Competição de malandros

José Horta Manzano

Este aqui levou 150 milhões. Aquele ali devolveu 70 milhões. O empresário X confessou ter dado 200 milhões de propina. O empresário Y reconhece generosidade de 90 milhões. A mulher do Cunha, só de comprinhas pessoais feitas com dinheiro de bolso, gastou um milhão. Estamos falando de dólares em todos os casos.

Perto desses, os malfeitos conhecidos de Luiz Inácio da Silva, apontado por muitos como o «capo di tutti i capi», são irrelevantes. Um sítio com pedalinhos de lata e um apartamento num feio edifício de frente para uma praia apinhada. Mais uns caraminguás ciscados pelos herdeiros. Francamente, algo está fora de esquadro.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Duas hipóteses podem ser propostas. A primeira supõe que o antigo sindicalista tenha sido ludibriado ‒ levado no bico, como ele diria. Companheiros mais espertos enchiam os bolsos com o grosso da rapina enquanto ele era feito de bobo, entretido com migalhas, como índio iludido com lantejoulas. Se assim for, nosso guia há de estar mordendo os dedos de raiva por ter sido tão ingênuo.

A segunda hipótese presume que o sítio e o apê não sejam senão cortina de fumaça que esconde gigantesco tesouro muito bem enrustido.

Se eu tivesse de escolher entre as duas hipóteses, ficaria com a segunda. Costumo duvidar da propalada inteligência de nosso guia, mas não chego a acreditar que seja um bocó de mola.

Seja qual for a resposta, saberemos um dia. De qualquer maneira, Luiz Inácio, já setentão, não parece ter boas perspectivas de tranquilidade nos anos que lhe restam. Que seja arquimilionário ou apenas proprietário duns pedalinhos de lata tanto faz. Ver desmoronar sua imagem e escorrer pelo ralo seu projeto megalômano é punição dantesca.

Passagens: o retorno do reprimido

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Semana passada, tive a impressão de ter visitado os círculos do inferno. Por algum estranho motivo, achei que eram sete esses círculos. Como não tinha outras referências para justificar essa impressão, decidi pesquisar a obra de Dante, o autor que para mim está mais associado ao conceito de inferno. Perplexa, descobri que, ao menos na visão dele, são nove círculos. Intrigada, achei melhor consultar o significado de cada um para tentar entender porque o número 7 insistia em permanecer na minha cabeça.

A primeira surpresa veio com a descoberta de que o primeiro círculo era o Limbo. Há poucas semanas, fiz um relato a respeito de minhas frequentes experiências pessoais de limbo e o descrevi como um estado angustiante de falta de vontade para tudo, que se faz acompanhar por uma sensação de alienação da realidade e de não-pertencimento.

Esquema do Inferno de Dante

Esquema do Inferno de Dante

Depois de alguns dias patinando em areia movediça, achei que poderia dar por terminada minha passagem pelo território da abulia. Sentia, no entanto, que algo continuava travado dentro de mim. Tentava pôr no papel meus sentimentos, mas a autocrítica me impedia. Tudo me parecia falso, mentiroso, forçado. Quanto mais eu me espremia para tirar de mim alguma verdade sincera, maior minha irritação. Resolvi consultar meu anjo. Antes mesmo de exprimir minha queixa, lá veio o diagnóstico irado dele: você está desconectada de sua essência.

Não entendi de imediato. A coisa continuou num crescendo de desconforto até que comecei a experimentar sensações ainda mais terríveis… de inveja! Inveja de tudo, das coisas mais ridículas às mais estranhas ao meu psiquismo. Por dias seguidos, fervi de inveja das pessoas mais inteligentes, mais ricas, mais articuladas socialmente, mais extrovertidas, mais autoconfiantes, mais bonitas, mais descontraídas, com mais talento para escrever, desenhar, cantar…

Inferno de Dante by Salvador Dalí (1904-1989), Marquês de Dalí de Púbol

Inferno de Dante
by Salvador Dalí (1904-1989),
Marquês de Dalí de Púbol

Meu anjo estava certo. Eu estava em guerra comigo mesma, ou melhor, com as coisas que me encheriam de vergonha caso eu as assumisse como parte da minha “essência”. Eram sensações tão fortes que cheguei a achar que o segundo círculo do inferno era constituído pela inveja. Voltando à pesquisa, constatei, frustrada, que ela simplesmente não fazia parte dos nove círculos concebidos por Dante. Quando estava a ponto de desistir, esbarrei sem querer com a informação de que o purgatório, sim, era composto por 7 círculos, cada um correspondendo a um dos sete pecados capitais. E lá estava a inveja na segunda colocação, só antecedida pelo orgulho!

Foi a confirmação de que eu precisava. Meu único consolo era acreditar que meu inferno pessoal havia sido deixado para trás e que agora eu estava às voltas com a expiação dos pecados. O orgulho intelectual, a autoimagem de pessoa altruísta, a crença nos meus poderes de acolhimento das diferenças, a sensibilidade no trato da dor humana, o desejo de reconhecimento. Nada ficou de fora. Refletidas no espelho da minha mente, cada uma das minhas limitações pessoais desfilava impávida e clamava por expurgo.

Inferno de Dante Mosaico do Batistério de Florença

Inferno de Dante
Mosaico do Batistério de Florença

Foi só então que me lembrei que, desde menina, nunca pude deixar de sentir que eu não passava de uma fraude e que era apenas questão de tempo para que ela fosse denunciada e percebida por todos. As deformações do meu caráter, ocultadas de mim mesma por tanto tempo, estavam finalmente a exigir remissão.

Uma passagem terrível, talvez a mais amedrontadora de todas, pelo universo de minhas sombras pessoais. Ao mesmo tempo, uma experiência incrivelmente libertadora, capaz de me devolver a serenidade e o sentido de integração da minha personalidade. Cordeiro em pele de lobo, onça e não gato, a garota desprovida de encantos louca para matar no peito a menina boazinha que eu deveria ter sido e adoraria ser.

Como diria Fernando Pessoa, “Deus não tem unidade. Como a terei eu?”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Não viaje, fique em casa

José Horta Manzano

Li ontem que a Câmara Federal converteu em lei uma medida provisória que reduz de 25% para 6% a mordida que a Receita Federal dá em cada montante que brasileiros enviam ao exterior.

O distinto leitor pode até nem acreditar, mas este blogueiro não sabia que o fisco cobrasse imposto dito «de renda» sobre remessas que cidadãos comuns fazem para o estrangeiro. Não sei se é uma «jabuticaba» (especificidade brasileira) ou se existe em outras terras. O fato é que eu nunca tinha imaginado que tal aberração pudesse existir.

Guichê 1Embora a alíquota tenha sido suavizada, o pedágio continua a ser cobrado a cada envio de fundos. Que seja para viagem de turismo, de negócios, de serviço, de treinamento, tanto faz. Até fundos enviados por cidadãos viajando em missão oficial são puncionados. É uma enormidade. A cobrança é injusta, burra e extravagante.

É injusta porque soa como punição imposta aos que tiverem ousado trabalhar, economizar e alcançar condições de fazer turismo fora do país. A mensagem profunda é: «Não vale a pena se esforçar para subir na vida, cidadão. Toda ascensão social será castigada!»

É burra porque penaliza empresários em viagem de negócios ou de serviços. Passa por cima do fato que nosso país, com parque industrial em desmonte acelerado, busca desesperadamente clientes e oportunidades novas no exterior. Esse imposto burro só faz aumentar o custo Brasil. Viagens de negócios deveriam, ao contrário, ser incentivadas.

Dinheiro 5É extravagante porque pune viagens de treinamento. A tecnologia invade, cada dia com mais força, a vida do cidadão comum. Ideias novas, aparelhos novos, dispositivos novos, técnicas novas requerem operadores bem formados. Se um cidadão viaja ao estrangeiro para receber treinamento, voltará sabendo mais do que sabia ao deixar o país. Deve-se concluir que a ideologia oficial é barrar aos brasileiros o caminho do aprendizado?

É verdade que, desde sempre, o Brasil cultivou seu isolamento e seu provincianismo. Tempos houve em que, para poder viajar ao exterior, a gente precisava de um visto de saída expedido pela Polícia Federal. Isso felizmente acabou, mas sobrou esse imposto. Podia fazer sentido em outras épocas. Hoje, combina com Cuba e Venezuela. No Brasil, dá recado ambíguo.

Interligne 18hNota a jato
Espero que o fisco federal tenha pensado em cobrar o devido imposto “de renda” de todos os que, pressionados pela Lava a Jato, estão devolvendo o que roubaram. Afinal, essa bolada saiu do Brasil livre de impostos. Sem prejuízo do processo penal, que o devido tributo seja calculado pela alíquota de 25%, que estava em vigor à época. E que se aplique multa e correção.

Caixa preta

José Horta Manzano

Vivemos no século 21. Todo o mundo tem telefone no bolso. Com dois cliques, sem se levantar da cadeira, qualquer um pode ter acesso ao outro lado do planeta. Coisas de ficção científica, como conversas ao vivo com som e imagem, tornaram-se corriqueiras e estão ao alcance de qualquer um.

Liga-se a tevê e pronto: lá está uma emissora internacional mostrando, ao vivo, um incêndio no Bangladesh, uma inundação na Mongólia, um tumulto em Moscou, o enterro de um figurão africano.

Caixa preta

Caixa preta

Li ontem que um jovem americano sobrevive, há ano e meio, sem coração ‒ no sentido próprio. Enquanto não aparece um órgão compatível para transplante, o que lhe foi retirado vem sendo substituído por uma maquineta de 6kg acondicionada numa mochila que o moço carrega às costas. O rapaz se movimenta, anda, sai à rua, fala, pensa, vive vida quase normal.

Mister Obama sabe, em tempo real, o que se trama em gabinetes de governos estrangeiros importantes. Mister Cameron, Frau Merkel, Mister Xi Jinping e Господин Putin(*) também sabem.

O distinto leitor pode até conhecer o site que vou nomear. Se não for o caso, aqui vai a dica. Quando estiver à espera de um conhecido que está viajando de avião, o interessantíssimo site Flight Radar é de grande utilidade. Serve também como passatempo pra momentos de farniente. Com três cliques, aparece o mapa-múndi com todos os aviões que voam naquele momento. Em movimento e em tempo real, com zoom, identificação e roteiro de cada aparelho. Um assombro.

Faz um mês, um avião da companhia EgyptAir desapareceu dos radares quando sobrevoava o Mediterrâneo. Destroços evidenciam que o aparelho se precipitou no mar. A França deslocou navios da Marinha, dotados de sonares altamente sensíveis, para a região onde se supõe que o avião tenha despencado. Faz quatro semanas que buscam as caixas pretas que encerram dados técnicos do voo e gravação dos sons da cabine. Na realidade, a cor das caixas é laranja, o que não altera o problema.

Imagem do site Flight Radar clique para ampliar

Imagem do site Flight Radar
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Nada garante que os objetos sejam um dia encontrados. Ainda que localizados, não é certo que estejam em condições de revelar os segredos que contêm. Supondo que não se as localizem nunca, ficaremos sem saber o que aconteceu. Erro humano, ação deliberada, falha mecânica, atentado terrorista? É possível que nunca se venha a conhecer a verdade.

Tendo na mão um telefone conectado a um satélite, qualquer um pode ser localizado, ouvido e gravado ainda que se encontre em pleno Sahara. Como é possível que conversas e dados de voo não seja registrados em tempo real e dependam de um disco rígido inserido numa frágil caixinha de metal que pode terminar no fundo do mar?

Para não iniciados, como eu, é um espanto.

Interligne 18c

(*) Господин (= Gaspadín) é marca de respeito que os russos antepõem ao nome de alguém. Nos tempos da União Soviética, o uso foi suspenso. Todos passaram a tratar-se por Товарищ (= Tavárich), ou seja, ‘camarada’. Derrubado o Muro de Berlim, tudo voltou ao que era antes no quartel de Abrantes.

Nomes e sobrenomes

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos de Eurocopa, estive observando que 22 dos 23 jogadores da seleção islandesa de futebol têm sobrenome terminado em «son». Pareceu-me curioso. Resolvi pesquisar e consegui informações interessantes.

A mais surpreendente é que os islandeses não têm sobrenome. Pelo menos, não como entendemos nós. O costume é dar à criança um prenome (simples ou duplo) seguido pelo prenome do pai acrescido do sufixo -son (filho). Assim, Hordur Magnusson é um rapaz chamado Hordur, cujo pai se chamava Magnus.

O mesmo sistema se aplica a meninas. Levam um prenome seguido pelo prenome do pai com o sufixo -dottir (filha). Helga Magnusdottir é a moça chamada Helga, cujo pai se chamava Magnus. (Quem tiver noções de inglês há de perceber a semelhança entre «dottir» e «daughter».)

Na impossibilidade de usar o nome paterno, em caso de paternidade desconhecida ou não declarada, resolve-se o problema dando à criança o nome da mãe, sempre seguido de -son para meninos ou de -dottir para meninas. Os únicos que têm direito de usar sobrenome ‒ e de transmiti-lo aos descendentes ‒ são os (raros) islandeses de origem estrangeira.

Seleção islandesa de futebol clique para ampliar

Seleção islandesa de futebol
clique para ampliar

É de regra também escolher o prenome do recém-nascido numa lista reconhecida oficialmente. Ela contém mais de 1800 prenomes femininos e pouco mais de 1700 masculinos. Para dar ao filho um nome fora da lista, precisa obter autorização do Comitê Islandês de Nomes.

Há condições para que ele seja aceito. Unicamente letras do alfabeto nacional podem ser usadas. O nome proposto tem de ser declinável. Para tanto, tem de ser foneticamente adaptado ao espírito da língua. Nomes terminados em «o», por exemplo, não serão autorizados porque nenhuma palavra islandesa termina com essa letra. São palavras indeclináveis. Nomes que, no futuro, possam causar constrangimento à criança são igualmente recusados.

Cada terra com seu uso. Num país de 300 mil habitantes, é possível conservar esse costume tradicional. Agora imagine o distinto leitor se nossos 200 milhões de conterrâneos se chamassem «João filho de Pedro» ou «Maria filha de Antônio». Adicionaria confusão a um país já confuso. Ou não?

Mas gostei da regra que, fora da lista oficial, um nome não será aprovado se puder representar risco de constranger seu portador. Ah, se pelo menos essa regra valesse no Brasil… Evitaria muito nome ridículo e pesado de carregar.

Interligne 18cNota esportiva
Ontem ocorreu a primeira zebra deste Euro 2016. A respeitada equipe portuguesa, aquela que conta com o festejado Cristiano Ronaldo, não conseguiu ir além de um magrinho 1 x 1 contra a Islândia, considerada a seleção mais fraca do torneio.

Onda de frio

José Horta Manzano

Você sabia?

Frio 3Faz muitos anos, passei uns dias de férias na Floresta Negra, sul da Alemanha. Era inverno, logo após o Natal, e fazia muito frio. Ficamos em casa de família, numa hospedagem do tipo bed & breakfast. Casa de campo, família muito simpática, sorrisos pra cá e pra lá.

Deixávamos o carro estacionado no espaço apropriado, um quadrado cimentado situado bem em frente à casa. Os vidros do carro amanheciam invariavelmente cobertos por fina camada de gelo.

Em regiões onde o fenômeno é frequente, todo automobilista carrega, no porta-luvas, pequena plaquinha de plástico cuja função é raspar o vidro pra eliminar a umidade congelada. É fácil de usar mas bom acabamento demanda tempo e trabalho. Automobilista sem pressa pode também ligar o motor e a calefação. É menos ecológico mas, em poucos minutos, o gelo acaba derretendo.

Racloir 1Sem pressa, mas também sem vontade de esfregar, um dia apanhei um balde d’água e derramei sobre o para-brisa. Rapidinho, o gelo foi-se. Orgulhoso, fiquei a matutar como é que os alemães ainda não haviam pensado numa solução tão evidente. Eis senão quando… aparece a dona da casa. Assustada, pôs as mãos na cabeça: «Nein, nein!» ‒ Não, não faça isso!

Vendo que eu não tinha entendido a razão do pito, a hospedeira explicou que a água entornada, ao se acumular sob o carro, ia formar uma placa de gelo no chão transformando o quadrado de cimento numa pista de patinação onde é impossível frear sem derrapar. Manobra sobre gelo é acidente esperando pra acontecer.

Racloir 2Estes dias, chegaram notícias de que o frio intenso tinha congelado água dentro do cano em certas regiões do sul do Brasil. Meus distintos leitores talvez se lembrem de que líquidos, ao congelar, se expandem. É o que acontece com cerveja esquecida dentro do congelador. Portanto, fica fácil entender que, com frio abaixo de zero, água parada dentro do cano periga arrebentar o metal.

Nas regiões em que frio forte ocorre com frequência, é recomendado purgar os canos externos ‒ as torneiras de jardim, por exemplo. Fecha-se o registro, abre-se a torneira e esvazia-se até a última gota. Isso vale para canalização externa, mais exposta a baixas temperaturas. Não vale, naturalmente, para torneiras instaladas dentro de casas aquecidas. Os habitantes das serras catarinenses certamente conhecem a manha.

Quanto a nós, vamos vivendo e aprendendo.

Marcaram bobeira

José Horta Manzano

Não conheço Eduardo Cunha nem a digníssima esposa. Nossos caminhos nunca se cruzaram. As informações que tenho sobre o casal ‒ nem sempre elogiosas, diga-se ‒ vêm da mídia. Tenho, assim mesmo, sérias dúvidas sobre a esperteza e a inteligência atribuídas a senhor Cunha.

Os erros monumentais cometidos pelo casal dão mostra estonteante de que falta, aos dois, traquejo internacional. Não estão acostumados a transitar pelo mundo dos ricos tradicionais. Essa falta de vivência levou senhor Cunha a crer que seus trambiques não seriam jamais descobertos. E, se desvendados fossem, que a situação se resolveria em torno de uma pizza, fácil, fácil.

Lista (parcial) dos gastos da esposa e da filha de Senhor Cunha

Lista (parcial) dos gastos da esposa e da filha de Senhor Cunha

No entanto, o cerco em torno do casal serelepe tem-se apertado, e a pizzaria parece estar fechada para reforma. Estes últimos dias, a ação do juiz mais adorado e mais detestado do Brasil, dependendo de que lado da cerca se encontre o observador, desaguou na acusação formal de senhora Cruz, a esposa. Na impossibilidade (momentânea) de pegar o tubarão, a Justiça optou por apanhar o lambari. A gastadora compulsiva tornou-se ré de processo criminal.

by Ivan Cabral, desenhista potiguar

by Ivan Cabral, desenhista potiguar

Ah, como é fácil fazer compras com dinheiro alheio… A lista (parcial) de gastos, publicada pela imprensa, é impressionante. A autodeclarada «dona de casa» e sua filha frequentaram os pontos preferidos pelos novos-ricos. Prada, Balenciaga, Louis Vuitton, Chanel, Ermenegildo Zegna, Yves Saint Laurent, Louboutin, Burberry, Christian Dior ‒ não deixaram de rezar em nenhum dos templos obrigatórios para quem enricou de repente.

Tivesse a compradora pagado suas despesas com dinheiro vivo, ninguém teria jamais descoberto. Preferiu utilizar cartão de crédito, que parece mais cômodo. No entanto, a falta de traquejo típica de quem cresceu longe da riqueza falou mais alto: para pagar a conta da operadora de cartão, a moça escolheu o banco errado.

Fatura mensal do cartão Visa de senhora Cruz a/c Banco Julius Baer para pagamento

Fatura mensal do cartão Visa de senhora Cruz
a/c Banco Julius Baer para pagamento

Imaginando que todo banco é igual, os Cunhas encarregaram o Banco Julius Baer, de Genebra, de cuidar dos pagamentos. Acontece que esse é banco privado, diferente dos estabelecimentos comerciais com que madame está acostumada a lidar. Banco privado não tem guichê, não tem agência aberta ao público, não recebe conta de luz, não empresta dinheiro a ninguém. São especializados em gerir fortuna de aplicadores que não querem passar a vida acompanhando o comportamento da bolsa.

Dinheiro voadorIgnorando essa peculiaridade, madame pediu ao banco que pagasse suas contas do dia a dia ‒ atitude anômala e inabitual. Isso acendeu a luzinha vermelha. Já faz anos que a Suíça deixou de ser paraíso fiscal e porto seguro para fortunas de origem duvidosa. O casal não sabia disso.

Deu no que deu. De pouco valeram os trusts e as empresas de fachada criadas pelos dois em ilhas caribenhas. O gato se escondeu, mas esqueceu o rabo fora. Em estreita colaboração com a justiça, o banco suíço forneceu tudo o que as autoridades pediram: junto com extratos de conta, veio o detalhe das surpreendentes despesas. Coisa de deixar boquiaberto. Documentos mostram que a «dona de casa» torrou um milhão de dólares em artigos de altíssmo luxo ‒ e de preço elevadíssimo.

Pronto, madame já foi apanhada pela engrenagem. O caminho que separa Monsieur Cunha de Curitiba (ou da Papuda, dependendo dos caprichos do destino) encurta-se a cada dia.

Adversários só em campo

José Horta Manzano

Apesar de desregrada por dentro, a Fifa continua ditando, editando, confirmando, revogando e chancelando regras futebolísticas. Entre elas, há uma que diz respeito à nacionalidade de jogadores. Todos os convocados por uma seleção nacional têm de ter a nacionalidade do país que representam. Parece lógico. Um time pode ter atletas estrangeiros, fato comum. Já uma seleção nacional não goza da mesma liberdade.

Xhaka 2Levando em conta casos de dupla cidadania e de aquisição de nova nacionalidade, a regra estipula que o atleta que já tiver integrado a seleção de um país não poderá ‒ nunca mais ‒ fazer parte da seleção de outra nação, ainda que se viesse a naturalizar. A primeira escolha será definitiva.

Os conflitos que castigaram e desintegraram a Iugoslávia, nos anos 90, provocaram êxodo de grandes contingentes populacionais. Famílias inteiras, fugindo das hostilidades, foram acolhidas em diversos países europeus. A pequena Suíça foi um dos mais generosos. Ofereceu refúgio a dezenas de milhares de indivíduos.

Xhaka 3Nenhum país europeu concede automaticamente a nacionalidade a filho de estrangeiros, nem mesmo aos nascidos no território nacional. A lei do solo, que dá nacionalidade automática aos nascidos no país, vigora no Brasil e no continente americano. Por estas bandas, não é assim. Só se adquire nacionalidade por herança ‒ a lei do sangue ‒ ou por naturalização.

Nessa matéria, a Suíça estabelece diferença entre estrangeiros que chegaram ao país já adultos e os que aqui nasceram ou chegaram nos primeiros anos de vida. Os que tiverem sido escolarizados no país têm direito a um processo facilitado de naturalização. Longos e demorados trâmites são simplificados.

Muitos dos que buscavam asilo vinham do Kosovo, pequeno território que, embora fizesse parte da colcha de retalhos iugoslava, era povoado por albaneses. Para a vizinha Albânia, república independente que nada tinha que ver com a Iugoslávia, o Kosovo era extensão do território nacional.

Na Suíça, numerosos descendentes de imigrantes escolheram seguir carreira no futebol. É o caso dos irmãos Xhaka (pronuncie Djaka), originários do Kosovo. Um deles, nascido em terras iugoslavas, veio para a Suíça quando ainda era de colo. O outro nasceu em território helvético. Ambos cresceram aqui e se beneficiaram da naturalização facilitada. Formaram-se no Futebol Clube de Basileia e, desde muito jovens, chamaram a atenção de especialistas em talentos.

Xhaka 1A Albânia, que os considera albaneses, ofereceu-lhes a nacionalidade para que pudessem fazer parte da seleção nacional. Um deles aceitou; o outro, não. Na Eurocopa, que tem lugar estes dias, a Suíça e a Albânia caíram no mesmo grupo. Ontem, as respectivas seleções se enfrentaram. Fato curioso se produziu: pelo espaço de 90 minutos, os irmãos foram adversários, cada um defendendo uma bandeira. Fora isso, parece que se entendem muito bem.

A Suíça ganhou, vitória suada. Venceu, mas não convenceu.

Anistia & indulto

José Horta Manzano

Apareceram estes dias várias manchetes anunciando que señor Kuczynski(*), presidente recém-eleito do vizinho Peru, não tinha intenção de «dar anistia» a Alberto Fujimori.

Chamada O Globo, 10 junho 2016

Chamada O Globo, 10 junho 2016

Señor Fujimori, como se recordarão meus distintos e cultos leitores, foi presidente de seu país durante dez anos. Depois de aprontar umas e outras, acabou fugindo. Para não ser preso, valeu-se de sua dupla cidadania e asilou-se no Japão.

Após alguns anos, imprudente, tentou voltar ao Peru passando pelo Chile. Deu-se mal. Foi apanhado, preso e extraditado para Lima. Julgado e condenado, está na cadeia até hoje cumprindo pena de 25 anos. Por corrupção entre outros crimes. E tudo isso sem Lava a Jato, pasmem!

Chamada Veja, 10 junho 2016

Chamada Veja, 10 junho 2016

Anistia, palavra bonita, não se aplica, infelizmente, ao caso em questão. Diz-se anistia da abolição de um crime. Explico melhor. Durante nosso mais recente regime militar, opor-se à cartilha oficial era considerado crime. Portanto, criminosos eram todos os que ousassem enfrentar.

Nos estertores do regime, foi decretada a anistia. Não foi ato nominal incluindo fulano e excluindo beltrano. Anistia implica a extinção do crime. Não havendo crime, hão pode haver criminosos. Assim, todos os que se tinham oposto ao moribundo regime deixavam de ser criminosos. Estavam anistiados.

Chamada Folha de São Paulo, 10 junho 2016

Chamada Folha de São Paulo, 10 junho 2016

A manchete sobre o presidente peruano deveria ter dito que señor Kuczynski não tem intenção de conceder indulto a Alberto Fujimori. Os crimes cometidos pelo presidente ora encarcerado continuam sendo crimes. No entanto, fazendo uso da graça presidencial ‒ garantida pela Constituição ‒ o novo presidente tem o poder de comutar parcial ou totalmente a pena do condenado. É decisão presidencial autocrática.

Em visão rigorosa, a anistia age sobre a lei penal e extingue o crime, enquanto o indulto perdoa o criminoso sem tocar na lei. Há juristas que consideram ambos os termos equivalentes. Data venia, discordo.

Interligne 18c(*) Kuczynski
Nome de família é imposição da qual é difícil escapar. Quando escritos à moda polonesa, como Kuczynski, são verdadeiro quebra-cabeça para não iniciados.

Varsóvia já nos brindou com coisa mais difícil, como Włodzimierz Cimoszewicz, chefe de governo no fim dos anos 90. Ou Czesław Kiszczak, que atuou em 1989. Perto desses aí, nosso Juscelino Kubitschek até que era simples. Pronunciar era fácil ‒ difícil mesmo era acertar a grafia.

Juca Chaves 1Curiosidade
O cantor e compositor Juca Chaves, cujas modinhas irreverentes e melodiosas fizeram sucesso nos anos 60, vinha de uma daquelas famílias de sobrenome impronunciável. Para prevenir torção de língua, o original Czaczkes foi aportuguesado para Chaves.

Euro 2016

José Horta Manzano

Futebol 3Não sei se o distinto leitor aprecia futebol. Eu adoro. Não sou torcedor de time nenhum, não sigo campeonato, não faço continha de chegar pra ver quem tem chance de ganhar. Mas admiro o espetáculo, pouco importando quais sejam as equipes em campo. O que conta é que os jogadores estejam inspirados, que os passes sejam certeiros e os dribles, inteligentes. Que goleiros façam defesas espetaculares e que, assim mesmo, haja muitos gols.(1)

Começa hoje o Euro 2016. Para quem não sabe, é a Copa do Mundo bis. Realiza-se a cada quatro anos, alternadamente com o Campeonato do Mundo. Nos tempos em que a seleção brasileira era incondicionalmente reverenciada, costumava-se dizer que o campeonato europeu era uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina. Hoje, as coisas mudaram um pouco. O triunfo de um previsível 7 x 1 não chega a deletar o fracasso de um doído 1 x 7.

Durante um mês, até a grande finale do dia 10 de julho, apreciadores vão vibrar com o desempenho de 24 seleções nacionais atuando num total de 51 partidas. Quem anda preocupadíssimo é o governo da França, país que hospeda o Euro 2016. Além do perigo de atentado terrorista, risco potencializado pela concentração de multidões nos estádios e nas «fan zones»(2), há movimentos oportunistas de greve de lixeiros, pilotos de avião e de outras categorias, todos incentivados por líderes sindicais que não enxergam além do próprio umbigo . Um problemão.

Estadio 1Espero (e imagino) que os responsáveis pela segurança dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro tenham enviado observadores pra ver o que os especialistas franceses estão fazendo pra proteger a população. Risco zero não existe, é verdade, mas sempre vale a pena prevenir.

Michel Platini, presidente caído da União Europeia de Futebol, deveria ter agora seu momento de glória. Não deu, pior pra ele. Condenado a manter-se afastado do futebol por alguns anos, não deve sequer comparecer à cerimônia de abertura. Por seu lado, é esperada a presença do presidente da França.

A França tem um presidente só. Quanto a nós ‒ fato extraordinário ‒ temos dois. O único exemplo parelho que me ocorre é o do Vaticano, com seus dois papas. É clube pra lá de seleto.

Interligne 18f(1) Gols
Segundo o Dicionário Houaiss, o plural natural deveria ser goles. Fica esquisito, não? Falando nisso, os portugueses preferem “um golo”, “dois golos”. Misecordioso, o Volp ‒ nossa bíblia na matéria ‒ admite o barbarismo gols como forma plural consagrada pelo uso. Assim é a vida: quem faz a língua são os que a usam.

(2) Fan zones
São locais públicos de grandes dimensões ‒ praças, parques, esplanadas ‒ onde se concentra grande número de torcedores sem bilhete. O jogo é transmitido por telões.

Pas d’amis

José Horta Manzano

«Les États n’ont pas d’amis. Ils n’ont que des intérêts.»

«Estados não têm amigos. Têm apenas interesses.»

Colera 3A frase contundente é de Charles de Gaulle. O velho general tinha queda pronunciada por frases de efeito. Credencial para assistir a qualquer uma de suas coletivas de imprensa era disputada a tapa. Cada uma delas era acontecimento que ninguém queria perder, verdadeiro espetáculo teatral de alto nível.

Seja como for, a sentença corresponde rigorosamente à verdade. Perde tempo e esforço quem acreditar na benevolência ou no altruísmo de algum Estado ‒ ou de governo que o represente. Se o próprio do Estado é ter interesses, a função do governo é defendê-los.

Em desespero crescente, ao dar-se conta de que poder e benesses se lhes escapam inexoravelmente, cortesãos da presidente afastada passaram a abusar da jus sperneandi. Em juridiquês, chama-se ‘chororô de perdedor’.

Colera 2Em recente coletiva concedida pelo porta-voz do Departamento de Estado americano ‒ entrevista que nada tinha que ver com assuntos brasileiros ‒, um jornalista fez estranha pergunta. Presumivelmente teleguiado pela intelligentsia petista, formulou longa indagação na qual mencionou Romero Jucá, Dilma Rousseff, Michel Temer. Na intenção de levar o porta-voz a admitir que o afastamento da presidente brasileira fosse resultado de um «golpe» inconstitucional, o rapaz procurou confundir ideias, distorcer a verdade e baralhar conceitos.

Não conseguiu o intento, naturalmente. O Departamento de Estado dos EUA não costuma pôr qualquer um na linha de frente. Até chegar lá, o funcionário passa por intenso treinamento. Tem de estar preparado para esse tipo de armadilha. É um profissional.

Ardilosos mas ingênuos, os componentes da tropa de choque do Partido dos Trabalhadores estão longe de ter traquejo internacional. Certas coisas não se improvisam, e eles não foram preparados para isso. Os mentores passaram os últimos 13 anos tranquilos, refestelados em berço esplêndido, na certeza de que tudo estava dominado. Não estava. O berço desmoronou.

Dilma e TemerEntre Estados civilizados, não há particular interesse em desvendar se houve ou não golpe na destituição de dona Dilma. O que mais anima são os sinais de que nossa economia tem boas chances de se recuperar. Será muito lento, mas são sensíveis as perspectivas de melhora.

A ninguém interessa um Brasil atrasado, pobre, endividado, apartado do concerto econômico planetário. Para Estados estrangeiros, pouco importa que nosso país seja povoado por gente simpática e cordial. Não é isso que conta. Veem-nos como parceiros comerciais, fornecedores e compradores.

«Les États n’ont pas d’amis. Ils n’ont que des intérêts.»

Eleição eletrizante

José Horta Manzano

Urna 5Você, que achou que a diferença de votos entre Dilma e Aécio no segundo turno da última eleição foi apertada, ficaria excitadíssimo com o que está acontecendo no Peru. A coisa por lá anda eletrizante.

Já faz alguns anos que o país vizinho, à semelhança do Brasil, instituiu o sistema de dois turnos de votação para escolher o presidente do Executivo. A excelente lição vinda da França foi adotada em boa hora.

Domingo passado, realizou-se o segundo turno. Pois imagine que, até a noite de terça-feira, contabilizados 99,1% dos votos, ainda não era possível afirmar qual dos dois candidatos era o vencedor. Diferença de pouco mais de 50 mil votos os separava. Aritmeticamente, nenhum deles podia se proclamar ganhador.

2016-0608-01 La RepublicaFalta ainda apurar o voto dos peruanos do estrangeiro. Aparentemente transportados em canoa a remo, os boletins só devem chegar a Lima pelo fim desta semana. Vai ser necessário contar até a última cédula para para ter certeza. De todo modo, voto no papel é mais confiável que voto virtual, que vigora no Brasil. Caso haja dúvida, é sempre possível recontar.

A vitória será apertada. O desenlace vai deixar marcas e exigirá, do vencedor, gestos concretos de apaziguamento. Sem ser especialista em política peruana, fiquei reconfortado com a declaração de um dos candidatos ‒ Pedro Pablo Kuczynski, PPK para os íntimos. Por sinal, é considerado pelos institutos de pesquisa como virtual vencedor.

Lima, Peru

Lima, Peru

Em declaração reproduzida pelo periódico El Comercio, señor Kuczynski foi incisivo: «Nuestra posición sobre Venezuela es absolutamente categórica. Ha habido una elección que la ganó el partido de oposición y ahora el gobierno está usando artimañas para invalidar el voto popular» ‒ Nossa posição sobre a Venezuela é absolutamente categórica. O partido de oposição ganhou a eleição, e agora o governo está usando artimanhas para invalidar o voto popular.

Nem o Itamaraty de Serra, que tenta desamarrar a política externa indigente herdada do finado governo, chegou a ser tão claro, tão visceral e tão contundente com relação à truculência imposta por señor Maduro a seu castigado povo.

As boas intenções do quase presidente do Peru, por si, não serão suficientes para inflectir o desvario dos mandatários de Caracas. Mas darão contribuição certeira para trazer de volta a civilização ao continente.

Jusante e montante

José Horta Manzano

Dizem que os esquimós têm umas vinte palavras para designar a neve. Neve molhada, neve que acabou de cair, neve pisada, neve endurecida, neve caindo, neve com ventania ‒ cada uma delas se descreve com palavra específica. É compreensível. O jardim deles é a neve.

Vento 4Na Europa, as grandes chegadas de população se deram de dentro para fora. Provenientes do interior do continente, bárbaros, germânicos, mongóis, otomanos progrediram em direção ao mar. No interior das terras conquistadas, havia poucas estradas traçadas. O caminho natural eram as rotas fluviais, que conferem ao viajante intimidade com montes e vales. As populações ribeirinhas se tornam especialistas em curvas, corredeiras, correntezas e ventos.

No Brasil, diferentemente da Europa, o grosso da população veio pelo mar. Nos primeiros séculos, praticamente todos os que chegavam iam se estabelecendo na costa. Com a honrosa exceção do São Francisco ‒ e da bacia amazônica, onde poucos se aventuraram nos primeiros tempos ‒, os grandes rios brasileiros navegáveis correm no interior das terras. Exemplo significativo é a bacia do Paraná/Paraguai, que abarca enorme extensão de nosso território para, enfim, desembocar em terras castelhanas.

Vale 2Isso faz que a noção de vale, uma depressão espremida entre terras altas, não venha revestida, no Brasil, da importância estratégica que representa em outros lugares. Os importantes vales do Reno, do Ródano, do Danúbio, do Mississipi não têm equivalente em nossas terras. Rios brasileiros navegáveis, como o Tietê e o São Francisco, não deram origem a notável concentração populacional.

VentoParticularidades como essa influenciam o falar. A neve é rara em nosso território, portanto uma palavra basta para designá-la. Do mesmo modo, não fazem falta termos específicos para indicar a localização de um determinado ponto à beira de um rio em relação a outro ponto situado à margem desse mesmo rio. Contentamo-nos com “rio acima” e “rio abaixo”.

No entanto, as palavras exatas existem. Para indicar um ponto situado no mesmo rio, porém mais abaixo, temos a expressão a jusante. Para nos referir a um ponto situado na direção contrária, a expressão é a montante. Por exemplo, a cidade de Petrolina (PE), à margem do São Franciso, está a jusante de Xique-Xique (BA), que fica quilômetros rio acima. São expressões pouco utilizadas, quase desconhecidas, restritas ao jargão de cartógrafos, agrônomos e geógrafos.

2016-0605-03 IstoéDias atrás, ocorreu um vendaval na região de Campinas (SP). É assim que descrevemos uma tempestade com vento fortíssimo, daqueles de destelhar casa. Pouco importa de que direção venha o vento: se for forte, sempre vendaval será.

É palavra importada. O original francês vent d’aval designa vento forte que vem do oceano, entra pelo vale, sobe o canal fluvial e vai balançar casas e coqueiros situados muitos quilômetros a montante da desembocadura. Em sentido figurado, é útil para nomear sentimento avassalador ‒ vendaval de paixões(*).

Pode-se dizer, sem medo de errar, que a ponta de tapete levantada pela Operação Lava a Jato vem causando um vendaval no andar de cima. Vendaval de pânico.

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(*) Vendaval de paixões é o título brasileiro do filme Reap the Wild Wind, de 1942, com John Wayne e Paulette Goddard.

Como na Guerra Fria

José Horta Manzano

Segredo 5Como eu, o distinto leitor há de ter normal e natural dose de recato. Não nos agrada que conversa particular nossa seja acompanhada por estranhos. Na mesma linha, quando falamos ao telefone, procuramos nos afastar um pouco dos circunstantes. Agimos assim por dois motivos: para não perturbar a tranquilidade de quem não tem nada com isso e também para preservar nossa privacidade.

Tudo isso vale pra gente normal. No andar de cima, as coisas funcionam de modo diferente. À medida que a Operação Lava a Jato começou a mostrar que está aí pra valer, um vento de pânico varreu corredores, apartamentos, escritórios e salas de reunião.

A Folha informa que políticos têm alterado hábitos. Em reuniões, ainda que o ar condicionado esteja funcionando, tiram o paletó. É para mostrar que o celular está afastado. Em certas ocasiões, quando os organizadores são particularmente desconfiados, chega-se a exigir dos participantes que abandonem o telefone antes de adentrar o local. Guardado fora do recinto, o aparelhinho só será devolvido após o término do encontro.

Segredo 6A situação evoca o ambiente que reinava na Europa Oriental nos tempos da Guerra Fria. Numa época em que irmão desconfiava de irmão e filho denunciava pai, calcula-se que, de cada três pessoas, uma era informante do regime. Hotéis, escritórios, apartamentos e locais de reunião estavam atulhados de microfones. Para garantir conversa discreta, era preciso marcar encontro ao ar livre, num parque, num bosque. Uma exposição de arte ou o saguão de um grande hotel podiam servir.

Em princípio, tanto na Guerra Fria como hoje, ninguém se preocupa em esconder conversa caseira, ainda que voem insultos. Desde que o volume de voz não chegue a perturbar o sossego de vizinhos, discute-se à vontade.

Segredo 4Costuma-se dizer que quem não deve não teme. Para evitar dissabores, dissidentes romenos, búlgaros e alemães orientais dos anos 60 tinham de esconder suas opiniões, daí as precauções. Se fossem desmascarados, arriscavam mofar nalguma masmorra.

Se políticos brasileiros de alto coturno recorrem hoje aos métodos de meio século atrás ‒ adaptados aos novos tempos ‒, não será por motivo de desavença política. Nossa Constituição garante a cada cidadão o direito de ter e de exprimir opiniões, desde que não entrem em colisão com a lei.

Se assim agem, é por estar atolados em obscuras transações. A Operação Lava a Jato ainda tem belos dias pela frente.

Não deu

José Horta Manzano

Para entender este artigo, precisa antes ler o que está aqui abaixo. Conto o resultado do plebiscito de ontem.

Nenhum cantão aprovou a ideia

Nenhum cantão aprovou a ideia

A conclusão já era esperada, mas a porcentagem foi um atropelo. Esmagadora maioria do eleitorado suíço (77%!) rejeitou a ideia de um rendimento básico a ser distribuído incondicionalmente a todos os habitantes.

Foi uma reprovação pra presidenta nenhuma botar defeito.

 

Dinheiro para todos

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz uma eternidade que o antigo senador paulista Suplicy batalha por uma ideia fixa: instaurar um rendimento mínimo de base destinado aos mais necessitados. A bolsa família, concebida com objetivos mais eleitoralistas que altruístas, não satisfez o anseio do homem político.

Arca 1Desde que dona Dilma assumiu, o antigo senador ‒ que alguns consideram desprovido do senso do vexame ‒ vem tentando marcar encontro com a mandatária. Múltiplos pedidos foram sistematicamente repelidos pela arrogante «gerentona». Agora, depois de suspensa, com o vazio em torno de si se acentuando, dignou-se a conceder-lhe entrevista. Ele foi. A mídia pouco se interessou, visto que a presidente, posta de molho, já não manda.

Conceder benefício mínimo automaticamente a todos os cidadãos não é ideia de Suplicy. Em vários países, a discussão tem aparecido, aqui e ali, sem nunca prosperar. A Suíça foi mais longe. Dado que qualquer cidadão pode pedir a convocação de plebiscito nacional ‒ desde que consiga colher o necessário número de assinaturas no prazo estipulado ‒ um passo importante está sendo dado neste domingo 5 de junho.

Entre outras matérias federais e cantonais, os cidadãos deste país deverão se pronunciar sobre a inclusão ou não na Constituição Federal de novo artigo. É o seguinte:

Art. 110a ‒ Rendimento de base incondicional

1. A Confederação instaura um rendimento de base incondicional.

2. O rendimento de base deve permitir a cada um levar existência digna e participar da vida pública.

3. Lei posterior estipulará o financiamento e o montante do rendimento de base.

Pronto, mais simples, impossível. O que se busca é inscrever o princípio na Constituição. O detalhe virá depois. O artigo posto em votação não estipula montante. Diz só que o benefício é incondicional. Todo habitante do território faz jus, seja rico ou pobre, velho ou jovem, nacional ou estrangeiro, patrão, assalariado ou desempregado.

Dinheiro 1Olhando assim, em primeira leitura, é atraente. Em teoria, a pobreza acabaria e o desemprego deixaria de assustar. No entanto, a iniciativa não é apoiada por nenhum partido político. Por algo será, como dizem os espanhóis ‒ alguma razão tem de haver.

Os oponentes argumentam que a medida acarretaria peso insuportável para a economia nacional. Novos impostos teriam de ser criados. Cidadãos que ganham pequeno salário tenderiam a abandonar o emprego para viver unicamente da alocação caída do céu. A oferta de empregos explodiria e acarretaria o desmoronamento da economia e o resultado seria, ironicamente, a impossibilidade de financiar o rendimento incondicional.

Dinheiro voadorUma desigualdade seria instaurada entre cidadãos ativos e inativos. O aumento de impostos empurraria empresas nacionais a fechar as portas e instalar-se no estrangeiro. Por detrás de tudo isso, a iniciativa sacode um dos princípios sagrados da sociedade suíça: o valor do trabalho. Dinheiro que pinga todos os meses sem ser fruto de trabalho não combina com o espírito nacional. No momento em que escrevo, os votos ainda estão sendo apurados. Mas já se configura uma vitória estrondosa do «não».

Talvez, no imaginário romântico do senador brasileiro, um mundo ideal em que dinheiro nasce em árvore seja possível. O povo suíço não compartilha essa opinião.

Grandes & pequenos

José Horta Manzano

Leio hoje que Dilma Rousseff, presidente suspensa(*), está enfurecida. Como de costume, diriam más línguas. O motivo da cólera atual é a decisão, tomada pelas devidas instâncias, de delimitar-lhe o direito de utilizar a estrutura presidencial para viagens.

A lógica é cristalina. O aparato necessário para deslocamento presidencial é pesado e custa os olhos da cara ‒ há que movimentar avião presidencial ou da Força Aérea, seguranças, equipe médica, batedores, pessoal militar, pilotos, pessoal de bordo, mecânicos, motoristas, automóveis, helicópteros, carregadores de guarda-chuva, secretários, abridores de porta, um verdadeiro exército.

Dilma 8Tais atributos de viagem de trabalho, embora custem caro aos contribuintes, são devidos ao chefe do Executivo. Acontece que, neste momento, dona Dilma está suspensa, portanto, de acordo com a Constituição, afastada de toda função oficial. Como prêmio de consolação, continua autorizada a movimentar toda a parafernália em viagens de Brasília a Porto Alegre, onde reside. Inconformada, senhora Rousseff esbraveja.

Lembrei de Charles de Gaulle, o maior dirigente que a França conheceu desde os tempos de Napoleão. Quando foi presidente, o general tinha direito às regalias inerentes ao cargo. Tinha também o direito de morar na ala residencial dedicada ao chefe de Estado e instalada no Palácio do Eliseu.

Pois imagine o distinto leitor que, assim que se mudou para o palácio, de Gaulle mandou instalar um relógio de luz para medir seu consumo particular de eletricidade. E, do primeiro ao último dia, pagou as contas de energia com seu próprio dinheiro.

Charles de Gaulle

Charles de Gaulle

Tem mais. Nas (raras) ocasiões em que convidou a familia para um almoço de celebração particular, reembolsou o Estado francês das despesas. Não parou por aí. Ao deixar a chefia do Estado, manteve intactos seus princípios: renunciou tanto à pensão de ex-militar quanto à aposentadoria de presidente da República. Recusando-se a representar um peso financeiro para os contribuintes, contentou-se com os direitos de autor pelos livros que havia escrito.

Em 1969, ao dar-se conta da baixa de sua popularidade, fez questão de pôr as coisas em pratos limpos. Encontrou um motivo qualquer ‒ uma modificação nas regras de autonomia das regiões do país, simples pretexto ‒, e convocou plebiscito nacional. Foi logo avisando que, caso a proposta fosse rejeitada, renunciaria ao cargo. Não lhe interessava estar à frente de um povo que não mais o apoiava.

Eliseu ‒ Palácio presidencial francês

Eliseu ‒ Palácio presidencial francês

Dito e feito. A maioria do eleitorado votou “não”, e o general perdeu a aposta. Na noite daquele mesmo domingo, apareceu em cadeia nacional de rádio e tevê para anunciar que renunciava à presidência. Sem falta, ao meio-dia da segunda-feira, catou as tralhas e se foi. Já idoso, viveu ainda um ano e meio. É assim. Quem é grande, é grande até o fim. Quem nasceu pra tostão, como dizia minha avó, não chega a merréis.

Interligne 18h(*) Artigo 86
O texto constitucional fala em «presidente suspenso de suas funções». Mais claro, impossível. Durante o período de suspensão, o presidente está afastado de toda função oficial. É livre de viajar para onde bem entender, mas terá de fazê-lo como simples cidadão.

Capotamento

José Horta Manzano

Ah, esses estagiários… Continuo sem entender por que razão grandes jornais os incumbem de redigir manchetes, justamente a parte mais chamativa, aquela que todos veem ainda que não leiam a notícia.

Chamada do Estadão, 3 jun 2016

Chamada do Estadão, 3 jun 2016

O verbo capotar é intransitivo, não admite objeto. Não se deve dizer “capotou o carro”, mas simplesmente “capotou”. A infeliz vítima morreu ao capotar na avenida.

Em sentido figurado, pode-se usar com o sentido de ir por água abaixo. Por exemplo: “o projeto capotou”.

Cento e oitenta dias

José Horta Manzano

Na prática, a teoria é outra ‒ como se costuma dizer. Quando alinhavaram o texto atual da Lei Maior, os constituintes de 1987-88 jamais tinham assistido à destituição, nos conformes, de um chefe do Executivo. Até aquele momento, os engasgos nessa matéria tinham sido de outra natureza.

Washington Luís e Jango Goulart tinham sido apeados do poder, à força, por gente vestida de verde-oliva. Jânio ‒ ninguém entendeu até hoje exatamente por que razão ‒ tinha renunciado ao mandato ainda no primeiro ano de governo. Getúlio, mais teatral, tinha encontrado no suicídio a porta de saída. Tancredo tinha falecido antes mesmo de assumir.

Constituição 4Destituição segundo normas legais nunca tinha havido. Isso certamente explica por que a Constituição menciona a destituição do presidente da República en passant, como se legislasse sobre invasão de marcianos ou outro fato altamente improvável. Era teoria pura, o que levou o legislador a ater-se a considerações vagas e genéricas.

O Artigo 86 da Constituição, que trata do assunto, é bastante sucinto. Com visível displiscência, determina que, acusado criminalmente, o presidente será “suspenso de suas funções”. E continua: “se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído, cessará o afastamento do presidente”. Pronto, pára por aí. No papel, tem boa aparência. Na prática, é fonte de bagunça.

Na crença de estar legislando em teoria pura, os constituintes não se deram conta de estar plantando os germes de uma confusão dos diabos. Nada foi previsto sobre a situação do presidente suspenso. Conserva, por direito, prerrogativas e mordomias? Ou volta pra casa de ônibus?

Senado federal 1Nenhum prazo limite foi imposto ao Congresso para julgar. Em teoria, os atuais debates poderiam se prolongar, sem ferir a Lei Maior, por dois anos e meio, até o fim do mandato de Dilma Rousseff. Madame reintegraria seu cargo e ficaria até 2018.

Bom o que está feito está feito. É melhor esperar por nova Constituição para regulamentar a matéria como se deve. Fosse feita uma alteração agora, cheiraria a casuísmo. Mais vale esperar que a enxurrada passe. Serenados os ânimos, virá a alteração para deixar o assunto claro e preciso.

Enquanto isso, dona Dilma continua dando o ar de sua graça. Ainda ontem criticou o governo interino alegando que o ministério atual, por ser composto exclusivamente por homens de certa idade e de raça (aparentemente) branca, não é representativo da diversidade do povo brasileiro.

É decepcionante que, após tantos anos no andar de cima, a «gerentona» não tenha ainda aprendido a diferença entre os variados personagens com os quais conviveu. Representantes, dona Dilma, são os deputados, eleitos nominalmente pelo voto popular direto. Esses, sim, representam a diversidade da população.

Na Câmara, há homens, mulheres, jovens, velhos, pretos, brancos, religiosos, agnósticos, bonitos, feios, alguns cultivados, muitos ignorantes, gente fina e bandidos ‒ um retrato acabado da sociedade.

Dilma 15Ministério é outra coisa, dona Dilma. Ministro não é representante do povo, mas auxiliar direto do presidente, homem de confiança por ele livremente nomeado. Presidente bem-intencionado escolhe auxiliares competentes, honestos, de ficha limpa, pouco importando cor de pele, sexo ou idade.

A observação da presidente suspensa dá boa pista sobre a proverbial ineficiência de seus ministros. Há de tê-los escolhido como um iletrado organizaria livros na estante: por ordem de cor ou de tamanho. Ou de espessura, que também funciona. Não adianta. Pau que nasce torto…

E pensar que ainda teremos de suportar isso por meses.