Dia da caça

José Horta Manzano

Mais dia, menos dia, doutor Bolsonaro volta pra casa. Pode ser que aguente até o fim do mandato, mas pode também ser que não. O futuro dirá. Até agora, não há sinais de a próxima residência ser na sede da PF em Curitiba. Vamos admitir que escape ileso. Pode ser que ele deixe o Planalto daqui a três anos, no fim deste mandato; pode também ser que fique mais sete anos, caso o reelejam (hipótese em que não acredito); pode até sair antes, como dona Dilma, aquela que todos imaginavam estar parafusada ao trono. O fato é que, um dia, ele sairá. Ninguém escapa ao destino.

Sabe o que vai acontecer então? Ora, as cartas estão dadas. Basta refletir um pouquinho. Vamos fazer isso juntos? Pois bem, ao assumir o cargo, o que é que doutor Bolsonaro anunciou, alto e bom som? Muitas bobagens que, na maior parte, acabaram esquecidas. Mas uma das promessas foi cumprida. O novo presidente tinha garantido, já durante a campanha, mandar «desaparelhar» a máquina do Estado. Dito assim, quem é que pode ser contra? Ou alguém gostaria de ser governado por um aparelho partidário – sinistra expressão que lembra o regime de Pequim, de Moscou, de Havana e outras excrescências por aí. Vade retro, Satanás!

Apesar disso – ou talvez justamente por causa disso – doutor Bolsonaro foi eleito com confortável maioria de votos. Desde então, o que tem feito? Ora, tem «desaparelhado» a máquina do Estado. Ou «despetizado», que é a expressão oficial pras bandas do Planalto. Só tem uma coisa. Quem é que está ocupando o lugar dos antigos picaretas? Novos picaretas, ora! Todos os recém-chegados se declaram bolsonaristas desde criancinhas, assim como os antigos eram lulopetistas de carteirinha. O ponto comum entre os antigos e os novos? A incapacidade, a ineficiência, a ausência de espírito público, a firme intenção de nunca contradizer o chefe.

Diante da paralisação do MEC em virtude do caos administrativo gerados por incompetentes instalados em postos que não têm capacidade de ocupar, o folclórico ministro da Educação mandou gastar as verbas atualmente «contingenciadas». Só que, na ausência de projetos e de gente qualificada, ninguém tem a menor ideia de como empregar o dinheiro. Pode uma coisa dessas? Dinheiro, há; só que ninguém sabe o que fazer dele.

Agora chegamos ao ponto. No dia em que o atual presidente, digamos assim, “se aposentar” do cargo, virá um outro – é o que reza a Constituição. Que fará esse outro? Seja ele quem for, tomará, entre as primeiras medidas, a «desbolsonarização» de ministérios, repartições, autarquias. Toda essa cambada de incapazes perderá a boquinha e cederá o lugar a nova… cambada de incapazes.

E assim vai nosso país. Aos trancos e barrancos. Só que fica a impressão de que os barrancos são sempre descendentes. Sente-se o tranco, e aí vem o barranco que leva pra baixo. Da vez seguinte, sente-se novo tranco e cai-se mais um pouquinho. E assim por diante. Depois do tranco, nunca se sobe. É uma pirambeira(*) sem fim.

No exame de aptidão para o cargo, que eu incluiria entre os requisitos obrigatórios para todo cidadão que quisesse se candidatar à presidência, eu incluiria que o postulante desse prova de ter lido – e entendido – pelo menos uma vintena de livros. Romance e HQ não valem. Enquanto isso não for implementado, continuaremos a suportar, empoleirados lá em cima, os que escolhemos. Não há que se iludir: a faixa presidencial não transforma ignorantes em sábios.

Pardus maculas non deponit.
O leopardo não perde as manchas.

Máxima latina

(*) À atenção de meus distintos leitores portugueses, explico que pirambeira (ou perambeira) é brasileirismo. Termo de origem pré-cabralina, corresponde ao panluso despenhadeiro, conhecido em todos os países de língua portuguesa.

Segunda língua

José Horta Manzano

Fiquei sabendo estes dias que senhor Abraham Weintraub, nosso peculiar ministro encarregado da Instrução Pública, lançou crítica pesada contra um certo programa Idiomas sem Fronteiras, lançado em 2014 e destinado a permitir a universitários a aquisição de uma língua estrangeira.

Confesso que, até ontem, desconhecia a existência desse programa. A mídia informa que o ministro determinou a descontinuação do projeto por estar ele sendo usado principalmente para «pagar o Teste de Inglês como Língua Estrangeira». Não entendi bem. Certas noções me superam. Devo estar ficando velho. Será que esse teste é tão caro que precisa de um programa governamental pra financiá-lo? Certamente entendi mal.

Pouco importa. Uma coisa entendi: no Brasil, a expressão língua estrangeira é sinônimo de inglês. Não parece haver ninguém se inscrevendo no programa pra «pagar o teste» de alemão, de francês ou de russo, pois não? Nesse ponto, o Brasil me lembra a China. Lá também o inglês é A língua estrangeira. Todos os chineses acreditam que, dominando a língua inglesa, estarão aptos a comunicar-se com o mundo todo. Ficam visivelmente desnorteados quando encontram um estrangeiro que não entende inglês.

Entendi outra coisa também. E esta é mais grave. Entendi que centenas de milhares de jovens – universitários! – precisam de um programa para aprender a primeira língua estrangeira. Isso significa que, no Brasil, a juventude chega à maioridade mergulhada na pobreza do monolinguismo. Será que isso quer dizer que, nestes tempos de internet, viagens internacionais superfacilitadas, intercâmbios accessíveis, companhias aéreas de baixo custo, telefone internacional gratuito (e com imagens!), os brasileirinhos estão condenados a viver dentro dos limites da língua pátria?

É destino cruel e excludente. Reforça a desigualdade social ao permitir que somente os bem-nascidos tenham direito a desabrochar num horizonte multilíngue, aberto para o mundo. Só quem tem dinheiro pode suprir o que a escola não dá. O populacho está irremediavelmente condenado a passar a vinda assistindo a filme dublado ou legendado, a viajar em grupo com direito a intérprete, a não entender nem jornal, nem gibi, nem mesmo letreiro de loja escrito em «estrangeiro». Que horizonte afunilado!

Aprendizado de língua estrangeira deveria ser intensivo e começar nos primeiros anos de escola. Nos tempos de antigamente, quando este blogueiro frequentava as carteiras escolares, aprendíamos latim, francês e inglês. Em escola pública, frise-se. O ensino do latim e do francês começava no primeiro ano de ginásio, que corresponde ao quinto ano de estudos. O inglês era dado a partir do ano seguinte. Dependendo do ano, eram duas, três ou quatro aulas semanais de cada uma dessas línguas. A gente chegava à maioridade, se não dominando o inglês e o francês, pelo menos com muito bons conhecimentos. Por que será que não é mais assim?

Um Lula, uma Dilma e um Bolsonaro são produtos do monolinguismo. Vivem imersos num mundinho fechado, sem abertura para o resto do planeta. Dependem de intérprete pra todas a situações. Sozinhos no estrangeiro, não encontram nem o caminho do banheiro. Se tivessem tido a chance de aprender na escola uma segunda língua, o Brasil seria um país diferente. Pena que não foi assim. Quem sabe, um dia, a coisa muda?

A crase e a crise

José Horta Manzano

Doutor Schelb, indicado pelo presidente eleito para chefiar o Ministério da Educação, já estava encomendando o terno para a posse. A bancada evangélica acolhia a nomeação com bons olhos. Faltava um nadinha pra o martelo ser batido. A equipe de doutor Bolsonaro achou que era hora de permitir um vazamento maroto para a imprensa. O nome do futuro ministro passou a circular pela mídia.

Chamada Estadão, 22 nov° 2018

Ah, pra quê… Naquele dia, o estagiário de um grande jornal estava mais sonolento que de costume. Ao costurar a manchete, tropeçou feio: tascou uma crase onde não devia. Onde é que já se viu escrever um à descomplexado bem diante de palavra masculina? E, pior ainda, diante de palavra no plural?

A bancada evangélica não gostou do que viu. Ministro da Educação anunciado com erro gramatical? Nããão! Jogaram o bebê com a água do banho. Assustados, demitiram o figurão antes mesmo de ele ter sido oficializado. Doutor Bolsonaro foi obrigado a escolher outro auxiliar. Na manhã desta sexta-feira, é fato consumado ‒ novo nome já foi dado a público.

Pátria educadora – 2

Cláudio Humberto (*)

Beca 1A Universidade Federal do Paraná abriu 60 vagas no curso de Direito especialmente reservadas para os “beneficiários do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária”.

Se dinheiro sobra para financiamento de estudo dos sem-terra, falta para o Ministério da Educação. Com a crise financeira, o governo cortou R$ 1 bilhão no orçamento do seu ministério “mais importante”.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Pátria educadora

Carlos Brickmann (*)

Sim, Dilma disse num dia que o lema de seu governo seria: “Brasil, pátria educadora”. E, na mesma semana, houve cortes no orçamento federal. Os maiores cortes atingiram o Ministério da Educação.

Mas a pátria educadora não é apenas a educação: é também a cultura. E o Museu Nacional, com 196 anos de história, maior instituição latino-americana de antropologia e história natural, fechou as portas ao público.

"Que notas são estas?" by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

“Que notas são estas?”
by Emmanuel Chaunu, desenhista francês

Motivo: há três meses a Universidade Federal do Rio de Janeiro não paga as empresas terceirizadas de limpeza e segurança. Os serviços foram paralisados e o museu não podia mesmo receber visitantes.

Por que a UFRJ, subordinada ao Ministério da Educação, parou de pagar? Porque o governo federal parou de repassar as verbas para esses serviços. O salário de dezembro dos funcionários não saiu, nem o vale-transporte. E os 4 milhões que prometeram liberar nesta semana não resolvem o problema.

É a pátria educadora em ação.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais.