Os invernos do século 19

José Horta Manzano

Quando a gente evoca a Rússia, qual é a primeira imagem que costuma vir? Nove em dez pessoas dirão que é o frio, a neve, o gelo, gente encapotada. É natural, para um país situado entre os paralelos 41° e 77°. (Para comparação: Rio e São Paulo estão em torno do paralelo 23°.)

No entanto, durante a Copa, o que é que se viu? Sol, passarinhos cantando, flores nos jardins públicos, jogadores suando em bicas, tempestades de verão. Locutores relatavam temperaturas de 28, 30, 32 graus. E a gente pensava: ‒ Mas que Rússia é essa?

É verdade que, mesmo tendo de atravessar invernos rigorosos, os russos sempre podem contar com um solzinho no verão, suficiente pra incitar passarinhos a cantar. Mas este ano está-se revelando atípico, quente demais. As anomalias ligadas à mudança climática global estão afetando particularmente aquelas regiões setentrionais.

Escandinávia, Sibéria, Norte do Canadá ‒ nenhum rincão escapa às ondas de calor deste ano. Por diversas vezes, localidades da Sibéria registraram 40° no mês passado. Incêndios florestais se declaram espontaneamente nas florestas de bétulas ‒ grandes árvores típicas daquelas latitudes. Nunca antes ‘naquelepaiz’ se viu coisa parecida.

Lugares quentes estão cada dia mais ferventes. Dia 28 de junho deste ano, em Quriya, no Sultanato de Omã, a temperatura passou 24 horas sem descer abaixo dos 42,6 graus. Durma-se com um calor desses! Tem pior. Duas semanas atrás, na localidade argelina de Uargla, registrou-se a máxima de 51,3 graus. Dá pra imaginar o sufoco?

Pra constatar o aquecimento do clima, não precisa ir muito longe. Aqui mesmo, em nosso país, já dá pra sentir o drama. Recortei, de um jornal de 1881, uma tabela com dados meteorológicos registrados na cidade de São Paulo no ano de 1880. Transcrevo aqui os números. Para cada mês, aparece a temperatura máxima e a mínima.

Dados colhidos pelos engenheiros britânicos da Cia. Cantareira & Esgotos, São Paulo.
Publicado em janeiro 1881
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Repare o distinto leitor. Apesar da localização tropical da cidade, no dia de calor mais forte naquele ano o termômetro não passou de 31,6°. E compare as mínimas de 1880 com as de hoje em dia. Atualmente, quando faz menos de dez graus, dá manchete de jornal e os passarinhos caem das árvores. Pois em 1880, sete meses tiveram pelo menos um dia com menos de dez graus. Num belo dia de junho, o termômetro chegou a descer ligeiramente abaixo de zero(!), fenômeno inimaginável hoje.

Está aí mais um argumento ‒ se não científico, bastante convincente ‒ pra demonstrar que o tempo anda esquentando.

Onda de frio

José Horta Manzano

Você sabia?

Frio 3Faz muitos anos, passei uns dias de férias na Floresta Negra, sul da Alemanha. Era inverno, logo após o Natal, e fazia muito frio. Ficamos em casa de família, numa hospedagem do tipo bed & breakfast. Casa de campo, família muito simpática, sorrisos pra cá e pra lá.

Deixávamos o carro estacionado no espaço apropriado, um quadrado cimentado situado bem em frente à casa. Os vidros do carro amanheciam invariavelmente cobertos por fina camada de gelo.

Em regiões onde o fenômeno é frequente, todo automobilista carrega, no porta-luvas, pequena plaquinha de plástico cuja função é raspar o vidro pra eliminar a umidade congelada. É fácil de usar mas bom acabamento demanda tempo e trabalho. Automobilista sem pressa pode também ligar o motor e a calefação. É menos ecológico mas, em poucos minutos, o gelo acaba derretendo.

Racloir 1Sem pressa, mas também sem vontade de esfregar, um dia apanhei um balde d’água e derramei sobre o para-brisa. Rapidinho, o gelo foi-se. Orgulhoso, fiquei a matutar como é que os alemães ainda não haviam pensado numa solução tão evidente. Eis senão quando… aparece a dona da casa. Assustada, pôs as mãos na cabeça: «Nein, nein!» ‒ Não, não faça isso!

Vendo que eu não tinha entendido a razão do pito, a hospedeira explicou que a água entornada, ao se acumular sob o carro, ia formar uma placa de gelo no chão transformando o quadrado de cimento numa pista de patinação onde é impossível frear sem derrapar. Manobra sobre gelo é acidente esperando pra acontecer.

Racloir 2Estes dias, chegaram notícias de que o frio intenso tinha congelado água dentro do cano em certas regiões do sul do Brasil. Meus distintos leitores talvez se lembrem de que líquidos, ao congelar, se expandem. É o que acontece com cerveja esquecida dentro do congelador. Portanto, fica fácil entender que, com frio abaixo de zero, água parada dentro do cano periga arrebentar o metal.

Nas regiões em que frio forte ocorre com frequência, é recomendado purgar os canos externos ‒ as torneiras de jardim, por exemplo. Fecha-se o registro, abre-se a torneira e esvazia-se até a última gota. Isso vale para canalização externa, mais exposta a baixas temperaturas. Não vale, naturalmente, para torneiras instaladas dentro de casas aquecidas. Os habitantes das serras catarinenses certamente conhecem a manha.

Quanto a nós, vamos vivendo e aprendendo.

233 dias

José Horta Manzano

Você sabia?

Entre meus distintos leitores, numerosos são os que moram em região de clima tropical, onde dias de sol e calor são a regra. Nem todos os terráqueos vivem a mesma realidade. A maioria dos humanos conhece outra existência.

Aqui na região em que vivo, os ares não têm a tropicalidade brasileira. Invernos são longos e verões, naturalmente, curtos. Sabe quando foi a última vez que a temperatura ultrapassou 20°? Foi dia 16 de setembro do ano passado. Desde então, nunca mais. Faz 233 dias que não sabemos mais o que é um calorzinho. Praticamente oito meses!

Primavera 2Mas calma lá! Isso não significa que se tenha de usar meia de lã, capote e cachecol dentro de casa. Lareira, hoje em dia, tornou-se objeto decorativo. Na Europa ocidental, a maioria das casas conta com aquecimento. Os sistemas podem variar, mas todos garantem temperatura confortável em todos os cômodos.

Carros, lojas, trens, centros comerciais e outros locais públicos também são aquecidos. O resultado é que, em certos dias do ano, paulistas, paranaenses ou gaúchos podem passar frio dentro de casa, desconforto de que europeus já não se lembram mais.

PrimaveraPara hoje, depois de tantos meses, está previsto que a temperatura externa chegue aos simbólicos vinte graus. Não deve ir além, mas já é bom sinal de que a primavera chegou. Afinal, estamos em maio, mês das flores e das noivas.

Mas não pensem que, de agora até setembro, o termômetro vai subir acima dos vinte graus, regularmente, todos os dias. Em 2015, ano excepcionalmente quente, isso só aconteceu no mês de julho. Vamos ver como será este ano.

Ode ao frio

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Frio 3Aleluia, você está de volta! Que bom recebê-lo de novo por estas paragens, frio. Você não faz a mínima ideia do quanto estávamos saudosos. Que bom também que seu retorno tenha se feito acompanhar por uma chuvinha benfazeja. Até os jovens que não o conheceram quando São Paulo ainda tinha um clima civilizadamente ameno e era chamado de terra da garoa hoje o saúdam.

Espero, frio, que você tenha vindo para ficar de vez por aqui. Que, pelo menos até o fim de maio, você resista bravamente às possíveis massas de ar quente vindas da Amazônia, aos eventuais bloqueios atmosféricos causados por zonas de baixa pressão. Como você se demorou pelo caminho, envolvido quiçá pela beleza das paisagens e pela alegria no rosto das pessoas, talvez não saiba o quanto nossa terra ultimamente está precisada de um pouco de refrigério.

Sabe, não eram apenas os dias que estavam quentes. Os espíritos também estavam inflamados, nossos miolos não encontravam refrigeração, pulando de uma notícia bombástica para outra, sem intervalo para recuperar o fôlego. As cores do cenário à nossa volta eram fortes demais, o contraste de tons se exacerbava a cada minuto. Estávamos precisando desesperadamente de um pouco de sombra, de silêncio, de contrição. Sentíamos a necessidade de que o que está fora se apaziguasse um pouco para que o que está dentro se reorganizasse em torno do caminho da serenidade.

Clima frioÉ engraçado constatar isso, mas só você, frio, consegue nos encaixar com precisão na moldura da condição humana. Você nos inspira ao aconchego, ao acolhimento, à aproximação fraterna. Quando está calor, somos animais selvagens que só conhecem e reagem às próprias sensações: ao suor escorrendo pelas têmporas, pelo pescoço e descendo num arrepio pelas costas nos alertando que a ação foi exagerada; ao coração batendo apressado ansiando por mais emoções fortes; à garganta seca implorando por alívio imediato; aos reclamos do estômago, fígado e intestinos sobrecarregados pelo esforço de dar vazão à adrenalina acumulada; aos rins se queixando da missão impossível de eliminar de uma só vez tantos desvarios.

Quando você chega, frio, nossos órgãos de sentido aliam-se a nossos sentimentos e passam a comandar o espetáculo: nossos olhos que se abrem mais para contemplar com ternura os contornos da realidade emocional de outras pessoas; nosso coração que se aquieta para ouvir melhor o pulsar do coração do outro; nossas mãos que se comprazem na tarefa de identificar as diferentes texturas que compõem o substrato psíquico de cada criatura.

Frio

Frio

Paradoxalmente, começamos a nos comportar quase como ninhada de animais que só sabem sobreviver empilhando-se e dormitando uns sobre os outros para desfrutar o calor do contato de corpos. Já não nos bastamos mais. Recuperamos a memória dos tempos ancestrais da nossa vida em cavernas e reavivamos o fogo da esperança de sobreviver à solidão de tudo o que é propriamente humano.

Calor 1Já disse alguém que romântico é aquele que projeta nas mudanças climáticas as próprias emoções. Se o dia está nublado, sua mente divaga em meio a sombras. Se chove, sente-se liquefazer por dentro. Se um raio de sol desponta, seu peito enche-se de esperança. Pode ser verdade, mas acho que o inverso também é verdadeiro. Nos dias quentes, muitas vezes me sinto como quem assiste da plateia a um desfile de carnaval: aquele rebuliço todo me parece exagerado; a alegria, falsa; a confraternização, forçada. O descompasso com o desejo de contenção que invade minha alma acaba por me cansar me deprime.

Tudo a seu tempo, é claro. Os gregos já diziam que só aprendemos com os opostos. O sentido de pertencimento, de encaixe, precisa vir aos poucos, transitar suavemente em sintonia com o findar de um ciclo e a abertura para um novo. Depois do verão, o outono. Depois do inverno, a primavera. Depois da exposição, recolhimento. Depois da hibernação, o despertar da fome de contato.

Por isso, frio, demore-se pelo tempo que for possível. Se seu ciclo também demorar a se fechar, o desgaste orgânico será novamente inevitável. E nós que pertencemos organicamente ao calor dos trópicos – para meu pesar pessoal, devo admitir – podemos oferecer mais uma vez resistência ao prolongamento de sua permanência.

Frio 4Enquanto esse dia não chega, meu querido friozinho outonal, quero uma vez mais lhe dizer que abençoo a sua chegada. Por seu lado, com o corpo e a mente ainda abrasados pela vontade de colher os frutos de nosso esforço para implementar dias melhores para todos, rezo para você não se levar muito a sério nem se transformar, sem querer, no inverno da nossa desesperança.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Tempo frio, tempo quente

José Horta Manzano

Folha de São Paulo (Brasil)
«Com geada, ao menos 21 cidades do sul registram temperaturas abaixo de zero»

Interligne 37dStern (Alemanha)
«Heißer als Brasilien: Rekordhitze in Deutschland»
«Mais quente que no Brasil: recorde de altas temperaturas na Alemanha»
(35,6° nas cercanias de Karlsruhe)

Mudança climática?

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça conheceu seu terceiro inverno mais quente dos últimos 150 anos. Somente o inverno de 2006/2007 e o de 1989/90 foram mais suaves que este que se termina.

Em Genebra, tirando um curto instante na manhã de 29 de janeiro, não nevou este inverno. Em Neuchâtel, outra cidade suíça, não caiu nem um floco. As cercanias da cidade de Basileia não conheceram nenhum episódio de geada sobre o leito das estradas ― fenômeno perigoso, que pode provocar derrapagens. Fazia 150 anos que isso não acontecia.

Lago de Lungern, Cantão de Obwald Paisagem habitual no inverno Crédito: Walter Ming-Isaak

Lago de Lungern, Cantão de Obwald
Paisagem habitual no inverno
Crédito: Walter Ming-Isaak

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Lago de Lungern, Cantão Obwald 23 janeiro 2014 Crédito: Sigi Tischler, Keystone

Lago de Lungern, Cantão Obwald
Foto de 23 janeiro 2014
Crédito: Sigi Tischler, Keystone

Enquanto isso, leio que o Sul e o Sudeste brasileiro sofreram longas semanas sob calor sevilhano e secura namíbica.

Deve ser efeito da mudança climática que estamos atravessando.

O inverno extraordinário

José Horta Manzano

Frio

Frio

Você, que vive no Sul e no Sudeste, sentiu frio estes dias. Mas saiba que já houve épocas ainda mais geladas. Veja a descrição detalhada que lhes dou abaixo do extraordinário inverno de 1955.

Quarta-feira, 27 julho 1955. Naquela data, quase 60 anos atrás, tinha início a que talvez tenha sido a mais espetacular onda de frio já oficialmente registrada no Brasil. Os registros oficiais de 1912 até a atualidade estão aí para confirmar.Interligne 18f

ANÁLISE GERAL
A onda polar que atingiu o Brasil no final de julho 1955 foi marcante em cinco aspectos atípicos.

Interligne vertical 81°) O frio
Segundo os dados disponíveis, a onda polar derrubou as temperaturas em mais de 60% do território nacional ― mais de 5 milhões de km2. Mais: embora não tenham sobrado cartas sinóticas, os dados indicam que a frente fria ultrapassou a linha do Equador.

2) A geada
As geadas cobriram extensão territorial excepcional. Estima-se que o fenômeno tenha ocorrido em 90% da região Sul. Chegou a gear em quase todo o litoral gaúcho e também em alguns trechos do litoral de Santa Catarina e do Paraná, fenômeno pra lá de raro.

3) A neve
Nevou nos três estados sulinos com grande intensidade. A altura da neve acumulada no solo atingiu 70cm na serra catarinense. Além disso, no alto da serra gaúcha, o fenômeno continuou por 4 dias consecutivos. Foi a nevada mais longa já registrada na região. A neve cobriu também áreas de baixa altitude do RS e parte expressiva do PR.

4) As máximas diurnas
A temperatura máxima diurna registrada em todos os municípios atingidos pela onda de 1955 foi anormalmente baixa. O caso mais emblemático ocorreu em São Joaquim (SC), onde, durante três dias seguidos, o termômetro permaneceu abaixo de zero ― tanto de noite quanto de dia.

5) As mínimas noturnas
As ondas de frio registradas em 1918, 1925 e 1933, embora muito fortes, não cobriram regiões tão extensas quanto a de 1955. Em centenas de localidades brasileiras, o recorde de baixa temperatura verificado em 1955 ainda não foi quebrado. Essa afirmação vale tanto para o extremo sul do RS quanto para a Amazônia.

Após escrupulosa comparação, pode-se garantir que a frente polar de 55 foi a mais importante de todas as que já se registraram no Brasil.Interligne 18f

Frio

Frio

A CRONOLOGIA DO FENÔMENO

Nota: Os dados que se seguem baseiam-se nos registros no Inmet

Terça-feira, 26 julho 1955
O sul do Chile e o sudoeste da Argentina são invadidos por uma massa polar de trajetória continental. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil vive um forte veranico.

Quarta-feira, 27 julho 1955
A massa de ar progride em direção ao norte e chega ao Rio Grande do Sul. Durante o dia, a temperatura despenca e o Inmet já registra neve à tarde em Bom Jesus. Enquanto isso, o Estado de São Paulo recebe a pré-frontal, com bastante vento, mas sem queda de temperatura.

Quinta-feira, 28 julho 1955
A massa polar, apesar de intensa, enfrenta grande resistência e avança lentamente pelo Brasil. No RS e em SC já faz muito frio e cai neve. Em Bom Jesus (RS), neva forte durante a tarde e a noite. No PR, a temperatura só cai mesmo a partir do meio da tarde e no Estado de SP a pré-frontal continua forte. Pelo interior, a massa polar avança em direção à Amazônia.

Sexta-feira, 29 julho 1955
O bloqueio do veranico perde força, mas ainda assim o ar polar avança devagar pelo Brasil. No Centro-Oeste, a onda de frio chega a Cuiabá e dá início a uma forte friagem. Em São Paulo, o tempo muda à tarde com a chegada da frente fria. As temperaturas despencam. Neva muito nas serras gaúchas e catarinenses. Em Bom Jesus (RS), registra-se intensa queda de neve durante 24 horas seguidas.

Em São Joaquim (SC), além da nevasca, a temperatura máxima do dia foi negativa. Não subiu além de -1ºC.

Em Joaçaba, no interior catarinense, nevou a tal ponto que houve interrupção no tráfego de algumas ruas. A precipitação durou o dia inteiro. No fim do dia, a neve chegaria ao Paraná. Em Porto Alegre (RS), a máxima foi de apenas 8,5ºC, uma das mais baixas registradas até hoje.

Sábado, 30 julho 1955
A onda de frio atua com fortíssima intensidade no Sul, em parte do Sudeste, na maior parte do Centro-Oeste e até no oeste da Amazônia brasileira. O dia amanhece gelado desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Em Cuiabá a mínima chega a 4,3ºC e na cidade de Lages (SC), desce a 5ºC negativos. Nesse dia, continua a nevar nas serras do RS e de SC, embora já com menor intensidade. Por outro lado, as precipitações caem sob forma de neve intensa sobre vasta região do Paraná. A cidade de Palmas (PR) recebeu de 30 a 50cm de neve, volume extremamente raro.

No Paraná, neva nas cidades de Clevelândia, Francisco Beltrão, Santo Antônio, União da Vitória, Inácio Martins, Guarapuava, Cascavel e Pato Branco, entre outras.

Também em Curitiba parece ter ocorrido o fenômeno. Jornais locais da época afirmam que caíram flocos de neve nos bairros do Bacacheri, Boqueirão e na região do Afonso Pena. É perfeitamente plausível, dado que a temperatura variou entre -2ºC e 3ºC na cidade naquele dia.

Também foi divulgada pela imprensa a queda de neve em Porto Alegre (RS). Mas o Inmet não registrou oficialmente essa ocorrência.

Outro fato digno de nota é a temperatura máxima diária mais baixa registrada em São Joaquim (SC): apenas -2,0ºC. Só em uma outra ocasião registrou-se máxima diária inferior a essa: foi em julho de 1993, com 2,4ºC negativos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre no Sul, a massa polar continua seu avanço e chega a Manaus (AM). Ao longo do dia o tempo abre em toda a Região Sul.

Domingo, 31 julho 1955
A onda de frio atua no auge de sua força em todo o Centro-Sul e em boa parte da Amazônia. Na Região Sul, o céu limpo na madrugada favorece a queda da temperatura e a formação de fortes geadas. A friagem, como o fenômeno é chamado na Amazônia, atua com força total.

Veja algumas mínimas registradas no Brasil naquele dia:

Guarapuava (PR): -8,4ºC
São Joaquim (SC): -8,1ºC
Ivaí (PR): -6,0ºC
Curitiba (PR): -5,0°C
Aquidauana (MS): -0,9ºC
Paranaguá (PR): 2,3ºC
Laguna (SC): 2,4ºC
Florianópolis (SC): 4,0ºC
Cruzeiro do Sul (AC): 10,2°C
Manaus (AM): 18,5°C

Pela manhã, as geadas devastaram as lavouras de café do Paraná. Foi um desastre econômico, dado que a rubiácea era, de longe, o principal produto de exportação do País.

Em São Paulo, geou apenas na cidade de Catanduva, que registrou mínima de -1ºC. No leste do estado, o céu ficou limpo a partir da tarde e as temperaturas despencaram à noite.

No Amazonas, a onda polar ultrapassou a linha do Equador.

Frio

Frio

Segunda-feira, 1 agosto 1955
De a madrugada, o frio atingiu seu auge e o amanhecer foi gélido no Centro-Sul. Eis algumas mínimas:

Rio Grande do Sul
Bom Jesus: -9,8°C (recorde histórico do Estado)
Alegrete: -3,0°C
Bagé: -2,0°C
Iraí: -4,3°C
Passo Fundo: -2,5°C
Pelotas: -3,4°C
Porto Alegre: -1,2°C
São Luiz Gonzaga: -1,2°C
Santa Maria: -2,0°C

Santa Catarina
São Joaquim: -6,4°C
Urussanga: -4,6°C
Camboriú: -1,2°C

Paraná
Castro: -7,5°C
Rio Negro: -7,2°C
Ivaí: -6,1C°
Jaguariaíva: -2,7°C
Paranaguá: 3,8°C

São Paulo
Avaré: 0,3°C
São Paulo (Mirante de Santana): 1,5°C
São Paulo (Horto Florestal): 0,7°C

Mato Grosso
Cuiabá: 9,0°C
Aquidauana: -2,2°C
Corumbá: 3,3°C

Amazônia
Alto Tapajós: 11,1°C
Uaupés: 18,1°C
Manaus: 19,0°C
Iauaretê: 16,5°C (na linha do Equador)
Cruzeiro do Sul: 9,6°C

As geadas foram muito intensas em toda a Região Sul e atingiram também boa parte de São Paulo. Geou em Catanduva, Limeira, Avaré, Itú, Monte Alegre do Sul, Tatuí. Em Presidente Prudente, a mínima desceu a -1ºC.

Neste dia, a onda de frio começou a perder força, embora ainda mantendo temperaturas relativamente baixas durante o dia.

Frio

Frio

Terça-feira, 2 agosto 1955
A onda de frio perde força rapidamente, mas de manhã o frio foi intenso principalmente no Estado de São Paulo.

Mínimas:
Camboriú, SC: -1,2°C
São Paulo, SP: -2,1°C (recorde histórico)
Santos, SP: 4,3°C
Iguape, SP: 3,2°C
Angra dos Reis, RJ: 9,9°C
Itajubá, MG: 1,2°C

No dia 3 ainda foram registradas mínimas negativas no Sul do país, mas no dia 4 o ar frio já se dissipava totalmente. Mesmo assim, Teresópolis registrou apenas 1,2°C.

Foi o fim da superonda polar do inverno de 1955.

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Fonte: Abaixodezero.com

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Que tal um friozinho?

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, quando o termômetro cai a 18°, a gente diz que está friozinho. Se desce mais uns 5 graus, dizemos que está muito frio. Abaixo de 10°, todos reclamarão que está parecendo o Polo Norte. É uma questão de hábito.

A vilazinha siberiana de Oymyakón (Оймякон em escrita cirílica), com seus quinhentos habitantes, é considerada a localidade ― habitada em permanência ― mais fria do planeta. Há regiões ainda mais geladas, mas são povoadas por pinguins ou por algum cientista de passagem.Oymyakón 1

O lugarejo de que lhes falo está situado na Federação Russa, na parte oriental da Sibéria, mais precisamente na República da Yakútia. Nas noites de janeiro, o mês mais frio, faz 50° abaixo de zero. Isso é uma média, evidentemente. Há períodos em que a temperatura desce de verdade. Já roçaram os 70° abaixo. Isso, sim, é que é frio para ministro nenhum botar defeito.

O mais inacreditável é que, em alguns dias do verão, o termômetro resolve subir tropicalmente. Em julho de 2010, encostou nos 35°! Não segurou a canícula por muito tempo, mas chegou lá.

Oymyakón é uma das três únicas localidades habitadas em que a amplitude térmica ― a diferença entre a máxima e a mínima ― ultrapassa 100 graus centígrados. As outras vilas estão também na Sibéria, naturalmente.

E olhe que a latitude, embora elevada (63°) não justifica tudo. No extremo norte da Noruega, por exemplo, fica a cidadezinha de Hammerfest onde, apesar da latitude mais elevada (70°), a média do mês mais frio não desce abaixo de menos 5°. São artes do Gulf Stream.Oymiakón 3

Em outras regiões do mundo, as escolas primárias fecham suas portas quando neva. A autoridade considera que um chão nevado pode representar perigo para a passagem dos petizes. Em Oymyakón, a escola só fecha quando o frio desce abaixo de menos 50°.

Mas não se afobem. Já estamos em abril, a primavera está aí. Oymyakón já está registrando médias bem mais confortáveis, em torno de menos 13, menos 14, por aí. Para este 14 de abril, a Central Meteorológica Russa prevê mínima de –27° e máxima de –2°. O verão, como podem ver, está batendo à porta. Para a semana que entra, deve melhorar.

Os serviços meteorológicos brasileiros não trabalham com a precisão dos russos, que, temos de reconhecer, são campeões no assunto. Também, não temos tanta necessidade. Nossa amplitude térmica é bem mais estreita. O que interessa mesmo é saber se vai chover ou não.

Falando em amplitude, não consegui identificar a localidade brasileira com maior diferença entre a máxima e a mínima absoluta. Acredito que poderia bem ser alguma cidadezinha da serra catarinense. De qualquer maneira, a variação anual não chega nem à metade dos 100 graus de Oymyakón.Oymiakón 2

Muito pelo contrário, nossa tropicalidade faz que a diferença entre os meses quentes e os mais frescos seja pequena, às vezes insignificante. Fernando de Noronha, um dos pontos mais observados de nosso território, registra média de 26.8° no mês mais quente e 25.5° no mais frio. Dá para ir à praia o ano inteiro.

Aceita um refrigerante?

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Nota: Em Oymyakón não há moradores de rua.

Brrrr…

José Horta Manzano

Você sabia?

Cada país tem seus encantos e cada um se defende como pode. Chamar a atenção e atrair turistas é sempre importante.La Brévine 1

A Suíça não tem mar, nem coqueiros, nem riquezas minerais, nem indústria pesada. Até as melancias por aqui são raras, o que faz que poucos tenham a chance de passear por aí com uma delas pendurada no pescoço para causar frisson nos transeuntes.

No Brasil, São Joaquim (SC) e Campos do Jordão (SP) são polos de atração de forasteiros, que vêm unicamente para sentir aquele friozinho ― que nem sempre responde presente quando a gente quer. Pois fiquem sabendo que a Suíça também tem sua pequena Sibéria, ora pois!

É um minúsculo município de forma alongada (2km ou 3km de largura por uns 20km de comprimento), povoado por apenas 650 pessoas. Chama-se La Brévine e fica no Cantão de Neuchâtel, encarapitado nos Montes Jura, no noroeste do país. Das localidades habitadas, é a mais fria do país. A Suíça conta, naturalmente, com picos bem mais elevados e muito mais gelados. Mas, como é compreensível, ninguém mora lá.

Comparada com as alturas de São Joaquim e de Campos do Jordão, a altitude da Brévine até que é modesta: não passa muito de 1000m. O que faz a diferença é que o povoado está localizado numa bacia ― uma região côncava cercada de morros ―, situação que lhe confere um microclima pra lá de especial.La Brévine 2

Recordes de frio são frequentemente registrados ali. Principalmente no inverno, embora aconteçam esporadicamente também no verão. A condição sine qua non para que o fenômeno sobrevenha é que a noite tenha sido clara, sem nuvens e sem vento. Tem um nome que soa familiar aos paulistanos: uma inversão térmica. Sem a poluição, sem os gases de escapamento e sem a massa humana apinhada num espaço reduzido, naturalmente.

São episódios caracterizados por uma camada de ar muito frio que estagna no fundo da bacia, enquanto ar mais quente fica por cima. Algumas dezenas de metros acima do fundo do vale, a temperatura pode perfeitamente estar uns 10 graus mais elevada.

Desde que, no dia 12 de janeiro de 1987, os termômetros marcaram ali 41.8° abaixo de zero(!), o minúsculo município ganhou fama nacional e o apelido de Sibéria Suíça.

Todos os anos, desde então, o vilarejo organiza sua Festa do Frio, num sábado de janeiro. Vem gente de longe só para sentir aquela sensação picante. Este ano foi dia 26 de janeiro. Até que não estava tão frio assim: «somente» 22 graus abaixo de zero. Mas já é friagem de bom tamanho, pra ministro nenhum botar defeito.

Talvez por falta de assuntos mais relevantes, até a televisão noticiou o evento. Quem quiser se refrescar com um minuto e meio siberiano, clique aqui. E quem gostar de emoções fortes e não tiver medo de sentir uns calafrios, pode consultar uma lista de temperaturas historicamente baixas já registradas na Brévine. Aqui.Chica-bon

Vai um Chica-bon aí?