As balanças de dona Dilma

José Horta Manzano

O braço armado da Justiça indonésia aplicou ontem a pena capital a meia dúzia de indivíduos. Todos eles haviam sido condenados por infração gravíssima à lei nacional que reprime a produção e o tráfico de drogas entorpecentes.

Entre os executados, estava um conterrâneo nosso. Traficante multirrecidivista, o moço estava preso e condenado havia mais de dez anos. Iludido pelo clima tropical, imaginou que sua saga teria o desfecho usual no Brasil: a impunidade e o apagamento da memória.

Deu-se mal. Assim como nem tudo o que reluz é ouro, clima quente não é automaticamente sinônimo de justiça mansa. Que o diga a cidade-estado de Singapura, aquela onde quem atira papel na rua paga multa de mil dólares.

Dilma indignadaDona Dilma – aquela que já integrou milícias cujo intuito era eliminar inimigos a tiros – «indignou-se». Chamou para consultas seu embaixador em Djacarta. Não há que pasmar: faz parte do jogo. Em código diplomático, significa que o Brasil está descontente. Daqui a algumas semanas, quando a poeira tiver baixado, o embaixador volta a seu posto, e vira-se a página.

A boa notícia é que dona Dilma já não parece mais raciocinar como fazia nos anos 1970. Já abandonou a ideia de que a solução tem de passar pelo estampido das armas. A má notícia é que dona Dilma tem várias balanças – nem todas aferidas pelo mesmo gabarito.

De fato, não me lembro de jamais ter lido uma linha sobre eventual «indignação» presidencial em referência aos mais de 150 assassinatos que ocorrem todos os dias no país que ela mesma governa há mais de quatro anos.

São cento e cinquenta execuções. Por dia. Ontem, hoje e amanhã também. Sem processo, sem condenação, sem habeas corpus, sem advogado, sem embargos infringentes. Sem «indignação» presidencial e sem recolha de embaixador.

Ah, essas balanças desreguladas… Faz-se urgente a criação de um Ministério de Pesos e Medidas.