deve ser buscada nos 36 aviões de caça Gripen encomendados pelo Planalto. Conforme já comentei em meu artigo Os aviõezinhos, há negociações em curso para aumentar o volume encomendado. Passará de 36 a 108 aparelhos, num valor total de cerca de 50 bilhões de reais. Sem dúvida, num negócio dessa magnitude, o acerto de determinados «detalhes» vale meia hora do precioso tempo presidencial.

Dilma e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

Dilma e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

Señor Maduro, mandatário da infeliz e “bolivariana” Venezuela, foi outro para quem dona Dilma abriu as portas da sala de visitas. A intenção há de ter sido consolar o companheiro em perdição. O coitado deve estar-se sentindo cada vez mais só, depois que Cuba – importante membro do clube anti-imperialista – anunciou seu desligamento para dentro em breve.

O último dos agraciados com a simpatia de nossa presidente foi o mandachuva da Guiné-Bissau, país qualificado como narcoestado pela Agência da ONU contra a Droga e o Crime. Pobre, com área pouco superior à do Estado de Alagoas, a Guiné vive da exportação da castanha de caju. Oficialmente.

Por lá, é raro que se passe um ano sem golpe de Estado e assassinato de dirigentes. Bissau é conhecido ponto de passagem da cocaína proveniente da Colômbia. É “hub” importante. De lá, a droga é redirecionada para diversos destinos europeus, para onde é levada por infelizes que conhecemos como ‘correios’, ‘mulas’ ou ‘aviõezinhos’.

Dilma e José Mario Vaz, mandatário da Guiné-Bissau

Dilma e José Mario Vaz, mandatário da Guiné-Bissau

Não atino qual seja o interesse de nossa presidente em receber o atual homem forte de país tão estranho. Ela deve conhecer a razão. Se não, seus aspones saberão.

As dez autoridades rechaçadas deviam representar pouco interesse aos olhos da tosca diplomacia do Planalto. Como dizia o outro: “Dize-me a quem concedes entrevista e dir-te-ei quem és”.

Os sinos e a Petrobrás

Cora Rónai (*)

Espanto 1É Natal, bimbalham os sinos, o mundo gira e a Lusitana roda — mas, nem por isso, as informações sobre a roubalheira na Petrobrás deixam de nos surpreender. Ou, como gosta de dizer a “presidenta”, de nos estarrecer. Assisti à entrevista que a Venina deu à Glória Maria, e fiquei estarrecida. Não com as denúncias — afinal, eu precisaria ser mais ingênua do que Dilma e Graciosa juntas para acreditar que nem uma nem outra sabiam do que se passava na empresa — mas comigo mesma por, paradoxalmente, não mais me estarrecer diante do que ouvia.

Sinto que nada do que eu possa vir a saber sobre a Petrobrás ou sobre o governo poderá, jamais, me estarrecer; a minha capacidade de estarrecimento está esgotada.

A única coisa que ainda me causa algum espanto em relação à Petrobrás é o profundo silêncio dos seus 85 mil funcionários. Cadê os protestos? Cadê as passeatas? Cadê a vergonha na cara?

(*) Cora Rónai é jornalista e escritora. O texto é excerto de sua coluna d’O Globo, 25 dez° 2014.

Você acredita?

José Horta Manzano

Estatísticas 1Saiu o resultado da última sondagem do Ibope. Mede a aprovação do atual governo. Segundo o instituto, a maneira de governar de dona Dilma, que era aprovada por 48% dos entrevistados em setembro, subiu a espantosos 52%.

Uma conclusão se impõe: escândalos de corrupção nas altas esferas são proveitosos para o governo. Se outras falcatruas continuarem a ser descobertas – e tudo indica que ainda há muita sujeira a ser revelada – a presidente periga terminar seu quadriênio com aprovação staliniana, coisa de 90%–95%.

Desse jeito, ainda vai conseguir cacife para modificar a Constituição e obter um terceiro mandato. O Lula que se cuide!

Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Ah, essas pesquisas…

Clube dos salafrários

Fernão Lara Mesquita (*)

«Desde 2003, a Petrobrás vem sendo assaltada em ritmo de carro forte recheado de dinheiro, um atrás do outro, puxado pro clube dos salafrários. Só na refinaria Abreu e Lima a conta subiu de 4 para 24 bilhões e nada.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

A Dilma doa-a-quem-doer e toda aquela diretoria chefiada pela amiga do peito só deu pela falta de alguma coisa quando a turma da delação premiada começou a confessar suas proezas.

Como eles agem dentro daquela empresa onde qualquer gerentinho tem conta de 100 milhões de dólares na Suíça, caminhão de dinheiro lá some e ninguém nota.»

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

Quem com ferro fere…

José Horta Manzano

Todos teremos de ir embora um dia – essa é a lei. Já que a partida é inelutável, gostaríamos todos de deixar imagem positiva, pranteada, admirada, respeitada. Nem todos conseguem.

Janio 1Entre políticos e outros medalhões, uma vez cumprida a ambição de chegar lá, resta o consolo de cuidar da própria biografia. «Um dia não estarei mais aqui, mas, pelo menos, deixarei boa lembrança» – costuma ser o mote.

O falecido Jânio Quadros, por exemplo, batalhou para deixar imagem de estadista, de salvador da pátria. O que ficou foi a lembrança de um amalucado sem rumo.

Mandatários poderosos e longevos como Hitler, Stalin, Franco & companhia tiveram todos, um dia, a ilusão de que seriam lembrados como fundadores de nova pátria, de nova estirpe, de nova orientação. São hoje repudiados como arautos da desgraça que, por causa deles, se abateu sobre seu povo.

Aerolula 1O grupo político conhecido como PT pode espernear quanto quiser, que não vai adiantar. Sua imagem guardará a indelével marca da corrupção, da sujeira, do oportunismo e da malandragem. Daqui a alguns anos, quando os atuais figurões estiverem fora de cena, o partido (ou o que restar dele) certamente mudará de nome. Será maneira simbólica de apagar o passado. Há antecedentes no País.

O naufrágio de um agrupamento não significa necessariamente o afogamento coletivo de todos os seus membros. Assim como o senador Suplicy, até seu derradeiro dia de mandato, não terá sido atingido por nenhum respingo de escândalo, outros podem (ou poderiam) livrar a cara – para falar vulgarmente.

A perspectiva de ser lembrada como personalidade execrável não parece comover dona Dilma. Apesar de ter prometido mudança de atitude em seu discurso de reeleita, as últimas notícias não indicam redirecionamento no bom sentido. Aqui está um trecho do artigo publicado pelo jornalista Cláudio Humberto em seu Diário do Poder deste 14 dez° 2014:

Dilma AerolulaInterligne vertical 11a«Militares ganham pouco, ralam muito, são maltratados, sobretudo quem serve no Grupo de Transportes Especiais (GTE), responsável pelos aviões utilizados pela Presidência da República. Mas conseguem se divertir. Mostrando que esculacho não garante respeito, militares da FAB ridicularizam grosserias rotineiras de que são alvo chamando o jatão Airbus, que transporta Dilma Rousseff, de “Vassourão”.

Dilma está longe de ser uma Miss Simpatia a bordo dos aviões da FAB. A vingança veio a jato: passaram a se referir a ela como “Bruxa”

Taí. Ainda não é tarde demais. Dona Dilma ainda tem quatro anos pela frente para enfeitar a biografia. Se se obstinar nessa arrogância de menina mimada, periga ser um dia lembrada como aquela que já foi tarde.

Lei do Inquilinato

José Horta Manzano

«Extra! Extra! Saiu a nova Lei do Inquilinato!» Quarenta ou cinquenta anos atrás, era comum ouvir, pelas esquinas, pregão anunciando mudança nas normas que disciplinam contratos de locação imobiliária.

Pelas esquinas do centro da cidade, vendedores instalavam precária banquinha, que cobriam com livrinhos de capa mole. Em seguida, no grito, chamavam a atenção da clientela para a importância da nova legislação. A situação inspirou Lino Tedesco que compôs samba chamado justamente «A Lei do Inquilinato», lançado em 1957 pelos Demônios da Garoa.

Lei do Inquilinato – versão 29 dez° 1956

Lei do Inquilinato – versão 29 dez° 1956

Hoje em dia, alterações nas regras de locação são menos frequentes, o que é um passo no bom sentido. Só para dar uma ideia, saiba o distinto leitor que, entre 1950 e 1969, foram promulgadas 17 (dezessete) leis ditas «do inquilinato». Cada uma aposentava a anterior – era praticamente uma lei por ano. E todos compravam o livrinho de capa mole. Eram tempos em que o cidadão contava menos com o Estado e mais com sua própria diligência.

Tudo isso mudou muito. Hoje há direitos às pencas e parcos deveres. Como resultado da pletora de advogados, cresce a judiciarização das relações entre indivíduos. Onde, antes, uma conversa e um acordo resolviam, hoje se move processo. Onde, antes, um pedido de desculpas resolvia, hoje só uma compensação financeira destrinçará.

O cidadão tem o sentimento difuso de ser assistido por direitos inalienáveis. Em sua lógica, a correlação entre deveres e direitos não é automática. Direitos existem per se, independentemente dos atos que cada uma possa praticar. Essa percepção beata é problema de raiz, antigo, que o paternalismo exacerbado destes últimos anos vem agravando.

Interligne 18c

Tudo, até aqui, foi digressão. Entrei por uma trilha lateral e quase me perdi. Volto ao cerne.

«Extra! Extra! Saiu a nova pesquisa Datafolha

A sondagem indica que 68% dos brasileiros atribuem a dona Dilma alguma responsabilidade pelo saqueio da Petrobrás. São sete entre dez cidadãos, um veredicto inapelável!

Pesquisa 4O que inquieta é o fato de, assim mesmo, 42% dos entrevistados julgarem boa ou ótima a gestão da presidente. Incongruente? Bota incongruência nisso, compadre!

Resumo da ópera
Saqueio, roubalheira, assalto, mentira, governo mafioso, propaganda enganosa, obras inacabadas, contratos superfaturados, dinheiro do contribuinte que termina no bolso de medalhões – nada disso tem importância. Dona Dilma, segundo 42% dos habitantes, gere bem o País. «Que roubem à vontade, desde que eu continue recebendo minhas migalhas» – parecem dizer.

Confusão mental? Esquizofrenia? Doutrinamento? Condicionamento que Pavlov explica? Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que dizem.

Os aviõezinhos

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno se interessa por assuntos de aviação, veja você! Quando pode, ele gosta de dar uma vista-d’olhos em notícias de avião e de aeronáutica.

Passeando pelo portal Flightglobal, referência em matéria de artefatos voadores, deu com um artigo sobre os caças encomendados por nossas Forças Aéreas à firma sueca Gripen.

A informação é pra lá de surpreendente. Todos tínhamos ficado sabendo que a encomenda brasileira era de 36 aparelhos. Pois parece que a quantidade já não é mais aquela. Um misterioso «representante» das Forças Armadas, cuja entidade não foi revelada, informa que a compra será triplicada. Em vez de 36 aviões, a Aeronáutica quer adquirir 108 aparelhos. Cento e oito! Dá exatamente três vezes a quantidade inicial.

Caça Gripen - foto Saab

Caça Gripen – foto Saab

Quando uma novidade dessa magnitude é espalhada à boca pequena, meio envergonhada, é bom desconfiar. A grande mídia brasileira não noticiou. É muitíssimo suspeito que decisão de gasto de 17.4 bilhões de dólares (quase 45 bilhões de reais!) seja tomada assim, nos bastidores, sem que ninguém dê um pio.

Sigismeno, que é meio bobão mas não chega a ser idiota total, ficou com a pulga atrás da orelha. Achou que era muito dinheiro e, pior que isso, percebeu que a notícia chegava em hora imprópria. Com esses desfalques à Petrobrás pipocando a cada dia, a informação de que quase 50 bilhões de reais vão ser gastos com aviões de combate cai particularmente mal.

Avião 10Esquisitice por esquisitice, Sigismeno constatou que essa história dos caças já começou torta. O Lula, presidente na época, anunciou que ia comprar Rafales franceses. Depois, deixou o dito pelo não dito, enfiou o rabo no meio das pernas, voltou aos palanques e esqueceu o assunto. Sobrou para a sucessora.

Depois de quase quatro anos de vai não vai, a pupila decidiu finalmente bater o martelo. Contrariando o que o padrinho havia garantido, firmou compromisso com a sueca Gripen. Seriam 36 aviões. Como é possível que, em momento tão delicado, os 36 se possam ter transformado em 108?

Avião 6Sigismeno tem sua ideia. Ele soube das recentes passeatas em que parte da população, sentindo-se frustrada com o que acontece no andar de cima, começa a clamar pela volta dos militares ao comando da nação. Interpretou esse aumento nas despesas militares como um afago, uma “bondade” para com os quartéis. Entendeu que o governo, desnorteado e atazanado, trata de acalmar as casernas.

É como se o Planalto dissesse: «Fiquem por aí, amigos uniformizados. Guardem seus tanques e não saiam às ruas. Não fica bem humilhá-los oferecendo malas de dinheiro, mas tomem estes aviõezinhos e façam deles bom uso. Se quiserem, podemos até comprar mais alguns, que dinheiro é o que não falta. Mas, por favor, deixem-nos em paz.»

Na falta de explicação mais convincente, estou inclinado a acreditar que meu amigo pode até ter razão. Esse Sigismeno tem cada uma…