Queísmo

Dad Squarisi (*)

Certos verbos sofrem de alergia. Ficam vermelhos, empolados e com coceira quando seguidos do quê. Transitivos diretos, exigem objeto direto nominal, mas não aceitam a oração objetiva direta. Veja alguns:

  •  alertar (alerta-se alguém, mas não se alerta que)
  • antecipar (antecipa-se alguma coisa, mas não se antecipa que)
  • definir (define-se alguma coisa, mas não se define que)
  • denunciar (denuncia-se alguma coisa ou alguém, mas não se denuncia que)
  • descrever (descreve-se alguma coisa, mas não se descreve que)
  • expor (expõe-se alguma coisa, mas não se expõe que)
  • falar (fala-se de alguém ou de alguma coisa, mas não se fala que)
  • indicar (indica-se alguma coisa ou alguém, mas não se indica que)
  • lamentar (lamenta-se alguma coisa, mas não se lamenta que).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Castigo

José Horta Manzano

Huancavelica é uma pequena cidade peruana, capital da região de mesmo nome. A vida não é fácil naquelas alturas. A mais de 3.500 metros de altitude, o clima é rigoroso. No mês mais quente do ano, a temperatura máxima raramente chega a 20 graus. Neve e gelo são ocorrências corriqueiras. Terremotos são registrados com espantosa frequência.

Como em toda parte, em Huancavelica também há jovens descabeçados. Numa fria madrugada de outubro passado, Jhonatan Michael(sic) e Michael Jordan(sic), rapazes de pouco mais de 20 anos de idade, tiveram a péssima ideia de assaltar um cidadão que, sentado num banco da praça, telefonava para a namorada. Roubaram-lhe o celular.

Indignado, o cidadão deu queixa, e os ladrões acabaram descobertos e presos. Levados a julgamento, receberam pena de 4 anos em regime fechado. No entanto, magnânima, a juiza ofereceu-lhes uma alternativa pra escapar da cadeia. Se aceitarem, terão de cumprir regras de conduta rigorosas. Não poderão frequentar discotecas nem bares de reputação duvidosa. Terão de retomar estudos universitários. E, cereja em cima do bolo, estão obrigados a ler o livro O Alquimista, de Paulo Coelho. A leitura de outro livro, escrito por autor americano, também faz parte das obrigações impostas. As duas obras deverão ser lidas no prazo de um ano.

Portal RPP, Peru

A mídia peruana está elogiando a bondade da juíza. Não é todos os dias que se assiste a uma conversão de pena tão generosa. Quanto a mim, concordo que cadeia em regime fechado pode não ser a pena adequada a todos os casos. No entanto, não acho que a juíza tenha sido tão bondosa assim. Retomar estudos, evitar lugares duvidosos, cumprir regras de conduta – ainda vá lá. Mas ler Paulo Coelho? Cruzes! É cruel demais! A juíza revelou seu lado sádico.

Se o distinto leitor não leu, recomendo dar uma espiada no texto que publiquei no ano passado sobre o livro O Alquimista. É uma análise, feita por J. Milton Gonçalves, que ressalta os erros gramaticais cometidos por senhor Coelho. É impressionante constatar a que ponto esse senhor trata a língua a bofetões. Imagino – e espero – que a tradução para o espanhol tenha corrigido os escorregões do autor. Sorte de nossos ladrões de celular, que lerão a obra num castelhano castiço e expurgado de pedregulhos.

De onde vem o nome dos meses?

Dad Squarisi (*)

Janeiro
O primeiro mês do ano homenageia Jano. O deus grego tem duas caras. Uma olha pra frente. A outra, pra trás. A primeira abre as portas dos 365 dias que se iniciam. A segunda fecha as do ano que se despede. Janela, que também abre e fecha, pertence à família do entra e sai.

Fevereiro
O segundinho, que tem menos dias que os irmãos, se inspira em Februa, deus da purificação dos mortos.

Março
Epa! Marte, o deus da guerra, originou vários nomes na nossa língua de todos os dias. Um deles é março. Outros, Márcio e Márcia. Marciano também. E marcial? Idem.

Abril
Todos a amam e todos a querem. Trata-se de Vênus, a deusa do amor e da entrega. Em homenagem a ela, criou-se aprilis. Trata-se da comemoração sagrada dedicada à musa olímpica. Daí nasceu abril.

Maio
A primavera no Hemisfério Norte corresponde ao nosso outono. Com inverno rigoroso, os campos se cobrem de neve, e a agricultura sofre. As comemorações que se faziam depois do frio reverenciavam Maia e Flora – deusas do crescimento de plantas e flores.

Junho
Hera em grego. Juno em latim. Ela era a primeira-dama do Olimpo. Defensora incondicional do casamento, ao descobrir as traições do marido, Zeus, não punha em risco o próprio lar. Punia a outra. Passou a ser considerada a protetora da maternidade. Para render-lhe loas, junho se chama junho.

Julho
Julho era o quinto mês do ano antes de janeiro e fevereiro mudarem de lugar. Chamava-se quintilis. Mas, em 44 a.C., mudou de nome por causa de Júlio César. O grande líder romano foi assassinado por gente de casa, Brutus, o próprio filho. Mas não caiu no esquecimento. Ganhou lugar cativo na história e no calendário.

Agosto
Agosto, que rima com desgosto, serve de prova da ciumeira. Por ser o sexto mês do ano, chamava-se sextilis. Mas, como julho balançou o calendário, o primeiro imperador de Roma, sucessor de Júlio César, não ficou atrás. “Eu também quero”, disse ele. Levou. Agosto se chama agosto em homenagem a Augustus.

Setembro, outubro, novembro e dezembro
O quarteto não estava nem aí para a mudança de janeiro e fevereiro. Eles mantiveram o nome. Setembro, do latim septem, era o sétimo mês do ano. Outubro, de octo, o oitavo. Novembro, de novem, o nono. Dezembro, de decem, o décimo.

Gregoriano
Ufa! Até chegar à forma de hoje, o contar dos meses sofreu muitas alterações. Com elas, falhas foram corrigidas. A última mexida, do papa Gregório XIII, ocorreu em 1582. Por isso nosso calendário se chama gregoriano.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Ordem inversa traiçoeira

José Horta Manzano

Quando estamos numa roda de amigos ou papeando na cozinha de casa, temos todos o direito de soltar o verbo sem dar atenção especial à colocação dos pronomes, ao tempo verbal, a repetições e pleonasmos. Podemos “comer” um s de plural aqui, outro ali. Entre gente de casa, o clima é de liberou geral.

Quando se fala ou escreve «pra fora», ou seja, quando o que dizemos ou escrevemos é para uso externo e periga ir além do círculo mais chegado, a coisa muda de figura. Na categoria dos que escrevem «pra fora», estão, lá no topo, jornalistas e homens de imprensa. Nesse nível, um deslize em qualquer setor da gramática pode pegar mal, muito mal.

Continuo surpreso de constatar que diretores de redação ainda não se deram conta do estrago que pode causar ao jornal um erro bem na primeira página. No mínimo, deixa a impressão de desleixo. No pior dos casos, transpira ignorância.

Chamada Estadão, 17 dez° 2018

Na manchete de hoje, a ordem inversa dos termos levou o estagiário a trocar os pés pelas mãos. Não tendo entendido que o sujeito de aparecer era melhores jogadores, deixou o verbo no singular. Ficou esquisito.

No entanto, é fácil não errar. Em casos como esse aí, quando há dúvida, basta botar a frase na ordem direta, que tudo fica mais claro. «Em 2019, se melhores jogadores não aparecerem, os técnicos serão astros.» Assim, fica evidente que o sujeito no plural (melhores jogadores) exige verbo no plural (aparecerem).

O problema é que estagiários se têm comportado com crescente displicência, como se vivessem numa permanente roda de amigos. Aí, o espírito crítico afrouxa. É desastre à certa.

Falsa crase

Dad Squarisi (*)

Aqui são balas perdidas. Nos EUA, rajadas de metralhadora. Na Finlândia, facadas. Na Espanha, quatro rodas. No Iraque, homens-bomba. O terror à solta virou notícia nos jornais, no rádio, na tevê, na internet. Ao contar as histórias, dois fatos sobressaem. Um: a certeza da insegurança geral. Nem bebê na barriga da mãe está protegido. O outro: a dúvida sobre o emprego da crase.

Morto à bala? Morto a bala? Com crase ou sem crase? Alguns escreveram à bala. Outros, a bala. Qual a forma correta? A resposta será dada à prestação. Ou seria a prestação? Em bom português: a resposta será dada por partes.

A duplinha a + a
A crase indica o casamento de dois aa: preposição a + artigo a: Dirigiu-se à piscina.

O primeiro a é exigido pelo verbo dirigir-se (a gente se dirige a algum lugar). O segundo é o artigo pedido pelo substantivo cidade (a cidade). Pronto: a + a = à.

Tira-teima
Na dúvida, basta substituir o substantivo feminino por um masculino. Não precisa ser sinônimo nem aparentado. A única exigência é que seja do mesmo número (singular ou plural). Se na troca aparecer ao, sinal de crase. Se não, nada feito:

• Foi à cidade. Foi ao clube.

• Refere-se a pessoas estranhas. Refere-se a trabalhos estranhos.

• Compareceu a duas reuniões. Compareceu a dois encontros.

• Compareceu às duas reuniões. Compareceu aos dois encontros.

Falsa crase
Voltemos à dúvida inicial. Morto à bala? Morto a bala? Apresentado à prestação? Apresentado a prestação?

Nem sempre — e aí reside o xis da dúvida — o acento resulta de crase (a + a). Às vezes, por questão de clareza, apela-se para a falsa crase. Usa-se à mesmo sem a contração dos dois aa. Vender à vista, por exemplo. Aí, não há crase. Quer ver? Vamos ao masculino: vender a prazo.

Por que o à? Para evitar mal-entendidos. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender a vista (o olho). O mesmo ocorre com bater à máquina. Sem a crase, parece que se deu pancada na máquina. Não é bem isso, convenhamos.

Casos
Em que casos o duplo sentido ocorre? Geralmente nas locuções que indicam meio e instrumento:

Matou-o à bala.
Feriram-se à faca.
Está à venda.
Escrever à tinta.
Feito à mão.
Enxotar à pedrada.
Fechar à chave.
Matar o inimigo à fome.
Entrar à força.

O acento é obrigatório? Ou só se deve recorrer a ele em caso de ambiguidade? Sem risco de duas interpretações, fica a gosto do freguês. Mas há forte preferência pela falsa crase. Use-a. Você acertará sempre.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

S ou z: formação de palavras

Dad Squarisi (*)

Embriaguez se escreve com z. Português, com s. No caso, z e s soam do mesmo jeitinho. Por que a grafia diferente? A resposta está na origem:

  • Se a palavra primitiva for adjetivo, o z pede passagem:
    macio = maciez,
    líquido = liquidez,
    sólido = solidez,
    frígido = frigidez,
    embriagado = embriaguez.
  • Se a palavra primitiva for substantivo, é a hora e a vez do s:
    Portugal = português,
    corte = cortês,
    monte = montês,
    economia = economês,
    campo = camponês.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Inadequação vocabular ‒ 9

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 30 out° 2018

Por mais sórdidos que tenham sido, os crimes cometidos pelo indivíduo não têm o poder de cassar-lhe o diploma. Enfermeiro era, enfermeiro é e enfermeiro será. Não há meio de anular a formação profissional recebida pelo criminoso.

Sua licença de exercer será, naturalmente, anulada ‒ se é que já não foi. É bem provável que, ainda que um dia saia da cadeia, nunca mais receba autorização para atuar como enfermeiro. Ainda assim, enfermeiro sempre será. Enfermeiro não é função nem cargo: é profissão. Portanto, o ex- da chamada sobra.

Fatal: emprego

Dad Squarisi (*)

Fatal quer dizer que mata. O acidente mata. É fatal. Veneno mata. É fatal. Queda pode matar. Pode ser fatal.

Muitos dizem “vítima fatal”. Bobeiam. A vítima, coitada, morre. Não mata. Se a pessoa perdeu a vida, diga que ela morreu:

O acidente provocou duas mortes.
No acidente, duas pessoas morreram.
O acidente matou duas pessoas.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Acentuação gráfica

Dad Squarisi (*)

Por que todas as proparoxítonas são acentuadas?

Quando o português usava fraldas, era pra lá de difícil acertar a sílaba tônica dos vocábulos. Rubrica ou rúbrica? Nobel ou Nóbel? Que rolo! As palavras, então, se reuniram em conselho. Discute daqui, briga dali, firmaram este acordo:

Artigo 1°
As terminadas em a, e e o, seguidas ou não de s, são paroxítonas.

Artigo 2°
As terminadas em i e u, seguidas ou não de qualquer consoante, são oxítonas.

Artigo 3°
Quem se opuser ao acordo será punido com acento gráfico.

Conclusão: só se acentuam as palavras rebeldes.

As primeiras a reclamar foram as proparoxítonas. Se aderissem, desapareceriam da língua. É que não sobrou nenhuma vogal para elas. Por isso, todas são acentuadas: rítmico, álibi, satélite.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Inadequação vocabular ‒ 8

José Horta Manzano

E a febre do defender continua. Eta modismo persistente! Já me insurgi, em artigo de três anos atrás, contra o uso abusivo desse verbo. Mas não tem jeito. Defender virou ônibus: sempre cabe mais um.

O uso insistente de um único verbo para expressar situações diferentes é, no fundo, sintoma de pobreza vocabular. O natural de uma língua é enriquecer com o passar do tempo. Novos vocábulos vão-se juntando aos existentes até formar um léxico gigantesco. Estranhamente, a língua brasileira, em lugar de se tornar mais rica, empobrece. Para cada novo vocábulo que entra no circuito, uma dúzia dos antigos sai da boca do povo pra recolher-se na poeira dos dicionários. É pena.

Chamada Estadão 27 ago 2018

Volto a sugerir ao distinto leitor que, caso esteja pra cair na tentação de usar defender no sentido de preconizar, pense em substitui-lo por outro mais sugestivo.

Na chamada do Estadão, ficaria mais elegante dizer, por exemplo, que «Dallagnol propõe não votar em envolvidos…». Essa é apenas uma possibilidade. Há dezenas. Uma lista (não exaustiva) de verbos que podem ‒ nesse caso e com vantagem ‒ substituir defender está aqui:

Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

Cada um deles carrega nuance diferente. Na hora de usar, basta escolher o que melhor convier.

Ah! É bom ter sempre em mente o que doutor Dallagnol “defende”. Votar em corrupto? Só faltava.

A vírgula na guerra dos sexos

Dad Squarisi (*)

Desde que nasceu, a vírgula provoca discussões. Alguns dizem que empregá-la é questão de gosto. A gente põe o sinalzinho onde tem vontade. Outros afirmam que basta ler a frase. Parou pra respirar? Pronto. Taca-lhe a marca da pausa. Aí surge um problema. Como os gagos e os asmáticos se virarão?

Há, também, os exagerados. Esbanjadores, usam todas as vírgulas a que têm direito — as obrigatórias e as facultativas. Não deixam passar uma. Resultado: acabam com o estoque. Mas a controvérsia não fica por aí. Como quem fica parado é poste, a danadinha meteu a colher em temas da modernidade. Entrou na guerra dos sexos. Por causa dela, homens e mulheres se digladiam. O xis da questão: onde pôr a mocinha nesta frase?

*Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura.

Elas acharam a resposta rapidinho:
*Se o homem soubesse o valor que tem a mulher, andaria de quatro à sua procura.

Eles não ficaram atrás. Espertos, mudaram o lugar do sinal. E, claro, puxaram a brasa pra própria sardinha:
*Se o homem soubesse o valor que tem, a mulher andaria de quatro à sua procura.

Resumo da ópera: a língua é um sistema de possibilidades. Quando mais as conhecemos, mais livres ficamos. E, claro, mais poderosos. Na guerra dos sexos, homens e mulheres usaram a vírgula a favor da própria causa. Eles empataram. Nós ganhamos.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Erros que roubam pontos

Dad Squarisi (*)

A lista não tem fim. São tropeços que atropelam redações, entrevistas e diálogos amorosos. É o caso da poetisa que ganhou importante prêmio literário. Os amigos decidiram homenageá-la com um jantar de adesão no restaurante que a artista mais apreciava. Quando ela soube, contou ao namorado. “Eu adero”, respondeu ele entusiasmado. Pra quê? Jogou água fria na paixão. O amor acabou ali.

Ele se esqueceu de pormenor pra lá de importante. Aderir joga no time de preferir. Um e outro se conjugam do mesmo jeitinho: eu prefiro (adiro), ele prefere (adere), nós preferimos (aderimos), eles preferem (aderem). Outras falhas desempenham papel similar. Eis algumas. Xô! Xô! Xô!

Ladrões de pontos

houveram – no sentido de existir ou ocorrer, o verbo é impessoal. Só se conjuga na 3ª pessoa do singular: Houve distúrbios. Houve três acidentes.

intermedia – intermediar se conjuga como odiar: odeio (intermedeio), odeia (intermedeia), odiamos (intermediamos), odeiam (intermdeiam).

interviu – intervir deriva de vir: ele veio, ele interveio.

irá dizer – a indicação do porvir pode ser feita de duas formas. Uma: o futuro simples (dirá). A outra: o futuro composto (vai dizer). Assim — com o verbo ir no presente. Nunca no futuro.

manter o mesmo – manter só pode ser o mesmo. Se não é o mesmo, escolha outro verbo. Que tal trocar? Ou mudar?

medio – mediar se conjuga como odiar: odeio (medeio), odeia (medeia), odiamos (mediamos), odeiam (medeiam).

meio-dia e meio – a concordância nota 10 é meio-dia e meia (hora).

Nóbel – Nobel é oxítona como Mabel, papel, cruel.

obrigado – ele diz obrigado; ela, obrigada; eles, obrigados; elas, obrigadas. Todos respondem por nada.

o óculos – óculos, como férias e pêsames, é substantivo plural: os óculos, óculos escuros, meus óculos.

panorama geral – todo panorama é geral. Basta panorama.

passeiamos — não presenteie formas dos verbos terminados em -ear com o i: passear, frear, cear & cia. têm um capricho. O nós e o vós dos presentes do indicativo e subjuntivo dispensam o izinho que aparece nas demais pessoas. Dê-lhes crédito: eu passeio, (freio, ceio) ele passeia (freia, ceia), nós passeamos (freamos,ceamos), vós passeais (freais, ceais) eles passeiam (freiam, ceiam).

pequeno detalhe – todo detalhe é pequeno. Basta detalhe.

plano para o futuro – todo plano é para o futuro. Basta plano.

pôrcos – nomes em que o o soa fechado no masculino e aberto no feminino o plural opta pelo salto alto e batom. Segue o feminino: porco, porca, porcos, porcas; porto, porta, portos, portas, torto, torta, tortos, tortas. Exceções? Elas confirmam a regra. É o caso de canhoto e canhota. No masculino, o som é fechado. No feminino, aberto. O masculino plural não segue o feminino. É canhotos, com o o fechado.

possue – não confunda a terminação dos verbos terminados em -uir: a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo termina com i — ele possui, ele contribui, ele retribui, ele diminui, ele atribui (não: possue, contribue & cia. indesejada).

pobrema — não troque sons: problema (não: probrema), estupro (não: estrupo), mendigo (não: mendingo), encapuzado (não: encapuçado).

récorde – recorde se pronuncia como concorde. A sílaba tônica é cor.

rúbrica – rubrica é paroxítona como futrica. A sílaba fortona: bri.

rúim – a palavra é dissílaba – ru-im. A sílaba tônica: im.

se eu caber, se eu deter, se eu pôr, se eu trazer, se eu ver – olho no futuro do subjuntivo: se eu couber, detiver, puser, trouxer, vir.

seje – a forma é seja.

subzídio – pronuncie o s como em subsolo.

vítima fatal – fatal significa que mata. A vítima não mata. Morre. Diga morto.

vou estar mandando & similares – vou mandar.

Ufa!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

15 dúvidas e 15 respostas

Dad Squarisi (*)

Depende
O filho puxou o pai? Puxou ao pai?
Puxar alguém é atrair para si, mover:

Puxou o filho antes da passagem do trem.
Puxou-o com delicadeza.

Puxar a alguém é parecer-se, ter semelhança com:

O filho puxou ao pai; a filha, à mãe.

Os dois
Esporte e desporto convivem em harmonia:

Rafa e João são esportistas.
Rafa e João são desportistas.

Professor de Deus
Quem tem mania de grandeza é megalômano. Ou megalomaníaco. O dicionário abona as duas palavras. A segunda é mais usada. Melhor.

Limite
Bênção ou benção? Tanto faz. Mas o plural muda. De bênção é bênçãos. De benção, benções.

Alô!
Atender o telefone? Atender ao telefone? As duas regências cumprem a função de dizer alô:

Atendi o telefone.
Atendi ao telefone.

Com ou sem s?
O dicionário registra Olimpíada e Olimpíadas com o mesmo significado. Com qual delas você fica?

Sem questionamentos
Caixa dois ou caixa 2 – a língua dá nota 10 para as duas. Não está nem aí pra Justiça.

Escurão
Apagão e blecaute fazem estragos. Apagam a luz, descongelam o freezer e deixam os noveleiros a ver navios. Valha-nos, Deus!

Sãos e salvos
Aterrissar e aterrizar dão alegria aos que tremem só de pensar em avião. Os dois verbos significam pousar em terra.

Dois times
Que dia é hoje? Há duas respostas.

Uma: Hoje são 5 de julho.
A outra: Hoje é (dia) 5 de julho.

A maioria dos gramáticos prefere tratar os dias como as horas: São 14h. São 14 de outubro. Olho vivo, moçada! Preferir não é impor.

Sem diferença
Ter de estudar? Ter que estudar? Modernamente as duas formas são sinônimas:

Tenho de sair às 2h.
Tenho que sair às 2h.

Ah!
Saudade ou saudades. Ciúme ou ciúmes. Sentimento dispensa o plural. Mas, se usar o s, tudo bem. A língua não liga. O incomodado que reclame.

Acertar ou acertar
Cota na universidade? Ou quota? Tanto faz. Errar é impossível.

Decida
Alcoólatra e alcoólico são sinônimos. Alcoólico é preferível por ser politicamente correto.

Mesma equipe
O personagem ou a personagem? Não faz diferença: o personagem Emília, a personagem Emília; o personagem Pedrinho, a personagem Pedrinho.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Extorquir: regência

Dad Squarisi (*)

Extorquir não é lá coisa boa. Significa obter por violência, ameaças ou ardis. O verbo tem uma manha. Seu objeto direto tem de ser coisa. Nunca pessoa. Extorque-se alguma coisa. Não alguém.

Fiscais extorquiram dinheiro de comerciante.
A polícia tentou extorquir o segredo.
Extorquiram a fórmula ao cientista.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Polô Coelô

José Horta Manzano

Meio distraído, estava outro dia ouvindo a rádio francesa quando o locutor informou que o novo livro de Polô Coelô já estava nas livrarias. Levei um instante tentando identificar esse autor cujo nome não encontrava eco no meu disco rígido. Logo caiu a ficha: era Paulo Coelho pronunciado à francesa.

O anúncio me trouxe à memória um artigo que tinha lido muitos anos antes. Era uma avaliação do romance O Alquimista sob o ângulo gramatical. O escrito expõe impressionante quantidade de erros, fato surpreendente na obra de escritor tão afamado.

O artigo, publicado anos atrás, é uma aula de gramática portuguesa. Vale a pena conferir. Quanto a Monsieur Coelô, hoje um homem rico, espero que, de lá pra cá, tenha contratado um bom revisor. Aqui está a crítica gramatical.

As “pérolas” de Paulo Coelho

J. Milton Gonçalves (*)

A presente crítica mostra as duas faces de Paulo Coelho: escritor de imaginação fértil, mas que se revela medíocre no manejo da linguagem escorreita.

A apreciação minuciosa do livro O Alquimista (do referido autor) não deve ser tomada como uma ofensa de caráter pessoal; o intuito é mostrar – principalmente aos leitores jovens e aos jornalistas – que nossa língua tem normas e regras que precisam ser obedecidas (sem as quais – quer queiram quer não queiram alguns – nossos objetivos jamais serão alcançados), pois, como observa o gramático Sacconi, “não há profissional sério que não sinta a necessidade de utilizar a norma culta; não há profissional respeitado que não tenha suficientes razões para conhecê-la”.

O escritor Paulo Coelho, que diz já ter encontrado sua pedra filosofal, precisa urgentemente encontrar uma boa gramática, um bom dicionário, e, se preferir – é claro! –, uma pitada de mundrunga para resolver sua deficiência vernácula.

Numa entrevista à revista Playboy, o rei dos best-sellers disse que consegue separar nuvens com a força da mente, parar o tempo, fazer chover e até ficar invisível (entre outras coisas fantasmagóricas). Se nosso mago literário tem tantos poderes assim, bem que poderia invocar os espíritos dos grandes escritores brasileiros para expressar suas idéias, sem maltratar tanto o nosso idioma.

Encontram-se, aqui, apenas algumas das “pérolas” extraídas do seu famoso livro publicado pela Editora Rocco, edição de número 159. É isto mesmo: centésima quinquagésima nona edição. Sinto um extraordinário dó pelos leitores da primeira edição.

1. “Lembrou-se da espada — foi um preço caro contemplá-la um pouco, mas também nunca tinha visto algo igual antes.” (Pág. 71)

Preço caro é erro indecoroso. Caro já significa de preço elevado. O correto é dizer que o produto está caro ou o preço está alto, exagerado, excessivo (o que não é nenhuma novidade hoje em dia).

2. “Haviam certas ovelhas, porém, que demoravam um pouco para levantar.” (Pág. 22)

Não há registro, em nossa literatura, de nenhum outro escritor que tenha empregado haver no plural, com o sentido de existir. Não se pode atribuir a culpa ao revisor, uma vez que esse modelo de concordância aparece mais de dez vezes em todo o livro.

Demorar, no sentido de tardar, custar, usa-se com a, e não com para: Demorou a retornar à casa dos pais.

Levantar é sinônimo de erguer; levantar-se é que significa pôr-se de pé.

3. “ dois dias atrás você disse que eu nunca tive sonhos de viajar.” (Pág. 86)

A impressão que fica é que PC adora brincar de escrever português. Qualquer pessoa com dois dedinhos de leitura descontraída sabe que e atrás não combinam.

“Há dois dias atrás” é expressão redundante, pois a idéia de passado já está contida no verbo haver, sendo desnecessário o uso do advérbio atrás. Só um cego não vê que os dois termos estão brigando. A excrescência também ocorre nas páginas 103, 133, 161, 210, 242…

4. “O teto tinha despencado muito tempo, e um enorme sicômoro havia crescido no local que antes abrigava a sacristia.” (Pág. 21)

“Fazia aquilo anos, e já sabia o horário de cada pessoa.” (Pág. 76)

Definitivamente o verbo haver é uma enorme pedra no sapato do nosso alquimista. Quando o verbo haver é usado com outro no tempo imperfeito (ou mais-que-perfeito), emprega-se havia, e não : “Quando você chegou, eu já estava na sala havia cinco minutos”. (Arnaldo Niskier)

O mesmo erro encontra-se ainda nas páginas 22, 83, 133, e 157…

5. “Em 1973, já desesperado com a ausência de progresso, cometi uma suprema irresponsabilidade. Nesta época eu era contratado pela Secretaria de Educação de Mato Grosso…” (Pág. 8)

Nesta época refere-se ao período em que o escritor estava escrevendo, e não a 1973. Nessa é que se usa com referência a tempo passado ou futuro. Naquela seria outra opção ajuizada. Os erros se repetem nas páginas 50, 54, 77, 119, 143, 238…

6. “— Então, nas Pirâmides do Egito, — ele falou as três últimas palavras lentamente, para que a velha pudesse entender…”(Pág. 37)

O verbo falar é intransitivo (não pede complemento); o verbo dizer é que se usa transitivamente. Falar só se usa com objeto em expressões como falar verdade, falar inglês, francês etc.

Veja outros casos em que o verbo falar foi usado indevidamente:

“Por isso lhe falei que seu sonho era difícil.” (Pág. 38)

“O velho, entretanto, insistiu. Falou que estava cansado, com sede…” (Pág. 42)

Antes da palavra que, usa-se dizer, e não falar.

7. “E quero que saiba que vou voltar. Eu te amo porque…” (Pág. 189)

Fazer alquimia com as pessoas de tratamento, parece ser a diversão preferida de Paulo Coelho. O próximo exemplo é ainda mais dramático:

“— Eu te amo porque tive um sonho… Eu te amo porque todo o Universo conspirou para que eu chegasse até você.” (Pág. 190)

Sei que é covardia comparar PC com um dos clássicos de nossa literatura. Mas confesso que não resisti à tentação. Compare este trecho de Machado de Assis, extraído de Dom Casmurro: “Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés…”

8. “Por isso costumava às vezes ler… ou comentar sobre as últimas novidades que via nas cidades por onde costumava passar.” (Pág. 22)

Não se diz comentar sobre alguma coisa , mas sim comentar alguma coisa: “Todos comentavam o desastre.” (Aurélio)

Dizer últimas novidades é chover no molhado. Novidade já pressupõe algo novo ou acontecimento recente. Não vou dizer que a expressão às vezes deveria estar entre virgulas, para não me tacharem de ranzinza. Veja outros deslizes semelhantes:

“O pastor contou dos campos de Andaluzia, das últimas novidades que viu nas cidades onde visitara.” (Pág.24)

“A gente sempre acaba fazendo amigos novos, e não precisa ficar com eles dia após dia.” Pág. 40)

“O alquimista enfiou a mão dentro do buraco, e depois enfiou o braço até o ombro.” (Pág. 184)

Últimas novidades… fazer amigos novos… enfiar dentro… Por que será que os alquimistas gostam de fazer isso com a gente? Por quê?!

9. “Todos os dias o rapaz ia para o poço esperar Fátima.” (Pág. 157)

A preposição a indica deslocamento rápido, provisório; para, permanência definitiva: Quem vai à praia vai passear; quem vai para o litoral vai morar lá.

10. “Entretanto, à medida em que o tempo vai passando, …”(Pág. 47)

Não existe a expressão à medida em que, mas sim à medida que.

11. “O rapaz deu uma desculpa qualquer para não responder aquela pergunta.”(Pág. 25)

“Então ele sentiu uma imensa vontade de ir até lá, para ver se o silêncio conseguia responder suas perguntas.” (Pág. 161)

Quem responde responde a alguma coisa: (responder àquela pergunta, responder a suas (ou às suas) perguntas)

12. “O rapaz assistiu aquilo tudo fascinado.” (Pág. 207)

O verbo assistir no sentido de observar exige a preposição a. A expressão àquilo tudo equivale a a tudo aquilo.

13. “Mas tinha a espada em sua mão.” (Pág. 175)

“…Um cavaleiro todo vestido de negro, com um falcão em seu ombro esquerdo.” (Pág. 173)

Não se emprega o possessivo quando se trata de parte do corpo, qualidade do espírito ou peças do vestuário. Nesse caso, usa-se apenas o artigo: (na mão, no ombro).

14. “A menina ficava deslumbrada quando ele começava a lhe explicar que as ovelhas devem ser tosquiadas de trás para frente.” (Pág. 41)

“— Daqui para frente você vai sozinho — disse o Alquimista.” (Pág. 229)

A expressão correta é para a frente (sempre com a presença do artigo). Qualquer gramática elementar registra isso.

15. “Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa…” (Pág. 58)

Ao invés do aço ou da bala de fuzil, ele foi enforcado numa tamareira também morta.” (Pág. 178)

A locução ao invés de só se usa quando há idéias opostas; significa ao contrário de: Ao invés de atacar, o time só joga na retranca. Quando as alternativas não são contrárias, utiliza-se em vez de, que quer dizer em lugar de: Em vez de jogar com dois atacantes, o time jogou apenas com um.

16. “Tinham-se passado onze meses e nove dias desde que ele havia pisado no continente africano.” (Pág. 95)

O verbo pisar é transitivo direto; rejeita, pois, a preposição em. (Corrija-se para: …havia pisado o continente) “O chão estava coberto com os mais belos tapetes que já havia pisado, e do teto pendiam lustres de metal amarelo trabalhado, coberto de velas acessas.” (Pág. 167)

Aqui o verbo pisar foi empregado corretamente. O exemplo só perde o brilho devido ao erro que aparece na última palavra. É culpa do revisor.

17. “Quase ia falando do tesouro, mas resolveu ficar calado. Senão era bem capaz do árabe querer uma parte…” (Pág. 65)

Na linguagem escorreita não se usa capaz por provável (nem possível), fato comum na comunicação descontraída, em portas de botequins: (…era bem provável que o árabe quisesse).

18. “A África ficava a apenas algumas horas da Tarifa.” (Pág. 43)

“Ah, se eles soubessem que a apenas duas horas de barco existem tantas coisas diferentes.” (Pág. 71)

“Estamos há apenas duas horas da Espanha.” (Pág. 65)

O advérbio apenas não deve ficar entre a preposição e o termo regido. Corrija-se para apenas a.

Não se deve dizer da Tarifa, como está no primeiro exemplo, e sim de Tarifa. Com exceção de Cairo, Rio de Janeiro e Porto, nomes de cidade não exigem artigo.

A presença da palavra exercendo o papel de preposição, no terceiro exemplo, é um pecado inominável. Não é coisa de gente sóbria.

Desculpe-me de minha franqueza, meu prezado alquimista, mas quem redige dessa maneira não deve ter a menor consideração para com seus leitores.

19. “Já não havia mais a esperança e a aventura…” (Pág. 79)

O uso simultâneo de e mais constitui redundância. Elimine um dos dois termos, e a oração ficará irrepreensível.

“Se a gente não for como elas esperam ficar, chateadas.” (Pág. 40)

Tarefa ingrata é tentar descobrir o sentido dessa frase. Cabeça de mago e bumbum de criança sempre têm coisas estranhas, muito estranhas…

20. “‘O pipoqueiro’, disse para si mesmo, sem completar a frase.” (Pág. 55)

Ora, se a frase não foi concluída, então a expressão deve terminar com reticências. Pois a função dos três pontos é exatamente indicar a omissão intencional de uma coisa que se devia ou podia dizer:

Correção: “O pipoqueiro…”

21. “Depois de vencidos os obstáculos, ele voltava de novo…” (Pág.113)

Obstáculos não se vencem; superam-se. Os desafios é que são vencidos.

22. “E que tanto os pastores, como os marinheiros, como os caixeiro-viajantes, sempre conheciam…” (Pág. 26)

Nas palavras compostas por substantivo + adjetivo, flexionam- se os dois elementos.

23. “Assim que sentaram na única mesa existente, o Mercador de Cristais sorriu.” (Pág. 78)

Sentar na mesa deve ser muito engraçado mesmo. Os alquimistas, assim como os políticos, talvez tenham por hábito sentar na mesa; pessoas normais, contudo, sentam-se à mesa.

24. “Naquela época não havia imprensa… Não havia jeito de todo mundo tomar conheci-mento da Alquimia.” (Pág. 133)

Devemos empregar todo o e toda a quando essas expressões equivalerem a o …inteiro e a …inteira: Não havia jeito de o mundo inteiro tomar conhecimento da Alquimia. Todo e toda (sem o artigo) significa qualquer. Toda gramática ensina isso.

25. “A visão logo sumiu, mas aquilo lhe deixou sobressaltado.” (Pág. 162)

Segundo mestre Aurélio, o verbo deixar no sentido de “fazer que fique (em certo estado ou condição); tornar é transitivo direto: Deixei-o alegre; A transação deixou-o rico”.

Na página 167, PC escreveu com rara sobriedade: “O que viu deixou-o extasiado”.

26. “Para quê tanto dinheiro?” (Pág. 203)

O acento só se justificaria se o que estivesse no final da frase: “Tanto dinheiro para quê?”.

27. “Mas de repente a vida me deu dinheiro suficiente, e eu tenho todo o tempo que preciso.” (Pág. 100)

Na linguagem apurada, o verbo precisar não abre mão da preposição de: (todo o tempo de que preciso), a menos que ele venha antes de infinitivo.

Sem querer me parecer ranheta, acho que “de repente” ficaria bem entre vírgulas. É só uma questão de estilo…

28. “As pessoas preferem casar suas filhas com pipoqueiros do que com pastores.” (Pág. 49)

O correto é preferir uma coisa a outra, e nunca do que outra. (Corrija-se para: …pipoqueiros a casá-las com pastores.)

29. “Então os guerreiros viviam apenas o presente… e eles tinham que prestar atenção em muitas coisas.” (Pág. 164)

“No presente é que está o segredo; se você prestar atenção no presente, poderá melhorá-lo.” (Pág. 166)

Presta-se atenção a alguém ou a alguma coisa, e não em.

30. “Ninguém disse qualquer palavra enquanto o velho falava.” (Pág. 170)

“O camelos são traiçoeiros: andam milhares de passos, e não dão qualquer sinal de cansaço.” (Pág. 181)

Qualquer se usa nas orações declarativas afirmativas; nas negativas, usam-se nenhum e suas variações: “Veio duma cidade qualquer, sua vida não foi boa nem má; foi como a dos homens comuns, a dos que não fizeram nenhum destino…” (Cecília Meireles)

31. “A velha pediu para que ele repetisse o juramento olhando para a imagem do Sagrado Coração de Jesus.” (38) (Correção: …pediu que ele…)

“…Pediu para lhe mostrar onde morava Fátima.” (Pág. 189) (Correção: Pediu que lhe mostrasse…)

Seguindo a gramática à risca, pedir para só se usa para solicitar licença, permissão ou autorização. Nos demais casos, usa-se pedir que: “Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro”. (Machado de Assis) / Pedira delicadamente que não se deixasse exposto à vista nada de valor”. (Carlos Drumond de Andrade).

32. “— Podemos chegar amanhã nas Pirâmides…” (Pág. 66)

“O rapaz se aproximou de uma mulher que havia chegado no poço…” (Pág. 150)

“Chegou na pequena igreja… quando já estava quase anoitecendo.” (Pág. 245)

Chegar em um lugar é regência dominante na fala brasileira e é encontradiça em alguns escritores medíocres ou sem muita expressão no meio literário, salvo raríssimas exceções.

Verbos de movimento exigem a, e não em: Chega-se sempre, e bem, a algum lugar. O único caso em que se pode empregar em com chegar é na referência a tempo: chegar em cima da hora.

É muito comum a expressão chegar em casa. Os escritores de boa nota, contudo, preferem chegar a casa: “Ao chegar a casa, Tavares encontrou a irmã preocupada“. (Dias Gomes)

33. “— Por que quis me ver? — disse o rapaz.” (Pág. 180)

“— E por que o deserto ia contar isto a um estranho, quando sabe que estamos há várias gerações aqui? — disse outro chefe tribal.” (Pág. 168)

Quando há uma pergunta, no discurso direto, o sensato é empregar um destes verbos: indagar, perguntar, interrogar…

34. “Mas as crianças sempre conseguem mexer com os animais sem que eles se assustem. Não sei porquê.” (Pág. 36) (Correção: Não sei por quê.)

“E por que ?” (Pág. 56) (Correção: E por quê?)

“Até que um deles, o mais velho (e o mais temido), perguntou porque o cameleiro estava tão interessado em saber o futuro.” (Pág. 165) (Correção: …por que o cameleiro…)

“Não pergunte porquê; não sei.” (Pág. 209) (Correção: Não pergunte por quê;…)

Entre muitas outras coisas, Paulo Coelho também não domina o uso dos porquês.

Veja como mestre Salomão Serebrenick elucida o caso sem magia nem bruxaria, no seu fabuloso livro 70 Segredos da Língua Portuguesa:

“A melhor norma prática a seguir é esta: só juntar os dois elementos num único caso — quando se tratar de uma resposta ou de uma explicação; nos demais casos, que constituem a grande maioria, separar os dois elementos.

Em final de frase, acentua-se o e: Já sei por quê. Também se acentua quando se trata de substantivo: É bom conhecer o porquê das coisas.

35. “Eu lhe ensinarei como conseguir o tesouro escondido. Boa tarde.” (Pág. 51)

O verbo ensinar merece atenção muito especial. Quando se ensina algo a alguém, temos: O professor ensinou-lhe a lição. Quando se ensina alguém a fazer algo, temos: O professor ensinou-o a ler e escrever.

No segundo caso, temos um erro quase que insignificante. Mas não nos esqueçamos de que a língua é feita de detalhes: os cumprimentos bom-dia, boa-tarde e boa-noite só se constroem com hifem. É uma pena que certos alquimistas não estejam preocupados com essas coisas miúdas: o negócio deles é encontrar a pedra filosofal. Aposto que nem querem saber se hifem é variante de hífen. O vernáculo para eles está em último plano.

36. “Mas o comerciante finalmente chegou e mandou que ele tosquiasse quatro ovelhas.” (Pág. 25)

O verbo mandar na acepção de ordenar rege o pronome oblíquo o. No entanto, se o infinitivo for um verbo transitivo, como no caso em questão, é admissível também o pronome lhe. Segundo Celso Luft, também é correto construir: mandou-o (ou mandou-lhe) que tosquiasse as quatro ovelhas. Assim, PC teria quatro motivos para não pecar:

a) …mandou-o que tosquiasse…
b) …mandou-lhe que tosquiasse…
c) …mandou-o tosquiar…
d) …mandou-lhe tosquiar…

Todos sabemos que consultar um dicionário de regência verbal não é tão divertido quanto separar nuvens com a força da mente (ou fechar os olhos e viajar pelos campos de Andaluzia…), mas aprendem-se coisas insuspeitas.

O enredo do livro O Alquimista é interessante. Isso nos faz entender por que Paulo Coelho é um dos dez escritores mais lidos em todo o mundo. Li a versão em inglês, e fiquei encantado. Com certeza, ele faz jus a todos os prêmios que tem recebido até aqui. Mas uma coisa precisa ficar bem clara: enquanto Paulo Coelho não permitir que suas obras sejam revisadas por pessoas competentes, jamais será reconhecido, no Brasil, como um grande escritor, porque definitivamente nosso mago vendedor de livros não conhece o idioma em que se exprime.

E digo mais: se continuar atropelando nossa tão maltratada língua, sempre haverá alguém com motivo de sobra para escrever frases como esta: “Podia haver prêmios literários conferidos a escritores para que não escrevessem.” (Afonso Lopes Vieira, Nova Demanda do Gral, pág. 319)

(*) J. Milton Gonçalves é escritor graduado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Pres. Venceslau (SP), com especialização em Metodologia do Ensino Superior e em Linguística Aplicada (PUC/SP). Hoje é diretor de duas escolas de idiomas e presta serviços de consultoria bilíngue e de revisão linguística a várias editoras do país.

Nota deste blogueiro
Desde 2002, Monsieur Polô Coelô é membro da Academia Brasileira de Letras — um verdadeiro imortal.

Silepse de gênero

Dad Squarisi (*)

Silepse vem lá do grego. Significa compreensão. A concordância não se faz com o termo que está escrito, mas com outro, oculto, subentendido. Na língua, há muitos casos de silepse. Quer ver?

Santos é palavra masculina, não? Dizemos, normalmente, os santos. Mas, quando nos referimos à cidade, apelamos para a concordância com a ideia, não com o nome: Santos foi alagada na última enchente.

Percebe? Subentende-se o substantivo cidade: (A cidade de) Santos foi alagada.

Meandros do Rio Paraíba do Sul

Há mais. Paraíba é feminino. Até a música popular confirma-lhe o sexo: “Paraíba masculina, mulher macho sim, senhor”. Mas, ao nos referirmos ao rio, lá vem a silepse: O (rio) Paraíba é caudaloso.

Os pronomes de tratamento são os campeoníssimos da concordância ideológica. Excelência, majestade, senhoria, santidade são femininas. Mas os nomes que se referem a elas têm que ser flexíveis. Concordam com o sexo da pessoa (ai deles se não o fizessem): Vossa Excelência, senhor Presidente, é orador nato. Vossa Excelência, senhora senadora, é oradora nata.

Deixemos de cerimônia. A língua simples do povo está cheia de concordâncias ocultas. “Ele é um banana? Não, um besta”. Quantas vezes você ouviu essas gentilezas? Pois acredite: são silepses.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Escrita pedregosa ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 16 dez° 2017

Escritor, dramaturgo e poeta, o professor Ariano Suassuna não apreciaria nem um pouco a chamada que o estagiário ousou no Estadão online.

«Livro que Suassuna iniciou a escrita»? Definitivamente, não.

Mais adequado será dizer:

Livro com que Suassuna iniciou a escrita (…)

ou

Livro com o qual Suassuna iniciou a escrita (…)

Vale também fazer um esforço de imaginação e torcer a frase. Por exemplo:

Livro que lançou Suassuna

ou

Livro com que Suassuna deu início à obra.

Pra ir até o fim

O uso da preposição durante não cai bem na chamada. Durante exprime um tempo determinado, com começo, meio e fim. Por exemplo:

Leu durante a viagem. (= Enquanto durou a viagem, leu. Subentende-se que, terminada a viagem, parou de ler.)

Recebeu muitas visitas durante a convalescença. (= Enquanto durou a recuperação, recebeu muitas visitas. Fica implícito que, terminada a convalescença, as visitas cessaram.)

Dizer que «Suassuna iniciou a escrita durante os anos 1980» é afirmação desconcertante. Pode até levar a pensar que, finda a década, o autor abandonou a escrita.

Melhor mesmo será dizer que «Suassuna iniciou a escrita nos anos 1980». A sentença perderá ambiguidade e ganhará clareza.

Família rapidinha: abreviaturas

Dad Squarisi (*)

Se o falante tem ânsia de brevidade, a língua não o deixa na mão. Colabora. Por isso, inventou a abreviatura. Reduz um palavrão a poucas letras. Doutor vira dr.; Apartamento, ap.; Quilômetro, km. Mas a ajuda tem preço. São as regras para usar as pequeninas. A mais importante: ter pena do leitor. A redução precisa ser familiar, facilmente entendida.

Não só. As abreviaturas formadas pela diminuição de palavras têm três manhas.

●   Uma: exigem o ponto final.

●   A outra: não abrem mão do s do plural.

●   A última, igualmente importante: mantêm o acento original.

Exemplos:
capítulo (caps.),
companhias (cias.),
páginas (págs.),
século (séc.),
código (cód.).

Tal como na vida, na língua há os privilegiados perante a abreviatura. É o caso do símbolo de hora, minuto, segundo, metro, quilo, litro e respectivos derivados (quilômetro, mililitro). Eles são sem-sem – sem o ponto abreviativo e sem o s indicador de plural: 5h30; 3h30min14; 4,5m; 20kg; 10ml.

Pragas aparecem de vez em quando. A mais recente atingiu a nobre figura do professor. Os manuais dizem que a abreviatura do mestre é prof. Mas, por alguma razão alheia à vontade de Deus e dos homens, começaram a brindá-lo com um ozinho (profº). O intruso aparece até em cartazes de faculdade. É a receita do cruz-credo.

A língua detesta redundância. O masculino não precisa do o. O feminino, sim, pede a. O plural, s. Compare: professor (prof.), professores (profs.), doutor (dr.), doutores (drs.), professora (profª), doutora (dra.), professoras ( profªs), doutoras (dras.).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

O verbo complacente

Dad Squarisi (*)

É ou são? Cuidado. Trata-se do verbo ser. Com ele, ligue as antenas. O verbinho é complacente. Ora aceita uma forma, ora outra. Ora as duas. Especial, recebe tratamento diferenciado. Na concordância, a gramática reserva-lhe capítulo à parte. Hoje é 20 de agosto? Ou são 20 de agosto? Cem reais é muito? Ou são muito? É quase duas horas? Ou são quase duas horas? Dúvidas. Muitas dúvidas.

JOGO DUPLO
O verbo ser tem a cintura mais flexível do português. Nunca toma posição firme. Ora acha o sujeito simpático. Vai pro lado dele. Ora o predicativo o atrai mais. Eterno infiel, passa para o lado de lá.

• Tudo é flores ou tudo são flores?

O verbo olha para as flores. Acha-as simpáticas, coloridas e cheirosas. Decide: Tudo são flores.

Em outras horas, lembra-se do que aprendeu na escola (o verbo concorda com o sujeito). Muda de lado: Tudo é flores. Qual a forma correta? Ambas. Com o ser, quase sempre as duas construções estão certas. Há apenas três casos em que ele é durão, inflexível.

UM
É uma hora. São três horas. Na indicação de horas, o verbo só tem olhos para o predicativo. Concorda com o número que diz as horas:

•  É meio-dia e meia. Seria uma hora da tarde. Eram umas 11 horas da noite.

Cuidado. Às vezes o número é antecedido por expressões que indicam aproximações. Não se confunda. O verbo continua o mesmo: Seriam quase duas horas quando ele chegou. São cerca de seis horas de voo. Eram mais ou menos três horas quando o presidente fez o anúncio.

DOIS
Um é pouco, dois é bom, três é demais.

Deu-se conta? As expressões de quantidade, medida, peso, valor, tempo — como é muito, é pouco, é suficiente, é caro, é barato — são invariáveis. Pretensiosas, não ligam para o sujeito. Com elas, só o singular. Veja exemplos:

•  Dois mil reais é muito. Vinte quilos é suficiente. Dois minutos é muito tempo para quem está com dor de dente. Vinte reais é menos do que o produto vale.

TRÊS
Eu é que digo. Nós é que sabemos. A expressão é que recebe o nome de expletiva. Significa que pode cair fora. Mantém-se invariável:

•  As rosas (é que) são belas. Nós (é que) somos patriotas.

É isso.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Anexo? Em anexo?

Dad Squarisi (*)

Eis o drama de quem escreve ofícios, memorandos e requerimentos. Volta e meia, precisa empregar em anexo ou anexo. Cheias de manhas, essas palavrinhas têm mistérios. Ora aparecem flexionadas, ora não. Ora vêm no início da oração, ora perdidas no meio ou no fim. Ora com vírgula, ora sem vírgula. Como lidar com elas?

EM ANEXO
Em anexo é locução adverbial. Equivale a anexamente. Invariável, não tem feminino, masculino, singular ou plural. Apresenta-se sempre com a mesma cara:

•  Em anexo, encaminho os documentos.
•  Em anexo, encaminho a correspondência.

Sempre com vírgula? Não. A vírgula depende da colocação do termo na frase. Em anexo tem o lugar dele. É no fim da oração. Se estiver lá, nada de vírgula:

•  Encaminho os documentos em anexo.

Como criança arteira, em anexo vive mudando de lugar. Ora aparece no começo da oração, ora no meio. Deslocado, vírgula nele:

•  Em anexo, encaminho os documentos solicitados.
•  Encaminho, em anexo, os documentos solicitados.

ANEXO
Anexo é outra história. Adjetivo, flexiona-se. Concorda com o substantivo a que se refere:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Anexas, encaminho as cartas.
•  Anexo, encaminho o ofício.
•  Anexos, encaminho os ofícios.

E a pontuação? Se anexo vem antes do objeto, não duvide. É vez da vírgula:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Encaminho, anexa, a carta.

Na ordem direta, a história muda de enredo. Fica assim:

•  Encaminho a carta anexa.

Reparou? Essa última frase é ambígua. Parece que anexa é qualidade permanente da carta. Na verdade, o recado é este: encaminho a carta que está anexa. A carta não é anexa. Está anexa.

A clareza é a maior qualidade do estilo. Anexa, na ordem direta, compromete-a. Dá duplo sentido à frase. Xô!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.