Como na Guerra Fria

José Horta Manzano

Segredo 5Como eu, o distinto leitor há de ter normal e natural dose de recato. Não nos agrada que conversa particular nossa seja acompanhada por estranhos. Na mesma linha, quando falamos ao telefone, procuramos nos afastar um pouco dos circunstantes. Agimos assim por dois motivos: para não perturbar a tranquilidade de quem não tem nada com isso e também para preservar nossa privacidade.

Tudo isso vale pra gente normal. No andar de cima, as coisas funcionam de modo diferente. À medida que a Operação Lava a Jato começou a mostrar que está aí pra valer, um vento de pânico varreu corredores, apartamentos, escritórios e salas de reunião.

A Folha informa que políticos têm alterado hábitos. Em reuniões, ainda que o ar condicionado esteja funcionando, tiram o paletó. É para mostrar que o celular está afastado. Em certas ocasiões, quando os organizadores são particularmente desconfiados, chega-se a exigir dos participantes que abandonem o telefone antes de adentrar o local. Guardado fora do recinto, o aparelhinho só será devolvido após o término do encontro.

Segredo 6A situação evoca o ambiente que reinava na Europa Oriental nos tempos da Guerra Fria. Numa época em que irmão desconfiava de irmão e filho denunciava pai, calcula-se que, de cada três pessoas, uma era informante do regime. Hotéis, escritórios, apartamentos e locais de reunião estavam atulhados de microfones. Para garantir conversa discreta, era preciso marcar encontro ao ar livre, num parque, num bosque. Uma exposição de arte ou o saguão de um grande hotel podiam servir.

Em princípio, tanto na Guerra Fria como hoje, ninguém se preocupa em esconder conversa caseira, ainda que voem insultos. Desde que o volume de voz não chegue a perturbar o sossego de vizinhos, discute-se à vontade.

Segredo 4Costuma-se dizer que quem não deve não teme. Para evitar dissabores, dissidentes romenos, búlgaros e alemães orientais dos anos 60 tinham de esconder suas opiniões, daí as precauções. Se fossem desmascarados, arriscavam mofar nalguma masmorra.

Se políticos brasileiros de alto coturno recorrem hoje aos métodos de meio século atrás ‒ adaptados aos novos tempos ‒, não será por motivo de desavença política. Nossa Constituição garante a cada cidadão o direito de ter e de exprimir opiniões, desde que não entrem em colisão com a lei.

Se assim agem, é por estar atolados em obscuras transações. A Operação Lava a Jato ainda tem belos dias pela frente.

Meu chalé, minha vida

José Horta Manzano

Você sabia?

«Virtus in medio», diz a máxima latina. A virtude está no meio-termo, longe dos extremos. Para que haja um meio, evidentemente, há que haver extremos. Toda estatística mostra um embolado no centro e uma rarefação nas pontas.

O sonho de todo o mundo é morar em casa própria, certo? Bem… não tenho tanta certeza assim. Não parece ser anseio universal. Estudo realizado na Europa em 2013 pôs em evidência disparidades difíceis de ser explicadas. Veja o quadro abaixo:

Porcentagem de proprietários da própria casa ‒ por país.

Porcentagem de proprietários da própria casa ‒ por país.

O infográfico mostra, para uma vintena de países europeus, a porcentagem da população que mora em casa própria. Como pode o distinto leitor notar, a média de proprietários se situa por volta 60% ‒ 70%. Numa das pontas, estão os países da parte oriental da Europa, com 80% ‒ 95% de donos. Na outra ponta, isolada, está a Suíça. Diferentemente dos vizinhos, dois em cada três suíços moram de aluguel. Como explicar essa multidão de inquilinos?

A constatação da rareza de proprietários na Suíça é surpreendente, sobretudo quando se leva em conta que o país, além de rico, é tradicionalmente igualitário. O preço elevado dos imóveis é verdade indiscutível, mas não é senão parte da explicação.

Uma das justificativas vem do fato de grande parte do parque imobiliário do país pertencer a grandes instituições ‒ bancos, seguradoras, fundos de pensão. Muitas construções novas, encomendadas por essas mesmas entidades, não são vendidas, mas vão diretamente para o mercado de locação.

Chalet 1Outro fator que pesa na balança é o fato de os aluguéis serem rigorosamente enquadrados. Quando sai um inquilino e entra outro, o senhorio não tem direito a aumentar o valor do aluguel. Só poderá fazê-lo se estiver em condições de provar (bem provado) que o imóvel recebeu melhoramentos. Grandes companhias, que têm dinheiro sobrando, se conformam com essa regulamentação. No entanto, as regras rígidas afastam investimento de particulares.

Tem mais uma razão. Aluguel é relativamente barato neste país. O total anual dificilmente ultrapassa 2% ‒ 3% do valor do imóvel.

Por tudo isso, a «casa própria», ideia fixa de tanta gente, não faz parte da lista de pedidos que suíços endereçam a Papai Noel.

Os óculos do Monsieur

José Horta Manzano

Os menos jovens certamente se lembrarão das gravatas Hermès do senhor Collor, aquele que ― é até difícil acreditar ― um dia foi presidente de nosso país. Afortunado desde o berço, o referido cavalheiro não dispensava adereços de luxo, do colarinho ao bico do sapato. A imprensa e o povo achavam graça. Afinal, se ele paga com dinheiro do seu próprio bolso, que mal há?

Por outros motivos, que não convém aqui esmiuçar, o presidente foi impedido de prosseguir no cargo em 1992. Voltou pras Alagoas. Mas o exemplo ficou guardado na gaveta. Seus sucessores imediatos, o deselegante Itamar e o pão-duro FHC, não se interessaram pelo legado do antecessor. Não sobressaíram pelo esmero no vestir. Mais tarde, no entanto, com a chegada ao Planalto do presidente-operário, os costumes ancien régime foram devidamente restabelecidos.

É notório que nosso guia não regateou na hora de escolher seus impecáveis trajes. Importados, de preferência, tinham de ter caimento perfeito. O corpo não ajudando muito, o bom corte compensava. A imprensa e o povo acharam graça, e ficou tudo por isso mesmo.

François Hollande Foto Kenzo Tribouillard, AFP

François Hollande
Foto Kenzo Tribouillard, AFP

No Brasil, a agonia das pequenas indústrias é encarada com indiferença pelo governo central. O que conta mesmo são os grandes números gerados por aquela meia dúzia de grandes exportadores de matéria-prima. São os que melhoram as estatísticas. São os que têm capacidade de despejar no partido doações generosas. O resto é o resto. Que cada um cuide de si.

Exatamente como o Brasil, a França está em processo acelerado de desindustrialização. Badulaques são sistematicamente importados da China. Artigos menos chinfrins vêm de países de mão de obra barata ― Europa Oriental, Marrocos, Tailândia.

Abandonados pelas autoridades, o pequeno e o médio empresário brasileiro têm motivos para inquietação e tristeza. Já na França, o governo central empreende ações para encorajar os cidadãos a darem preferência a produto nacional, ainda que tenham de desembolsar um pouco mais. Até um ministério foi criado especialmente para tentar “endireitar” a situação. «Dê preferência ao made in France» é a palavra de ordem.

Dia destes, o presidente da República, Monsieur Hollande, foi fotografado de óculos novos. Até aí, morreu o Neves. O problema é que um fabricante francês de armação, especialista no assunto, percebeu que os óculos presidenciais não eram franceses, mas dinamarqueses.

Sacrilégio! Em tempos de penúria industrial, um descuido presidencial dessa magnitude é imperdoável. O fabricante nacional dirigiu carta aberta ao presidente, missiva que saiu na mídia do país. Além da carta, o esperto empresário mandou de presente a Monsieur Hollande uma armação legítima, das boas, garantidamente made in France. Argumentou que, na qualidade de vetor da imagem do país no exterior, não ficava bem ao presidente estampar, bem no meio do rosto, um objeto fabricado em terra estrangeira.

As próximas fotos de François Hollande confirmarão se ele assimilou a lição. Ou não.