Dois em um

José Horta Manzano

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A chamada do Estadão vem com dois problemas. Por coincidência, os dois envolvem o acento grave.

Depor
O verbo depor tem múltiplos significados. Sua regência varia conforme a acepção. Em linguagem jurídica, quando significa prestar depoimento, é intransitivo, ou seja, não aceita objeto direto nem indireto.

Portanto, Sérgio Moro vai depor (ou prestar depoimento) neste sábado. Ponto final. Ele não prestará depoimento a ninguém. Pode-se complementar informando o local, a data, e outras circunstâncias. Endireitada, a frase fica assim:

Neste sábado, Sérgio Moro presta depoimento na PF.

Crase
Na frase ‘Audiência marcada para às 11h’, a crase sobra. Não há encontro de artigo com preposição. Veja a diferença:

Ele chegará para a audiência às 11h
(às = a + as)

Audiência marcada para as 11h
(as = as)

Pra corrigir, basta portanto tirar o acento grave.

Fundo eleitoral crescidinho

José Horta Manzano

Nossa língua é muito difícil. Principalmente pra quem não aprendeu. A crise que assola a mídia tradicional – falo dos grandes jornais – deve ser realmente bem mais acachapante do que imaginamos. Os cortes salariais não estão atingindo só o porteiro e a mulher do café; já chegam à redação.

Estranhas chamadas de primeira página andam aparecendo. Algumas são tão absconsas que só podem ser compreendidas por iniciados; outras tiranizam a língua. Hoje o Estadão online estampou esta pérola:

Chamada Estadão, 19 set° 2019

A maior parte das vezes, o verbo crescer é intransitivo. Algo cresce. Ponto e basta, sem complementos.

Em casos mais raros, pode aparecer como transitivo indireto. Por exemplo:
À medida que discursava, o deputado transpirava mais e mais abundantemente e seu verbo crescia em furor.

Crescer não será jamais transitivo direto. Ninguém pode crescer algo.

Portanto, pra retomar o texto do jornal, a brecha aberta pela Câmara não crescerá o fundo eleitoral. Pra consertar, há diversas soluções. À escolha do freguês.

A brecha fará fundo eleitoral crescer.

A brecha aumentará fundo eleitoral.

A brecha inflacionará fundo eleitoral.

A brecha ampliará fundo eleitoral.

A brecha inchará fundo eleitoral.

A brecha expandirá fundo eleitoral.

Essa história deixa um gosto amargo. Constata-se, mais uma vez, que Suas Excelências estão legislando em causa própria. Isso não me parece republicano. Acho que certas decisões que dizem diretamente respeito aos parlamentares deveriam ser tomadas por outras instâncias.

Não faz sentido que eles fixem o próprio salário, as mordomias, os adicionais, o número de assessores, a remuneração do pessoal, as condições de aposentadoria, o valor do fundo eleitoral. Essa tarefa deveria ser atribuída a um coletivo independente de cidadãos, que nada tivesse que ver com o Congresso. Pode-se discutir sobre a composição do plantel e a forma de escolher os componentes. O importante é que cessasse essa aberração de congressistas legislarem em benefício próprio.

Não é admissível que subsistam cidadãos ‘mais iguais que os outros’, gente que tem a faca e o queijo na mão. E a boca.

Capotamento

José Horta Manzano

Ah, esses estagiários… Continuo sem entender por que razão grandes jornais os incumbem de redigir manchetes, justamente a parte mais chamativa, aquela que todos veem ainda que não leiam a notícia.

Chamada do Estadão, 3 jun 2016

Chamada do Estadão, 3 jun 2016

O verbo capotar é intransitivo, não admite objeto. Não se deve dizer “capotou o carro”, mas simplesmente “capotou”. A infeliz vítima morreu ao capotar na avenida.

Em sentido figurado, pode-se usar com o sentido de ir por água abaixo. Por exemplo: “o projeto capotou”.