PT paz e amor?

José Horta Manzano

Numa tática inútil, o Partido dos Trabalhadores tem-se aplicado, entre os dois turnos, a eliminar de sua propaganda eleitoral e de seu portal internet toda referência extremista. Posições de marcado viés ideológico, como o apoio ao regime bolivariano de Maduro, desapareceram. A figura de Lula da Silva foi ocultada. O vermelho foi removido. O candidato à Presidência e sua vice (filiada ao Partido Comunista!) se apresentaram, contritos, em Aparecida neste feriado religioso. Até comungaram. Uma graça.

by Elvis Braga Ferreira, desenhista amazonense

Essa estratégia, além de não atingir o objetivo de arrecadar mais votos no segundo turno, escancara a desorientação de um agrupamento em via de decomposição. De fato, quando um partido se põe a renegar pontos essenciais de sua doutrina, é sinal de que os alicerces apodreceram. Prédio a esse ponto deteriorado requer demolição urgente, antes que desabe na cabeça dos moradores.

Essa manobra de ocultação de princípios, além de não agregar nenhum voto, é tática suicida. Senão, vejamos. Por um lado, os antipetistas não vão passar a votar nos candidatos do partido só porque os louvores ao regime bolivariano desapareceram do programa. Por outro, os petistas não vão deixar de apoiar o partido só por causa desse detalhe. Portanto, o jogo é de soma zero. Noves fora, sobra o desespero explícito de um agrupamento em perdição.

A dura semeadura

José Horta Manzano

Em artigo publicado esta semana, o diário espanhol El Pais deu conta do terrível calvário que o povo venezuelano está sofrendo em decorrência da corrupção generalizada que assola o país. A situação é inimaginável. A vida de nossos infelizes vizinhos do norte se está dissolvendo numa implacável geleia geral.

Um caminhão que percorre os 800km que vão de Táchira a Caracas com uma carga de 3000kg de bananas chega ao destino com 300kg a menos. É a regra e já faz parte da rotina. Postos de polícia cobram «pedágio» de todos os caminhões que trafegam. Todos têm de pagar o dízimo.

Um mês atrás, produtores de queijo do Estado de Apure passaram duas noites num cárcere por se terem recusado a entregar dez por cento da carga que levavam. O confisco generalizado conta com o apoio de policiais e de prefeitos municipais, todos alinhados com o tiranete Maduro. A mercadoria sequestrada será vendida no mercado negro a peso de ouro.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

A situação, grave e revoltante, desanima os agricultores. Os que costumavam cultivar para vender desistem e acabam plantando para sobreviver. A produção encolhe a olhos vistos. Faltam sementes. Faltam insumos. O assalto generalizado gera escassez e provoca violenta subida dos preços, alimentando a já descontrolada inflação.

Quinze anos atrás, a produção agrícola da Venezuela cobria 70% das necessidades da população. Em 2017, a produção nacional mal deu pra suprir 25% do consumo.

A vida no Brasil, ainda que nos pareça dura, é verdadeiro paraíso aos olhos de um venezuelano. Nossa corrupção, que corrói o fruto do trabalho de todos, é menos visível. Na Venezuela, esse tipo de criminalidade é escancarado, onipresente. O baque é mais violento. Como se sabe, violência gera violência, num círculo infernal.

Os infelizes vizinhos que fogem do país para refugiar-se em Roraima têm fome. Por maiores que sejam nossos problemas, passar fome, para nós outros, é inconcebível.

Quando se assiste a esse drama, dá um tremendo alívio. Se não tivéssemos afastado do governo o lulopetismo ‒ cujo chefe chegou a dizer um dia que «a Venezuela tem democracia em excesso» ‒, poderíamos estar na mesma situação.

Escapamos! Deus é brasileiro.

Os sem-passaporte

José Horta Manzano

Quando a situação se torna insustentável a ponto de o cidadão não ver outra saída senão abandonar a terra natal, surge a dúvida: para onde ir? Por razões culturais, políticas, linguísticas ou histórico-geográficas, cada povo tem preferências que lhe são próprias.

A maioria dos brasileiros, independentemente de origem étnica ou posição social, tende a olhar direto para os Estados Unidos. Faz um século que é assim. Por mais que Mr. Trump se aplique a desconstruir a imagem do país, os EUA continuam a ser vistos como terra prometida. Descendentes de japoneses, por seu lado, costumam ver na terra dos ancestrais um porto seguro. Há também conterrâneos nossos que se espalham por Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Portugal e tantos outros destinos.

Não é segredo para ninguém que a Venezuela atravessa o pior momento de sua história. Tirando a franja ligada à ditadura, a população pula miudinho. Ricos e pobres pelejam contra inflação de quatro algarismos, falta de alimentos e de remédios, altíssima taxa de desemprego, criminalidade. À vista de ingredientes tão explosivos, não espanta que haja mães entregando filhos a quem se dispuser a alimentá-los. Coisa de deixar de cabelo em pé.

Venezuelanos também sentem atração pelos Estados Unidos, mas não só. Por razões históricas e linguísticas, enxergam a Espanha e a América hispânica com simpatia. As estimativas atuais dão conta de que 250 mil deles elegeram a Espanha como lugar para iniciar vida nova. A América de fala espanhola tem a preferência de quase 800 mil venezuelanos, dos quais meio milhão se encontram na vizinha Colômbia. O total de expatriados beira 5% da população. É como se dez milhões de brasileiros tivessem optado pela emigração, uma enormidade.

Para acentuar o calvário de nossos vizinhos do norte, várias máfias se jogam sobre os infelizes como urubus sobre carniça. Uma das mais ativas é a que controla a emissão de passaportes. Agem de forma covarde e pra lá de maldosa. Para deixar o país, precisa ter passaporte, não é? Pois então, vamos assaltar os que buscam obter o documento ‒ pensam eles.

No serviço de emissão de passaportes situado na região leste de Caracas, age uma quadrilha de funcionários corruptos que extorquem milhares de dólares dos candidatos a obter o ansiado documento. Num país falido, o negócio é altamente rentável. Quem não quiser pagar, simplesmente não vai conseguir o documento. Pela via oficial, seu passaporte vai demorar mais de ano pra ficar pronto. Se vier um dia.

Coisa parecida acontece com venezuelanos residentes no exterior. Quando se dirigem ao consulado para renovar o passaporte, recebem a terrível notícia: a renovação é impossível. Por quê? As desculpas variam: pode ser por falta de papel, por falta de tinta, por falta de vontade, por falta de vergonha.

Desconfia-se que señor Maduro tenha dado ordem para impedir que expatriados retornem ao país. Cidadãos que vivem no exterior, menos expostos à demagogia oficial, tendem a se posicionar contra a ditadura vigente. Se dispuserem de passaporte, perigam voltar à pátria e votar contra o tiranete nas eleições que devem ocorrer em breve. Melhor mantê-los longe.

Ao fim e ao cabo, com passaporte vencido, os venezuelanos expatriados se veem em situação delicada. Ainda que se encontrem em situação regular no país em que vivem, a falta do documento lhes causa problemas no dia a dia. Ficam impedidos, por exemplo, de renovar visto de permanência, de encontrar emprego, de conseguir casa pra morar. Vê-se que, em ditaduras, o povo não passa de massa de manobra a serviço da nomenklatura.

Tinha razão o Lula presidente quando, ao assinar acordo entre a Petrobrás e a estatal venezuelana de petróleo, declarou que a Venezuela tinha «democracia em excesso». Sábias palavras de um visionário.

Falam de nós – 25

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Como os demais veículos da mídia mundial, o quotidiano italiano Il Giornale publicou o relato da apreensão do passaporte do Lula. A notícia foi dada em termos bastantes sugestivos.

Dou aqui abaixo um trecho. Vai primeiro na língua original ‒ traduzo em seguida.

Lula era pronto a scappare in Etiopia: il giudice gli fa sequestrare il passaporto

Lo aspettava a braccia aperte il segretario generale dell’Onu, António Guterres, ad Addis Abeba, la capitale dell’Etiopia dove oggi, dalle 15 alle 18, su invito dell’Unione Africana doveva parlare su come «vincere la fame nel mondo» a un evento ‒ non ridete ‒ tutto incentrato «su come combattere la corruzione».

Invece Lula ha suo malgrado deluso le attese del vecchio amico portoghese Guterres – compagno di socialismo anche se non tanto come l’ex premier lusitano, ex carcerato ed inquisito, José Socrates. Ha dovuto farlo perché, dopo la condanna a 12 anni e un mese di martedì per riciclaggio e corruzione, l’altroieri notte il giudice Ricardo Leite, di Brasilia, ha ordinato il ritiro del passaporto all’uomo che Barack Obama aveva definito «il miglior politico del mondo»: un acume obamiano invidiabile.

Minacciare di «mettere a ferro e fuoco il Paese» con discorsi eversivi che somigliano tanto a quelli dei gruppi chavisti più violenti controllati dal dittatore venezuelano Maduro – il solo leader latinoamericano col cubano Raúl Castro ad avere attaccato frontalmente la «giustizia fascista brasiliana» di certo non aiuta a frenare l’arresto di Lula.

Lula estava pronto para fugir para a Etiópia: o juiz ordena apreensão do passaporte

Esperava-o de braços abertos o secretário-geral da ONU, António Guterres, em Adis Abeba, capital da Etiópia onde hoje, das 15h às 18h, convidado pela União Africana, devia falar sobre como «vencer a fome no mundo» num evento ‒ sem piada ‒ focado em «como combater a corrupção».

No entanto, embora a contragosto, Lula decepcionou o velho amigo português Guterres, companheiro de socialismo ‒ amigo não tão chegado como o ex-primeiro-ministro lusitano José Sócrates, ex-encarcerado e inculpado. Lula não teve outra saída porque, na esteira da condenação a 12 anos e um mês por lavagem de dinheiro e corrupção, o juiz Ricardo Leite, de Brasília, ordenou a apreensão do passaporte daquele que Barack Obama tinha qualificado como «o melhor político do mundo» ‒ numa invejável perspicácia obamiana.

Ameaçar de «incendiar o país» com pronunciamentos subversivos tão parecidos com os dos mais violentos grupos chavistas controlados pelo ditador venezuelano Maduro ‒ o único líder latino-americano, com o cubano Raúl Castro, a ter atacado frontalmente a «justiça fascista brasileira» ‒ por certo não contribui para evitar a prisão de Lula.

Que clique aqui quem tiver interesse em ler na íntegra.

Ciberpiratas

José Horta Manzano

AQUI
Parece milagre. Para nós todos, tão acostumados com a lentidão e o desleixo dos guardiães da língua na tarefa de aportuguesar palavras estrangeiras, é um espanto. Tomando a dianteira sobre o francês, o espanhol, o italiano e outras línguas próximas, o mui oficial Volp ‒ Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa ‒ já abonou o termo «ciberpirata», perfeita adaptação do inglês «hacker». A transposição foi muito feliz. A palavra portuguesa evoca exatamente a figura do indivíduo que passeia pela rede recheado de más intenções. Estamos liberados para usar e abusar do termo sem aspas e sem sentimento de culpa. Aleluia!

Ciberpirata 1


O governo espanhol confirma ter constatado, estas últimas semanas, a invasão do espaço cibernético nacional. As redes sociais do país estão inundadas de milhares de perfis falsos que propagam «pós-verdades»(*). Todas elas seguem clara linha de incentivo à independência da Catalunha. Está comprovado que as investidas vêm da Rússia e… da Venezuela, veja só.

O fenômeno se assemelha ao que se viu nos EUA durante a campanha para as eleições presidenciais do ano passado. Naquela ocasião, a pirataria só foi descoberta tarde demais, quando Mr. Trump já estava eleito. Escaldados, os peritos que investigam esse tipo de ataque já acenderam o sinal vermelho no caso da Catalunha.

Ciberpirata 3

O assunto é delicado. Apesar da certeza sobre a origem dos ataques, o governo espanhol optou por manter certa discrição, pelo menos por enquanto. À boca pequena, corre a informação de que Madrid tem provas que incriminam a Rússia. Mas certas verdades são incômodas. Se acusados, os russos vão imediatamente negar. Será palavra contra palavra. Ao final, um incidente diplomático estará criado sem que a piratagem cesse. Não vale a pena.

Mas que interesse tem a Rússia numa hipotética independência catalã? ‒ deve estar-se perguntando o distinto leitor. À primeira vista, nenhum. Muito pelo contrário. Abrigando em seu vasto território dezenas de povos com línguas e religiões diferentes, a Federação Russa não deveria ver com bons olhos uma onda secessionista que partisse da Catalunha, varresse o continente e despertasse sentimentos nacionalistas no interior de seu imenso território.

Ciberpirata 2

No entanto, um exame mais atento desvela a razão da intervenção. À Rússia de Putin, não interessa uma Europa forte e unida. O enfraquecimento da União Europeia ‒ seu esfacelamento, se possível ‒ está entre as prioridades de Moscou. Farão tudo o que puderem para semear a discórdia no continente. O sonho do Estado russo é ver a Europa de novo subdividida em dezenas de pequenos países fracos e desunidos. É uma evidência: uma Europa despedaçada será um concorrente a menos.

E a Venezuela, o que faz nesse imbróglio? Abandonados por todos, nossos hermanos do norte precisam desesperadamente de aliados. Chineses, que são comerciantes na alma, não costumam se meter em política alheia. A Europa tem sérias restrições em apoiar a ditadura de Maduro. Resta a Rússia. Eis por que Caracas dá uma forcinha a Moscou na romântica tentativa de «quebrar» a Europa com a força de redes sociais.

Por mais exímios que sejam seus ciberpiratas, os russos não têm chance de conseguir, a médio prazo, o que desejam. A grande firmeza mostrada por Madrid deixa claro aos independentistas catalães que não conseguirão separar-se. E, ainda que isso desagrade a Moscou, a Europa segue firme e unida no apoio à Espanha.

(*) Faz mês e meio, escrevi sobre «pós-verdades». Clique aqui quem quiser recordar.

Coreia do Norte e Venezuela

José Horta Manzano

Duas maneiras de lidar com a paranoia

Coreia do Norte e Venezuela são países com vários pontos em comum. Têm população comparável: 25 milhões para o primeiro, 30 milhões para o segundo. Têm ambos a economia em frangalhos, com o povo passando fome enquanto a nomenklatura se farta de champanhe e caviar. Os dois países são atormentados por uma ditadura ‒ a da Coreia é hereditária e a da Venezuela segue adiante com sucessor designado.

Talvez a semelhança maior entre as duas nações seja a ignorância manifesta da classe dirigente, que parece viver num outro planeta, à margem da civilização. É certo que ambas as cliques vivem numa situação de paranoia permanente. Com ou sem razão, acreditam estar prestes a ser atacados por forças militares estrangeiras. Os tuítes estrambóticos do atual inquilino da Casa Branca não fazem senão reforçar esse sentimento. O folclórico personagem já ameaçou os coreanos com «fogo e furor» e não excluiu intervenção armada no nosso vizinho do norte.

Kim Jong-un, ditador da Coreia do Norte

Agora falemos das diferenças. A Coreia do Norte não foi agraciada pelos deuses na hora da distribuição das riquezas. O solo é pobre, as reservas minerais não são significativas. Como o país não fornece estatísticas oficiais, é difícil conhecer a economia no detalhe. Estima-se um baixíssimo PIB per capita, entre 1000 e 1500 dólares por ano. Para comparação, o do Brasil é dez vezes mais elevado.

Já a Venezuela passou três vezes na fila da distribuição de riquezas. Tem petróleo a dar com o pau ‒ a maior reserva do mundo. O solo é rico e o sol, generoso. Se tivesse lá aportado, Pero Vaz de Caminha não hesitaria em afirmar: «em se plantando, dar-se-á nela tudo». No entanto… o povo passa fome. Um paradoxo.

Ambos os países são governados por gente ignorante e paranoica, disso já sabemos. Mas há sensível diferença na maneira que cada qual encontrou pra lidar com essa sensação de iminente ataque externo.

A Coreia do Norte investiu (e continua investindo) o pouco que tem em armamento dissuasivo. E tem tido sucesso. Os testes balísticos destes últimos meses nem de longe têm intenção de atingir o Japão, nem Guam, nem quem quer que seja. Servem apenas de advertência: «Não brinquem conosco, que temos como nos defender». E olhe que tem funcionado. Alguém ousaria atacar o país?

Nicolás Maduro, ditador da Venezuela

Já a Venezuela, ai, santa ignorância! Como já fazia seu finado mentor, señor Maduro tem se contentado em subir o nível das bravatas. Incapaz de alimentar o povo, com o país expulso de facto do Mercosul, abandonado pelas companhias aéreas e impossibilitado de importar a não ser que pague adiantado, o bobão veio ontem com a enésima fanfarronice. Prometeu enviar «ajuda humanitária» de cinco milhões de dólares para as vítimas das enchentes de Houston.

O mandachuva de um país cujos cidadãos fogem aos milhares por falta do que comer não tem o direito de cometer tamanho escárnio. Os estragos causados pelas inundações no Texas são estimados, por alto, em 100 bilhões de dólares. Os cinco milhões doados por Caracas não vão além de 0,005% do total. Francamente, melhor faria señor Maduro se destinasse a bolada a comprar esparadrapo para seus hospitais.

Em resumo: a ditadura dinástica coreana está garantida por muitos anos. Quanto à Venezuela, ninguém apostaria um vintém furado na permanência do hermano bigodudo e paspalhão à frente da anacrônica ditadura.

Da boca pra fora

José Horta Manzano

Dois séculos atrás, Napoleão Bonaparte já tinha aprendido a lição dos antigos. Excluída a opção militar, só resta uma medida para amolecer o governo de um país e obrigá-lo a entrar na linha: o bloqueio econômico. Sem recursos financeiros, ninguém aguenta.

O Brasil e mais onze países hermanos publicaram nota conjunta exortando a Venezuela a voltar aos trilhos. Pelos códigos diplomáticos, é de bom tom, mas… sabe qual será a consequência? Nenhuma. Ou alguém imagina que señor Maduro tem medo de papel assinado? Declarações «da boca pra fora» não botam medo em ninguém.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Pensando bem, na sua agressiva ingenuidade, Mr. Trump estava mais próximo do bom caminho. Uma ameaça de intervenção militar no país vizinho ‒ se tivesse sido feita na surdina e com jeito ‒ teria sido mais eficaz. Pena que o presidente americano seja tão desastrado. Com seu gesto desengonçado, queimou o trunfo maior e pôs tudo a perder.

Grosso modo, a Venezuela só exporta petróleo enquanto importa todo o resto. Na medida que o mundo continuar comprando petróleo venezuelano e vendendo mercadorias a nosso vizinho de parede, a agonia vai-se prolongar. Se os doze signatários do dito Grupo de Lima ‒ entre os quais, naturalmente, o Brasil ‒ deixassem de comprar da Venezuela e se abstivessem de vender-lhe o que fosse, a ditadura estaria com os dias contados.

Francamente, nesta altura dos acontecimentos, a coisa por lá anda tão feia que vale a pena adotar atitude firme. Perseguida pelas milícias armadas, a procuradora-geral do país teve de se refugiar na Colômbia ontem. O distinto leitor se dá conta da gravidade do acontecimento? É como se doutor Janot, acossado por esbirros palacianos e com a vida em perigo, tivesse de pedir asilo ao Paraguai. O perfeito retrato do deus nos acuda.

As coisas estão de pernas pro ar. Quem devia estar pedindo refúgio é o caudilho e seu entourage truculento e ignorante. Que escapem todos rapidinho para Cuba (ou para a Coreia do Norte) e deixem o maltratado povo venezuelano respirar.

A fome ‒ fruto da imprevidência

José Horta Manzano

Dia 8 de agosto, os chanceleres do Brasil e de mais dezesseis países americanos ‒ do Canadá à Argentina ‒ reuniram-se em Lima (Peru) para avaliar a situação da Venezuela, país à beira da insurreição.

Diferentemente do que acontece nas festivas reuniões de G7, G20 & congêneres, a foto de família mostra caras sisudas, expressões fechadas. Não fosse a roupa vermelha de uma das participantes, daria até para imaginar que o orador estivesse pronunciando o elogio fúnebre de algum figurão. Infelizmente, não se chora o falecimento de um cidadão, mas a morte de um país inteiro. Dá muita pena.

Declaração de Lima, agosto 2017
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Diferentemente dos emirados do Golfo Pérsico, cuja única riqueza ‒ o petróleo ‒ jaz debaixo de solo arenoso e estéril, a Venezuela tem múltiplos trunfos. Debaixo dos pés, está a maior reserva de petróleo conhecida no planeta, mais importante que a da Arábia Saudita. Já no lugar da areia infértil dos desertos médio-orientais, está a exuberância da flora e da fauna equatoriais. Vegetação, terra boa, chuva, sol o ano todo, superfície equivalente a três Itálias, população razoável de 30 milhões de viventes deveriam ter produzido uma potência tropical.

No entanto, a abundância de petróleo, em vez de ajudar, atrapalhou. De um século para cá, sucessivos governos se apoiaram mais e mais na exploração e na exportação do mineral bruto, descurando as demais fontes de riqueza. O que tinha de acontecer aconteceu. O valor do petróleo caiu no mercado internacional. Ao mesmo tempo, o governo foi tomado por uma clique sem eira nem beira, sem âncora ideológica, sem tino comercial, interessada apenas no enriquecimento pessoal. O apeamento do lulopetismo do governo brasileiro e a aproximação entre Cuba e os EUA deram o golpe final. Deu no que deu: o país está isolado na cena internacional.

Doha, Catar

Enquanto isso, os estados da Península Arábica, mais previdentes, não dormiram no ponto. Cientes de que a riqueza mineral vai se extinguir mais dia menos dia, aproveitaram para investir a fortuna amealhada nos tempos de vacas gordas. Deram ao imenso capital destino diversificado. Além de aplicar haveres fora do país, fomentaram a implantação de capitais estrangeiros sobre as areias escaldantes. Têm hoje linhas aéreas poderosas, filiais de universidades de renome, centros de pesquisa avançados. Ainda que o petróleo deixasse de jorrar amanhã, o futuro dos pequenos emirados estará garantido.

Na infeliz Venezuela, nada disso aconteceu. Usaram o rendimento do petróleo para enriquecer figurões e para importar tudo aquilo de que necessitavam, de gêneros alimentícios a papel higiênico. O resultado da negligência e de crônicos erros de gestão estão aí: milhões de hermanos passam fome. Literalmente.

A reunião de chanceleres em Lima não podia ir além de declaração de princípios. Unanimemente, rechaçaram a ditadura iniciada por señor Chávez e consolidada por señor Maduro. Como ajudar os venezuelanos? Não vejo outra saída senão a derrubada do regime. Intervenção militar externa está fora de moda. Assim sendo, é triste constatar, mas não há outro jeito: eles terão de se livrar sozinhos da clique dirigente. Mas a coisa anda tão feia que não deve demorar.

Por que me ufano

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 julho 2017.

A época em que viveu o mineiro Afonso Celso, partilhada entre os séculos 19 e 20, permitia muitos sonhos. Problemas havia, como sempre os houve e sempre os haverá. Mas a solução das dificuldades nacionais parecia estar ali na esquina, ao alcance das gentes de boa vontade. Não é por acaso que o homem político e acadêmico lançou, há cem anos, seu livro mais conhecido: Porque me ufano do meu paiz. O título era esse mesmo, com o porque numa palavra só e o país com z, como se usava no tempo em que a escrita era menos engessada. O verbo ufanar é um preciosismo que nunca fez parte da linguagem do dia a dia. Benquisto então, é evitado hoje em dia. Excluídas as glosas do original, não conheço quem mais se tenha valido desse vocábulo. Não sei se o distinto leitor será da mesma opinião mas, quanto a mim, sinto que os baldes de surpresas que a cada dia nos despencam sobre a cabeça nos afastam do ufanismo. Não se passa uma semana sem que alguma novidade escabrosa venha alimentar nosso desencanto.

Faz uns dias, meia dúzia de senadoras ‒ senadoras da República, senhores! ‒ expulsaram os componentes da mesa diretora do Senado e se aboletaram naquele palco de vaidades apesar (ou talvez por causa) da presença de câmeras que transmitiam o constrangedor espetáculo para todo o país. Demonstrando que não se tratava de reação epidérmica e momentânea a algo que as tivesse desagradado, lá permaneceram horas seguidas, impedindo que a Casa seguisse debatendo. Despudoradamente, almoçaram sobre a mesa. Folhas de papel destinadas a dar rumo a 200 milhões de conterrâneos receberam, em vez de tinta, pingos de gordura. Francamente, não me ufano do meu país.

Um notório ex-presidente da República, antes incensado mas hoje acuado, acusado, inculpado e enrolado com a justiça, passa por cima da decência e da lógica. Na ânsia de afastar o cárcere que se lhe aprochega, aciona metralhadora giratória. São todos culpados, menos ele, que já se declarou a alma mais pura e honesta do Brasil. Sem ruborizar. Ataca políticos, procuradores, delegados, juízes, ministros. Engalfinha-se com a própria justiça. Mal aconselhado, faz exatamente o contrário do que deveria. É sabido que perfume de flores atrai mais que cheiro de vinagre. E pensar que o homem ocupou, por oito longos anos, o cargo público mais elevado da hierarquia política. Francamente, não me ufano do meu país.

Sem nenhuma espécie de processo judicial, a Procuradoria-Geral da República concedeu indulto total e definitivo a dois indivíduos que, durante anos, se haviam beneficiado de ilegalidades patrocinadas pelos altos escalões do Executivo. A absolvição, conferida em contrapartida à cínica confissão dos crimes e à pérfida entrega dos cúmplices, vem comprovar que o crime compensa. E muito. Herdeiros de um açougue, os mencionados indivíduos tornaram-se bilionários, favorecidos que foram com rios de dinheiro extorquidos, em última instância, do sofrido povo brasileiro. O acordo firmado com a Justiça garante aos delinquentes perdão antecipado de todos os crimes, incluindo os que não tiverem feito parte da confissão. Os irmãos, cujo sobrenome é ironicamente pio, gozam de liberdade absoluta e ‒ mimo soberano ‒ do direito de residir onde bem entenderem. Escolheram transitar entre a capital financeira dos EUA e o ensolarado sul daquele país. Nosso Supremo Tribunal Federal homologou o pacto. Francamente, não me ufano do meu país.

Semana passada, dois ou três partidos políticos brasileiros, num dos quais militam ainda hoje dois ex-presidentes da República, subscreveram documento em que externam apoio explícito e irrestrito a señor Maduro, tiranete de turno na vizinha Venezuela. Um ex-presidente de nossa maltratada República, justamente aquele que anda enrolado com a justiça, é presidente de honra de um desses partidos acumpliciados com o «bolivarianismo». Mais que isso, já se declarou candidato às próximas eleições presidenciais. A violência e as aberrações que o regime político de nosso vizinho do norte tem cometido contra o próprio povo são reprovadas por todos os países civilizados. Por obscuras (e talvez inconfessáveis) razões, o partido de nossos dois mais recentes ex-presidentes se posiciona na contramão da democracia e do processo civilizatório. O silêncio do dito presidente de honra confirma a anuência. Francamente, não me ufano do meu país.

Se a época de Afonso Celso permitia sonhos, a atual pressagia pesadelos.

Suicídio político

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 22 julho 2017

Em qualquer país civilizado, uma notícia desse tipo significaria repúdio da nação e o inevitável fim dos partidos que ousassem cometer essa enormidade.

É um bom termômetro para medir o grau de implicação dos brasileiros na política. Quem viver verá.

Mãe de todas as bombas

José Horta Manzano

Ainda bem que a memória humana é curta. A esmagadora maioria dos fatos acontecidos em passado próximo ou distante já nos teria saído da lembrança se não fossem registros escritos e livros de história.

Nos tempos que correm, a enxurrada de tragédias de que a gente fica sabendo deixam a impressão de que vivemos tempos terríveis, extraordinários, pontos fora de toda curva. Achamos que o mundo está sendo conduzido por desequilibrados e irresponsáveis dos quais nada de bom se pode esperar. Os impressionantes delírios de um Trump, de um Bachar, de um Maduro, de um Kim Jong-Un nos fazem esquecer que Hitler, Stalin, Mussolini, Napoleão já seguraram as rédeas e já fizeram das suas.

Dementes atuais relegam mentecaptos antigos ao baú do esquecimento. É melhor que seja assim. A cada época bastam seus desatinados.

Donald Trump se gabou, estes dias, de ter lançado a «mãe de todas as bombas» sobre um covil de djihadistas. Fica-se sabendo do prodigioso poder desse artefato bélico. Não se passaram dois dias, e Vladimir Putin manda dizer que dispõe de dispositivo de potência muito superior. Dá-lhe o nome de «pai de todas as bombas» e informa que sua arma tem poder ainda maior que o do rival. Seu potencial de explosão é quatro vezes superior ao dos EUA. Diz que já foi testada com sucesso e que está pronta para ser lançada se e quando necessário.

Hoje é Sábado de Aleluia, dia de malhar o Judas. Data venia, vamos sonhar um pouco, que não faz mal a ninguém. Sonho, qualquer dicionário confirma, é plano ou desejo absurdo, sem fundamento. Nestes dias em que grande parte da humanidade comemora a chegada da primavera, com sua simbologia de renascimento e renovação, por que não dar asas à fantasia e sonhar com algo (por ora) impossível?

Vamos imaginar que, no futuro, cientistas espremam seus miolos para inventar um engenho que, ao explodir, não destrua mas construa. Imagine o distinto leitor que se fabrique a «patriarca de todas as bombas». Ao ser acionada, consertaria, em um instante, as cidades e vilas destruídas na Síria. Reporia de pé monumentos milenares dinamitados por talibãs fanáticos. Reconstruiria localidades arrasadas por terremotos.

Essa, sim, seria uma criação digna de despertar respeito e admiração. Eu iria até mais longe. Lançaria a «patriarca de todas as bombas» sobre o Brasil, na esperança (e na expectativa) de que repusesse o país nos trilhos, que desse fim à corrupção que arruina o futuro de milhões em benefício do enriquecimento de um punhado de seres desprezíveis.

Infelizmente, acho que já estou pedindo demais. Certas coisas não são imagináveis nem em sonho.

Golpe de Estado bolivariano

José Horta Manzano

Mui acertadamente, o Itamaraty, quando da gestão de senhor Serra no Ministério das Relações Exteriores, mostrou os músculos, deu um murro na mesa e, na prática, suspendeu a Venezuela do Mercosul. Impediu assim que Caracas assumisse a presidência rotativa do grupo econômico. Bem haja, senhor chanceler!

Nosso vizinho petulante, habituado a contar com a boa vontade da companheirada, imaginou que tudo não passasse de jogo de cena. Em ofensa explícita ao Itamaraty, chamou a atitude brasileira de golpe e tentou forçar a entrada. Não deu certo. Encontrou portas e janelas fechadas.

Dois dias atrás, o tiranete venezuelano mandou fechar o Congresso de seu país. Ao eliminar um dos três poderes da república bolivariana, deu um golpe de Estado. Contando com a fidelidade canina de um Judiciário cooptado, señor Maduro tornou-se ditador de facto do país.

A Venezuela não é um país relevante na política nem na economia do planeta. O que se passa por lá não comove a humanidade, e as notícias não vão além de nota de rodapé. Vai daí, a atitude truculenta do brutamontes de Caracas não mereceu atenção planetária. Se o golpe tivesse acontecido no Zimbábue, o efeito não teria sido muito diferente.

Quanto ao Brasil, é outra coisa. Afinal, somos vizinhos de parede e sócios do mesmo clube. O Peru, que não é fronteiriço da Venezuela nem membro do Mercosul, chamou de volta seu embaixador em Caracas ‒ sinal de profundo desagrado, pelos sutis códigos diplomáticos. Já Brasília se contentou de um protesto mole, brando, protocolar, como mãezona que ralhasse com o filho: «Não faça mais isso, filhinho, senão a mamãe fica triste.»

A reação brasileira não está à altura da situação. Nosso protesto tem de ser enérgico, claro e ameaçador. Nosso embaixador tem de ser retirado imediatamente. Faz anos que o sofrido povo venezuelano vem vivendo um calvário inimaginável. Nem que seja por razões humanitárias, temos de dar uma mão ao vizinho. O melhor favor que podemos fazer a eles é forçar a queda do ditador. A solução do problema venezuelano passa obrigatoriamente por aí. Caído o mandatário e restabelecida a ordem constitucional, fica aberto o caminho para o país voltar aos trilhos.

Em outros tempos, podia-se esperar por uma intervenção dos EUA. Todavia, Mister Trump já deixou claro que esse tempo passou. O homem provavelmente nem sabe onde fica a Vene.. Vene… o que mesmo? O Brasil tem de assumir seu papel de membro mais importante do Mercosul. Vamos, senhores Michel Temer e Aloysio Nunes, coragem! Ou vamos nos conformar com uma ditadura colada à nossa fronteira amazônica?

Vem guerra por aí?

José Horta Manzano

Alianças militares e acordos de socorro mútuo em caso de ataque externo são velhos como o mundo. A formação do Brasil serve de exemplo: alianças militares entre portugueses e habitantes primitivos da Terra de Santa Cruz garantiram aos lusos a posse integral do território. De fato, ingleses, holandeses, espanhóis e franceses bem que tentaram, em diversas ocasiões, fundar estabelecimentos permanentes nas novas terras. Portugueses ‒ aliados a guerreiros indígenas ‒ deram cabo do que consideravam ‘invasão’ das terras que lhes haviam sido concedidas por bula papal. A colaboração militar foi determinante para botar os estrangeiros a correr.

Não fossem alianças militares em vigor em 1939, a Segunda Guerra poderia ter tido um desenrolar e um desfecho bem diferentes. Quando a Polônia foi invadida pelas tropas nazistas, França e Reino Unido viram-se obrigados a declarar guerra à Alemanha, em virtude dos acordos que haviam assinado com o Estado polonês. Foi o estopim da hecatombe.

Venezuela: fronteiras internacionalmente reconhecidas

Venezuela: fronteiras internacionalmente reconhecidas

Desde os primeiros séculos da colonização da América do Sul, houve disputa de fronteira entre Espanha e Reino Unido na região equatorial. Desde o século XVII, diversos acordos e tratados foram assinados e, em seguida, renegados. Em consequência da independência das colônias, iniciada no início do século 18, surgiu uma dúzia de países. Desinteressadas, as potências coloniais se retiraram, lavaram as mãos e deixaram os litígios para as novas nações.

Faz um século que o Brasil, com ativa participação do Barão do Rio Branco, resolveu todos os seus diferendos fronteiriços. Não é o caso de outros países sul-americanos. O contencioso equatorial hispano-britânico continua pendente. A Venezuela e a Guiana, vizinhos de parede, herdaram a pendenga.

Assim como a Argentina reclama a posse das ilhas Falkland (Malvinas), a Venezuela reivindica soberania sobre um pedaço de chão que representa mais da metade do território da vizinha Guiana. Trata-se da região do Essequibo, com superfície equivalente à do Ceará, rica em ouro, diamantes, manganês, bauxita, ferro e outros minerais.

Venezuela: em hachurado, a região contestada

Venezuela: em hachurado, a região contestada

A «Guayana Esequiba», como é chamada por Caracas, é escassamente povoada e praticamente inexplorada. Voltada essencialmente para a extração do petróleo, a Venezuela nunca levou a disputa territorial a ferro e a fogo. No entanto, os tempos estão mudando. Estrangulado pela gestão desastrosa e pela baixa do preço do petróleo, o governo está contra a parede, acuado por uma população cujo padrão de vida baixa a cada dia.

Na hora do aperto, nada como um inimigo externo para unir a população e desviar a atenção do problema maior. Costuma ser tiro e queda. Pela enésima vez, o governo venezuelano pôs na ordem do dia a questão do Essequibo. Para mostrar os músculos, anda aumentando o contingente de homens armados junto à fronteira. Faz também voos «de reconhecimento» com modernos caças russos, comprados no tempo de señor Chávez.

A tensão tem aumentado e começa a incomodar Brasília. Em 2009, Brasil e Guiana firmaram um acordo sobre cooperação em matéria de defesa. Embora não caracterize aliança militar nem tenha a força de um tratado, tem dado dor de cabeça à alta cúpula militar brasileira.

Venezuela: alguns mapas incorporam, sem cerimônia, o Essequibo

Venezuela: alguns mapas patrióticos incorporam, sem cerimônia, o Essequibo

Señor Maduro não é flor que se cheire. Caso decida seguir os passos dos ditadores argentinos ‒ que tentaram retomar manu militari as ilhas Falkland em 1982 ‒ encasquete de atacar a Guiana, como deve reagir o Brasil? Nada fazer equivaleria a ignorar compromisso assumido, atitude vergonhosa e desonrosa. Para defender a Guiana, restaria a via militar.

Nossa prioridade é a reconstrução de nosso país, destruído por anos de rapina e incompetência gerencial. Não sobra lugar para uma guerra sem sentido. Antes que o pior aconteça, cabe ao Itamaraty agir rápido. Mais vale intervir como mediador do que como combatente.

Feriado bolivarianista

José Horta Manzano

Petroleo 1Desde que o desvario bolivarianista deu início ao desmonte da Venezuela, nossos infelizes vizinhos passaram a viver sob perfusão.

Médicos, remédios e espiões vieram de Cuba. Do Brasil, veio esteio político e não seria espantoso se fosse um dia revelado que até auxílio financeiro tenha sido providenciado com nosso dinheiro público. A Rússia forneceu aviões e armamento.

Bem ou mal, o país foi levando, embalado por bravatas e amordaçado por repressão e cerceamento. Mas as coisas mudam com o tempo. No caso particular da república bolivariana, a evolução foi brutal. O barateamento do preço do petróleo, única fonte de renda do país, arruinou as finanças. Fanfarronices deixaram de sustentar ilusões.

A Rússia, que também tira da exportação de petróleo boa parte de seu sustento, também sofreu. Seu desempenho como padrinho da Venezuela apequenou-se.

Cuba, como se sabe, foi convidada pelo Grande Irmão do Norte a voltar a fazer parte da comunidade das Américas. Os bondosos irmãos Castro, que esperavam por isso havia meio século, não se fizeram rogar. Entre Venezuela e EUA, não hesitaram.

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Quanto ao Brasil, a cúpula política está preocupada em salvar a própria pele e escapar à prisão. Sobra pouco tempo para pensar em socorrer hermanos em dificuldade.

O resultado está aí: o país vizinho está à míngua, cada vez mais devagar, quase parando. A última novidade, não fosse trágica, seria quase engraçada: as semanas venezuelanas ganharam mais um dia de folga. A partir de agora, as sextas-feiras passam a ser dias feriados. Farão companhia aos sábados e aos domingos. Está instituída a semana de quatro dias.

Vela 1Fosse prodigalidade de um Estado rico, seria até novidade bem-vinda. Mas não é. A razão da paralisação do país três dias por semana é a escassez de energia elétrica e de água. Quando se sabe que a Venezuela está entre os maiores produtores de petróleo do planeta, tem-se a medida do descalabro criado por iluminados governantes.

Quatro fontes são as principais responsáveis pela produção de eletricidade: o petróleo, a energia nuclear, o carvão e a energia hidroelétrica. Na Venezuela, o petróleo é abundante. Mas requer investimento em infraestrutura de refino e de transmissão, fatores descurados estes últimos anos. O resultado está aí: com matéria prima para dar e vender, nossos vizinhos são obrigados a deixar de trabalhar e a espantar, com luz de vela, a escuridão.

Bravatas e desleixo costumam ter efeito desastroso.

América del Sur

José Horta Manzano

Faz 13 anos que nosso governo popular vem se esforçando para integrar o Brasil no clube das nações sul-americanas. É verdade que, desde que os primeiros portugueses aportaram, demos as costas para nossos vizinhos. Nunca nos identificamos com os hermanos. No nosso imaginário, nosso ideal sempre foi outro, situado a milhares de quilômetros daqui.

No entanto, analisando de mais perto e comparando nosso comportamento com o dos vizinhos, não há como escapar da conclusão: não somos tão diferentes assim.

A mentira, por exemplo, é defeito comum a todos os governantes da região, vício que costuma passar batido. Cuba é o arquétipo desse comportamento ‒ faz cinquenta anos que os Castros embalam seus concidadãos com inacreditáveis lorotas.

Ultimamente, o mau costume tem-se alastrado pelo subcontinente. Chávez, Kirchner, Correa, Evo, Maduro mantêm-se à custa de cascatas de falsidade e de muita conversa fiada. Sem mencionar nosso inefável Lula, naturalmente. Nosso guia adotou o mesmo caminho indigente.

A apropriação indébita da coisa pública é outro defeito. Em outras palavras, falo do roubo, em proveito próprio, daquilo que pertence a todos. Dizem as más línguas que a fortuna dos irmãos Castro, devidamente encafuada em lugar seguro, totaliza bilhões. Quanto aos outros, pouca gente conhece o montante exato da riqueza de cada um. Mas todos desconfiam.

O mais recente exemplo de assalto aos bens do contribuinte acaba de ser dado por doña Cristina, que deixou a presidência da Argentina faz alguns dias. A mandatária e seus áulicos deram um verdadeiro rapa. Sumiram computadores, móveis, eletrodomésticos, equipamentos. Para completar a herança maldita, deixaram veículos presidenciais com multas não pagas. Nem água quente havia na Casa Rosada quando Mauricio Macri assumiu.

Interessante será notar que a mídia argentina, ressabiada com possíveis represálias de correligionários da antiga presidente, não deu eco a esses «malfeitos». Quem noticiou foram jornais chilenos e espanhóis.

Essa rapina me fez recordar a declaração surpreendente dada em 2002 por Jorge Batlle, então presidente do Uruguai, sobre a honestidade de seus vizinhos. O homem declarou textualmente: «Los argentinos son una manga de ladrones, del primero hasta el último» ‒ os argentinos são um bando de ladrões, do primeiro ao último.

Foi sentença pesada, sô! Ofendeu um povo inteiro, sem deixar brecha pra exceção nenhuma. Nem nosso amado guia, em seus mais desatinados pronunciamentos, ousou ir tão longe.

Pra abrandar, há que jogar água nessa fervura. Melhor será dizer que muitos argentinos ‒ assim como muitos brasileiros, muitos uruguaios, muitos venezuelanos ‒ são desonestos. Mas não todos. Pelo menos, espero.

Frase do dia — 247

«Depois que a Bolívia jogou cães farejadores num avião da FAB que transportava o próprio ministro da Defesa do Brasil, tudo é possível, ainda mais na Venezuela de Nicolás Maduro. O Planalto e o Itamaraty não podem miar.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 19 jun 2015.

Imbecilidade

José Horta Manzano

Señor Cabello, um dos bambambãs da hierarquia política venezuelana, esteve de visita ao Brasil dez dias atrás. Foi acolhido pelo Lula – chegaram a posar juntos, sorridentes, em fotos que saíram em todos os jornais. Embora a visita não tivesse caráter oficial, o estrangeiro foi assim mesmo recebido pela presidente da República. Dona Dilma abriu um espaço na agenda para honrar o ilustre braço direito do bondoso companheiro Maduro.

Agência Xinhua, China

Agência Xinhua, China

Oito senadores de nossa República embarcaram em avião da Força Aérea Brasileira para visitar presos políticos na Venezuela. Foram recebidos a pedradas por milicianos, convenientemente vestidos de vermelho, a soldo do governo do país hermano. A visita teve de ser interrompida.

Quando incapazes assumem funções de governo, tudo pode acontecer. É o que se tem verificado no Brasil e, em grau mais elevado, na sofrida Venezuela. Temendo que a visita de parlamentares estrangeiros pudesse servir de amplificador para o drama dos presos políticos, os brutamontes aboletados no Palacio Miraflores, de Caracas, raciocinaram de modo primitivo: sabotaram a visita.

Venezuela 2O tiro saiu pela culatra. Deu tudo errado. Tivessem os senadores visitado os presos, a notícia sairia na segunda página de jornais brasileiros. E mais nada. A ação de brucutu das autoridades venezuelanas fez o efeito exatamente oposto.

Jornais, rádios, tevês, portais, blogues do mundo inteiro repercutiram a notícia. Se alguém não sabia que houvesse presos políticos naquele país, agora sabe. Mais ainda: meteram dona Dilma numa saia justa ainda mais apertada do que a que ela anda vestindo. Um desastre.

É nisso que dá confiar responsabilidade a imbecis. Aqui está um florilégio do eco planetário suscitado pelas mazelas de um país atrasado.

The San Diego Union Tribune (EUA)
«Brazilian senators fail to meet with Venezuela opposition»

Latina Press (internacional)
«Venezuela: Chavistas greifen Senatsausschuss aus Brasilien an»

BBC (Reino Unido)
«Brazil senators flee Venezuela attack»

Agência Reuters (internacional)
«Venezuela gives landing permission for Brazil senators»

Deutsche Welle (Alemanha)
«Brazil senators blocked in Venezuela en route for visit to jailed opposition leader»

Venezuela al Día (Venezuela)
«Congreso de Brasil aprueba moción de repudio contra gobierno venezolano por agresión a senadores»

Entorno Inteligente (internacional)
«Después de las agresiones chavistas, los senadores brasileños se ven obligados a irse de Caracas»

Martí Noticias (EUA)
«Llegan a Caracas senadores brasileños en apoyo a presos políticos»

Abruzzo 24 ore (Itália)
«Venezuela: Accolgono a sassate delegazione di parlamentari brasiliani»

Venezuela al Día
«¡Que lo sepa el mundo! Senador Neves: “No nos queda duda de que en Venezuela no hay democracia”»

La Jornada (México)
«Condena Brasil ‘actos hostiles’ contra sus senadores en Venezuela»

Clarín (Argentina)
«Senadores brasileños van a Caracas y piden por los presos políticos»

Agência Xinhua (China)
«Líder de oposición brasileña critica que Venezuela no dio garantías de seguridad a comisión de senadores»

ABC Color (Paraguai)
«Senadores brasileños denuncian ataque y bloqueo en Venezuela»

Últimas Noticias (Venezuela)
«Gobierno de Brasil calificó de “inaceptable” lo ocurrido con senadores»

Os cinco selecionados

José Horta Manzano

Diplomacia não é o forte de dona Dilma – isso não é novidade. Mas há momentos em que ela consegue se superar e atingir a excelência na arte de maltratar autoridades estrangeiras.

Dilma e Joe Biden, vice-presidente dos EUA

Dilma e Joe Biden, vice-presidente dos EUA

Reportagem do jornal O Globo informa que nossa presidente recebeu 15 pedidos de entrevista formulados por autoridades estrangeiras que vieram prestigiar sua tomada de posse. Dos quinze, só cinco foram atendidos. Madame descartou dez.

Assim, dois terços dos solicitantes voltarão para casa chupando o dedo. E pensar que, depois de abandonar família e amigos no réveillon de ano-novo, essa gente atravessou mundo para aplaudir dona Dilma. Não os receber é grande falta de educação. Se concedesse dez minutos a cada um, em menos de duas horas a fatura estaria liquidada. Além de malcriada, a presidente está sendo mal aconselhada – o que tampouco é novidade.

O artigo não diz quem foram os rechaçados. Mas dá a lista dos que foram atendidos. São eles: o representante dos EUA, o da China, o da Suécia, o da Venezuela e o da Guiné-Bissau. Vamos tentar adivinhar a razão dessa seleção.

Dilma e Stefan Löfven, primeiro-ministro da Suécia

Dilma e Stefan Löfven, primeiro-ministro da Suécia

Estados Unidos e China são os mais importantes parceiros comerciais do Brasil. Recusar-lhes o pedido de entrevista seria pecado mortal. Faz sentido.

Quanto à atenção dedicada ao primeiro-ministro sueco, a explicação deve ser buscada nos 36 aviões de caça Gripen encomendados pelo Planalto. Conforme já comentei em meu artigo Os aviõezinhos, há negociações em curso para aumentar o volume encomendado. Passará de 36 a 108 aparelhos, num valor total de cerca de 50 bilhões de reais. Sem dúvida, num negócio dessa magnitude, o acerto de determinados «detalhes» vale meia hora do precioso tempo presidencial.

Dilma e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

Dilma e Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

Señor Maduro, mandatário da infeliz e “bolivariana” Venezuela, foi outro para quem dona Dilma abriu as portas da sala de visitas. A intenção há de ter sido consolar o companheiro em perdição. O coitado deve estar-se sentindo cada vez mais só, depois que Cuba – importante membro do clube anti-imperialista – anunciou seu desligamento para dentro em breve.

O último dos agraciados com a simpatia de nossa presidente foi o mandachuva da Guiné-Bissau, país qualificado como narcoestado pela Agência da ONU contra a Droga e o Crime. Pobre, com área pouco superior à do Estado de Alagoas, a Guiné vive da exportação da castanha de caju. Oficialmente.

Por lá, é raro que se passe um ano sem golpe de Estado e assassinato de dirigentes. Bissau é conhecido ponto de passagem da cocaína proveniente da Colômbia. É “hub” importante. De lá, a droga é redirecionada para diversos destinos europeus, para onde é levada por infelizes que conhecemos como ‘correios’, ‘mulas’ ou ‘aviõezinhos’.

Dilma e José Mario Vaz, mandatário da Guiné-Bissau

Dilma e José Mario Vaz, mandatário da Guiné-Bissau

Não atino qual seja o interesse de nossa presidente em receber o atual homem forte de país tão estranho. Ela deve conhecer a razão. Se não, seus aspones saberão.

As dez autoridades rechaçadas deviam representar pouco interesse aos olhos da tosca diplomacia do Planalto. Como dizia o outro: “Dize-me a quem concedes entrevista e dir-te-ei quem és”.