Tsunami de gelo

José Horta Manzano

Maciços montanhosos costumam abrigar lagos de altitude. Alguns são alimentados por curso d’água afluente. Outros, por derretimento de alguma geleira ou das neves invernais. Há ainda os que entram nas duas categorias – é o caso do Lago de Joux. Ele é alimentado pelas neves do inverno rigoroso e pelas águas do Orbe, rio que entra por um lado, atravessa a massa d’água e sai na outra ponta. Com 21m de profundidade, o Lago de Joux fica a uma altitude de 1000 metros. Mede 9km de comprimento por 1km de largura.

Lago de Joux no verão

Ao redor, está um rosário de cidadezinhas que, há séculos, se especializaram em fabricar relógios, escolha explicada pelo sistema de trabalho familiar. Tradicionalmente, cada família era especializada na fabricação de determinados componentes do relógio. Os longos invernos favorecem o trabalho em casa. A fábrica propriamente dita costumava ser mais montadora que fabricadora. Recolhidas as peças talhadas pelas famílias, faziam a montagem final dos relógios. Se a moderna automatização praticamente deu cabo do sistema, certo número de marcas importantes ainda produzem ao redor do lago.

Lago de Joux no inverno

Quando, no inverno rigoroso, a temperatura fica abaixo de zero durante alguns dias, uma camada de gelo se forma na superfície do Lago de Joux. Dependendo da espessura, dá pra passear em cima – calçando patins, que senão escorrega. Em algumas ocasiões, desde que determinados fatores estejam reunidos, esse gelo pode dar origem a um tsunami. Não é todo ano que acontece, mas foi o que se viu neste 2019.

Quando chega março, as travas do inverno começam a afrouxar. Na região, costumava ocorrer em abril, mas o aquecimento global tem encurtado o período frio. À medida que a temperatura se eleva, a camada de gelo vai afinando. Se, nessa altura, vier um dia de vento forte e contínuo, estarão reunidas as condições pra um tsunami gelado. A um dado momento, milhões de plaquinhas de gelo de poucos centímetros de espessura vão se desprender da superfície do lago, sair voando e encalhar na margem, formando montes de gelo.

O fenômeno dura poucos minutos. Nos tempos de antigamente, o espetáculo era reservado pra quem fosse da região. Hoje, que todo o mundo leva uma filmadora no bolso, ficou mais fácil. Faz dois dias, um passante, ao assistir ao tsunami de 2019, sacou rápido do celular e registrou essas impressionantes imagens. Não é perigoso como maremotos, mas é raro, curioso e original.

Il gelo che dà foco

José Horta Manzano

No segundo ato da ópera Turandot, última obra de Giacomo Puccini, os libretistas inseriram um verso que diz: «il gelo che dà foco» ‒ o gelo que dá fogo.

Na ópera, é mera imagem poética. Em nosso país, é a dura realidade. Não fosse trágico, seria cômico.

Chamada Folha de São Paulo, 1° maio 2017

Onda de frio

José Horta Manzano

Você sabia?

Frio 3Faz muitos anos, passei uns dias de férias na Floresta Negra, sul da Alemanha. Era inverno, logo após o Natal, e fazia muito frio. Ficamos em casa de família, numa hospedagem do tipo bed & breakfast. Casa de campo, família muito simpática, sorrisos pra cá e pra lá.

Deixávamos o carro estacionado no espaço apropriado, um quadrado cimentado situado bem em frente à casa. Os vidros do carro amanheciam invariavelmente cobertos por fina camada de gelo.

Em regiões onde o fenômeno é frequente, todo automobilista carrega, no porta-luvas, pequena plaquinha de plástico cuja função é raspar o vidro pra eliminar a umidade congelada. É fácil de usar mas bom acabamento demanda tempo e trabalho. Automobilista sem pressa pode também ligar o motor e a calefação. É menos ecológico mas, em poucos minutos, o gelo acaba derretendo.

Racloir 1Sem pressa, mas também sem vontade de esfregar, um dia apanhei um balde d’água e derramei sobre o para-brisa. Rapidinho, o gelo foi-se. Orgulhoso, fiquei a matutar como é que os alemães ainda não haviam pensado numa solução tão evidente. Eis senão quando… aparece a dona da casa. Assustada, pôs as mãos na cabeça: «Nein, nein!» ‒ Não, não faça isso!

Vendo que eu não tinha entendido a razão do pito, a hospedeira explicou que a água entornada, ao se acumular sob o carro, ia formar uma placa de gelo no chão transformando o quadrado de cimento numa pista de patinação onde é impossível frear sem derrapar. Manobra sobre gelo é acidente esperando pra acontecer.

Racloir 2Estes dias, chegaram notícias de que o frio intenso tinha congelado água dentro do cano em certas regiões do sul do Brasil. Meus distintos leitores talvez se lembrem de que líquidos, ao congelar, se expandem. É o que acontece com cerveja esquecida dentro do congelador. Portanto, fica fácil entender que, com frio abaixo de zero, água parada dentro do cano periga arrebentar o metal.

Nas regiões em que frio forte ocorre com frequência, é recomendado purgar os canos externos ‒ as torneiras de jardim, por exemplo. Fecha-se o registro, abre-se a torneira e esvazia-se até a última gota. Isso vale para canalização externa, mais exposta a baixas temperaturas. Não vale, naturalmente, para torneiras instaladas dentro de casas aquecidas. Os habitantes das serras catarinenses certamente conhecem a manha.

Quanto a nós, vamos vivendo e aprendendo.

Inexperiência hibernal

José Horta Manzano

Você sabia?

Nunca faça isso. É perigoso.

Nunca faça isso. É perigoso!

A Folha de São Paulo deste 30 de janeiro traz uma foto surpreendente. Trata-se de um automobilista que, ao sair de casa de manhã, elimina de seu para-brisa a fina camada de geada que se formou com o frio da noite.

Até aí, nada demais. É a chatice quotidiana de quem mora em lugar frio e tem de deixar o carro na rua. O que surpreende é a maneira pra lá de original que o cidadão encontrou para se livrar do gelo.

Raspadeira simples. Funciona a muque.

Raspadeira simples. Funciona a muque.

Entornar água quente num para-brisa gelado? É um contrassenso por duas razões. A primeira é que o choque térmico pode até causar dano ao vidro. A segunda, certeira, é que a água quente formará uma poça no chão bem no lugar onde estava o carro. Com o frio, vai-se criar uma placa de gelo mais escorregadia que casca de banana.

Se alguém tiver a má sorte de pisar ali mais tarde, periga levar um tombo daqueles de quebrar o colo do fêmur. Sem contar que o próprio automóvel, quando retornar à noite, pode patinar e ficar incontrolável.

Raspadeira ultrassofisticada

Raspadeira elétrica ultrassofisticada

Nunca vi ninguém jogar água quente em para-brisa gelado. Para remover a placa de gelo, tem de raspar. Há no comércio diversos aparelhinhos, do mais simples ao mais sofisticado, funcionando todos a partir do mesmo princípio. Cada motorista escolherá o que melhor lhe convier.

Caso você se encontre um dia nessa situação, a última coisa a fazer é jogar água quente. Raspe. Demora um pouco, mas é mais seguro.

Estalactite

Estalactite 2José Horta Manzano

Você sabia?

Estalactite, sabemos todos o que é. Damos esse nome àquelas curiosas formações encontradas principalmente no interior de grotas úmidas. São como colunas, como cones invertidos ― de cabeça para baixo, com a base presa no teto.

O nome, que soa tão científico, entrou na língua pela via erudita. Começou a ser mencionado cerca de 200 anos atrás, mas só foi dicionarizado bem mais tarde. Provém de uma raiz grega ― stalaktos ― que significa gotejante, aquilo que escorre gota a gota.

No dia a dia, usamos palavras descendentes dessa mesma família. Entre outras, instilar e destilar. Ambas trazem embutida a ideia de gota a gota, pouco a pouco.

Nas grutas, as estalactites são formadas por precipitação de matéria calcária. Muito lentamente, gotículas de água escorrem pelas colunas. Com o passar do tempo, a água evapora e o cálcio solidifica. Resultam imagens um tanto fantasmagóricas, mas, ainda assim, belíssimas. Daquelas que nos remetem a antigos desenhos animados.

Nestes tempos em que crianças não hesitam em trucidar criaturas monstruosas em jogos de computador, uma floresta de estalactites não deve mais assustar ninguém. Mas garanto-lhes que esses cones invertidos já cumpriram seu papel atemorizante na mente de muitos dos adultos em que nos convertemos.Estalactite 4

Não é só em grutas e cavernas que se encontram formações desse tipo. No inverno, caprichos climáticos de latitudes mais frias proporcionam às vezes espetáculos impressionantes.

Após uma boa nevada, às vezes o sol aparece. Seus raios, embora tênues, podem ser suficientes para derreter uma parte da neve acumulada. O resultado é um filete d’água que goteja de telhados, de amuretas, de rochedos. Quando não há vento, as gotículas vão-se congelando à medida que escorrem. Formam-se então estalactites de gelo, de muita beleza.

Não resistem muito tempo, mas encantam os olhos. O que é bom dura pouco.Estalactite 5