O eco do escândalo

José Horta Manzano

Num sábado frio e sem noticia, num dia em que Trump não assustou, em que o Irã não derrubou nenhum avião, em que ninguém fugiu do Japão dentro de mala, a fala do bizarro Secretário da Cultura do Brasil caiu como luva. Não há site nem jornal europeu que não tenha publicado um eco da esquisitice. Deu até no rádio.

Doutor Alvim, homem de pouca visão, certamente não se dá conta de que a doutrina nazista não combina com nosso país. O primeiro e principal postulado do pensamento nazista é a pureza racial. Num país como o nosso, onde a maior parte da colorida população tem sangue mestiço, a doutrina pode servir pra marchinha de Carnaval. Na vida real, não serve.

Quando a intenção de aplicá-la é externada por um medalhão da República – num vídeo oficial, com bandeira e retrato do presidente – já não é caso de manicômio, mas de polícia. Tivesse acontecido na França ou na pátria de Goebbels, doutor Alvim já teria sido convocado para rigoroso interrogatório policial. Com perspectiva de sanção pesada podendo levar até à cadeia.

Trago um apanhado das manchetes da mídia europeia sobre o assunto.

No Brasil, importante dignitário da Cultura demitido por discurso com alusões à propaganda nazista.
The New York Times, EUA

 

No Brasil, o Secretário de Estado da Cultura apeado depois de discurso em que repetiu palavras de Goebbels
L’Obs, França

Citações de Goebbel em discurso escandaloso: vídeo obriga o Ministro da Cultura do Brasil a demitir-se.
Focus Online, Alemanha

Ministro da Cultura do Brasil é demitido – citou Goebbels
Televisão Sueca, Suécia

Brasil: o ministro usa as palavras de Goebbels. O responsável pela Cultura é demitido por Bolsonaro.
La Repubblica, Itália

Escândalo no Brasil: o Secretário da Cultura copiou Goebbels e Bolsonaro o despediu.
La Nación, Argentina

A marcha dos 4 milhões na França envergonha o Brasil

Cláudio Tognolli (*)

Paris

Paris

A marcha dos 4 milhões, em Paris, envergonha a América Latina em geral e o Brasil em particular. Prova que, tecnicamente, abandonamos a cidadania há muito.

Magro e grave, outro dia um comerciante dos Jardins comentava: «Em São Paulo, se mata apenas para ouvir o barulho do tombo. Mas deixa pra lá, sempre foi assim». No Brasil roubos e matanças já se incorporaram ao nosso biótipo: saem pela urina. E sem pedrinhas machucantes.

Há finais de semana em que se matam 50 pessoas em São Paulo. Homicídios mataram 56 mil brasileiros em 2013. Qual o hino da Irlanda? Na prática, a balada Sunday Bloody Sunday, do U2. Sabe quantos morreram no Domingo Sangrento em janeiro de 1972? Quatorze ativistas. Quantos morreram no nosso Carandiru? Cento e onze. Os números brutais de matanças no Brasil não mais nos emocionam.

O brasileiro incorporou à sua sub-rotina o acostumar-se com mortes a quilo e roubos a tonelada. Uma vez, em Israel, um ministro caiu por desviar seis mil dólares. Por aqui, todos seguem firmes com o petrolão. E Dilma vai muito bem, obrigado.

Interligne vertical 11aNo livro Os Sertões, Euclydes da Cunha descreve o brasileiro como o Hércules-Quasímodo: «Falta-lhe a aparência impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente».

Somos Hércules porque ainda sobrevivemos nesta pré-coerência estilizada que é a cidadania brasileira.

Os 4 milhões de pessoas nas ruas não protestaram apenas contra as mortes. Protestaram contra o estado de coisas que o terror traz.

Bordeaux

Bordeaux

Sabem o que é o terror? É o medo sem objeto. Por isso, a Bruxa de Blair fez tanto sucesso: não eram tubarões ou Jasons ou Chucks no ataque: eram ventos, galhinhos. Era o Nada. Por isso, Heidegger e Sartre diziam que a questão mais fundamental da filosofia do século 20 era o Nada.

A França não quer viver no estado do Nada. Neste sábado, os policiais franceses foram orientados a retirarem suas fotos das redes sociais porque «o ataque terrorista pode vir de qualquer canto». Ninguém suporta o terror sem objeto.

Isso serve para os dois lados. Logo depois do ataque às torres gêmeas, o presidente George W. Bush mostrava a foto dos 19 terroristas. Mais tarde, proibiu a divulgação. Saía de cena o «terrorista» e entrava o «terrorismo», o que justificava combatê-lo onde interessasse a Bush. Foi assim que se forjou a invasão do Iraque.

Marselha

Marselha

O cineasta Alfred Hitchcock admitia que «não existe terror no estrondo, mas na antecipação dele». Richard Nixon, que foi presidente dos EUA, gostava de dizer que «as pessoas reagem ao medo, não ao amor». E Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que «falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito».

O terrorismo vive de efeitos. Quer se fazer presente mesmo onde jamais vai estar. A França não protesta apenas contra as mortes, mas contra um estado de coisas no ar.

Mas o brasileiro jamais vai conhecer esse tipo de sensibilidade. Afinal, Hércules-Quasímodo não tem tempo pra essas coisas…

(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico.

Interligne 18cObservação deste blogueiro
Analisando os 56 mil homicídios que ocorrem no Brasil a cada ano, chegamos à média de 153 por dia. Dá 6,4 por hora. Desde o momento em que o distinto leitor iniciou a leitura deste artigo, é enorme a probabilidade de (pelo menos) um humano ter sido assassinado. Comparados a nossa cifra impressionante, os caídos em guerras e guerrilhas de Afeganistão, Iraque, Síria & adjacências – todos juntos! – são café pequeno. Nesse ramo de atividade, pelo menos, somos campeões do mundo. Fazemos mais e melhor que qualquer país em guerra.