Não deu

José Horta Manzano

Para entender este artigo, precisa antes ler o que está aqui abaixo. Conto o resultado do plebiscito de ontem.

Nenhum cantão aprovou a ideia

Nenhum cantão aprovou a ideia

A conclusão já era esperada, mas a porcentagem foi um atropelo. Esmagadora maioria do eleitorado suíço (77%!) rejeitou a ideia de um rendimento básico a ser distribuído incondicionalmente a todos os habitantes.

Foi uma reprovação pra presidenta nenhuma botar defeito.

 

Dinheiro para todos

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz uma eternidade que o antigo senador paulista Suplicy batalha por uma ideia fixa: instaurar um rendimento mínimo de base destinado aos mais necessitados. A bolsa família, concebida com objetivos mais eleitoralistas que altruístas, não satisfez o anseio do homem político.

Arca 1Desde que dona Dilma assumiu, o antigo senador ‒ que alguns consideram desprovido do senso do vexame ‒ vem tentando marcar encontro com a mandatária. Múltiplos pedidos foram sistematicamente repelidos pela arrogante «gerentona». Agora, depois de suspensa, com o vazio em torno de si se acentuando, dignou-se a conceder-lhe entrevista. Ele foi. A mídia pouco se interessou, visto que a presidente, posta de molho, já não manda.

Conceder benefício mínimo automaticamente a todos os cidadãos não é ideia de Suplicy. Em vários países, a discussão tem aparecido, aqui e ali, sem nunca prosperar. A Suíça foi mais longe. Dado que qualquer cidadão pode pedir a convocação de plebiscito nacional ‒ desde que consiga colher o necessário número de assinaturas no prazo estipulado ‒ um passo importante está sendo dado neste domingo 5 de junho.

Entre outras matérias federais e cantonais, os cidadãos deste país deverão se pronunciar sobre a inclusão ou não na Constituição Federal de novo artigo. É o seguinte:

Art. 110a ‒ Rendimento de base incondicional

1. A Confederação instaura um rendimento de base incondicional.

2. O rendimento de base deve permitir a cada um levar existência digna e participar da vida pública.

3. Lei posterior estipulará o financiamento e o montante do rendimento de base.

Pronto, mais simples, impossível. O que se busca é inscrever o princípio na Constituição. O detalhe virá depois. O artigo posto em votação não estipula montante. Diz só que o benefício é incondicional. Todo habitante do território faz jus, seja rico ou pobre, velho ou jovem, nacional ou estrangeiro, patrão, assalariado ou desempregado.

Dinheiro 1Olhando assim, em primeira leitura, é atraente. Em teoria, a pobreza acabaria e o desemprego deixaria de assustar. No entanto, a iniciativa não é apoiada por nenhum partido político. Por algo será, como dizem os espanhóis ‒ alguma razão tem de haver.

Os oponentes argumentam que a medida acarretaria peso insuportável para a economia nacional. Novos impostos teriam de ser criados. Cidadãos que ganham pequeno salário tenderiam a abandonar o emprego para viver unicamente da alocação caída do céu. A oferta de empregos explodiria e acarretaria o desmoronamento da economia e o resultado seria, ironicamente, a impossibilidade de financiar o rendimento incondicional.

Dinheiro voadorUma desigualdade seria instaurada entre cidadãos ativos e inativos. O aumento de impostos empurraria empresas nacionais a fechar as portas e instalar-se no estrangeiro. Por detrás de tudo isso, a iniciativa sacode um dos princípios sagrados da sociedade suíça: o valor do trabalho. Dinheiro que pinga todos os meses sem ser fruto de trabalho não combina com o espírito nacional. No momento em que escrevo, os votos ainda estão sendo apurados. Mas já se configura uma vitória estrondosa do «não».

Talvez, no imaginário romântico do senador brasileiro, um mundo ideal em que dinheiro nasce em árvore seja possível. O povo suíço não compartilha essa opinião.

Grandes & pequenos

José Horta Manzano

Leio hoje que Dilma Rousseff, presidente suspensa(*), está enfurecida. Como de costume, diriam más línguas. O motivo da cólera atual é a decisão, tomada pelas devidas instâncias, de delimitar-lhe o direito de utilizar a estrutura presidencial para viagens.

A lógica é cristalina. O aparato necessário para deslocamento presidencial é pesado e custa os olhos da cara ‒ há que movimentar avião presidencial ou da Força Aérea, seguranças, equipe médica, batedores, pessoal militar, pilotos, pessoal de bordo, mecânicos, motoristas, automóveis, helicópteros, carregadores de guarda-chuva, secretários, abridores de porta, um verdadeiro exército.

Dilma 8Tais atributos de viagem de trabalho, embora custem caro aos contribuintes, são devidos ao chefe do Executivo. Acontece que, neste momento, dona Dilma está suspensa, portanto, de acordo com a Constituição, afastada de toda função oficial. Como prêmio de consolação, continua autorizada a movimentar toda a parafernália em viagens de Brasília a Porto Alegre, onde reside. Inconformada, senhora Rousseff esbraveja.

Lembrei de Charles de Gaulle, o maior dirigente que a França conheceu desde os tempos de Napoleão. Quando foi presidente, o general tinha direito às regalias inerentes ao cargo. Tinha também o direito de morar na ala residencial dedicada ao chefe de Estado e instalada no Palácio do Eliseu.

Pois imagine o distinto leitor que, assim que se mudou para o palácio, de Gaulle mandou instalar um relógio de luz para medir seu consumo particular de eletricidade. E, do primeiro ao último dia, pagou as contas de energia com seu próprio dinheiro.

Charles de Gaulle

Charles de Gaulle

Tem mais. Nas (raras) ocasiões em que convidou a familia para um almoço de celebração particular, reembolsou o Estado francês das despesas. Não parou por aí. Ao deixar a chefia do Estado, manteve intactos seus princípios: renunciou tanto à pensão de ex-militar quanto à aposentadoria de presidente da República. Recusando-se a representar um peso financeiro para os contribuintes, contentou-se com os direitos de autor pelos livros que havia escrito.

Em 1969, ao dar-se conta da baixa de sua popularidade, fez questão de pôr as coisas em pratos limpos. Encontrou um motivo qualquer ‒ uma modificação nas regras de autonomia das regiões do país, simples pretexto ‒, e convocou plebiscito nacional. Foi logo avisando que, caso a proposta fosse rejeitada, renunciaria ao cargo. Não lhe interessava estar à frente de um povo que não mais o apoiava.

Eliseu ‒ Palácio presidencial francês

Eliseu ‒ Palácio presidencial francês

Dito e feito. A maioria do eleitorado votou “não”, e o general perdeu a aposta. Na noite daquele mesmo domingo, apareceu em cadeia nacional de rádio e tevê para anunciar que renunciava à presidência. Sem falta, ao meio-dia da segunda-feira, catou as tralhas e se foi. Já idoso, viveu ainda um ano e meio. É assim. Quem é grande, é grande até o fim. Quem nasceu pra tostão, como dizia minha avó, não chega a merréis.

Interligne 18h(*) Artigo 86
O texto constitucional fala em «presidente suspenso de suas funções». Mais claro, impossível. Durante o período de suspensão, o presidente está afastado de toda função oficial. É livre de viajar para onde bem entender, mas terá de fazê-lo como simples cidadão.

Se l’Italia fosse il Brasile

José Horta Manzano

Tenho um amigo italiano enamorado pelo Brasil. Originário da região de Veneza, Massimo Pietrobon é blogueiro e poliglota. Vive a maior parte do ano em Barcelona (Espanha), mas sempre que pode dá uma escapada pra rever a Terra de Santa Cruz.

Apaixonado por Geografia em geral ‒ e por mapas em particular ‒, Massimo teve uma ideia outro dia. Tomou um mapa da Itália e deu a cidades italianas importantes o nome de localidades brasileiras. Para cada caso, acrescentou uma justificativa, algum aspecto que sirva de elo entre ambas. Ficou interessante e curioso. Dou aqui abaixo um apanhado das muitas correspondências entre os dois países encontradas pelo Massimo.

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Para começar, São Paulo, cinzento e chuvoso mas principal centro econômico, só pode corresponder a Milão. Por seu lado, o Rio de Janeiro, caótico mas denso de beleza e de turismo, se encaixa bem com Roma, a outra metrópole italiana.

I love ITFlorianópolis, bela, turística e ilhoa, compara-se com Veneza, que tem as mesmas características. Recife, centro-mor do Nordeste, se conjuga maravilhosamente com Nápoles, centro-mor do Sul da Itália. Perto de Nápoles, está Amalfi, preciosidade histórica. E ao lado do Recife, o que é que está? Olinda, naturalmente, nossa joia antiga e carregada de história.

Outro ponto focal do Sul italiano é a ilha da Sicília, a confrontar com o outro representante do Nordeste brasileiro: a Bahia. Portanto, Salvador é Palermo.

A longínqua Amazônia, com Manaus, isolada capital, só pode ser a Sardenha e sua capital Cagliari. Ambas as regiões são selvagens e souberam conservar a cultura dos primitivos habitantes.

E Bolzano, a capital do Tirol do Sul, onde predomina a língua alemã? Corresponde a Blumenau, centro maior da imigração germânica no Brasil. Já as belezas históricas e naturais da Toscana se adaptam bem às preciosidades e às paisagens das Minas Gerais.

Turim, cidade organizada e funcional, combina com Curitiba, ao passo que o grande porto industrial de Gênova tem tudo a ver com o de Santos. Falando de cursos d’água, o mais importante da Itália é o Rio Pò, que se lança ao mar num delta cuja capital é Ferrara. Não é absurdo compará-la a Belém, situada exatamente onde o Amazonas desemboca no Atlântico. Outro ponto comum é que as duas cidades estão encharcadas de História.

I love BRPorto Alegre, cidade portuária que já se aproxima dos confins culturais do Brasil, é Trieste, onde já é perceptível a mestiçagem entre italianos, eslavos do sul e remanescentes do antigo Império Austro-Húngaro.

Na hora de comparar cidades saídas de uma prancheta de urbanista, não há que hesitar: a italiana Latina e nossa Brasília têm esse ponto em comum.

A grande cidade brasileira situada próxima de um dos pontos cardeais da rosa dos ventos é João Pessoa, que marca o extremo leste das Américas continentais. Na Itália, corresponde a Reggio Calabria, que assinala a ponta sul da bota.

Bandeira brasileira com as cores italianas

Bandeira brasileira com as cores italianas

Não há como não mencionar a região de Parma, de onde é exportado para todo o mundo o delicioso queijo parmesão, aquele sem o qual o macarrão perderia a graça. (Dizem que macarrão sem queijo é como amor sem beijo…) Que se compare Parma com nosso Estado de Minas que, no Brasil, é referência em matéria de queijo.

Há certamente outras semelhanças. Que o leitor curioso ponha o bestunto a funcionar. Buona fortuna a tutti!

PS: Para visitar o site original, clique aqui.

Obama e os nós

José Horta Manzano

Obama 2Em 2009, quando o Prêmio Nobel da Paz lhe foi atribuído, Barack Obama há de ter-se sentido meio sem graça. Até aquele momento, o gesto mais vistoso do recém-eleito presidente tinha sido o Discurso de Cairo, interpretado como guinada na política externa americana.

Foi pronunciamento importante, sem dúvida, mas daí a valer Nobel da Paz… vai um longo caminho. A opinião pública mundial ficou cismada. Por que teriam agraciado o presidente por antecipação? Que esperavam dele?

Passados quase oito anos, com o fim do mandato chegando, Obama não conta com a simpatia unânime de seu povo. Se lhe fosse permitido candidatar-se a um terceiro mandato, não é certo que viessem a reelegê-lo. E o prêmio que lhe deram adiantado como é que fica? Foi justificado ou não?

O julgamento pleno somente será dado pela História daqui a algumas dezenas de anos. No entanto, há que reconhecer que o governo de Obama desatou três grandes nós da política externa de seu país.

Nó 1Primeiro foi o Irã. Fazia mais de 35 anos que os EUA e a antiga Pérsia estavam de relações cortadas. Se nada fosse feito, a situação podia se eternizar. Prudente mas pragmático, Obama deu os passos necessários para sustar o embargo comercial e normalizar as relações. Com a bênção americana, o Irã voltou ao convívio do mundo civilizado.

Em seguida, veio Cuba, outro nó amarrado fazia já meio século. No fundo, nada tinha mudado na ilha caribenha que justificasse melhora nas relações com o “império”. A decisão unilateral da presidência americana ‒ para desespero de bolivarianos & aprendizes ‒ balançou o coreto. Por inspiração de Obama, a situação entre os dois países deu grandes passos para o descongelamento.

Obama 1O terceiro nó está sendo desfeito estes dias. A ida de Obama a Hiroshima ‒ primeira visita de presidente americano em exercício à cidade martirizada por fogo atômico ‒ é forte em simbolismo. Obama já deixou claro que não haverá pedido de desculpas, dado que considera não fazer sentido excusar-se por atos que já fazem parte da História. Seja como for, faz 70 anos que o povo japonês esperava por essa visita oficial. O primeiro-ministro nipônico já está até pensando em retribuir com uma visita a Pearl Harbor.

Diferentemente do predecessor, o famigerado Bush Júnior, Barack Obama deixará atrás de si um balanço positivo. O mundo continua cheio de problemas, como a questão israelo-palestina e o contencioso russo-ucraniano. Mas alguns nós terão sido desfeitos. Obama se esforçou pra fazer jus ao prêmio antecipado que lhe tinham atribuído.

Monsieur Rromerrô Jucá

José Horta Manzano

Em sua estreia nas ondas da radiodifusão estrangeira, o (até ontem) ministro do Planejamento do Brasil fez entrada de vedete internacional. Logo de manhãzinha, Monsieur Rromerrô Jucá foi apresentado ao público francês. Enquanto distraídos ouvintes mastigavam um croissant com dois goles de café, locutores tentaram contar, em duas linhas, a lógica e as peripécias da Opération Lavage Rapide, como é conhecida a Lava a Jato por aqui. Duvido que alguém tenha prestado grande atenção.

Foi dito que o referido monsieur tinha sido destituído. Dificilmente alguém terá entendido por quê. Para ouvidos desatentos, seria como se tivessem informado que um certo senhor Korruptchenko tinha sido flagrado ao cometer algum malfeito na longínqua Ucrânia. Que é que eu tenho com isso?

Expulsao 1De uma coisa, tenho certeza: notícias como essa têm o mérito de reforçar o clichê persistente que mostra nosso país como turbulento, politicamente instável, esburacado pela corrupção, dividido entre duas categorias de cidadãos ‒ uma pequena camada de milionários que flutua sobre um oceano de miseráveis. É triste, mas é assim.

Pouco afeita a eufemismos em voga no Brasil, a mídia europeia diz claro que Monsieur Jucá foi destituído exatamente como Madame Rousseff. Por aqui, não tem essa história de «afastado». Ou é ou deixa de ser. Não dá pra ficar no meio.

Bom, falando agora entre nós, vamos pôr o episódio Jucá na conta dos erros de infância do novo governo. Fez bem o presidente em mandá-lo passear. Pode ser que sua ausência enfraqueça a articulação política, mas sua presença daria a impressão de que o governo novo e o velho são farinha do mesmo saco.

Vamos guardar, pelo menos por enquanto, a esperança de que a nova equipe não seja tão mambembe quanto a anterior.

Aposentar-se aos 65

José Horta Manzano

Antes da Revolução Industrial, a noção de emprego era menos clara que hoje. O sustento de cada um vinha principalmente de rendas, de favores, de comércio, de escambo. Na falta de indústria, poucos eram assalariados. Em resumo, cada um cuidava de si.

O grosso da população vivia em função da agricultura familiar, garantia de sobrevivência. Trabalhava-se em família. Algum excesso de produção era trocado por sal, óleo, têxteis e outras mercadorias não produzidas em casa. Velhos, que já não podiam trabalhar, eram amparados e sustentados pela família. Assim funcionava o mundo.

O desenvolvimento industrial e a implantação das ferrovias mudou o enredo. As cidades incharam, a noção de emprego começou a se delinear. Longe do amparo da família, trabalhadores passaram a enfrentar dificuldades quando a velhice chegava. A miséria se alastrava.

Trabalho 4Timidamente, soluções começaram a ser tentadas. A virada do século 19 para o século 20 assistiu à criação de caixas de pensão setoriais. Parte dos trabalhadores passou a contar com amparo para o fim da vida. O sistema levou algumas décadas para se generalizar.

Na Suíça, por exemplo, a normatização do sistema universal de aposentadoria só foi adotado em 1948. Já sua primeira versão fixava em 65 anos a idade mínima para recebimento do benefício. De lá para cá, mudanças sociais impuseram mais de dez grandes revisões ao sistema. O montante da renda foi paulatinamente adaptado à evolução do custo de vida.

Até vinte anos atrás, a idade mínima de aposentadoria era de 65 anos para homens e 62 para mulheres. Obedecendo à verdade estatística de que mulheres costumam ter vida mais longa que homens, sucessivas revisões do sistema foram alongando o tempo de trabalho a ser cumprido por pessoas do sexo feminino.

Atualmente, homens continuam a se aposentar aos 65 anos, enquanto mulheres só podem fazê-lo ao completar 64. Dentro de muito poucos anos, o limite de 65 anos será imposto a todos. E já se estuda seriamente a necessidade de elevar esse mínimo para 67 anos.

Ao dar-se conta de que a duração da vida se alonga no Brasil também, o novo governo, menos populista que o anterior, cogita reformular o sistema em vigor. A ideia é estabelecer que o cidadão atinja a idade de 65 anos para, só então, poder requerer renda de velhice.

Sindicatos, em estrito cumprimento de seu papel, se insurgem contra a medida. Argumentam que novas regras só podem valer para jovens que ingressem no mercado de trabalho a partir de agora. Embora a alegação tenha seu fundamento, há que levar em conta outros fatores.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

O sistema brasileiro de aposentadoria está em estado pré-falimentar. O rombo se alarga a cada ano. Se for aplicado o conceito de direito adquirido, como querem alguns, a modificação da idade mínima só poderá entrar em vigor daqui a quase meio século. As finanças vão estourar antes disso.

Dado que o Brasil ‒ confiando que a impressionante taxa de natalidade dos anos 60 e 70 fosse durar para sempre ‒ nunca se preocupou em regulamentar a questão, chegamos ao momento atual com um passivo preocupante. Se não é correto atrasar, da noite pro dia, a idade da aposentadoria para 65 anos, uma solução escalonada tem de ser encontrada. E rápido.

Que se estenda o período transitório por alguns anos. Contudo, não é razoável adiar para o ano 2060 a fixação da idade mínima de 65 anos. O sistema vai quebrar antes disso, prejudicando a todos ‒ ativos e inativos.

Warum einfach?

José Horta Manzano

«Warum einfach wenn es auch kompliziert geht?» ‒ Por que fazer simples, se complicado também funciona?

Os alemães recorrem a essa pergunta para denunciar toda complicação inútil. Lembrei disso outro dia, quando fiquei sabendo que, em São Paulo, todo comprador de carro novo pode agora escolher placa a seu gosto ‒ desde que disponível, evidentemente.

Placa 17Para satisfazer o capricho, o feliz proprietário terá de desembolsar exatos R$91,18. Você leu bem: 91 reais e 18 centavos. Pergunto eu: por que 18 centavos? Por que não 17 ou 19?

Francamente, em matéria de complicação inútil, é difícil ir mais longe. Números quebrados, como esse, dão margem maior a erro de digitação, problema de troco, dificuldade de fazer conta. Em resumo, isso não ajeita a vida de ninguém.

A ideia, em si, não é má. Aqui na Suíça, alguns cantões têm sistema análogo. No Cantão de Vaud, por exemplo, o valor de placa livremente escolhida pode variar de 300 francos (R$1100) a 2000 francos (R$7200). Vez por outra, placas cobiçadas são vendidas em leilão por internet. O leilão é organizado pelo Departamento de Tráfego. Placas chegam a ser arrematadas por preço astronômico. Vaidade tem seu preço, ora.

Tem um senão: para evitar que se instale uma bolsa paralela de placas, a revenda de particular a particular é rigorosamente proibida.

Placa 18Ignoro a razão de as autoridades paulistas terem fixado o valor com tamanha exatidão. Seja ela qual for, terá sido preciosa contribuição para acrescentar um grãozinho de areia à crônica complicação nacional. Tivessem fixado em, digamos, 90 reais ou 100 reais, a Terra não teria deixado de girar. E a vida teria seguido, sem mais atrapalhação.

«Warum einfach?»

A ruivinha deles

José Horta Manzano

Anne Lauvergeon (1959-), dirigente francesa de alto nível, cursou escolas prestigiosas, passou por empresas renomadas e acabou se aproximando do mundo político. Chegou a funcionar como xerpa(*) do presidente François Mitterrand junto ao G7.

Em 1999, foi nomeada presidente da estatal Areva, que controla a indústria nuclear do país. O posto, pra lá de relevante, jamais tinha sido ocupado por mulher. Diga-se de passagem que, na França, 75% da energia elétrica é gerada por usinas nucleares. Nesse particular, o pais é, com folga, mais nuclearizado do que qualquer outro. Por aquelas bandas, a Areva é tão importante quanto é a Petrobrás para nós.

Anne Lauvergeon, a 'Anne Atomique'

Anne Lauvergeon, a ‘Anne Atomique’

Foi naquela época que ganhou o apelido de «Atomic Anne» ‒ Ana Atômica, trocadilho que conjuga o espírito empreendedor da moça com suas atividades nucleares. Boa adaptação francesa de nosso familiar termo gerentona.

Sob a presidência da gerentona, a Areva comprou em 2007, pela inacreditável quantia de 1,8 bilhões de euros (sete bilhões de reais), uma start-up canadense do ramo mineiro. Foi decisão temerária, dado que a companhia adquirida não passava de promessa: nunca havia extraído um grama sequer de minério(!).

O negócio revelou-se um fracasso. Enquanto ainda era presidente da estatal nuclear, madame Lauvergeon tratou de disfarçar o rombo. Para embelezar o balanço, promoveu «pedaladas», chamadas na França de maquiagem fiscal. Dá no mesmo. Apresentou balanço falsificado.

Localização das 58 usinas nucleares francesas

Localização das 58 usinas nucleares francesas

Seguiram-se anos de controvérsias, provas, contraprovas, testemunhos, investigações. Nada adiantou. Olhada com desconfiança pelas altas esferas, madame perdeu o cargo. A partir daí, foi levando a vida fora da esfera política, em postos menos prestigiosos. Mas suas «pedaladas» não saíram da mira das autoridades. Afinal, era muito dinheiro. Dinheiro do contribuinte, diga-se.

Finalmente, neste maio 2016, a Justiça acaba de aceitar formalmente as acusações de trambique nas contas. O futuro de madame está agora nas mãos do equivalente francês de nosso monsieur Moro. Lá como cá, a justiça pode tardar mas acaba alcançando o malfeitor.

Interligne 18h(*) Xerpa (aportuguesamento do inglês sherpa)
Os que se aventuram a escalar montanhas no Himalaia se fazem acompanhar por guias locais da etnia xerpa. Por extensão, o termo passou a designar todo guia tibetano de montanha. Anos atrás, por analogia, a revista The Economist foi a primeira a dar o nome de xerpa àquele que substitui o titular em reuniões preparatórias do G7 (que já foi G8 mas, com a exclusão da Rússia, voltou à configuração originária). Madame Lauvergeon não é especialista de escalada. Seu apelido vem do fato de ter sido chegada ao presidente da França.

Interligne 28aAdvertência
Qualquer semelhança com algum caso ocorrido no Brasil deve ser considerada involuntária e fortuita. O mesmo vale para o título deste artigo ‒ A ruivinha deles.

A intenção do autor jamais foi trazer ao distinto leitor a desagradável lembrança da compra, pela Petrobrás, da usina de Pasadena, a “ruivinha”. Faz alusão apenas à cor do cabelo de madame Lauvergeon. Que, aliás, lhe vai muito bem.

Rei na barriga

José Horta Manzano

Você sabia?

Futebol ZlatanA imodéstia não é atributo privativo de figuras como nosso guia. Volta e meia, topa-se com um daqueles tipos que parecem ter o rei na barriga.

Contratado quatro anos atrás pelo Paris St-Germain, o futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic (de origem bósnio-croata) teve boa atuação. Aos 35 anos de idade, conhecido por sua imodéstia, o atleta já anunciou sua saída do clube ao final da temporada.

O passar dos anos não acalmou a soberba do rapaz. Às vésperas de pendurar as chuteiras, declarou no twitter: «My last game tomorrow at Parc des Princes. I came like a king, left like a legend.» ‒ “Meu último dia amanhã no Parc des Princes. Cheguei como um rei, vou-me embora como um mito”.

Haja modéstia! Nunca antes nesta arena se tinha visto tamanha empáfia. Ou o distinto leitor que coisas assim só acontecessem pelas bandas do Planalto?

Où sont les femmes?

José Horta Manzano

Patrick Juvet, cantor e compositor suíço, fez discreto sucesso nos anos 1970/1980. No Brasil, pouquíssima gente deve ter ouvido falar do moço. Na onda da música tipo ‘discoteca’, à moda na época, seu maior sucesso foi «Où sont les femmes?»Onde estão as mulheres?

Primeiro ministério Temer, 12 maio 2016

Primeiro ministério Temer, 12 maio 2016

Esquecido, o artista vive hoje no ostracismo. A foto do primeiro ministério Temer me levou de volta a 1977. Aquele monte de senhores, de terno escuro e gravata idem, parece um grupo sério. Esperamos todos que a impressão corresponda à verdade. Mas… où sont les femmes?

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Entendo que as qualidades do bom ministro não guardam correlação automática com sexo, cor de pele, crença religiosa, orientação sexual. Assim mesmo, francamente, qualquer psicólogo de botequim recomendaria a inclusão de uma ou duas mulheres, nem que fosse pela simbologia. Afinal, estamos falando da metade da população do Brasil.

Enfim, se der certo e, principalmente, se nos livrar da bandidagem grossa que nos dominava, fecharemos o olho.

Visto de cá, visto de lá

José Horta Manzano

PoteauVisto de cá
Nossos conterrâneos roraimenses vivem no único Estado da Federação apartado da rede elétrica nacional. Por motivos que vêm de longe, um convênio entre Brasília e Caracas prevê que as necessidades elétricas de Roraima sejam supridas pela Venezuela.

O acerto funcionou enquanto certa normalidade reinava no país vizinho. As necessidades energéticas roraimenses não sendo enormes, o fornecimento não costumava gerar problema para os venezuelanos.

Desde que o viés populista ‒ dito «bolivarianismo» ‒ passou a dar as cartas no país caribenho, a situação começou a desandar. Desvios de recursos e sucateamento da infraestrutura provocaram desorganização geral. A energia elétrica destinada a Roraima não escapou dos efeitos do desmonte.

O portal Ecoamazônia nos informa sobre o aperto por que vem passando o meio milhão de habitantes do Estado do Norte brasileiro. Transformaram-se em reféns da crise venezuelana. Estão submetidos ao mesmo racionamento que castiga os hermanos.

Monte Roraima

Monte Roraima

Residências, escritórios, fábricas, cinemas, sorveterias, lavanderias e todos os que dependem da energia elétrica estão contabilizando dores de cabeça e perdas financeiras. Enquanto tudo funcionava, ninguém se preocupou. Agora que os apagões se multiplicam, fica evidente a falta de visão dos que tomaram a decisão de se submeter à dependência estrangeira.

Rede de distribuição não se constrói em 24 horas. Por um bom tempo, nossos conterrâneos ainda hão de sentir os efeitos daninhos de uma escolha pela qual não são responsáveis. Ainda que Roraima não seja um Estado de excepcional importância econômica na União, seus habitantes merecem, como todos os outros, ser bem tratados. Chegou a hora de investir na interligação com a rede nacional.

Interligne 18c

Roraima 2Visto de lá
Artigo deste 8 de maio do diário venezuelano El Impulso grita: «Venezuela regala a Brasil electricidad de venezolanos». Na visão de nossos vizinhos, a eletricidade que lhes falta está sendo «dada de presente» ao Brasil.

Reclamam que, enquanto vende energia ao Brasil por preço irrisório, a Venezuela compra eletricidade da Colômbia pelo dobro do valor. Não sou especialista no assunto. No entanto, entendo que trato é trato. Se o preço combinado foi esse, combinado está. Aliás, se alguém não está cumprindo a obrigação no presente caso é justamente a Venezuela.

Viva o bolivarianismo!

Dia das Mães

Mae 1José Horta Manzano

Você sabia?

Dias e festas especiais, como o Dia das Mães, têm origem mais antiga do que geralmente se imagina. Muitos acham que nada existia antes de comerciantes americanos começarem a incentivar cidadãos a comprar presente para a mãe. Não é bem assim.

Pouco mais de um século atrás, é verdade, o Dia das Mães se institucionalizou nos Estados Unidos. Diga-se de passagem que o nome oficial da festa é Mother’s Day. O «‘s» final indica que se festeja uma mãe só. A intenção é de que cada família festeje a sua. É o «Dia da Mãe», sutileza quase filosófica.

Na Grécia e na Roma de dois mil anos atrás, homenagens às mães coincidiam com a chegada da primavera. Louvava-se Cibeles, deusa da fertilidade, personagem associada à condição feminina e à perenidade da vida. Já durante a Idade Média, banido o panteísmo, a Virgem assumiu o lugar de antigas deusas. Uma ou outra relíquia desses usos subsistem. No Panamá, por exemplo, mães são festejadas em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. (Conceição = concepção = geração.)

Mae 4A maioria dos países adota dia fixo para celebrar as mães, independentemente do dia da semana em que caia. É o caso do México, da Guatemala e de El Salvador (10 de maio). Já o Paraguai uniu o útil ao agradável: aproveitou o dia 15 de maio, dia em que tradicionalmente se comemora Juana de Lara, heroína nacional, para festejar as mães ‒ dois coelhos de uma cajadada só.

Mae 3Na pequena Eslovênia, o dia certo é 25 de março. Na Armênia, o 7 de abril. A Polônia prefere o 26 de maio. Mostrando espírito prático, os sul-coreanos fixaram o dia 8 de maio para a Festa dos Genitores ‒ com isso, comemoram pai e mãe ao mesmo tempo. E vira-se a página.

A França e meia dúzia de antigas colônias africanas determinaram que as mães sejam homenageadas no último domingo de maio. Só que tem um problema. Nos anos em que esse domingo coincide com Pentecostes, as mães têm de esperar uma semana: só serão celebradas no primeiro domingo de junho. E o que é que tem uma coisa a ver com a outra?

Explico. Em vários países europeus, França incluída, a segunda-feira que segue o domingo de Pentecostes é dia feriado. Portanto, o fim de semana prolongado incita muitos a viajar. Turistas nem sempre se lembram de comprar presente para a mãe. A saída encontrada pelos comerciantes foi adiar a «Fête des Mères».

Mae 2O Dia das Mães de nossos hermanos argentinos guarda lembrança de tradição religiosa. Até os anos 1960, o Dia da Maternidade da Virgem era comemorado em 11 de outubro. Por analogia, a homenagem foi-se estendendo a todas as mães. A força do comércio acabou por vencer a tradição. Hoje, a festa das mães está definitivamente fixada no terceiro domingo de outubro, embora a Maternidade da Virgem tenha sido transferida para 1° de janeiro.

Bom número de países dedica o segundo domingo de maio às mães. São mais de 60 a homenageá-las nesse dia. Além do Brasil, a Suíça, os EUA, o Uruguai, a Itália, a Alemanha, a Colômbia, a Dinamarca, o Japão, a Grécia, o Peru, a Austrália e até a China escolheram esse dia.

Um pensamento afetuoso a todas as mães. Às que aqui ainda estão e às que já se foram.

233 dias

José Horta Manzano

Você sabia?

Entre meus distintos leitores, numerosos são os que moram em região de clima tropical, onde dias de sol e calor são a regra. Nem todos os terráqueos vivem a mesma realidade. A maioria dos humanos conhece outra existência.

Aqui na região em que vivo, os ares não têm a tropicalidade brasileira. Invernos são longos e verões, naturalmente, curtos. Sabe quando foi a última vez que a temperatura ultrapassou 20°? Foi dia 16 de setembro do ano passado. Desde então, nunca mais. Faz 233 dias que não sabemos mais o que é um calorzinho. Praticamente oito meses!

Primavera 2Mas calma lá! Isso não significa que se tenha de usar meia de lã, capote e cachecol dentro de casa. Lareira, hoje em dia, tornou-se objeto decorativo. Na Europa ocidental, a maioria das casas conta com aquecimento. Os sistemas podem variar, mas todos garantem temperatura confortável em todos os cômodos.

Carros, lojas, trens, centros comerciais e outros locais públicos também são aquecidos. O resultado é que, em certos dias do ano, paulistas, paranaenses ou gaúchos podem passar frio dentro de casa, desconforto de que europeus já não se lembram mais.

PrimaveraPara hoje, depois de tantos meses, está previsto que a temperatura externa chegue aos simbólicos vinte graus. Não deve ir além, mas já é bom sinal de que a primavera chegou. Afinal, estamos em maio, mês das flores e das noivas.

Mas não pensem que, de agora até setembro, o termômetro vai subir acima dos vinte graus, regularmente, todos os dias. Em 2015, ano excepcionalmente quente, isso só aconteceu no mês de julho. Vamos ver como será este ano.

Olimpíadas chegando

José Horta Manzano

Este 27 de abril marca um símbolo: faltam exatos 100 dias para o início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Ninguém discute: é o evento esportivo mais importante do planeta. Só pra avaliar, aqui estão alguns números:

Primeira edição dos Jogos realizada na América do Sul

42 esportes

10.500 competidores

206 países representados

306 medalhas em disputa

11 milhões de refeições a servir

137 mil participantes diretos entre funcionários, voluntários e terceirizados.

O mundo está em efervescência. Entre os atletas, corre solta a disputa pela honra de conseguir uma vaga. Participantes brigam e torcem para ser escolhidos como porta-bandeira, glória suprema.

Surpreendentemente, o Brasil ‒ maior interessado ‒ não dá mostra de grande interesse. A atenção especial que deveria estar sendo dirigida às Olimpíadas está em segundo plano. Inflação, desemprego e nuvens negras na governança da União sobressaem. Tem-se a impressão de que o maior encontro esportivo é fato menor, acessório, marginal.

A expectativa de conquistar medalhas foi substituída, na cabeça do povo, pelas continhas sórdidas de quantos milhões serão roubados. A questão maior mudou de foco. O bolsão de apostas tenta antever quem serão os beneficiários da ladroeira. Triste momento e triste país.

Manchetes de hoje de alguns veículos da imprensa estrangeira

Interligne 28aRadio France Inter, emissora pública francesa

A 100 dias dos JOs, o Brasil atravessa crise

A 100 dias dos JOs, o Brasil atravessa crise

Interligne 28a

NDTV, tevê indiana de informação contínua

Brasil luta contra o caos 100 dias antes dos JOs

Brasil luta contra o caos 100 dias antes dos JOs

Interligne 28aFrankfurter Allgemeine Zeitung, diário alemão de referência

Caos no Brasil

Caos no Brasil

Interligne 28aPágina Siete, portal boliviano de informação

A crise brasileira ameaça os Jogos Olímpicos Rio 2016

A crise brasileira ameaça os Jogos Olímpicos Rio 2016

Interligne 28aNanopress, portal italiano de informação

Federica Pellegrini, porta-bandeira da Italia nas Olimpíadas 2016

Federica Pellegrini, porta-bandeira da Italia nas Olimpíadas 2016

Interligne 28aDeutschlandfunk, portal alemão de informação

Mau humor 100 dias antes das Olimpíadas

Mau humor 100 dias antes das Olimpíadas

Interligne 28aDernières Nouvelles d’Alsace, portal francês de informação

Brasil: 11 mortos nas obras dos JOs

Brasil: 11 mortos nas obras dos JOs

Interligne 28a

No topo da Terra ‒2

José Horta Manzano

Mensalão, Lava a Jato, Petrolão, impeachment, é golpe, não é golpe, é traição, não é, é salvação da pátria, voto por minha mãezinha, voto por meu neto que está por nascer, voto pelo bom povo de minha querida cidade, prefiro uma suíte de hotel de luxo, prefiro um sítio em Atibaia, prefiro um pedalinho de lata… Ufa!

Se o distinto leitor está ‒ como eu ‒ exausto de ler, todos os dias, notícias que nada mais são que variações sobre o mesmo tema, tenho uma solução. Dá um pouco de trabalho, mas resolve.

2016-0424-02 IslandPrimeiro, dedique-se, corpo e alma, ao estudo da língua islandesa. Não é fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças como chinês ou vietnamita. Uma vez adquirido razoável controle da língua, abandone a mídia brasileira. Essa é a parte mais agradável: é como jogar mágoas na cachoeira.

A partir daí, deleite-se com a mídia islandesa. Crônica policial? Dois acidentes de circulação ocorreram ano passado, causados por motoristas distraídos em conversar ao celular. Fora isso, tudo em ordem, tudo na santa, nada escabroso, nada raivoso, nada nojento.

Aí vem o melhor de tudo: fora uma ou outra (rara) menção ao futebol, nenhuma notícia sobre o Brasil. A mais recente que encontrei foi dada mais de três meses atrás. Conta a história de um casal islandês preso em Fortaleza por se estar preparando para voltar à terra natal carregando oito quilos de cocaína na bagagem.

Islândia 7O artigo não deixa claro como é possível que os dois tenham sido apanhados ainda no hotel, antes de se apresentarem no aeroporto. A polícia, naturalmente, confiscou a droga, os celulares e os 50 reais que encontrou. Nenhum artigo islandês posterior informa se os estrangeiros continuam presos.

Dado que, no Brasil, esse tipo de notícia já não impressiona ninguém, vai ser difícil conhecer o fim da história. Fica como sinfonia inacabada. Cada um que use a imaginação pra dar o fim que lhe parecer mais conveniente.

Enquanto isso, temos de consolar-nos com mensalão, Lava a Jato, petrolão, impeachment, golpe e voto pelo neto que está por nascer.

No topo da Terra

José Horta Manzano

Você sabia?

A não confundir com a Irlanda, a Islândia é um pequeno país, uma ilha situada no extremo norte do Oceano Atlântico, terra de poucas árvores e muitos vulcões. De nome pouco convidativo ‒ Island, do escandinavo is, significa Terra do Gelo ‒ é um dos países de população mais homogênea do globo.

Islândia: gêiser

Islândia: gêiser

É povoada por apenas 300 mil pessoas. Seus habitantes são descendentes de vikings que, vindos da Escandinávia, lá se estabeleceram mil anos atrás. Desde então, a imigração tendo sido praticamente nula, o resultado foi um contingente populacional harmonioso e coeso. Quase todos os ilhéus são aparentados, em maior ou menor grau. Quando um islandês trava amizade com outro, um dos assuntos preferidos é conferir a proximidade de parentesco entre os dois. Serão primos em nono grau? Em décimo segundo? Todo islandês, principalmente os jovens, tem instalada no telefone celular uma aplicação específicamente desenvolvida para facilitar a busca genealógica.

Islândia: banho em piscina termal natural

Islândia: banho em piscina termal natural

A terra é fértil, mas o clima não ajuda. Não é que faça frio exagerado ‒ os invernos são menos rigorosos que os da Europa Central. Na capital, Reykjavik, a média das temperaturas mínimas do mês mais frio é de 3°C abaixo de zero. Para comparação, a alemã Munique registra, no mesmo mês, 5° abaixo de zero.

O que falta, na Islândia, é calor. Em julho, o mês mais quente, a média das temperaturas mais elevadas não alcança 14°C. Uma «tórrida» tarde de vinte graus merece manchete de jornal no dia seguinte.

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Em compensação, a terra é rica em fontes, lagos e gêiseres de água muito quente. Essa abundância gratuita de fontes de calor traz vantagens não desprezíveis. Canalizada, a água fervente serve para aquecer casas e imóveis, tornando desnecessária a queima de combustível. A atmosfera agradece.

A água quente serve também para climatizar grandes estufas onde se cultivam frutas e legumes que, ao ar livre, não vingariam. Consequência curiosa: a Islândia é o maior produtor europeu de banana. A poucos quilômetros do Círculo Polar Ártico, quem diria, não?

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Assim mesmo, a maior riqueza do país foi e continua sendo a pesca, base da alimentação e da economia da ilha. A regulação rigorosa que a União Europeia impõe às atividades pesqueiras é, aliás, o freio que retém os islandeses de pleitear adesão à UE.

Fiquei sabendo hoje que os primeiros refugiados sírios foram recebidos na Islândia. São 50 pessoas, o que não parece muito. No entanto, comparados à população da ilha, equivalem a um Brasil dando asilo a 3500, de uma vez só. De memória, não me ocorre registro semelhante.

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Num comportamento exemplar, os islandeses acolheram de braços abertos esses estrangeiros, no sentido mais amplo da expressão. Milhares se propuseram a ajudar. Houve quem oferecesse um quarto da própria residência, houve quem propusesse um emprego. Lojas e firmas se cotizaram para dar uma mão. Ikea, o gigante escandinavo da fabricação de móveis, deu um cheque de 700 euros a cada asilado, para ser descontado na compra do que lhes for útil dentro do sortimento da loja. O governo do país se comprometeu a oferecer a todos curso de islandês além de uma ajuda de custo durante os primeiros meses, até que se ajeitem.

Há quem pode mais, há quem pode menos. Se a gente olhar em volta, vai sempre encontrar alguém mais necessitado que nós. Parabéns aos simpáticos islandeses.

Islândia 6Nota edificante
Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, primeiro-ministro do país, foi flagrado em envolvimento no escândalo dos ‘Panama Papers’. Não deu outra: em 24 horas, foi defenestrado pelos conterrâneos indignados.

Minuto de silêncio

José Horta Manzano

Você sabia?

Minuto de silencio 1Minuto de silêncio é o nome que se dá a um momento solene, observado em ocasiões especiais, aquele instante em que todos se calam e cada um é convidado a uma reflexão sobre a importância da celebração. Pode-se tratar de comemoração de vitória ou de derrota, pode-se estar homenageando a memória de pessoa ou de acontecimento.

Forças republicanas, Lisboa 1910

Forças republicanas, Lisboa 1910

É momento grave e profundo. Embora costume durar bem menos de um minuto, o nome está consagrado. Sua universalidade se prende ao fato de não evocar nenhuma religião, nenhuma corrente política, nenhum regime, nenhuma figura histórica. Eis por que é aceito aqui e na Cochinchina, por pretos, brancos, azuis e verdes.

De onde vem essa tradição? Como em toda velha história, as versões variam, embora o registro mais antigo seja atribuído à Assembleia Portuguesa. O relato é curiosíssimo e merece ser repetido aqui.

Hermes da Fonseca

Hermes da Fonseca

Em 1910, recém-eleito presidente da República brasileira, o marechal Hermes da Fonseca empreendeu viagem à Europa. Embarcou no encouraçado São Paulo, que ostentava pavilhão brasileiro e fazia sua viagem inaugural. Já no caminho de volta, aportou em Lisboa dia 1° de outubro de 1910 para encontrar-se com o rei e cumprir visita oficial de 8 dias.

À sua chegada, já percebeu movimento atípico, tropas à vista, cheiro de revolta no ar. O país vivia dias febris. Fato é que, quando o marechal chegou, Portugal era uma monarquia. Quando partiu, dias depois, o país havia-se transformado em República. Se tivessem combinado antes, não teria dado tão certo. Sem querer, o visitante transformou-se em testemunha ocular da História.

Semanas mais tarde, ao assumir a presidência da República, o marechal Hermes determinou que o barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, comunicasse oficialmente que o Brasil reconhecia o novo regime português. Foi o primeiro país a dar legitimação ao novo governo. De fato, as nações europeias, dominadas por monarquias, não tinham visto com bons olhos a destituição de um rei. Fizeram corpo mole e tardaram a reconhecer a República Portuguesa.

Encouraçado São Paulo

Encouraçado São Paulo

Quando o barão do Rio Branco faleceu, dois anos mais tarde, a Assembleia Portuguesa fez questão de manifestar-lhe, uma derradeira vez, o agradecimento da nação. Foi proposta ‒ e cumprida! ‒ uma hora de silêncio. Há de ter sido interminável. Dias mais tarde, o Senado lusitano repetiu a dose, encurtando para dez minutos.

Não demorou muito para o costume ser adotado pelos britânicos, que o espalharam pelo mundo. Os horrores da Primeira Guerra mundial se encarregaram de dar motivos de sobra para comemorações ‒ que, aliás, se prolongam até hoje.

Barao Rio Branco 1É isso aí. Da próxima vez que lhe propuserem um minuto de silêncio, tome o distinto leitor como homenagem indireta ao barão do Rio Branco, herói de um tempo em que relações exteriores eram levadas a sério e, em vez de se amoldar aos interesses de um partido político, serviam ao interesse maior do Estado brasileiro.

Imposto & voto

José Horta Manzano

Seguindo tendência mundial, a Receita francesa também aderiu aos meios eletrônicos de comunicação. Foi noticiado hoje que, a partir de 2019, todos os contribuintes deverão declarar seus rendimentos por internet. Os formulários de papel passarão em breve à condição de relíquia. Farão companhia à tinta nanquim e ao mata-borrão.

Só a palmatória não será aposentada. Quem fizer questão de continuar a preencher a declaração de imposto pelo método tradicional poderá fazê-lo, mas terá de pagar multa. Não é enorme, mas vale como reprimenda: 15 euros (60 reais).

by Michel "Chimulus" Faizant (1946-), desenhista francês

by Michel “Chimulus” Faizant (1946-),
desenhista francês

Inteligentemente, as autoridades francesas aceitam que a internet seja utilizada para declaração de ganhos, mas continuam recusando o voto «eletrônico», que é considerado, no Brasil, expressão máxima da modernidade. Fazem bem. Uma declaração de renda sempre pode ser corrigida. Já um voto, não. Errou, dançou.

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Observação linguística
Embora consagrada, a expressão «Imposto de Renda» não me agrada. Lembro-me que, sessenta anos atrás, minha avó já reclamava quando tinha de declarar sua «renda». Dizia: ‒ Mas, se eu vivo de ordenado, como é que vou declarar renda?

Tinha razão a velhinha. Renda, na época, era o nome que se dava ao rendimento de propriedades ou investimentos. Aluguel recebido era renda. Juros de uma aplicação financeira eram renda. Salário, não.

Imposto 3Continuo achando que a Declaração de Imposto de Renda deveria se chamar Declaração de Ganhos. Ganho engloba salários, vencimentos, honorários, lucros, rendas, tudo o que o contribuinte recebe.

Mas quem faz a língua são os usuários. Expressão consagrada, consagrada está. Vamos de imposto de renda mesmo.

Vitória de Pirro

José Horta Manzano

Você sabia?

Continuo aplaudindo de pé a equipe responsável pela atribuição de nome às diferentes fases da Operação Lava a Jato. Vitória de Pirro… esta de hoje é mesmo de pasmar.

A expressão já era usada pelos romanos há dois milênios. Faz referência a Pirro I (318-272 a.C.), que reinava sobre a região de Épiro, na Grécia antiga. Era época de expansão. A Grécia havia fundado colônias na orla do Mediterrâneo ‒ Itália, França, Norte da África.

O crescente poderio do Império Romano, no entanto, começava a ameaçar a expansão grega. Enfrentamentos militares foram-se tornando inevitáveis.

Rei Pirro I

Rei Pirro I

Rei Pirro I havia estabelecido uma colônia no sul da Itália, chamada Heracleia. A “invasão” irritou os romanos, que decidiram expulsar os forasteiros. Uma batalha foi travada entre os autóctones e as tropas do rei Pirro. O exército grego venceu a batalha, mas suas tropas sofreram danos irreparáveis. A aparente vitória militar acabou revelando-se contraproducente por ter resultado em derrota a longo prazo.

Desde então, toda vitória que se transforma em fracasso costuma ser chamada de «Vitória de Pirro». A história guarda uma alentada lista de batalhas que entram nessa categoria. Feitos não militares às vezes costumam ser batizados com o mesmo epíteto. É justamente o caso da mais recente fase da Lava a Jato.