Ode ao ódio

José Horta Manzano

Quando, em 1785, o poeta alemão Friedrich Schiller deitou no papel os versos que viriam a ser conhecidos como An die Freude (=Ode à Alegria), estava longe de imaginar o destino fabuloso que teriam aquelas poucas linhas.

Da mesma forma, quando Ludwig van Beethoven, tempos depois, poria música em cima dos versos do poeta e os incluiria ao último movimento de sua 9Sinfonia, não podia sonhar que aquela melodia se tornaria um dia o hino de uma Europa pacificada e unida. Logo ele que, contemporâneo de Napoleão, passou a vida num continente conflagrado.

E nem em delírio algum dos dois ousaria supor que a obra sofreria, duzentos e tantos anos mais tarde, agressão tão pesada como a que sofreu em 2 de julho de 2019. E justamente no recinto aveludado do Parlamento Europeu! A peça de Schiller e Beethoven serviu de fundo musical para o espetáculo mais incivilizado e deprimente que aquela Casa já conheceu.

Três anos atrás, como se sabe, um plebiscito revelou que metade do povo britânico queria abandonar a União Europeia enquanto a outra metade preferia continuar no barco comum. A estreita diferença entre o ‘sim’ e o ‘não’ ao Brexit tem dado margem a muito conflito. Dois primeiros-ministros já caíram por isso. O divórcio, que já devia estar consumado, continua emperrado. Alguns sugerem a organização de nova consulta. Desorientada, a política britânica vive um deus nos acuda.

Faz algumas semanas, foram eleitos os novos deputados europeus, que são, na União Europeia, os únicos representantes eleitos diretamente pelo povo. A câmara é composta de 751 deputados. Cada país tem direito a um contingente correspondente a sua população. Dos 79 deputados britânicos, 29 são afiliados ao partido favorável ao Brexit, cujo lider é Mr. Nigel Farage. Vivem uma situação surreal: embora sejam contrários à permanência de seu país na União Europeia, têm assento garantido no parlamento europeu.

A decência ensina que, quando o deputado está numa situação delicada como essa, se faça o mais discreto possível. Faltar às sessões, em sinal de protesto, é solução aceitável. Pois não foi o caminho escolhido pelos membros do partido do Brexit no dia 2 de julho, na sessão inaugural da nova legislatura. Estavam todos presentes à sessão solene, com direito a música ao vivo e até soprano para abrilhantar a execução do hino europeu. (É justamente a Ode à Alegria, obra bicentenária de Beethoven e Schiller.)

Assim que a música começou, no entanto, os deputados britânicos do partido do Brexit puseram-se de pé e viraram as costas para o plenário, numa atitude de escracho e desrespeito, não habitual em ambientes solenes. E não foi só. Cada um deles já tinha instalado uma bandeirinha britânica, bem visível sobre a escrivaninha, ato que não combina com um ambiente pan-europeu e supranacional.

Não se deve desrespeitar um hino nacional, ainda que seja de país estrangeiro. O que os deputados brexistas fizeram foi ofensa gravíssima a todos os europeus. Imagine se, durante uma sessão do parlamento inglês, alguém desse as costas durante a execução do ‘God save the Queen’. Perigava ser linchado. Pois foi exatamente o que fizeram os deputados do Brexit. Coisa de gentinha.

O comentário de um leitor do site da BBC acertou na mosca: eles certamente não dariam as costas ao salário nem às mordomias do cargo. Ao final do ultraje explícito, não ganharam um voto a mais. O desaforo só acentuou a antipatia que eles já despertam em muita gente. Foi tremendo erro de marketing. Além de gentinha, são pouco inteligentes.

Aqui está um vídeo de menos de um minuto em que a BBC flagra o momento do insulto.

Brexit ‒ 2

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José Horta Manzano

Parlamento Europeu
O Parlamento Europeu, casa legislativa da União Europeia, é composto por 751 membros. Sedia-se em Bruxelas, cidade capital da Bélgica.

Representação
Os 751 deputados europeus são eleitos por sufrágio universal direto e secreto. Cada país tem direito a número de representantes proporcional a sua população. Os países menos populosos (Estônia, Malta, Chipre) elegem 6 deputados cada um. A Alemanha, país com maior número de habitantes, manda 96 eleitos.

Parlamento europeu

Parlamento europeu

Grupos & partidos
Diferentemente do que se poderia imaginar, os deputados não se agrupam por país de origem. Juntam-se por afinidade política. A Aliança dos Verdes, por exemplo, é composta por 55 deputados originários de 17 países. Essa característica ameniza o peso populacional dos países maiores.

Os «contras»
Como sói acontecer em sistemas democráticos, o parlamento conta com três dezenas de deputados antieuropeus. São políticos que usam os mecanismos do sistema para solapá-lo, para corroê-lo de dentro pra fora. Sonham com o desmonte da União.

Parlamento europeu, Bruxelas

Parlamento europeu, Bruxelas

Nigel Farrage
Deputado britânico há 17 anos, Mister Farrage é presidente do partido Ukip, que provocou o plebiscito que deu origem ao Brexit. Está vivendo seus momentos de glória, embora o futuro se anuncie ameaçado por nuvens negras.

Jean-Claude Juncker
Homem de notável inteligência, é o presidente da Comissão Europeia há dois anos. Foi primeiro-ministro do Luxemburgo, seu país, durante quase 20 anos.

Sessão
Nesta terça-feira 28, houve sessão do Parlamento. Mister Farrage, sorridente e triunfante, estava presente. Herr Juncker, amável, cumprimentou-o civilizadamente. Isso foi antes de começarem os debates.

Partidos que compõem o Parlamento Europeu

Partidos que compõem o Parlamento Europeu

Provocação
Quando a palavra foi concedida aos participantes, Herr Juncker declarou que, na sequência do voto britânico, o Parlamento reconhecia e aceitava o resultado. Mister Farrage, fanfarrão, tentou tripudiar e disse que muitos outros países ainda haviam de seguir o exemplo do Reino Unido.

Reação
Deu-se mal. Herr Juncker, que não costuma levar desaforo pra casa, retrucou de bate-pronto: «You were fighting for the exit. The British people voted in favour of the exit; why are you here?» ‒ «O senhor estava batalhando pela saída. O povo britânico votou pela saída. O que é que o senhor está fazendo aqui?»

Nigel Farage & Jean-Claude Juncker

Nigel Farage & Jean-Claude Juncker

Estocada
A estocada final foi dada por um veemente Guy Verhofstadt, deputado europeu e antigo primeiro-ministro da Bélgica. Fixando Mr. Farage nos olhos, disparou: «OK, let’s be positive, we are getting rid of the biggest waste of EU budget : your salary.» ‒ «OK, vamos ver o lado bom. Estamos nos livrando do maior desperdício do orçamento da UE: seu salário.»

I beg your pardon?
Poliglota, Herr Juncker costuma se exprimir indiferentemente em inglês, alemão e francês. Excetuando as frases dirigidas a Mr. Farage, suprimiu a língua inglesa de suas falas. Mostrou que, para a presidência do Parlamento, a saída do Reino Unido já é página virada.

Brexit ‒ 1

Cabeçalho 11José Horta Manzano

Nota soberana
As agências de notação Standard & Poor’s e Fitch anunciaram, nesta segunda-feira 27, a degradação da nota soberana do Reino Unido. De AAA, passou a AA com perspectiva negativa. A nota já havia sido carimbada com perspectiva negativa pela Moody’s, a terceira das grandes agências.

Retorção
Cresce a antipatia ‒ nem sempre verbalizada ‒ e a má-vontade dos europeus contra o Reino Unido. Essa disposição não vai amenizar as discussões.

Artigo 50
A saída de um membro da UE está prevista no Artigo 50 do Tratado de Lisboa. O dispositivo foi posto ali proforma ‒ just in case, como diriam os ingleses. Ninguém imaginava que pudesse ser acionado um dia. É análogo ao artigo da Constituição brasileira que estipula a possibilidade de impedimento do presidente da República.

Artigo vago
O artigo só estabelece o princípio, sem descer aos pormenores. Dado que se trata da primeira vez que um dos Estados se prepara a desfiliar-se do clube, não há rotina estabelecida. Tudo terá de ser inventado.

Rainha Elizabeth 1Surpresa
Todos foram surpreendidos com o resultado do voto dos britânicos. Todos apostavam no «in», imaginando que o «out» estivesse fora de cogitação. Perderam todos. O espanto foi ainda maior no campo dos que tinham pedido o divórcio. Nigel Farage, presidente do partido ultranacionalista Ukip, anda perdido como cego em tiroteio. Não estava preparado para essa eventualidade. Não sabe o que fazer.

Cameron de pé firme
Recusando-se a agir como é praxe em ocasiões como essa, David Cameron, o perdedor, recusa-se a deixar o cargo de primeiro-ministro imediatamente. Prefere esperar que a poeira baixe. Sabe que, assim que a ficha cair, o panorama vai ficar bem mais escuro para seu sucessor.

Consulta
Por incrível que pareça, a saída do Reino Unido está longe de ter sido formalizada junto à UE. O plebiscito tinha caráter meramente consultativo. Numa hipótese absurda, o parlamento britânico poderia até ignorar o resultado e seguir adiante como se nada tivesse ocorrido.

Formalização
Para ser levado em conta, o pedido de saída tem de ser feito de maneira oficial à direção do clube, em Bruxelas. Pode ser que esse passo ainda demore a ser dado.

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Uns com pressa…
Monsieur Hollande (França) e Signor Renzi (Itália), entre outros, têm pressa e querem que o processo corra acelerado. Compreende-se. França e Itália têm regiões que reclamam a independência. Quanto mais rápido se apagar esse incêndio, melhor será.

… Outros sem
Frau Merkel (Alemanha) gostaria que o processo fosse bem vagaroso, sem um grama de precipitação. O Reino Unido é o terceiro parceiro comercial da Alemanha, daí a prudência germânica. Além disso, a Alemanha não tem nenhuma região reclamando independência.

Quantos à mesa?
Como ninguém havia previsto um plano B, é hora de improvisar. A reunião de chefes de Estado marcada, já faz tempo, para 28 e 29 de junho vai se realizar. O jantar de terça-feira contará com os 28 mandatários. O primeiro-ministro britânico, no entanto, não foi convidado para o almoço de quarta-feira. Vai comer sanduíche.